
Texto: Rodrigo Bendoraytes e Carlos Filipe Operti
No dia 12 de dezembro de 1956, a Marinha do Brasil adquiriu o Navio-Aeródromo britânico HMS Vengeance, logo rebatizado como Minas Gerais. A FAB, em cumprimento à legislação e doutrina em vigor, providenciou a criação da unidade aérea que forneceria os meios aéreos para guarnecer o novo porta-aviões. Assim, em 6 de fevereiro de 1957, foi criado o 1° Grupo de Aviação Embarcada (1° GAE). Inicialmente o 1° GAE foi organizado com dois esquadrões, sendo um de caça e outro de patrulha marítima. Esses planos, porém, foram modificados quando a Marinha do Brasil definiu que o A-11 Minas Gerais seria um porta-aviões anti-submarino. Sendo assim, o esquadrão de caça passou a ser um esquadrão de helicópteros anti-submarino.
Em outubro de 1958, a Base Aérea de Santa Cruz foi escolhida como a sede do 1° GAE e, no mesmo ano, a unidade começou a receber seu equipamento inicial, sendo eles seis North-American B-25 e dois helicópteros Bell H-13J.
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No início do ano seguinte, a unidade recebeu cinco aviões T-6D para serem utilizados no treinamento simulado de pouso embarcado. Em fevereiro essas aeronaves efetuaram o primeiro treinamento no Minas Gerais que acabou conhecido como "Catrapo".
No dia 26 de junho de 1961 as primeiras aeronaves Grumman S2F-1 Tracker, designadas P-16 na FAB, tocaram o solo brasileiro após o translado dos EUA até Belém. O 1° Esquadrão do 1° GAE finalmente recebia seu equipamento definitivo. Na véspera da chegada ao Rio de Janeiro, os integrantes desta primeira esquadrilha reuniram-se para um jantar em Vitória (ES). Um dos pilotos das aeronaves que estavam dando apoio ao translado dos Trackers chamou os pilotos dos P-16 de “Cardeais”, em virtude da semelhança do pássaro com o gorro vermelho utilizado pelos Oficiais Aviadores do 1°GAE. Naquela ocasião ficou marcado que no dia 28 de junho dos anos seguintes, os “Cardeais” se reencontrariam, criando assim o que é conhecida hoje como “Ceia dos Cardeais”.
Em 1962, foi a vez dos Cardeais receberem seis helicópteros Sikorski SH-34J, designados H-34 na FAB, em substituição aos Bell H-13J que operavam no 2° Esquadrão do 1°GAE. Os novos helicópteros dariam a unidade uma grande capacidade de combate anti-submarino.
Mesmo com os seus treze P-16 e seis H-34 recebidos e operacionais, o 1° GAE estava impedido de operar no Porta-Aviões Minas Gerais devido às divergências doutrinárias e políticas entre a FAB e a Marinha do Brasil. A situação só foi resolvida quando o então Presidente Castelo Branco assinou um decreto em 1965 permitindo a reativação da Aviação Naval, com autorização apenas para operar helicópteros. Finalmente, com o impasse resolvido, os P-16 estavam liberados para iniciar sua vida embarcada. Os helicópteros H-34, por sua vez, tiveram que ser transferidos para a Marinha do Brasil conforme o acordo presidencial, dando fim ao 2°/1°GAE.
Durante o período de desentendimento entre as Forças ocorreu um fato importante no país. Barcos pesqueiros franceses realizavam a captura ilegal de lagosta na plataforma continental brasileira. Como alguns barcos insistiam em desrespeitar essa determinação, navios de guerra brasileiros foram deslocados para a região de Natal (RN) com finalidade de expulsar as embarcações do território nacional. A França por sua vez enviou o Destróier Tartu para proteção dos barcos pesqueiros. Essa situação abalou as relações diplomáticas entre as duas nações.
