Entrevista

General de Brigada Francisco Carlos Modesto, Comandante da Aviação do Exército


General de Brigada  Francisco Carlos Modesto

 “Nós não abrimos mão da qualidade.”


ALIDE: A AvEx que nós temos hoje é aquilo que foi previsto, que foi ambicionado?

GEN. MODESTO: Eu não sei o que estava previsto, porque eu não participei dos estudos. Veja bem, você analisar a situação numa época, tomar uma decisão... Quais foram os fatores que te levaram a tomar uma decisão? Eu não sei quais foram. Depois de passar 20 anos você chegar a conclusão que isso foi certo, que isso foi errado, é muito fácil de dizer.

ALIDE: Aqui o Sr. tem a área operacional. Existe outro órgão que cuide da parte logística, da seleção de aeronaves?

GEN. MODESTO: Existe a DMAvEx - Diretoria de Material de Aviação do Exército.

ALIDE: Qual foi a entidade subordinada ao então Ministério do Exército que concebeu a nova Aviação do Exército?

GEN. MODESTO: Qualquer criação de unidades, os estudos são feitos pelo Estado-Maior do Exército.

ALIDE: Faz sentido a gente considerar a atividade de fronteira sem a presença de helicópteros por lá?

GEN. MODESTO: Nós temos na Aviação do Exército 81 helicópteros. Desses, 17 estão em Manaus, justamente para apoio à Amazônia.

ALIDE: Como é a evolução do piloto, desde que ele decide se tornar um piloto até ele se tornar um piloto operacional?

GEN. MODESTO:  Ele primeiro se forma na AMAN, passa dois anos na tropa e, então, faz uma inscrição no curso. Passa por exames médicos, físicos e psicológicos e, dentro de um critério que quem decide é Brasília, são selecionados os militares para virem para cá. Nós abrimos anualmente 20 vagas para pilotos. Você não pode garantir, embora todos os exames visando minimizar a taxa de falhas, que saiam os 20. Há gente que não se adapta. Nós não abrimos mão da qualidade. Então, se tiver que desligar 2, 3, serão desligados. A qualidade é primordial.

ALIDE: Então, o militar passou na seleção, ele vem pra cá?

GEN. MODESTO: Sim. Nós temos um Centro de Instrução de Aviação aqui, o CIAvEx. Nós formamos os oficiais e os sargentos de diversas especialidades. Esse ano, para o curso de piloto, nós tivemos 97 candidatos para 20 vagas. Um número altamente expressivo. Praticamente cinco candidatos por vaga.

ALIDE: Mas também não chegou a inviabilidade de, por exemplo, de 200 para 1?

GEN. MODESTO: Para nós, cinco para um é até um número muito alto. Muito alto pelo seguinte, os oficiais que se candidataram a esse curso, de cada cinco, um vai ser aproveitado. Os outros quatro vão perder a chance de fazer um outro curso, pelo menos nessa oportunidade. Porque você manda um requerimento para fazer um curso. Você escolhe que vai tentar o curso de Aviação. Mas se ele tentasse um outro curso que tivesse mais vagas, ele teria mais oportunidades de ser selecionado e de fazer o curso do que o de Aviação. Isso é bom para nós porque reflete o trabalho que está sendo feito aqui, particularmente dos batalhões, a seriedade com que se faz, o profissionalismo, o empenho. Por outro lado, olhando para esses oficiais que não são aprovados, é uma preocupação, porque, infelizmente, eles vão ficar um ano de carreira sem ter um curso.

ALIDE: E o piloto sai formado do Esquilo que é o treinador básico com quantas horas de vôo?

GEN. MODESTO: Com 90 horas de vôo.

ALIDE: Quanto tempo dura o treinamento?

GEN. MODESTO: Um ano. Quer dizer, um ano a grosso modo. Dura cerca de dez meses.

Depois ele vai para uma unidade aérea, onde passa um ano voando. Ele tem que completar até o final desse segundo ano de aviação, considerando o primeiro ano de formação, 200 horas de vôo para fazer o curso que realmente que vai torná-lo um piloto militar, que é o Estágio de Pilotagem Tática. Nesse estágio que é muito importante, o piloto vai fazer vôo de contorno, vôos rasantes, esconder-se atrás de elevações, enfim, o curso tático da aeronave. Então, o piloto vai evoluindo. Depois tem o curso de Piloto de Combate que permite o piloto comandar uma aeronave. Após isso, há o curso Avançado de Aviação. Depois ele vai aprender a voar por instrumentos. E ainda no ano que vem, teremos o primeiro Estágio de Óculos de Visão Noturna, que será um grande avanço.

