Para entender exatamente o que foi participar do Exercício Cruzex 2004 os reporteres da Alide foram beber da fonte e perguntaram diretamente pra quem botou a mão na massa. Veja como foi a experiência única de participar no maior exercício simulado da história da América do Sul. Ouvimos ambos os lados, três membros da força de Coalizão e um das Forças Vermelhas. Prepare-se para decolar! 

 

Comodoro Hector Sanchez 

Chefe Interino do Estado-Maior do Comando de Operações Aéreas da FAA- Fuerza Aérea Argentina

ALD: A Marinha do Brasil adquiriu recentemente o A-4KU, um modelo do Skyhawk inferior tecnologicamente ao A-4AR qua a Força Aérea Argentina opera. Este modelo modernizado é melhorando em muito as características do A-4, em função disso gostaríamos de saber como está o desempenho dele aqui na Cruzex. O senhor está satisfeito com as atividades que couberam à FAA?

CHS: Contar com a tecnologia do A-4AR nos ajuda muitíssimo nas atividades que temos de desempenhar. Tanto pelo nosso pais quanto pela Coalizão.

Este avião tem capacidade de desempenhar ataques ar ar e ar terra, navegação com precisão e lançamento de armamentos com mui alta precisão.

A aeronave foi preparada para desempenhar varias tarefas

Como avião de ataque ao solo, como defesa aérea, não so para ataque como para defensa aérea, tudo isso graças à nova tecnologia, aumentou a autonomia, devido ao sistema OBOGS não precisamos mais de recargas de oxigênio, realiza REVO e é totalmente autonomo em termos de navegação aérea.

ALD: Existe alguma previsão para o uso de NVG pelo piloto?

CHS: Uma aeronave deve ser encarada como se fosse um computador. Tem sempre que ser atualizada. Em casa você não atualiza o seu computador? Então aqui é igual. A toda hora surgem novas possibilidades de se atualizar o A-4.

ALD: Fazendo uma comparação com as outras aeronaves que estão aqui, como está o desempenho do A-4AR?

CHS: Ele é muito importante para alcançar os objetivos da coalizão. Eu dou sempre um exemplo. A Europa possui uma comunidade econômica criada a partir de uma organização militar chamada OTAN ou NATO. Aqui nós temos o Mercosul que ainda esta se formando. Creio que a idéia dos comandantes das Forças Aéreas dos paises integrantes do Mercosul é de se integrar em uma coalizão, para ter algo similar ao que se tem na Europa como a OTAN.

Mais importante do que o avião que cada um tem, seja o Mirage, o A-4 , o F-16, o mais difícil e complicado é saber falar o mesmo idioma e compartilhar a mesma doutrina. Isto é difícil demais. Por isso é muito importante a participação nestes exercícios para podermos integrar nossos paises também no plano militar. Por isso temos que valorizar muito iniciativas como estas. Os paises investem muito dinheiro para preparar estes exercícios, com o objetivo de integrar nossos paises.

 

ALD: Houve alguma dificuldade de fonia? 

CHS: Afortunadamente não, pelo fato da França ser da OTAN e estar participando da Cruzex, estamos usando a mesma doutrina e com isso estamos evoluindo rapidamente para poder entender e trabalhar juntos. E Brasil e Argentina enviam oficiais para a França para poder se familiarizar com a doutrina da OTAN.

ALD: Para que tipo de missão os A-4AR sairam no dia de hoje ?

CHS: Hoje eles saíram e nosso líder foi como Mission Commander de uma missão especifica de ataque ar-terra. Foi uma experiência nova para nosso piloto, pois ele, como Mission Commander tinha todo o controle do pacote da missão com todos os outros aviões sob seu comando.

ALD: Que tipo de míssil foi simulado?

CHS: Não se simula armamento. Este exercício é sem armamento. Se utilizou bombas pois os ataques eram ar/terra. Mesmo ar-ar é difícil simular.

ALD: Todos os aviões possuem uma câmera que grava todas as imagens do ataque? 

CHS: Sim, grava todo o vôo.

ALD: Houve alguma dificuldade para manutenção dos A-4 por causa da temperatura de Natal?

