Texto: Pierre Vincent e Felipe Salles

 Hospital de Campanha

A Força Aérea brasileira deslocou para a Base Aérea de Anápolis, especialmente para dar suporte às operações envolvidas na CRUZEX III, um hospital de campanha completo. Composto por barracas climatizadas, o conjunto é capaz de realizar desde procedimentos simples a cirurgias complexas como intervenções neurológicas.

Todo o conjunto, desde as barracas até todo o instrumental e equipamento de suporte pode ser transportado de forma paletizada em uma aeronave C-130 Hércules, levando cerca de 48 horas para ser colocada em condições de operação em situações normais.

Apesar do HCAMP destinar-se a intervenções paliativas necessárias antes da remoção do paciente a um local com maior infraestrutura, o conjunto tem condições para a realização de exames de rotina e outros procedimentos ambulatoriais.

A flexibilidade e capacidade do HCAMP são fundamentais à FAB no deslocamento de grandes efetivo para operações em áreas mais afastadas de centros urbanos ou mesmo nestes casos quando se pretende garantir um atendimento imediato às tropas.

 

 

  MAPRE - Módulo de Alimentação a Pontos Remotos

Digno de nota, o Módulo de Alimentação a Pontos Remotos, ou simplesmente MAPRE, cuja patente foi doada à Força Aérea Brasileira pelo oficial intendente que o desenvolveu, provê uma enorme capacidade de abastecimento de tropas sem nenhum auxílio externo por um período surpreendentemente longo, considerando-se as dimensões do sistema.

A FAB possui algumas unidades tanto no modo de container como no modo "sobre rodas", que consiste num único container montado sobre um caminhão.

No primeiro modo, o conjunto é composto por seis containeres que podem ser simultaneamente transportados em uma aeronave C-130 Hércules já com todos seus suprimentos, incluindo energia. Nesta versão, uma unidade MAPRE é suficiente para fornecer 4 refeições por dia para 250 homens durante 25 dias.

O sistema "sobre rodas", denominado Rodo MAPRE tem a vantagem de também poder ser transportado em uma aeronave C-130 Hércules ou por via rodoviária. Significativamente menor, esta variação é capaz de garantir 3 refeições diárias para 120 homens durante 12 dias.

Durante o Exercício, a ALIDE provou e aprovou o produto do Módulo de Alimentação a Pontos Remotos.

 

  Entrevista com o Gen. Jacques Cazamea da Armée de l´Air

A ALIDE teve a exclusiva oportunidade de conversar com o General da Armée de l'Air Jacques Cazamea, que em sua carreira de piloto voou mais de 3.400 horas em aeronaves Mirage IIIC, Mirage 2000C, Mirage F-1 e Jaguar, sobre alguns aspectos da CRUZEX e do cenário atual das forças aéreas latino americanas.

Para o General, o exercício é uma oportunidade de treinar a capacidade de deslocamento da Armée de l'Air, além de demonstrar sua presença e interesse na sua possessão sul-americana, a Guiana Francesa. Território, aliás, que tem importância estratégica para a França por conta da excelente posição para lançamento de satélites.

Segundo Cazamea, que já participara da segunda edição do exercício Cruzeiro do Sul, em 2004, cerca de dez oficiais franceses de planejamento visitaram o Brasil em três ocasiões diferentes, passando aproximadamente uma semana em cada visita, durante um ano que antecedeu a realização do exercício, como parte dos preparativos.

Para esta terceira edição, afirmou o General, a Força Aérea Brasileira pouco precisou de auxílio no planejamento, por já estar bem preparada e avançada em matéria de planejamento de operações e de comando e controle.

Por outro lado, para os sul-americanos, de maneira geral, falta experiência em Operações Aéreas Combinadas, ou simplesmente COMAO (Combined Air Operations), e a CRUZEX é uma ótima oportunidade para a prática deste tipo de atividade, que consiste no emprego de diversos meios aéreos de diferentes funções para o cumprimento de uma ou mais missões que, se fossem realizadas de maneira independente provavelmente não apresentariam a mesma chance de sucesso.

Sobre o equilíbrio entre as forças aéreas das nações sul-americanas, Cazamea acredita que não haja muita diferença, já que o nível de proficiência entre os pilotos é muito semelhante. A vantagem de equipamento, disse, ficará com a Venezuela após a chegada dos Flankers, embora a Força Aérea Brasileira seja a mais completa em comando e controle.

 

  Entrevista com a Ten. Maria Etcheverry

Única mulher sul-americana habilitada para pilotar caças a participar do exercício, Maria Etcheverry completou 30 anos na quarta-feira da primeira semana de operações, no período dos vôos de integração e familiarização (FAM/FIT Flights).

Filha de um oficial da Fuerza Aérea Uruguaya, ingressou na carreira militar sem os presumíveis incentivos da família, que no início acreditava não serem as forças armadas o melhor caminho para a filha.

Depois da instrução primária no Cessna 150, denominado T-41D na FAU, passou por outras aeronaves, como o Pilatus PC-7 e o Aermacchi SF.260U. Não chegou a ter experiência como tripulante do IA-58 Pucará, que também fez parte da CRUZEX III nas cores da FAU, já que esta aeronave não é utilizada como treinamento a exemplo da Fuerza Aérea Argentina, mas tão somente como vetor de ataque.

Etcheverry acredita que não houve preconceito pelo fato de ser mulher, já que a Força Aérea de seu país, por ser extremamente competitiva, dá lugar àqueles que se superam e se destacam dos demais, sejam eles homens ou mulheres.

 

  Debriefing

Como em toda operação de grande magnitude, como é o caso da CRUZEX III, as lições levam um certo tempo para penetrar no cotidiano das forças envolvidas e ocasionar as diferenças que depois aparentam sempre tão óbvias. Outros exercícios de menor monta, com ou sem a participação de aeronaves, ainda serão realizados, cursos serão preparados, muitas horas serão gastas para que a Força Aérea Brasileira possa extrair o máximo de uma oportunidade tão única como a presenciada pela terceira edição do Exercício Cruzeiro do Sul.

Fica a certeza de que a ALIDE estará lá para trazer aos leitores tudo o que for possível sobre as novas lições aprendidas e criadas pelos profissionais que tiveram a oportunidade de participar da CRUZEX III.

 

 
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