ALIDE: Hoje ainda não temos?

GEN. MODESTO: Nenhum país da América Latina faz esse treinamento. Nós estamos começando com cuidado, dando um passo de acordo com o tamanho da perna. Porque um acidente tem graves conseqüências. Diferentemente de uma aviação de caça, onde está só o piloto e a aeronave, o helicóptero transporta gente e por isso o aspecto de segurança é muito importante. O risco tem que ser muito bem medido, muito bem avaliado. O piloto tem que ter uma dose de sentimento de cumprimento de missão - que vocês chamam de ousadia - mas juntamente com uma dose de prudência muito grande. Essa é a nossa luta.

ALIDE: Dois comportamentos muitas vezes conflitantes...

GEN. MODESTO: Conflitantes especialmente num jovem de 25, 26 anos. Você tem que ter a capacidade de colocar uma dose de prudência muito grande nesse moço para que ele tenha aquele sentimento de cumprimento de missão – e tem que ter aquela vontade de cumprir a missão – mas, ao mesmo tempo, ele saiba respeitar os seus limites. Limites de capacidade técnica, limites de tempo, de terreno. Esses limites todos têm que ser respeitos. Esse é um bom piloto. E isso daí vale, inclusive, na guerra. Para eu formar um piloto e dizer que ele é muito bom, ele vai estar nesse nível com 11 anos de Aviação. Esse é o dado que a gente trabalha. Se eu chego aqui e formo o piloto e ele vai pra fora e não volta mais pra cá, eu joguei dinheiro fora. Eu não posso permitir isso, ele tem que ficar 11 anos. Porque não adianta chegar e fazer todos os cursos de uma vez. Não adianta, o piloto tem que ter maturidade, ter pé e mão como se chama, ou seja, dominar a máquina, estar confortável com a máquina, a máquina ser uma pele dele. E isso, pelos nossos estudos, pelos nossos cálculos, juntando a maturidade, vai demorar 11 anos. Com esse tempo ele vai estar com mil horas ou mais de vôo e vai estar confortável, estar bem com a máquina.

ALIDE: É natural que exista um certo número de pilotos que eventualmente largue a carreira e vá ser piloto civil. Ao mesmo tempo, existe a obrigação legal que todo piloto civil é reserva da FAB. Como é que a AvEx está organizada para, em caso de guerra, absorver essa reserva? Quem é que trata disso?

GEN. MODESTO: É um setor que se chama Mobilização. Existe no Ministério da Defesa, no Exército, Marinha e Aeronáutica, pessoal ligado a essa área. Tanto mobilização de pessoal quanto mobilização de material. De helicópteros, de navios mercantes para serem utilizados pela Marinha de Guerra, de aeronaves civis para serem usadas como transporte, por exemplo, em apoio à Força Aérea... Quanto ao problema de perdas de pilotos, nós não temos tido. Nós temos é o militar que passa para a reserva e que, uma vez na reserva, pode ficar em casa sem fazer nada, ou pode conseguir emprego e trabalhar numa off-shore dessas.

ALIDE: Mesmo sendo nova, o Sr. julga que o Exército já está entendendo o papel da Aviação ou ainda existem seguimentos do Exército que ainda não apreciam todo o potencial das unidades aéreas?

GEN. MODESTO: Sim e não. [Risos] Sim, o Exército entende a Aviação porque num país como o nosso, a Aviação é extremamente necessária, até em termos econômicos. Não se entende um país como o nosso sem uma aviação civil forte. A mesma coisa acontece na parte militar. Não se entende o Exército sem o apoio de helicópteros. Qualquer operação que você precise, você tem a capacidade de colocar a tropa com extrema rapidez. Nesse ponto, o Exército entende a Aviação, aprecia e não vive mais sem ela. Agora, e aí eu digo não, a Aviação é muito complexa. Especialmente o helicóptero que é muito mais complexo que o avião. Tanto para pilotar quanto para a parte de manutenção. Então, a manutenção é que ninguém que não é da Aviação entende. Eu não posso ter disponibilidade 100%. Isso é péssimo. Se todas as aeronaves estão disponíveis, isso é péssimo porque significa que num dado momento eu vou ter zero porcento.

