
General de Brigada Francisco Carlos Modesto, Comandante da Aviação do Exército

“Nós
não abrimos mão da qualidade.”
ALIDE: A AvEx que nós temos hoje é aquilo que foi previsto, que foi ambicionado?
GEN. MODESTO: Eu não sei o que estava
previsto, porque eu não participei dos estudos. Veja bem,
você analisar a situação numa época,
tomar uma decisão... Quais foram os fatores que te levaram
a tomar uma decisão? Eu não sei quais foram. Depois
de passar 20 anos você chegar a conclusão que isso
foi certo, que isso foi errado, é muito fácil de
dizer.
ALIDE: Aqui o Sr. tem a área operacional.
Existe outro órgão que cuide da parte logística,
da seleção de aeronaves?
GEN. MODESTO: Existe
a DMAvEx - Diretoria de Material de Aviação do Exército.
ALIDE: Qual foi a entidade subordinada ao então
Ministério do Exército que concebeu a nova Aviação
do Exército?
GEN. MODESTO:
Qualquer criação de unidades, os estudos são
feitos pelo Estado-Maior do Exército.
ALIDE: Faz sentido a gente considerar a atividade
de fronteira sem a presença de helicópteros por
lá?
GEN. MODESTO:
Nós temos na Aviação do Exército 81
helicópteros. Desses, 17 estão em Manaus, justamente
para apoio à Amazônia.
ALIDE: Como é a evolução
do piloto, desde que ele decide se tornar um piloto até ele se tornar um piloto operacional?
GEN. MODESTO:
Ele primeiro se forma na AMAN, passa dois anos na tropa e, então,
faz uma inscrição no curso. Passa por exames médicos,
físicos e psicológicos e, dentro de um critério
que quem decide é Brasília, são selecionados
os militares para virem para cá. Nós abrimos anualmente
20 vagas para pilotos. Você não pode garantir, embora
todos os exames visando minimizar a taxa de falhas, que saiam
os 20. Há gente que não se adapta. Nós não
abrimos mão da qualidade. Então, se tiver que desligar
2, 3, serão desligados. A qualidade é primordial.
ALIDE: Então, o militar passou na seleção,
ele vem pra cá?
GEN. MODESTO:
Sim. Nós temos um Centro de Instrução de
Aviação aqui, o CIAvEx. Nós formamos os oficiais
e os sargentos de diversas especialidades. Esse ano, para o curso
de piloto, nós tivemos 97 candidatos para 20 vagas. Um
número altamente expressivo. Praticamente cinco candidatos
por vaga.
ALIDE: Mas também não chegou a
inviabilidade de, por exemplo, de 200 para 1?
GEN. MODESTO:
Para nós, cinco para um é até um número
muito alto. Muito alto pelo seguinte, os oficiais que se candidataram
a esse curso, de cada cinco, um vai ser aproveitado. Os outros
quatro vão perder a chance de fazer um outro curso, pelo
menos nessa oportunidade. Porque você manda um requerimento
para fazer um curso. Você escolhe que vai tentar o curso
de Aviação. Mas se ele tentasse um outro curso que
tivesse mais vagas, ele teria mais oportunidades de ser selecionado
e de fazer o curso do que o de Aviação. Isso é
bom para nós porque reflete o trabalho que está
sendo feito aqui, particularmente dos batalhões, a seriedade
com que se faz, o profissionalismo, o empenho. Por outro lado,
olhando para esses oficiais que não são aprovados,
é uma preocupação, porque, infelizmente,
eles vão ficar um ano de carreira sem ter um curso.
ALIDE: E o piloto sai formado do Esquilo que é o treinador básico com quantas horas de vôo?
GEN. MODESTO:
Com 90 horas de vôo.
ALIDE: Quanto tempo dura o treinamento?
GEN. MODESTO:
Um ano. Quer dizer, um ano a grosso modo. Dura cerca de dez meses.
Depois ele vai para uma unidade aérea, onde passa um
ano voando. Ele tem que completar até o final desse segundo
ano de aviação, considerando o primeiro ano de formação,
200 horas de vôo para fazer o curso que realmente que vai
torná-lo um piloto militar, que é o Estágio
de Pilotagem Tática. Nesse estágio que é
muito importante, o piloto vai fazer vôo de contorno, vôos
rasantes, esconder-se atrás de elevações,
enfim, o curso tático da aeronave. Então, o piloto
vai evoluindo. Depois tem o curso de Piloto de Combate que permite
o piloto comandar uma aeronave. Após isso, há o
curso Avançado de Aviação. Depois ele vai
aprender a voar por instrumentos. E ainda no ano que vem, teremos
o primeiro Estágio de Óculos de Visão Noturna,
que será um grande avanço.