O 1° GAE foi deslocado para Natal em 24 de fevereiro de 1963 com o objetivo de manter o contato com os barcos pesqueiros de dia e de noite, de modo a conhecer sua posição e informar aos navios da Marinha do Brasil. O Destróier Tartu também foi sobrevoado por diversas vezes. Essa missão ficou conhecida como “Operação Lagosta”. O sucesso da missão foi fator importante para que o Brasil obtivesse dos outros países o reconhecimento do direito de exercer sua soberania sobre as águas compreendidas entre o litoral e as 200 milhas marítimas.
Após esse longo período conturbado, finalmente no dia 22 de junho de 1965, o P-16 matrícula 7021 pousou pela primeira vez no A-11 Minas Gerais. Uma data que sem dúvida ficou marcada na história da aviação militar brasileira.
Durante a UNITAS XII, em 1971, o 1° GAE operou pela primeira vez em condições diurnas e noturnas, com qualquer tempo, baseado no Porta-Aviões Minas Gerais. A qualificação noturna obtida nesse ano possibilitou aos Cardeais voarem continuamente 36 horas com rendição no ar e realizando missões anti-submarino.
Uma nova fase estava para chegar. Em 1974 foram adquiridos oito Grumman S-2E Tracker oriundos dos estoques da US Navy, sendo que as primeiras aeronaves, batizadas de P-16E, chegaram em dezembro de 1975. A aquisição dos P-16E constituiu, sem dúvida, um grande passo dado pela FAB, no sentido de evoluir na direção dos sofisticados equipamentos e táticas usados na moderna guerra anti-submarino.
Com a chegada das novas aeronaves, algumas mudanças foram feitas. O 2°/1° GAE foi reativado absorvendo todos os P-16 originais do primeiro lote, que foram rebatizados como P-16A, enquanto os novos P-16E foram para o 1°/1°GAE. A função de combate anti-submarino passou a ser exclusividade dos “Echos”. O 2°/1° GAE por sua vez ficou responsável pelo treinamento e transporte. Para essa última tarefa foram convertidas oito células para o padrão UP-16 com capacidade para transportar até cinco passageiros, porém com a perda de todo equipamento ASW.
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Em janeiro de 1974, os Cardeais perderam temporariamente sua base no mar, quando o NAeL Minas Gerais parou para manutenção e só voltou aos mares em 1980. Foram feitas reformas e reparos que o capacitaram para mais alguns longos anos de atividade. No dia 14 de abril de 1980, os P-16 voltaram a pousar no porta-aviões. Foram feitas qualificações e requalificações de pilotos e OSP (Oficiais Sinalizadores de Pouso), permitindo o retorno à sua plena operacionalidade em curto espaço de tempo.
Durante o início da década de 80, os P-16A e UP-16 já estavam sentindo o peso de seus mais de vinte anos de operação. Em 1984 todos foram retirados de serviço, deixando o 2°/1° GAE mais uma vez sem aeronaves. Enquanto isso, a FAB já estudava uma possível modernização da versão “Echo”, ainda em operação. Em 1988 foi dado início ao processo de modernização das aeronaves para o padrão S-2T Turbo Tracker. Uma das principais alterações foi nos motores, com a troca dos velhos Wright R-1820-82C pelos turbo-hélices Pratt & Whitney PT6A-67CF. A aeronave 7036 foi enviada para as instalações da IMP, empresa vencedora da licitação, no Canadá. O novo Turbo Tracker da FAB voou pela primeira vez em 1990 e no mesmo ano seguiu para a Base Aérea de Santa Cruz para dar prosseguimento aos testes. No ano seguinte, já ostentando a nomenclatura P-16H, a aeronave fez seus primeiros pousos e decolagens do Porta-Aviões Minas Gerais.