ALIDE: Todas vão parar para a manutenção juntas...

GEN. MODESTO: Exatamente. Então eu tenho que ter uma diagonal de manutenção. Eu tenho que ter aeronave entrando em manutenção, aeronave saindo de manutenção, etc. Eu tenho que me preocupar, me esforçar, ter o suprimento, tenho que formar meus mecânicos, tenho que otimizar o tempo deles para que eu consiga fazer a manutenção e fazer essa diagonal funcionar. Esse é um aspecto importante para que eu diga que qualquer Exército do mundo não entende sua Aviação na parte de manutenção, a não ser aquele que está trabalhando nela.

ALIDE: Eles estão presos aos paradigmas dos veículos de terra que são mais simples?

GEN. MODESTO: São mais simples porque um veículo de terra, se você não fizer a manutenção, e ele parar e quebrar. Quebrou e pronto. E o helicóptero?

ALIDE: Cai...

GEN. MODESTO: Cai. Então, não existe manutenção mais ou menos. Ou ela é bem feita, ou não é feita a manutenção. E a gente é muito rígido. Tem determinadas peças que você olha assim e diz: “Não é possível, está perfeita”. Se fosse num caminhão, deixaria. Mas o manual prevê que tem que ser trocado. Acabou, troca. A gente tem que ser muito rígido em seguir os manuais técnicos.

ALIDE: Hoje, na Amazônia, para o Exército manter os 17 helicópteros, é necessária uma linha logística entre Manaus e Taubaté. Essa linha logística depende da Força Aérea ou existe outro meio que a AvEx utilize para fazer esse tipo de ligação?

GEN. MODESTO: Em Manaus nós temos mecânicos para fazer a manutenção de nível 1 que é a cargo da unidade. Independente disso, para o reforço de manutenção, a gente manda duas vezes por ano uma equipe normalmente de 8 a 10 militares, um oficial e o restante de sargentos, para fazer a manutenção de segundo nível. Da última vez, eles trabalharam durante 39 dias direto, dia e noite. Essa equipe que vai para Manaus levando material, ferramental, suprimentos, pode ir com nossos helicópteros, se tivermos horas de vôo disponíveis, pode usar o apoio da Força Aérea ou, ainda, podemos contratar uma empresa civil para fazer esse transporte.

ALIDE: Então, no caso de haver uma necessidade premente de manutenção de uma aeronave em Manaus em que, nesse caso, a Força Aérea não tenha nenhum vôo disponível, a AvEx pode contratar uma empresa civil para fazer esse vôo?

GEN. MODESTO: Pode ser o vôo ou até para levar uma peça. Nós estamos com um exercício agora no Sul [Operação Pampa] deu um problema num helicóptero em Curitiba e foi contratada uma empresa civil para entregar a peça no local onde o próprio pessoal lá tem condições de manutenir. Se houvesse necessidade, ficaria mais barato pagar uma passagem para um mecânico para levar a peça e, ele próprio, - caso o mecânico da aeronave não tivesse condição de fazer a manutenção - fazer a manutenção, do que deslocar uma aeronave só para esse fim.

ALIDE: Nem sempre as necessidades que o Sr. venha a ter se encaixam dentro da disponibilidade da outra Força que pode fazer o transporte. Cedo ou tarde não haverá necessidade de ter uma aviação de asa fixa própria?

GEN. MODESTO: Tudo bem, mas a gente tem que discutir o custo. É a mesma coisa que eu for comprar uma Ferrari. De repente eu tenho até o dinheiro para comprar a Ferrari. Vendo tudo que eu tenho, trabalho 30 anos. Mas e depois para pagar o IPVA? E se a Ferrari der uma batidinha? Mesma coisa para a Aviação.

ALIDE: Ano passado ou início desse ano houve uma tentativa de montar uma solução para enviar helicópteros brasileiros para ajuda aos países vítimas do Tsunami. Chegou-se a conclusão que o único meio brasileiro capaz de levar helicópteros do Brasil para o Sudeste da Ásia era o Navio-Aeródromo São Paulo. Isso não foi uma luz de alerta dizendo que existe uma perspectiva de nós termos que transportar nossos meios para outros lugares a longas distâncias?