ALIDE: Hoje ainda não temos?
GEN. MODESTO:
Nenhum país da América Latina faz esse treinamento.
Nós estamos começando com cuidado, dando um passo
de acordo com o tamanho da perna. Porque um acidente tem graves
conseqüências. Diferentemente de uma aviação
de caça, onde está só o piloto e a aeronave,
o helicóptero transporta gente e por isso o aspecto de
segurança é muito importante. O risco tem que ser
muito bem medido, muito bem avaliado. O piloto tem que ter uma
dose de sentimento de cumprimento de missão - que vocês
chamam de ousadia - mas juntamente com uma dose de prudência
muito grande. Essa é a nossa luta.
ALIDE: Dois comportamentos muitas vezes conflitantes...
GEN. MODESTO:
Conflitantes especialmente num jovem de 25, 26 anos. Você
tem que ter a capacidade de colocar uma dose de prudência
muito grande nesse moço para que ele tenha aquele sentimento
de cumprimento de missão – e tem que ter aquela vontade
de cumprir a missão – mas, ao mesmo tempo, ele saiba
respeitar os seus limites. Limites de capacidade técnica,
limites de tempo, de terreno. Esses limites todos têm que
ser respeitos. Esse é um bom piloto. E isso daí
vale, inclusive, na guerra. Para eu formar um piloto e dizer que
ele é muito bom, ele vai estar nesse nível com 11
anos de Aviação. Esse é o dado que a gente
trabalha. Se eu chego aqui e formo o piloto e ele vai pra fora
e não volta mais pra cá, eu joguei dinheiro fora.
Eu não posso permitir isso, ele tem que ficar 11 anos.
Porque não adianta chegar e fazer todos os cursos de uma
vez. Não adianta, o piloto tem que ter maturidade, ter
pé e mão como se chama, ou seja, dominar a máquina,
estar confortável com a máquina, a máquina
ser uma pele dele. E isso, pelos nossos estudos, pelos nossos
cálculos, juntando a maturidade, vai demorar 11 anos. Com
esse tempo ele vai estar com mil horas ou mais de vôo e
vai estar confortável, estar bem com a máquina.
ALIDE: É natural que exista um certo
número de pilotos que eventualmente largue a carreira e
vá ser piloto civil. Ao mesmo tempo, existe a obrigação
legal que todo piloto civil é reserva da FAB. Como é
que a AvEx está organizada para, em caso de guerra, absorver
essa reserva? Quem é que trata disso?
GEN. MODESTO:
É um setor que se chama Mobilização. Existe
no Ministério da Defesa, no Exército, Marinha e
Aeronáutica, pessoal ligado a essa área. Tanto mobilização
de pessoal quanto mobilização de material. De helicópteros,
de navios mercantes para serem utilizados pela Marinha de Guerra,
de aeronaves civis para serem usadas como transporte, por exemplo,
em apoio à Força Aérea... Quanto ao problema
de perdas de pilotos, nós não temos tido. Nós
temos é o militar que passa para a reserva e que, uma vez
na reserva, pode ficar em casa sem fazer nada, ou pode conseguir
emprego e trabalhar numa off-shore dessas.
ALIDE: Mesmo sendo nova, o Sr. julga que o Exército
já está entendendo o papel da Aviação
ou ainda existem seguimentos do Exército que ainda não
apreciam todo o potencial das unidades aéreas?
GEN. MODESTO:
Sim e não. [Risos] Sim, o Exército entende a Aviação
porque num país como o nosso, a Aviação é
extremamente necessária, até em termos econômicos.
Não se entende um país como o nosso sem uma aviação
civil forte. A mesma coisa acontece na parte militar. Não
se entende o Exército sem o apoio de helicópteros.
Qualquer operação que você precise, você
tem a capacidade de colocar a tropa com extrema rapidez. Nesse
ponto, o Exército entende a Aviação, aprecia
e não vive mais sem ela. Agora, e aí eu digo não,
a Aviação é muito complexa. Especialmente
o helicóptero que é muito mais complexo que o avião.
Tanto para pilotar quanto para a parte de manutenção.
Então, a manutenção é que ninguém
que não é da Aviação entende. Eu não
posso ter disponibilidade 100%. Isso é péssimo.
