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A data de
31 de dezembro de 2005 não representou apenas o fim de
mais um ano, foi a conclusão da era do Mirage III na Força
Aérea Brasileira. Para marcar esse momento, no dia 14 de
dezembro, foi realizada na Base Aérea de Anápolis,
próximo de Goiânia, a cerimônia de encerramento
da atividade operacional do Mirage III no Brasil. Num evento tão
significativo como este, a ALIDE não poderia deixar de
comparecer.
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O evento na Base Aérea de Anápolis |
O Início do evento estava marcado para 9h e nós,
meia hora antes, já nos encontrávamos estacionados
na frente do portão da Base, no final de uma bela alameda
de eucaliptos com mais de 2 Km de comprimento. Construída
no início da década de 70 especialmente para receber
os novos Mirage III, a Base Aérea de Anápolis fica
num platô mais alto que o resto da cidade, que nos últimos
35 anos cresceu junto com ela. Este não foi um simples Portões Abertos, foi um evento fechado, quase íntimo,
de família. Uma oportunidade para os “Jaguares”
de hoje homenagearem todas as pessoas e unidades da FAB, que no
passado contribuíram, de forma efetiva para que a operação
dos Mirage III ocorresse de forma eficaz e segura durante todos
estes anos.
A imprensa local veio em bom número. Especialmente as
afiliadas das grandes redes de televisão nacional. Todos
sabem que um Mirage III manobrando em vôo produz as mais
belas imagens. No circuito de imprensa especializada além
de duas ou três revistas tradicionais, cada vez mais se
percebe a presença de novos meios, especialmente aqueles
vindos da Internet como a Base Militar Web Magazine e diversos outros
sites e “Blogs”.
O CECOMSAER forneceu para imprensa um briefing inicial sobre
o evento e fomos levados para o pátio dos hangaretes, onde
um palanque foi montado para abrigar as autoridades. Oito Mirages
ocupavam os hangaretes à esquerda deixando os dois da direita
livres para acomodar os convidados. Uma ausência inesperada
neste dia foi a do Comandante da Aeronáutica, Brigadeiro
Bueno, que devido a uma convocação de última
hora para discursar, numa comissão do Congresso, não
pode estar presente.
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Convidados de todo o Brasil |
Os aviões presentes no pátio indicavam a origem
dos muitos convidados: dois AT-26 do 1°/4° GAv de Natal,
dois AMX de Santa Maria, um C-95 do PAMA-SP, parque responsável
pela manutenção dos Mirages desde sua introdução
em serviço. Um dos protótipos do Embraer Brasília,
o YC-97, trouxe os convidados do PAMA-AF no Rio e um C-99A
do 1°/2° GAv da BAGL trouxe os convidados VIP do Rio de
Janeiro e de São Paulo. Os convidados da Capital Federal
vieram em um C-97 do 6° ETA de Brasília. Também estava presente
um XT-27 do CTA ostentando na cauda, orgulhosamente,
o “X” da frota de aviões de ensaios.
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A Cerimônia e os Dijon Boys |
A maioria dos presentes era composta de oficiais e praças
reformados, cada um com seu pedacinho da história dos Mirage
no coração. Os convidados mais ilustres daquela
tarde foram os “Dijon Boys”. Um grupo de oito oficiais
de caça da FAB que foram enviados à França
para receber o primeiro treinamento nos, então novíssimos,
aviões supersônicos.
Dijon Boy 1 - Coronel Aviador Antônio Henrique Alvez dos Santos
Dijon Boy 2 - Tenente Coronel Aviador Jorge Frederico Bins
Dijon Boy 3 - Tenente Coronel Aviador Ivan Moacyr da Frota
Dijon Boy 4 - Major Aviador Ronald Eduardo Jaeckel
Dijon Boy 5 - Major Aviador Ivan Von Trompowski Douat Taulois
Dijon Boy 6 - Major Aviador Lúcio Starling de Carvalho (falecido)
Dijon Boy 7 - Major Aviador Thomas Anthony Blower
Dijon Boy 8 - Capitão Aviador José Isaías Villaça
Destes, os Dijon Boys Villaça,Trompowski e Blower foram
selecionados para sobrevoar Brasília com os
Jaguares atuais, anunciando o fim de uma era.