GEN. MODESTO: Para isso existe o Ministério da Defesa. Ao Ministério da Defesa cabe utilizar os meios da melhor forma possível, combinando Força Aérea, combinando Marinha e combinando o Exército. Essa é a missão do Ministério da Defesa.

ALIDE: Se o Sr. tiver a missão de transportar os seus Cougar para outro continente, como é que se faz?

GEN. MODESTO: Eu vou usar a Força Aérea ou a Marinha. Veja bem uma coisa importante, nós não podemos raciocinar que o nosso Exército é o Exército dos Estados Unidos. O Exército tem que ser equivalente ao país que é. Não podemos ser maiores, nem menores. A responsabilidade disso está na sociedade, aí o papel importante de vocês [jornalistas], despertar consciências, despertar a importância da discussão sobre o papel das Forças Armadas. A gente vê que em outros países esse sentimento é muito maior que no Brasil, até por não termos tido problemas grandes. Então, nós não podemos comparar aqui [Brasil] com os Estados Unidos. E, às vezes, se quer adotar soluções lá existentes para o nosso Exército aqui. E aí você comete um erro muito grave. Cabe ao Ministério da Defesa dizer como é que vai fazer. É importante? Vão continuar essas missões de paz? Qual é o aspecto logístico? O Ministério da Defesa pode decidir: “Bem, vamos fazer uma experiência? Vamos fazer. Onde? Ah, lá no Haiti que está próximo da gente.Vamos treinar.” Mas essa é a responsabilidade do Ministério da Defesa. E vou mais longe, do Ministério da Defesa para sugerir ao Governo brasileiro. Porque esse negócio de emprego de tropa em missões de paz tem que ser um objetivo do país, porque isso tem reflexo político, econômico e psico-social. Essa é uma forma que as Forças Armadas têm de contribuir para o país.

ALIDE: O nosso Cougar ele poderia ser embarcado num Hércules, por exemplo? Nós no Brasil já tentamos?

GEN. MODESTO: Nunca foi exercitado. O Ministério da Defesa prevê uma séria de exercícios procurando integrar as Forças Armadas. Uma das coisas que podem ser feitas é essa. Como a Aviação ainda é nova, agora que o pessoal está fazendo curso de Estado-Maior. Então, futuramente, vão ter militares com essa formação no Ministério da Defesa e esses questionamentos todos serão resolvidos. Propostas existem. Quaisquer exercícios que possam ser feitos nesse sentido, para nós, é ótimo.

ALIDE: Da parte da AvEx, tem havido algum exercício de maior monta com a Marinha ou a Força Aérea, tirando a parte da Amazônia, para o Sudeste e Sul do país?

GEN. MODESTO: Participamos da Operação Pampa, um exercício muito grande, estamos lá com 7 helicópteros, sendo 3 Esquilos e 4 Panteras.

ALIDE: A parte de comunicação das três armas, cada uma, por exemplo, usa um sistema diferente. Como funciona essa integração de comunicação?

GEN. MODESTO: Um dos aspectos da Operação Pampa é o Comando e Controle. Não só a comunicação pura e simples do exercício em específico, mas, inclusive, a comunicação em termos de segurança de vôo. Esse é um dos objetivos da Operação Pampa.

ALIDE: Já dá pra sentir um avanço em relação a Comando e Controle a partir de exercícios anteriores?

GEN. MODESTO: Sempre em cada exercício você aumenta a integração. Nessa Operação Pampa, por exemplo, já muitos aprendizados da primeira já vão ser implantados nessa. E aqui nós vamos para um degrau futuro. Na outra fomos com cerca de 20 militares. Agora estamos com 50, muitos deles oficias de ligação, justamente sentindo essa necessidade de integração, especialmente com a Força Aérea.

ALIDE: E o ritmo dessa integração está sendo bom ou poderia ser melhor?

GEN. MODESTO: Sempre poderia ser melhor do que é, se a gente tivesse mais exercícios. Quanto mais exercícios, melhor o adestramento. Na Amazônia essa integração é bem maior porque lá é necessidade de sobrevivência.

ALIDE: Há pouco tempo houve a notícia que Exército e Força Aérea tiveram uma mudança significativa na manutenção de helicópteros em Manaus. As duas Forças estariam montando uma solução de suporte totalmente unificada. O Sr. poderia nos contar um pouco mais como funciona?