Se todas as aeronaves estão disponíveis, isso é
péssimo porque significa que num dado momento eu vou ter
zero porcento.
ALIDE: Todas vão parar para a manutenção
juntas...
GEN. MODESTO:
Exatamente. Então eu tenho que ter uma diagonal de manutenção.
Eu tenho que ter aeronave entrando em manutenção,
aeronave saindo de manutenção, etc. Eu tenho que
me preocupar, me esforçar, ter o suprimento, tenho que
formar meus mecânicos, tenho que otimizar o tempo deles
para que eu consiga fazer a manutenção e fazer essa
diagonal funcionar. Esse é um aspecto importante para que
eu diga que qualquer Exército do mundo não entende
sua Aviação na parte de manutenção,
a não ser aquele que está trabalhando nela.
ALIDE: Eles estão presos aos paradigmas
dos veículos de terra que são mais simples?
GEN. MODESTO:
São mais simples porque um veículo de terra, se
você não fizer a manutenção, e ele
parar e quebrar. Quebrou e pronto. E o helicóptero?
ALIDE: Cai...
GEN. MODESTO:
Cai. Então, não existe manutenção
mais ou menos. Ou ela é bem feita, ou não é
feita a manutenção. E a gente é muito rígido.
Tem determinadas peças que você olha assim e diz:
“Não é possível, está perfeita”.
Se fosse num caminhão, deixaria. Mas o manual prevê
que tem que ser trocado. Acabou, troca. A gente tem que ser muito
rígido em seguir os manuais técnicos.
ALIDE: Hoje, na Amazônia, para o Exército
manter os 17 helicópteros, é necessária uma
linha logística entre Manaus e Taubaté. Essa linha
logística depende da Força Aérea ou existe
outro meio que a AvEx utilize para fazer esse tipo de ligação?
GEN. MODESTO:
Em Manaus nós temos mecânicos para fazer a manutenção
de nível 1 que é a cargo da unidade. Independente
disso, para o reforço de manutenção, a gente
manda duas vezes por ano uma equipe normalmente de 8 a 10 militares,
um oficial e o restante de sargentos, para fazer a manutenção
de segundo nível. Da última vez, eles trabalharam
durante 39 dias direto, dia e noite. Essa equipe que vai para
Manaus levando material, ferramental, suprimentos, pode ir com
nossos helicópteros, se tivermos horas de vôo disponíveis,
pode usar o apoio da Força Aérea ou, ainda, podemos
contratar uma empresa civil para fazer esse transporte.
ALIDE: Então, no caso de haver uma necessidade
premente de manutenção de uma aeronave em Manaus
em que, nesse caso, a Força Aérea não tenha
nenhum vôo disponível, a AvEx pode contratar uma
empresa civil para fazer esse vôo?
GEN. MODESTO:
Pode ser o vôo ou até para levar uma peça.
Nós estamos com um exercício agora no Sul [Operação
Pampa] deu um problema num helicóptero em Curitiba e foi
contratada uma empresa civil para entregar a peça no local
onde o próprio pessoal lá tem condições
de manutenir. Se houvesse necessidade, ficaria mais barato pagar
uma passagem para um mecânico para levar a peça e,
ele próprio, - caso o mecânico da aeronave não
tivesse condição de fazer a manutenção
- fazer a manutenção, do que deslocar uma aeronave
só para esse fim.
ALIDE: Nem sempre as necessidades que o Sr.
venha a ter se encaixam dentro da disponibilidade da outra Força
que pode fazer o transporte. Cedo ou tarde não haverá
necessidade de ter uma aviação de asa fixa própria?
GEN. MODESTO:
Tudo bem, mas a gente tem que discutir o custo. É a mesma
coisa que eu for comprar uma Ferrari. De repente eu tenho até
o dinheiro para comprar a Ferrari. Vendo tudo que eu tenho, trabalho
30 anos. Mas e depois para pagar o IPVA? E se a Ferrari der uma
batidinha? Mesma coisa para a Aviação.
ALIDE: Ano passado ou início desse ano
houve uma tentativa de montar uma solução para enviar
helicópteros brasileiros para ajuda aos países vítimas
do Tsunami. Chegou-se a conclusão que o único meio
brasileiro capaz de levar helicópteros do Brasil para o
Sudeste da Ásia era o Navio-Aeródromo São
Paulo. Isso não foi uma luz de alerta dizendo que existe
uma perspectiva de nós termos que transportar nossos meios
para outros lugares a longas distâncias?