Com a iminência da modernização dos demais P-16E, o 2°/1°GAE recebeu em 1992 duas aeronaves P-95A (7056 e 7057) para que os pilotos se adaptassem ao vôo com motor turbo-hélice. No entanto, nada estava bem com o programa de modernização dos Trackers. A falta de recursos em conjunto com a inexperiência da empresa responsável fez com que o programa fosse cancelado em 1996, selando definitivamente o futuro do Grumman S-2 Tracker na FAB. Como já era esperado, os P-16 foram aposentados no mesmo ano, o que causou um grande choque no Grupo. O 1° Grupo de Aviação Embarcada, de tantas glórias, perdera o motivo de sua existência. Porém continuou voando com os dois P-95A recebidos em 1992 e um terceiro (7060) recebido em 1994, até que em 1999 o Grupo foi definitivamente desativado.
| Nasce o 4° Esquadrão do 7° Grupo de Aviação |
A transição do 1º GAE para 4°/7° GAv não foi um processo fácil. Não por dificuldades técnicas ou de ordem operacional. A missão que o esquadrão passaria a fazer com o P-95A, o esclarecimento marítimo visual e eletrônico, já era feita desde os primórdios da unidade, ou seja, ela tinha mais de 30 anos de experiência nessa atividade. E com relação a aeronave, a grande maioria dos pilotos já voava o Bandeirulha desde que ele chegou a Santa Cruz. O âmago da questão era mais moral do que operacional. O fim da era P-16 trouxe ao esquadrão o encerramento das atividades embarcadas, o encerramento das missões de guerra anti-submarina. Acabou com toda uma vida operacional iniciada quase 40 anos antes. Apesar do P-16 ser um avião antigo, sujeito a muitas panes, ele cumpria a missão para qual o esquadrão tinha sido criado. A gama de atividades que ele efetuava – lançamento de vários tipos de armamentos, sonobóias, detecção de submarinos e embarcações de superfície – era um motivo de orgulho de sua tropa.
Enquanto o P-95, apesar de mais moderno e com equipamentos – MAGE e radar – melhores, tinha uma atuação muito mais limitada dentro de um cenário operacional, em comparação com o Tracker. Essa perda do status operacional e a comparação com o P-16 fez com que a reação inicial ao Bandeirulha fosse de rejeição. Também chegou-se a cogitar a mudança do nome do 4º/7º para outro que não fosse “Cardeal”, porque esse remetia à era 1º GAE, medida essa que não chegou a ser efetivada. E durante algum tempo esse foi o panorama inicial dentro do esquadrão.
Aos poucos, em meio a um grande trabalho conjunto de elevação moral da unidade, essa cena foi mudando. O foco de pensamento se voltou para a nova missão que o esquadrão desempenhava, o que resultou na descoberta de que o P-95 era sim um avião que cumpria bem a tarefa ao qual ele tinha sido incumbido. A rejeição foi gradualmente se tornando uma afeição pelo avião e pela sua missão, elevando novamente o moral da tropa e elevando junto a eficiência no cumprimento da missão. Além disso, o 4º/7º GAv ficou responsável por manter a doutrina de guerra anti-submarina da FAB. Mesmo não efetuando essa missão, todos os militares que passam pelo esquadrão são adestrados na teoria (baseada em toda a experiência adquirida com o P-16) para operações ASW.
E o esquadrão também é o mantenedor das tradições do 1º GAE, tendo inclusive sido o responsável por espalhar o uso do boné vermelho (tradição da “Embarcada”) pelas demais unidades de patrulha da FAB. Hoje o 4º/7° GAv efetua com louvor as missões de patrulha anti-superfície da FAB, além de ter no P-95 uma excelente plataforma de SIGINT/ELINT, que eles usam com extrema sabedoria, e sem nenhum preconceito mais.
Audazes Cardeais não recuam jamais !! MAD MAN !!
Atuais aeronaves do 4°/7° GAv:
Matrícula na FAB |
Data de recebimento no esquadrão |
Unidade de origem |
7050 |
02/08/1999 |
PAMA-BE |
7056 |
26/06/1992 |
PAMA-AF |
7057 |
15/06/1992 |
2°/7° GAv |
7060 |
22/04/1994 |
PAMA-AF |
Veja aqui o walkaround dos P-16A/E
Veja aqui o walkaround do P-95A "Bandeirunlha"