O Hércules selecionado para acompanhar os Tucanos até o Chile foi o 2466, do 1° Esquadrão do 1° Grupo de Transporte da Base Aérea do Galeão. Este avião é especial por apresentar a pintura experimental uniforme em verde escuro com marcações low-viz e, por isso, sempre chama muita atenção por onde quer que passe. Nossa partida está agendada para as 9h na segunda, dia 27 de março. O dia amanheceu nublado com nuvens pesadas cobrindo o aeródromo e o chão do pátio se encontrava molhado devido a uma leve chuva que caiu durante a madrugada. Havia três Hércules do Gordo na pista prontos para partir, um iria para Florianópolis, onde o resto Esquadrão se encontrava em manobra, outro para Recife e o terceiro era o nosso. Aguardei na casinha do SCOAM (Seção de Controle de Operações Aéreas Militares), local onde são registrados todos os planos de vôo, até que um dos sargentos veio me buscar para o embarque. A tripulação já estava a bordo e realizava o acionamento dos motores e os checks pré-vôo. O avião estava vazio e iria assim até Pirassununga, onde os pallets de carga e o pessoal de apoio da Esquadrilha subiriam a bordo.
Partimos na hora certa, porém, um dos geradores elétricos do C-130 aparentava pane e foi decidido que voltaríamos para solicitar uma avaliação dos mecânicos, embora este problema não fosse nenhum grande impedimento para a realização da missão. Como a viagem era longa, seria então mais prudente resolver este problema logo, antes de deixarmos o Rio de Janeiro. Uma hora e 45 minutos depois, uma nova partida, agora com tudo perfeito, o céu já abrira, a temperatura subira e o pátio já estava bem seco. Decolamos da cabeceira 10, curvamos para sul e seguimos sobre a Zona Sul carioca, pela orla até entrarmos no Estado de São Paulo. Neste ponto viramos em direção do interior e o chão tomou a forma de campos e colinas com retângulos de muitas tonalidades de verde, o sinal da terra cultivada. Ao redor da Academia da Força Aérea está uma das principais áreas de plantio de cana de açúcar do Brasil. A AFA conta com três pistas paralelas sendo duas com cerca de 2100m, à esquerda dos hangares e edifícios, e uma menor à direita com 1300m. Nós pousamos pela pista 02C estacionando em frente ao terminal do CAN, bem próximo do hangar e edifício sede do EDA.
Nosso atraso de quase duas horas fez com que, ao desembarcarmos, os oito Tucanos já estivessem taxiando em direção à pista para a decolagem. Os T-27 tem uma velocidade de cruzeiro menor do que a do C-130, assim, sempre saíamos depois deles e inevitavelmente pousávamos antes. Enquanto almoçávamos no refeitório da Academia, os três pallets foram carregados e o pessoal subiu a bordo. Os dois outros fotógrafos que iriam viver esta experiência comigo já estavam nos aguardand opor lá.
Decolamos em seguida, nosso próximo passo era a Base Aérea gaúcha de Santa Maria, onde pernoitaríamos. O Hércules é capaz de realizar pernadas de mais de sete horas com facilidade, no entanto, o Tucano não. Nosso roteiro foi planejado em torno das necessidades dos pilotos a Fumaça que, após três ou quatro horas, imobilizados no pequeno cockpit do treinador, sem dúvida apreciariam a oportunidade de dar uma espichada e caminhada, antes de seguir adiante na viagem.
Assim que é agendada uma apresentação da Fumaça numa localidade dentro do Brasil, um oficial da Fumaça vai ao local 30 dias antes com seu T-27, para garantir que todas as condições mínimas exigidas são atendidas. Esta missão é chamada de “precursora”, e pode ser realizada por qualquer um dos pilotos da equipe, sempre acompanhado por um mecânico. Eles levam um checklist que avalia a existência de itens-chave como carro de som, ambulâncias, bombeiros, lancha de resgate (quando sobre um lago ou no mar), isolamento (para garantir a segurança do público), assim como os planos de divulgação do evento na região. Nos últimos sete anos, apenas um evento foi cancelado neste estágio e, assim mesmo, por completa impossibilidade geográfica da área do evento. Um item muito importante é a realização de um clipping completo dos jornais da localidade com a repercussão da apresentação na mídia. Essa é a forma pela qual a FAB avalia o custo benefício do seu investimento na Fumaça.
A BASM fica na cidade do mesmo nome, no centro sul do estado do Rio Grande do Sul. Chegamos no final da tarde, após um vôo de 2h50min de duração. Aqui fizemos nossos trâmites normais de saída da Alfândega e da Imigração, uma vez que nossa próxima parada já seria em Córdoba, na Argentina. A tripulação do nosso avião e o pessoal da Fumaça foi acomodado na própria Base, e nós, civis, dormimos num hotel na cidade.