GEN. MODESTO:
Para isso existe o Ministério da Defesa. Ao Ministério
da Defesa cabe utilizar os meios da melhor forma possível,
combinando Força Aérea, combinando Marinha e combinando
o Exército. Essa é a missão do Ministério
da Defesa.
ALIDE: Se o Sr. tiver a missão de transportar
os seus Cougar para outro continente, como é que se faz?
GEN. MODESTO:
Eu vou usar a Força Aérea ou a Marinha. Veja bem
uma coisa importante, nós não podemos raciocinar
que o nosso Exército é o Exército dos Estados
Unidos. O Exército tem que ser equivalente ao país
que é. Não podemos ser maiores, nem menores. A responsabilidade
disso está na sociedade, aí o papel importante de
vocês [jornalistas], despertar consciências, despertar
a importância da discussão sobre o papel das Forças
Armadas. A gente vê que em outros países esse sentimento
é muito maior que no Brasil, até por não
termos tido problemas grandes. Então, nós não
podemos comparar aqui [Brasil] com os Estados Unidos. E, às
vezes, se quer adotar soluções lá existentes
para o nosso Exército aqui. E aí você comete
um erro muito grave. Cabe ao Ministério da Defesa dizer
como é que vai fazer. É importante? Vão continuar
essas missões de paz? Qual é o aspecto logístico?
O Ministério da Defesa pode decidir: “Bem, vamos
fazer uma experiência? Vamos fazer. Onde? Ah, lá
no Haiti que está próximo da gente.Vamos treinar.”
Mas essa é a responsabilidade do Ministério da Defesa.
E vou mais longe, do Ministério da Defesa para sugerir
ao Governo brasileiro. Porque esse negócio de emprego de
tropa em missões de paz tem que ser um objetivo do país,
porque isso tem reflexo político, econômico e psico-social.
Essa é uma forma que as Forças Armadas têm
de contribuir para o país.
ALIDE: O nosso Cougar ele poderia ser embarcado
num Hércules, por exemplo? Nós no Brasil já tentamos?
GEN. MODESTO:
Nunca foi exercitado. O Ministério da Defesa prevê
uma séria de exercícios procurando integrar as Forças
Armadas. Uma das coisas que podem ser feitas é essa. Como
a Aviação ainda é nova, agora que o pessoal
está fazendo curso de Estado-Maior. Então, futuramente,
vão ter militares com essa formação no Ministério
da Defesa e esses questionamentos todos serão resolvidos.
Propostas existem. Quaisquer exercícios que possam ser
feitos nesse sentido, para nós, é ótimo.
ALIDE: Da parte da AvEx, tem havido algum exercício
de maior monta com a Marinha ou a Força Aérea, tirando
a parte da Amazônia, para o Sudeste e Sul do país?
GEN. MODESTO:
Participamos da Operação Pampa, um exercício
muito grande, estamos lá com 7 helicópteros, sendo
3 Esquilos e 4 Panteras.
ALIDE: A parte de comunicação
das três armas, cada uma, por exemplo, usa um sistema diferente.
Como funciona essa integração de comunicação?
GEN. MODESTO:
Um dos aspectos da Operação Pampa é o Comando
e Controle. Não só a comunicação pura
e simples do exercício em específico, mas, inclusive,
a comunicação em termos de segurança de vôo.
Esse é um dos objetivos da Operação Pampa.
ALIDE: Já dá pra sentir um avanço
em relação a Comando e Controle a partir de exercícios
anteriores?
GEN. MODESTO:
Sempre em cada exercício você aumenta a integração.
Nessa Operação Pampa, por exemplo, já muitos
aprendizados da primeira já vão ser implantados
nessa. E aqui nós vamos para um degrau futuro. Na outra
fomos com cerca de 20 militares. Agora estamos com 50, muitos
deles oficias de ligação, justamente sentindo essa
necessidade de integração, especialmente com a Força
Aérea.
ALIDE: E o ritmo dessa integração
está sendo bom ou poderia ser melhor?
GEN. MODESTO:
Sempre poderia ser melhor do que é, se a gente tivesse
mais exercícios. Quanto mais exercícios, melhor
o adestramento. Na Amazônia essa integração
é bem maior porque lá é necessidade de sobrevivência.
ALIDE: Há pouco tempo houve a notícia
que Exército e Força Aérea tiveram uma mudança
significativa na manutenção de helicópteros
em Manaus. As duas Forças estariam montando uma solução
de suporte totalmente unificada. O Sr. poderia nos contar um pouco
mais como funciona?