GEN. MODESTO: Em função do recebimento dos Blackhawk pela FAB, eles vão treinar mecânicos e pilotos em Manaus com o nosso pessoal. Para eles será um ganho muito grande, não precisarão começar do zero, aprendendo tudo que a gente sabe.

ALIDE: Então vai ser o caminho oposto, pois agora eles virão aprender...

GEN. MODESTO: Eu acho que isso é importante porque nós da Aviação do Exército, nascemos graças a um apoio muito grande tanto da Força Aérea quanto da Marinha. Nós formamos nossos pilotos e mecânicos na Força Aérea e na Marinha. Nós somos o resultado do que eles têm de muito bom, porque eles se esforçaram ao máximo para chegar a esse ponto.

ALIDE: E faz sentido nos dias de hoje você ter todo o processo de treinamento de pilotos redundante, ou seja, cada força ter sua própria escola de formação? Não faria mais sentido fazer todos passarem por uma escola única para o treinamento básico?

GEN. MODESTO: Economicamente me parece que sim. Mas primeiro eu não sei que escola teria a capacidade de formar a quantidade necessária para cada um.

ALIDE: Mesmo se houvesse um planejamento dimensionando uma escola única com essa capacidade?

GEN. MODESTO: Veja bem, o piloto da Força Aérea, quando é que ele vai ser tornar o piloto de helicóptero? E da Marinha? A formação básica dura quanto tempo? Porque aprender a pilotar a aeronave o piloto vai aprender em 40 horas, o que nós consideramos a formação básica. Depois é a formação específica, de 50 horas. Vale a pena isso? Então, dizer se é melhor ou não, é um estudo que eu acho que merece ser feito e que caberia ao Ministério da Defesa.

ALIDE: Que é um Ministério novo no Brasil e que pode futuramente começar a surgir esse tipo de novidade vindo deles...

GEN. MODESTO: E eu vou citar até uma área mais importante que é a área de logística. Por exemplo, nós fazemos a manutenção das pás do Esquilo para a Marinha. Nós fazemos aqui a manutenção do Esquilo e do Pantera. Com a Marinha a gente faz uma troca em termos de homens/hora. Aqui fazemos a manutenção das pás e depois, lá, eles fazem a inspeção Charlie do nosso Esquilo.

ALIDE: Em relação aos Batalhões, geralmente na FAB existe um Esquadrão com apenas um modelo, na Marinha também. No Exército são quatro modelos diferentes. Como funciona isso?

GEN. MODESTO: Dos nossos batalhões, apenas o de Manaus, pelas suas características especiais, são os quatro modelos. Isso é ruim para a parte logística, pois quanto mais modelos você tem, pior. Nos batalhões aqui, a concepção foi de dois modelos tendo em vista unidade de emprego. Esses dois modelos são helicópteros de reconhecimento e ataque e helicópteros de manobra. O 1° Batalhão tem Esquilo e Pantera, o 2° Batalhão tem Esquilo, Pantera e o Cougar, que foi o último que chegou. Tanto o Pantera quanto o Cougar são helicópteros de manobra. E o 3° Batalhão tem Esquilo e Pantera. Então essa é a organização da nossa Aviação.

ALIDE: Não há uma sobreposição de tarefas entre o Cougar e os Blackhawk ou eles têm papéis muito claramente definidos?

GEN. MODESTO: São papéis muito semelhantes. A capacidade e o volume de carga do Cougar é superior. Leva 22 homens equipados enquanto o Blackhawk leva 14. Mas a função operacional é a mesma.

ALIDE: Então, nesse caso, o Cougar não seria para o Teatro Amazônico mais eficiente que o Blackhawk? Por que optar pelo Blackhawk nesse caso?

GEN. MODESTO: O Blackhawk tem uma vantagem sobre o Cougar porque é uma aeronave mais rústica. O Estado-Maior do Exército vem conduzindo estudos sobre a possibilidade de uma reestruturação.

ALIDE: Hoje nós temos duas bases, Taubaté e Manaus, em termos de litoral não parece...

GEN. MODESTO: Seria importante colocar uma base, por exemplo, em Campo Grande-MS e em outro locais. Só que precisa-se de recursos do Governo Federal.

ALIDE: Nós teríamos meios materiais para abrir uma nova frente ou precisaríamos adquirir novos equipamentos?