No dia seguinte já estávamos na Base às 7h30min horas da manhã, prontos para seguir no nosso caminho. No pátio conosco estava um Brasília C-97 do 3° ETA, lá do Galeão. Tendo sido confirmada a sessão de fotos ar-ar sobre os Andes, o Oficial de Manutenção do EDA, Capitão Especialista Massahiro, conseguiu emprestado com o 5°/8° GAv dois “macaquinhos” adicionais para nós. Este apetrecho é um colete com um “rabo” de nylon pesado com gancho metálico na ponta. Com ele podemos fotografar com a porta do Hercules aberta sem maiores riscos .
Os Tucanos decolaram apenas para descobrir que uma das aeronaves não conseguia recolher o trem de pouso principal. Por isso todos retornaram e após alguns breves minutos de atenção técnica e a troca de um prosaico relê, eles se dirigiram de volta para a cabeceira da pista e decolaram para a Argentina. Nós seguimos imediatamente atrás.
Córdoba é um dos principais pólos industriais da Argentina. É lá, inclusive, onde se localiza a LMAASA - Lockheed Martin Aircraft Argentina S.A, novo nome da privatizada Fábrica Militar de Aviones (FMA). Enquanto pertencia ao Estado, esta empresa projetou e construiu uma série impressionante de aeronaves, incluindo aí os dois únicos caças a jato projetados totalmente na América do Sul, os Pulqui I e II. Hoje como empresa do Grupo Lockheed Martin, está focada em desenvolver adicionalmente o treinador local IA-63 Pampa. Nesta cidade também fica a Academia da Força Aérea Argentina, onde os cadetes voam inicialmente nos antigos Beech T-34 Mentor e em seguida passam para os T-27 Tucanos da Embraer.
A Academia é composta por vários prédios clássicos de arquitetura tradicional européia, com um espírito decididamente alpino. Os jardins e gramados manicurados, as alamedas de pinheiros e grandes árvores sugerem a aparência das mais tradicionais universidades americanas. Sem dúvida um lugar mais do que adequado para os estudos dos futuros pilotos da Fuerza Aérea Argentina. Nosso almoço contou com a presença de vários oficiais da Academia que com satisfação explicavam seus planos para o evento criado em torno da exibição que a Fumaça faria ali no trajeto de volta.
Partimos para Mendoza e 1h15min depois chegamos numa Base Aérea tranqüila e com um céu azul impecável, iluminada por um sol poente, para nenhum fotógrafo que se preze reclamar. Rapidamente para um Hotel na cidade e, na manhã seguinte, às 7h já estávamos todos de volta, pois neste trecho é que faríamos as fotos sobre os Andes. O pernoite em Mendoza objetivava que os Tucanos não cruzassem os Andes ao fim de um longo e árduo trajeto desde Santa Maria. A curta distância até Santiago seria coberta em não mais de 1h45min. Assim que nivelamos após a decolagem, fomos levados para a traseira do Hércules e devidamente afivelados às presilhas de carga que cobrem todo o piso da aeronave de carga.
A porta traseira do C-130 é dupla, uma superior, que se dobra para cima e pra dentro, e outra, que abre para baixo e para fora. Para fotos ar-ar, apenas a superior é recolhida, abrindo um panorama desobstruído de aproximadamente 3 por 1,5 metros. A nossa sessão de fotografia foi espremida dentro do trecho final, assim não teríamos muita oportunidade de ficar alterando a posição dos aviões em busca dos melhores ângulos e da melhor iluminação. A região que sobrevoávamos estava sem neve, mas as montanhas formavam vales e picos muito bonitos, riscados por rios e pontilhados por lagos. Nossa altitude de rendezvous foi estipulada em 14.000 pés, bem abaixo da altitude de cruzeiro do C-130 que, ao longo do trajeto, rondava os 20.000 pés. Nesta altitude, poderíamos despressurizar a aeronave sem correr o risco de ameaçar a segurança dos demais tripulantes.