No norte da Argentina a temperatura é similar a essa. Tudo OK.

ALD: Existe alguma restrição para o senhor comparar as diferenças que existem entre pilotar o A-4B/C que a Argentina usou na guerra das malvinas e o A-4AR de hoje?

CHS: Na forma de voar não há diferença. De resto é um outro avião. Tem um motor mais forte, com tecnologia e aviônica mais moderna.

ALD: Existe algum estudo para aquisição de outra aeronave supersônica para fazer par com o A-4AR?

CHS: Não estou a par dos estudos para isso.

ALD: A Argentina trouxe para Natal um C-130 REVO e gostaríamos de saber quantos REVOS foram feitos da sua base em Villa Reynolds até Natal?

CHS: Apenas um, sobre Belo Horizonte.

 

ALD: O Senhor poderia nos contar algo sobre a experiência da Guerra das Malvinas? 

CHS: Sim.

ALD: Este conflito, por ter se passado tão próximo de nós, foi muito marcante para entusiastas da minha geração. Me lembro, como se fosse hoje, o estrondo dos nossos F-5 rompendo a barreira do som para interceptar um Vulcan inglês que penetrou nosso espaço aéreo. E hoje, por casualidade, temos na MB uma fragata que foi usada pela Inglaterra no conflito com o nome Broadsword na época (a F-46 Greenhalgh). Inclusive, em 1982 ela foi atingida, não afundando por pura sorte (a bomba não explodiu).

Os pilotos argentinos apesar da diferença tecnológica entre os A-4B/C e os Sea Harrier, conseguiram sucessos impressionantes, tirando mais do que 100% do avião. O senhor pode explicar como foi isso?

CHS:Tem que se levar em conta o espírito que se forma nos pilotos, é verdade que não vencemos. A Argentina perdeu para a OTAN, porque o resto do mundo apoiou a Inglaterra.

Tínhamos muita quantidade de aviões apesar de defasados tecnologicamente. Mas temos que levar em consideração o piloto. Temos que ver as razões dos pilotos e tinhamos um grupo muito unido e forte e isso nos levou a fazer mais do que realmente poderíamos com nossos aviões. Sem ser suicidas, tínhamos total ciência dos riscos que corríamos. Tínhamos 50% de chances de sobrevivência. Mas nunca nos consideramos Kamikases. Isso foi o que fez a diferença na comparação.

ALD: Os pilotos ingleses na época eram mais frios, talvez por ter mais tecnologia a sua disposição enquanto os argentinos iam para guerrear e os ingleses mais técnicos apenas apertar botões.Eles eram mais profissionais ?

CHS: Todos eram profissionais e havia muito ódio durante os combates. Era muito difícil. Eu perdi 4 amigos numa única missão. Havia muito ódio dentro dos pilotos. O tempo me permitiu analisar a guerra sobre outra ótica.

O piloto que abateu meu amigo se chama David Morgan. 10 anos depois da guerra, junto com minha senhora, fomos convidados a passar dois dias em sua casa na Inglaterra numa vila. o contato foi feito através de um amigo que tenho em Londres. Conversamos a respeito de tudo o que aconteceu.

 

ALD: Foi muito difícil para seu coração estar lá frente ao seu inimigo do passado?

CHS: Não, não, por que foi 10 anos depois.

ALD: A ferida já estava então cicatrizada?

CHS: Um ano depois eu queria mata-lo, dois anos depois, eu queria dar uma surra nele. [risos] O tempo permite analisar que ele também estava trabalhando pelo seu pais. A verdade é que muito difícil se encontrar com seu inimigo para conversar sobre o que ocorreu e dizer o que sentimos. Para mim foi muito importante porque pude descarregar certas coisas. Me recordo que na primeira reunião nos encontramos estávamos muito sérios e quando ele me estendeu a mão eu o abracei. Ele ficou atônito e emocionado pois eles não são como nós, e eu lhe disse: Não se preocupe, já passou.

E só então começamos a conversar.

ALD: Muito obrigado pela entrevista e por se dispor a falar sobre o passado.

                 

Volta / Próxima