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Inspeção visual pré-vôo no Mirage
III |
Concluídas as etapas formais iniciais do evento, o Tenente-Coronel
Isaías, o Jaguar 167, pediu ao Brigadeiro William, Comandante
do Comando Geral de Operações Aéreas (COMGAR),
a autorização para decolar. Os três felizes
veteranos e seus jovens pilotos se dirigiram para as carlingas
dos Mirage IIIDBR. O número de aviões que voariam
estava determinado em função das condições
atmosféricas do dia. Se o teto estivesse maior do que 800
pés, as oito aeronaves estacionadas nos hangaretes voariam.
Se estivesse entre 400 e 800 pés, apenas quatro fariam
o vôo, e se estivesse abaixo de 400 pés, apenas uma
voaria.
Um após o outro, os Mirages taxiaram lentamente pra fora
da sombra protetora dos hangaretes. Primeiro o “09”
seguido pelo “04”, o “24” e finalmente
o “06”. Eles viraram à esquerda numa fila indiana
até a cabeceira da pista 06. Um monoplace e três
biplaces, configurados com dois tanques subalares e um ventral,
se alinharam na beira da pista sob o céu carregado de nuvens
escuras. Os deltas decolaram, um após o outro, levando seu
próprio tempo para rotacionar e tirar suas rodas do solo.
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"Eu sou você amanhã" - Chegam os F-5E |
Até a chegada dos novos caças, a defesa aérea
do Planalto Central, será realizada por um par de Northrop
F-5E pertencentes ao 1° GAvCa de Santa Cruz e ao 1°/14°
GAv de Canoas. Estes aviões e pilotos serão mantidos
em Anápolis num rodízio que levará em conta
as disponibilidades e seus cronogramas de manutenção
de célula. Quase que como lembrando este fato, às
11h10, dois F-5E de Santa Cruz pousaram juntos pela cabeceira
24. Eles rolaram até o fim dos 3.300 metros da pista, retornaram
pela taxiway lentamente até estacionarem entre os AMX e
os Xavantes.
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As passagens dos Mirage e o pouso |
Cerca de uma hora após a sua decolagem, pousou o primeiro
Mirage, o 4906, o que levava o Major Aviador Blower.
Os três Mirages ainda em vôo, realizaram três
passagens em baixa altitude sobre a pista ao voltarem de Brasília.
Vieram em formação. O “09” era o líder
e o “24” ocupava a ala esquerda. O líder se
separou para a esquerda ganhando altitude e os demais fizeram
o “pilofe” à direita para pousar, neste momento
ouviu-se o forte estrondo, parecia que havia ocorrido uma tragédia,
mas era apenas o 4904 rompendo a barreira do som. Em alguns minutos
reapareceu o último Mirage, voando de volta para a região
do aeródromo, para o pouso.
O Mirage IIIDBR “04” com o Major Aviador Trompowski e o monoplace
4924 pousaram um após o outro. O último avião
a retornar foi o “09” com o Comandante do 1°GDA, o Ten-Cel
Isaías Carvalho e o Cap Villaça.
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A Cerimônia de "empacotamento" do Mirage |
A segunda fase do evento transcorreu dentro do hangar do 1°GDA,
justo no momento em que a chuva que se insinuava por toda a manhã
resolveu despencar sobre a base. No interior outros cinco Mirages
III e três motores SNECMA ATAR 9C estavam em exibição
entre as mesas. Os Dijon Boys e seus instrutores franceses foram
premiados por sua relevante contribuição para o
desenvolvimento da FAB. Os órgãos responsáveis
pela operacionalidade do Mirage foram relembrados e seus representantes
receberam placas alusivas à data.
O Ten-Cel Isaías, Comandante do 1°GDA, no seu discurso,
lembrou aos conviadados que:
"... nós pilotos e mecânicos do Mirage
III sabemos, de fato, qual o sentimento que aperta os nossos corações
e nos faz chorar na despedida deste grande avião, que se
tornou mestre, amigo e irmão. Não importa a máquina
que venhamos a operar no futuro, o F-103 sempre será a
aeronave mais marcante de nossas carreiras.”
O último detalhe desta cerimônia foi a “embalagem”
final do 4910, o primeiro Mirage monoplace entregue. Uma capa
de vinil cinza foi abaixada de um guindaste no topo do hangar
e em poucos minutos encobriu o veterano avião.