GEN. MODESTO:
Em função do recebimento dos Blackhawk pela FAB,
eles vão treinar mecânicos e pilotos em Manaus com
o nosso pessoal. Para eles será um ganho muito grande,
não precisarão começar do zero, aprendendo
tudo que a gente sabe.
ALIDE: Então vai ser o caminho oposto,
pois agora eles virão aprender...
GEN. MODESTO:
Eu acho que isso é importante porque nós da Aviação
do Exército, nascemos graças a um apoio muito grande
tanto da Força Aérea quanto da Marinha. Nós
formamos nossos pilotos e mecânicos na Força Aérea
e na Marinha. Nós somos o resultado do que eles têm
de muito bom, porque eles se esforçaram ao máximo
para chegar a esse ponto.
ALIDE: E faz sentido nos dias de hoje você
ter todo o processo de treinamento de pilotos redundante, ou seja,
cada força ter sua própria escola de formação?
Não faria mais sentido fazer todos passarem por uma escola
única para o treinamento básico?
GEN. MODESTO:
Economicamente me parece que sim. Mas primeiro eu não sei
que escola teria a capacidade de formar a quantidade necessária
para cada um.
ALIDE: Mesmo se houvesse um planejamento dimensionando
uma escola única com essa capacidade?
GEN. MODESTO:
Veja bem, o piloto da Força Aérea, quando é
que ele vai ser tornar o piloto de helicóptero? E da Marinha?
A formação básica dura quanto tempo? Porque
aprender a pilotar a aeronave o piloto vai aprender em 40 horas,
o que nós consideramos a formação básica.
Depois é a formação específica, de
50 horas. Vale a pena isso? Então, dizer se é melhor
ou não, é um estudo que eu acho que merece ser feito
e que caberia ao Ministério da Defesa.
ALIDE: Que é um Ministério novo
no Brasil e que pode futuramente começar a surgir esse
tipo de novidade vindo deles...
GEN. MODESTO:
E eu vou citar até uma área mais importante que
é a área de logística. Por exemplo, nós
fazemos a manutenção das pás do Esquilo para
a Marinha. Nós fazemos aqui a manutenção
do Esquilo e do Pantera. Com a Marinha a gente faz uma troca em
termos de homens/hora. Aqui fazemos a manutenção
das pás e depois, lá, eles fazem a inspeção
Charlie do nosso Esquilo.
ALIDE: Em relação aos Batalhões,
geralmente na FAB existe um Esquadrão com apenas um modelo,
na Marinha também. No Exército são quatro
modelos diferentes. Como funciona isso?
GEN. MODESTO:
Dos nossos batalhões, apenas o de Manaus, pelas suas características
especiais, são os quatro modelos. Isso é ruim para
a parte logística, pois quanto mais modelos você
tem, pior. Nos batalhões aqui, a concepção
foi de dois modelos tendo em vista unidade de emprego. Esses dois
modelos são helicópteros de reconhecimento e ataque
e helicópteros de manobra. O 1° Batalhão tem
Esquilo e Pantera, o 2° Batalhão tem Esquilo, Pantera
e o Cougar, que foi o último que chegou. Tanto o Pantera
quanto o Cougar são helicópteros de manobra. E o
3° Batalhão tem Esquilo e Pantera. Então essa
é a organização da nossa Aviação.
ALIDE: Não há uma sobreposição
de tarefas entre o Cougar e os Blackhawk ou eles têm papéis
muito claramente definidos?
GEN. MODESTO:
São papéis muito semelhantes. A capacidade e o volume
de carga do Cougar é superior. Leva 22 homens equipados
enquanto o Blackhawk leva 14. Mas a função operacional
é a mesma.
ALIDE: Então, nesse caso, o Cougar não
seria para o Teatro Amazônico mais eficiente que o Blackhawk?
Por que optar pelo Blackhawk nesse caso?
GEN. MODESTO:
O Blackhawk tem uma vantagem sobre o Cougar porque é uma
aeronave mais rústica. O Estado-Maior do Exército
vem conduzindo estudos sobre a possibilidade de uma reestruturação.
ALIDE: Hoje nós temos duas bases, Taubaté
e Manaus, em termos de litoral não parece...
GEN. MODESTO:
Seria importante colocar uma base, por exemplo, em Campo Grande-MS
e em outro locais. Só que precisa-se de recursos do Governo
Federal.
ALIDE: Nós teríamos meios materiais
para abrir uma nova frente ou precisaríamos adquirir novos
equipamentos?
