Nellis: Uma aventura

Texto: Maj Eduardo Lourenço

Durante nosso deslocamento para Nellis, a partir da saída do Brasil, quando decolamos de Boa Vista para Porto Rico, voamos em formação com nossos seis A-1 e o KC-137 (Boeing 707).
Apesar de estarmos aptos a executar a fraseologia internacional, assim foi decidido devido à experiência dos pilotos do KC-137 em viagens ao exterior e também de forma a reduzir a carga de trabalho dos pilotos do esquadrão, uma vez que as mensagens eram copiadas a bordo do KC e, no caso de dúvida, eram retransmitidas em nosso canal tático.
Da mesma forma, mantivemos um oficial nosso, na cabine do KC, para acompanhar a navegação e ajudar em qualquer caso de emergência, portando os manuais da aeronave e mantendo o controle das pistas de emergência mais próximas.
Minha primeira perna (trecho) foi justamente decolando de Porto Rico, de uma Base da Marinha dos EUA , para Tampa, na Flórida.
Eu era o líder da segunda esquadrilha do esquadrão, liderado pelo Salvatore.
Durante o reabastecimento das aeronaves no solo, o meu A-1 teve um problema em um dos tanques externos e não abasteceu completamente, ficando com menos 500 kg de combustível. (Para o A-1 significa em torno de 30 min de vôo)
Nossa navegação foi toda planejada com folga, justamente para evitarmos sustos e sempre tendo a possibilidade de alternar para um outro aeródromo, com combustível suficiente para inclusive, efetuar uma espera.
No briefing, refizemos as contas e, tendo em vista que o tempo estava tranqüilo em rota e no destino, decidimos não efetuar a manutenção naquela localidade, deixando para quando parássemos para o pernoite (se não me engano em Tampa mesmo).
Efetuamos a partida e eu passei a ser a referência de combustível do Esquadrão, sendo que o, na época, Cap Gil ocupava o posto de navegador no KC e já estava refazendo todas as contas para me ajudar no controle do vôo.
Entrávamos com os seis A-1 na pista e efetuávamos a decolagem por esquadrilha (3 a 3). Efetuávamos a reunião após a decolagem e circulávamos o aeródromo enquanto o KC alinhava na cabeceira.
Acusávamos alinhados, paralelamente à pista, e o KC iniciava a corrida de decolagem para depois reuinirmos e nos posicionando com três aeronaves de cada lado.
Fiquei com meus alas na asa direita do KC.
Não me recordo exatamente o porquê, mas ficamos circulando em torno de 5.000 ft durante muito tempo, não recebendo autorização do Controle de Tráfego para prosseguir na subida e na rota planejada.
Resultado.. Eu que já havia saído com menos 500 kg, no momento em que retomamos a rota e iniciamos a subida, fiquei com meu combustível abaixo do mínimo para prosseguir para a alternativa. Era Tampa ou Tampa.
O Gil ia me pedindo a “conta corrente” (quantidade de combustível nos tanques) a cada ponto de controle e efetuando as contas o tempo todo.
Naquea época não estávamos efetuando o reabastecimento em vôo no KC-137 e a recomendação seria fazê-lo só em caso de emergência.
Fomos acompanhando o consumo e decidimos que ainda não estávamos na condição de emergência.
Em rota o tempo estava ótimo e, apesar da minha preocupação com o combustível, pude apreciar muito a beleza daquele trecho, onde cruzamos o mar do Caribe e sobrevoamos o sul da Flórida. Uma região realmente muito linda!!
Tudo ia bem, até que recebemos a mensagem meteorológica de Tampa..Estava com chuva leve e diversas camadas de nuvens nas proximidades do aeródromo.
Prá piorar, durante a descida, tivemos que entrar nas camadas de nuvens..
Essa hora o “bicho pegou!!”...
Imaginem voar na ala do KC-137, colado na sua ponta de asa, tendo que ser super suave nos comandos, de forma a permitir que os alas, colados na minha asa, também pudessem manter o vôo de formatura.
Prá melhorar, nem precisa explicar que a pintura cinza do KC e dos A-1 é excelente prá “sumir” dentro da nuvem...
E o KC foi sumindo..sumindo..E eu grudado na asa dele que, por sorte, tinha o “boom” de REVO na cor branca...Só via o “boom”!!
A sorte que não havia turbulência, mas a ponta de asa do 707 já balança normalmente e não estava nada fácil manter a posição..
Olhava pelo espelho e mal via meu ala.. Segura Peão!!
Mas a camada foi ficando mais densa e o KC finalmente sumiu..
Imaginem você do lado de uma aeronave do tamanho do KC-137, com dois A-1 no outro lado da sua asa...sem ver nada!!
Fui inclinando de leve para a direita e logo informei a perda de vista..Meu medo foi o KC efetuar uma curva para direita também..
Deus também ajuda os aviadores nessa hora!!
Ajudou mesmo!! Menos de um minuto depois, saímos visual por baixo da camada..Eu já fazendo conta, catando o procedimento de Tampa, não podia esperar..
Mas deu tudo certo.
Estávamos a uma meia milha do KC e dá-lhe motor!! Para reunir e chegar bonito em Tampa para a dispersão do Esquadrão.
Tampa estava aberto visual e efetuamos o nosso “pilofe” com as seis garças no padrão..
Pousei na conta..Se tivesse que alternar ia ter que fazer um REVO no sufoco..mas tudo se ajeitou...
Foi um susto..mas nessa hora o seu treinamento de anos é que faz a diferença e te dá tranqüilidade e serenidade para controlar a situação e manter a segurança da missão.

 

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