O zíper deste invólucro foi fechado finalmente pelo
Jaguar 01, Coronel Antonio Henrique, e pelo Tenente-Brigadeiro-do-Ar
William de Oliveira Barros .
Foram 32 anos, 225 pilotos de Mirage formados na FAB e 66.836:55
horas de vôo desde 27 de março de 1973, quando o
FAB 4910 fez seu primeiro vôo no Brasil. O Mirage não
foi apenas o primeiro supersônico, foi também o pioneiro
no uso de mísseis ar-ar e radar de bordo. Ser um Jaguar,
é estar entre os “poucos que tiveram a oportunidade
de ultrapassar 48.000 pés de altitude, subindo com Mach
1.6 ou realizar uma aproximação de precisão
real, com 190 nós, na final”, disse o Ten-Cel
Isaías.
A própria unidade que iria operar os Mirage III se constituiu
num laboratório organizacional único dentro da FAB.
Pela primeira vez, a administração da Base Aérea
e a da unidade aérea eram combinadas numa única
estrutura, a “Ala”. Assim, foi criado a 1ª ALADA,
a Primeira Ala de Defesa Aérea. Em 1979, esse exercício
embora exitoso foi revertido, sendo criado um comando da Base
Aérea de Anápolis e outro do 1°GDA, o Primeiro
Grupo de Defesa Aérea.
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Detalhes das armas e sistemas dos Mirage III |
Seus substitutos, os doze Mirage 2000C/B comprados da França
em 2005, chegarão a Anápolis a partir de 2006.
Eles virão de quatro em quatro, ao fim de cada ano. Durante
este período de transição, um número
ainda não especificado de Xavantes, vindos do 1°/4°
GAv, será cedido aos Jaguares para a manutenção
das habilidades de vôo dos seus pilotos.
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Os Jaguares após os Mirage III |
O futuro dos Jaguares, porém, é menos claro que
o seu princípio. O programa F-X que deveria escolher o
substituto do Mirage III, foi cancelado após muitos adiamentos
e uma longa interrupção. Lobbies organizados, bem
financiados e politicamente influentes disputaram tenaz e arduamente
na mídia, no Congresso e junto ao Executivo, a seleção
do novo caça. Os aviões russos Sukhoi Su-35 e Mig-29,
o anglo-sueco Saab JAS-39 Gripen, o americano Lockheed F-16C/D
e o francês Dassault Mirage 2000-5 Mk2 (chamado aqui de
Mirage 2000BR) oferecido pela EMBRAER, se sucederam como favoritos
ao longo do processo encerrado anti-climaticamente no final de
2004. Essa “não-escolha” acabou preparando
o terreno para a contratação, diretamente do Governo
Francês, de dez Mirage 2000C e dois Mirage 2000B de segunda mão. Estas
aeronaves nem de longe se comparam aos cinco que disputaram o F-X.
Dentro da FAB transparece uma ansiedade velada de que esta solução
“temporária” acabe se transformando em “definitiva”.
Por outro lado, o tradicional nome do Grupo de Defesa Aérea
é um ponto questionável paro futuro. Isso porque
uma vez que qualquer um dos cinco concorrentes do F-X , o Mirage
2000C, e até mesmo o Mirage III EBR nestes últimos
anos, realizavam missões de ataque ao solo, em paralelo
às suas funções tradicionais de defesa aérea.
Ainda no primeiro semestre de 2006, um restrito grupo de pilotos
do 1°GDA será enviado para a Base Aérea de Orange,
na França, para ser treinado no novo Mirage 2000. Estes
“Orange Boys” tem tudo para serem lembrados no futuro
com a mesma reverência que se dedica aos seus antecessores,
os “Dijon Boys”. Quem for selecionado sabe que terá
seu nome definitivamente gravado na história da Força
Aérea Brasileira. Quem serão estes felizardos? Em
poucos meses saberemos. Bon Voyage mes amis!
O "Dijon Boy" Ivan Von Trompowski Douat Tauloisi, sorridente e ainda com os cabelos brancos despenteados
após seu vôo supersônico, foi quem melhor resumiu
a relação destes homens com o Mirage III: “Não
existe como não nos ligarmos afetivamente ao Mirage, pois
ele é o único avião com alma”!
Mirage III EBR, o céu é seu!

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