GEN. MODESTO:
Teríamos. No plano estratégico nós temos
até um batalhão previsto para ir para lá.
Agora, precisa-se de condições, precisa-se de dinheiro
para comprar ferramental... Se decidido, precisamos formar mais
gente...
ALIDE: Além de Campo Grande, existem
outros locais que são considerados chaves num futuro?
GEN. MODESTO:
No nosso nível o que está previsto como necessidade
mais urgente é o Comando Militar do Oeste. Não sei
se há estudos no Estado-Maior para ampliar a AvEx para
outros locais. Mas só a transferência para lá
[Campo Grande] depende de muitos recursos. Não é
assim, estalando os dedos e “vai”. O que as pessoas
devem entender é a manutenção. A manutenção
é muito complicada. A logística é muito complicada.
Quer dizer, eu vou comprar um helicóptero, o melhor do
mundo. Tudo bem, pode até ser. A logística disso,
como é que funciona? Qual é a rapidez de eu precisar
de uma coisa e isso chegar aqui? Esses são os questionamentos
que quem vai decidir sobre a compra tem que pensar. Então
não é tão simples assim.
ALIDE: E essa experiência de compartilhar
recursos de manutenção que está havendo em
Manaus, é natural esperar que ela ocorra também
em Campo Grande, por exemplo? Este é um modelo que se prevê
que aconteça pelo país afora?
GEN. MODESTO:
Eu acho que seria muito bom. Porque sempre que você compartilha
- tipo essa experiência que a gente tem com a Marinha -
isso proporciona para nós e para Marinha muito grande.
É importante que seja incentivado.
ALIDE: General, em Campo Grande, na perspectiva
eventual de se abrir uma nova base, ela seria anexa ao aeroporto,
como em Manaus, ou seria como aqui, que foi criado um espaço
próprio do Exército?
GEN. MODESTO:
Quando eu disse que há perspectiva, não é
perspectiva de abrir. Também não há estudos.
Eu estou dizendo, como militar, como brasileiro. É importante
que ou Exército, ou a Marinha ou a Força Aérea
tenham mais helicópteros no CMO. Ponto. Agora, se há
estudos disso, de nossa parte [AvEx] não. Estamos prontos
para, se precisarmos deslocar um batalhão - com manutenção,
etc, deslocar. Há estudos disso? Não. Se vai ocupar
base aérea, se vai construir nova pista, se vai construir
PNR (casas para oficiais que forem deslocados), isso é
um estudo complexo. Se for decido que é importante, que
vai ser feito e que há recursos para isso [instalação
da nova base], então devem ser feitos todos os estudos.
Essa informação poderá ser obtida no Estado-Maior
do Exército.
ALIDE: Qual é a razão da AvEx
ter essa estrutura independente em Taubaté?
GEN. MODESTO:
Um das razões foi que o nosso “cliente”, nosso
maior usuário da Aviação é a Brigada
Leve em Caçapava. As unidades estão aqui em São
Paulo, Lorena, Caçapava e agora em Campinas.
ALIDE: Existe hoje alguma diferença de
funções entre os batalhões ou todos cumprem
as mesmas missões?
GEN. MODESTO:
Eles cumprem as mesmas missões, sendo que em um batalhão
nós estamos implantando um projeto chamado “Olho
da Águia”. Esse projeto permite que eu possa empregar
uma aeronave, por exemplo, na Operação Pampa e eu
ter imagens em tempo real do helicóptero aqui. O projeto
Cougar fica com outro batalhão e o projeto dos óculos
de visão noturna, com outro. Mas, especificamente, eles
cumprem as mesmas missões.
ALIDE: Na parte de armamento, a AvEx usa algum
estande de tiro da FAB, da própria AvEx... Como é feito esse treinamento?
GEN. MODESTO:
Nós atiramos na Marambaia e na Escola de Sargentos de Armas.
ALIDE: Sobre o uso de helicópteros de
ataque, isso é um tema que vocês comentem?
GEN. MODESTO:
O nosso helicóptero de ataque é o Esquilo, de acordo
com a disponibilidade de recursos que o país tem. O Apache
ou outro qualquer mais acessível? Ótimo. Mas e o
dinheiro? Não há necessidade de se gastar dinheiro
com isso agora.
ALIDE: Existe a necessidade de se armar o Esquilo
com um míssil anti-tanque?
GEN. MODESTO:
Nós temos os foguetes SBAT-70 e, por enquanto, estão
cumprindo a função.