GEN. MODESTO: Teríamos. No plano estratégico nós temos até um batalhão previsto para ir para lá. Agora, precisa-se de condições, precisa-se de dinheiro para comprar ferramental... Se decidido, precisamos formar mais gente...

ALIDE: Além de Campo Grande, existem outros locais que são considerados chaves num futuro?

GEN. MODESTO: No nosso nível o que está previsto como necessidade mais urgente é o Comando Militar do Oeste. Não sei se há estudos no Estado-Maior para ampliar a AvEx para outros locais. Mas só a transferência para lá [Campo Grande] depende de muitos recursos. Não é assim, estalando os dedos e “vai”. O que as pessoas devem entender é a manutenção. A manutenção é muito complicada. A logística é muito complicada. Quer dizer, eu vou comprar um helicóptero, o melhor do mundo. Tudo bem, pode até ser. A logística disso, como é que funciona? Qual é a rapidez de eu precisar de uma coisa e isso chegar aqui? Esses são os questionamentos que quem vai decidir sobre a compra tem que pensar. Então não é tão simples assim.

ALIDE: E essa experiência de compartilhar recursos de manutenção que está havendo em Manaus, é natural esperar que ela ocorra também em Campo Grande, por exemplo? Este é um modelo que se prevê que aconteça pelo país afora?

GEN. MODESTO: Eu acho que seria muito bom. Porque sempre que você compartilha - tipo essa experiência que a gente tem com a Marinha - isso proporciona para nós e para Marinha muito grande. É importante que seja incentivado.

ALIDE: General, em Campo Grande, na perspectiva eventual de se abrir uma nova base, ela seria anexa ao aeroporto, como em Manaus, ou seria como aqui, que foi criado um espaço próprio do Exército?

GEN. MODESTO: Quando eu disse que há perspectiva, não é perspectiva de abrir. Também não há estudos. Eu estou dizendo, como militar, como brasileiro. É importante que ou Exército, ou a Marinha ou a Força Aérea tenham mais helicópteros no CMO. Ponto. Agora, se há estudos disso, de nossa parte [AvEx] não. Estamos prontos para, se precisarmos deslocar um batalhão - com manutenção, etc, deslocar. Há estudos disso? Não. Se vai ocupar base aérea, se vai construir nova pista, se vai construir PNR (casas para oficiais que forem deslocados), isso é um estudo complexo. Se for decido que é importante, que vai ser feito e que há recursos para isso [instalação da nova base], então devem ser feitos todos os estudos. Essa informação poderá ser obtida no Estado-Maior do Exército.

ALIDE: Qual é a razão da AvEx ter essa estrutura independente em Taubaté?

GEN. MODESTO: Um das razões foi que o nosso “cliente”, nosso maior usuário da Aviação é a Brigada Leve em Caçapava. As unidades estão aqui em São Paulo, Lorena, Caçapava e agora em Campinas.

ALIDE: Existe hoje alguma diferença de funções entre os batalhões ou todos cumprem as mesmas missões?

GEN. MODESTO: Eles cumprem as mesmas missões, sendo que em um batalhão nós estamos implantando um projeto chamado “Olho da Águia”. Esse projeto permite que eu possa empregar uma aeronave, por exemplo, na Operação Pampa e eu ter imagens em tempo real do helicóptero aqui. O projeto Cougar fica com outro batalhão e o projeto dos óculos de visão noturna, com outro. Mas, especificamente, eles cumprem as mesmas missões.

ALIDE: Na parte de armamento, a AvEx usa algum estande de tiro da FAB, da própria AvEx... Como é feito esse treinamento?

GEN. MODESTO: Nós atiramos na Marambaia e na Escola de Sargentos de Armas.

ALIDE: Sobre o uso de helicópteros de ataque, isso é um tema que vocês comentem?

GEN. MODESTO: O nosso helicóptero de ataque é o Esquilo, de acordo com a disponibilidade de recursos que o país tem. O Apache ou outro qualquer mais acessível? Ótimo. Mas e o dinheiro? Não há necessidade de se gastar dinheiro com isso agora.

ALIDE: Existe a necessidade de se armar o Esquilo com um míssil anti-tanque?

GEN. MODESTO: Nós temos os foguetes SBAT-70 e, por enquanto, estão cumprindo a função.

 

 
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