Os T-27s logo apareceram em duas formações em diamante, cada uma com quatro aeronaves. A aeronave número 5 pilotada pelo Maj César Andari ficou com a tarefa de filmar as evoluções desde um outro ângulo, se destacando do grupo que neste instante já estava formado abaixo da traseira do Hercules. Quarenta minutos e algumas suaves curvas para direita e para a esquerda depois, os T-27 se afastaram e a porta traseira do C-130 foi fechada, já íamos pousar.
| Santiago – Arte e Habilidade nos Céus Chilenos |
A Fumaça realizou uma demonstração diária na FIDAE na quinta e na sexta e duas no sábado e no domingo. Os “breaks”, loopings, o coração, a formatura com os alas invertidos, cada nova manobra deixava o público ainda mais encantado. A mensagem escrita no ar que variava a cada apresentação pegou todos de surpresa. Uma hora era “Brasil-Chile”, na outra, em consonância com as diretrizes da FAB neste ano de 2006: “14 Bis – 100 anos”. Infelizmente as rígidas restrições de vôo impostas à Esquadrilha da Fumaça fizeram com que suas evoluções ocorressem um tanto afastadas, mas isso não diminuiu o deslumbramento do público. Muito simpático mesmo foi o esforço dos locutores da Fumaça em falarem um espanhol claro e correto, interesse que os locutores das demais forças aéreas visitantes em momento algum demonstraram.
Após uma segunda de descanso para todos na terça-feira a nossa partida acabou atrasando devido ao problema hidráulico de um dos F-15C, o que fez com que o C-130 decolasse bem depois dos Tucanos. Por coincidência, o Hércules da volta era o mesmo 2466 que havia nos trazido. A idéia de fazermos mais uma sessão de fotos sobre os Andes teve de ser abandonada por essas dificuldades de sincronização dos nossos vôos.
Antes de decolarmos, os Tornados e os VC-10 passaram por nós se dirigindo para a cabeceira.
| Como se forma um Fumaceiro? |
Nesta missão, além dos sargentos e suboficiais especialistas (mecânicos), vieram onze pilotos, um oficial de manutenção e uma oficial médica. A escolha destes pilotos é um processo muito exigente que começa pelo fato de cada membro da Fumaça é necessariamente um voluntário. Os currículos dos candidatos são analisado pelo grupo como um todo e a lista de candidatos vai sendo depurada até que sejam escolhidos os novos membros da Esquadrilha. O compromisso mínimo exigido com a Fumaça é de três anos, mas geralmente este período se estende a quatro. Todos os candidatos devem ter sido instrutores da Academia da Força Aérea, com um mínimo de 1.500 horas de vôo no total e pelo menos 800 destas horas dando instrução no T-27. Um instrutor da AFA acumula anualmente cerca de 300 horas de vôo nos Tucanos. Após as primeiras mulheres oficiais aviadoras que se formam na Academia este ano, é bem provável que daqui há alguns anos venhamos a ter as primeiras Fumaceiras pilotando os Tucanos pelo Brasil e pelo mundo afora.
Em Córdoba, na terça à tarde, a festa foi completa e exclusiva da Fumaça. Pousamos com os Tucanos no solo já há bastante tempo. No pátio, eles estavam dispostos em duas fileiras de quatro aeronaves e o nosso C-130 estacionou ao lado direito deles. Um almoço rápido e os mecânicos já haviam preparado dos aviões da Fumaça para a decolagem. O público, inicialmente previsto para ser apenas os militares e suas famílias, se expandiu para incluir as crianças das escolas locais, que ganharam um feriado inesperado, bem no meio da semana. De um momento pra outro, surgida do nada, uma imensa massa de curiosos ocupou todo gramado entre o prédio principal da Academia e o pátio onde estavam os aviões. O show aqui foi espetacular, embora as manobras fossem essencialmente as mesmas vistas em Santiago o avião solo teve a liberdade de sobrevoar o público de surpresa, causando grande comoção, assobios e gritos. Como aqui a demonstração aérea ocorreu bem mais próximo do público, o efeito ficou ainda mais impressionante. Rapidamente, como surgiram, os convidados sumiram, mas não antes de comprarem um grande numero de bonés e de camisetas da Fumaça como recordação.
Como a saudade de casa é grande, o nosso período em Santa Maria e depois em Pirassununga foi o mínimo, apenas o suficiente para brindar com os Fumaceiros a conclusão de uma missão perfeita e retirar os pallets da traseira do Hércules. Uma hora e pouco depois, pousamos no Galeão já sem luz do sol.
Salut, amigos!
A Equipe da Fumaça nesta viagem era composta pelos seguintes Oficiais Aviadores:
Nome |
Fumaça # |
Função |
Formação |
Horas de Vôo |
| Ten Cel Av Ricardo Reis Tavares |
1 |
Comandante e Líder do EDA |
Ataque |
5.000 |
Maj Av Luiz Francisco Tolosa |
2 |
Ala direita |
Helicópteros |
5.800 |
Maj Aviador Ricardo Beltran Crespo |
4 |
Ferrolho |
Helicópteros |
5.350 |
Maj Av Paulo César Andari |
5 |
Ala Esquerda Externa |
Transporte |
3.750 |
Maj Av Cláudio Jose Lopez David |
3 |
Ala Esquerda |
Patrulha |
4.900 |
Cap Av Gustavo Luis da Silveira e Eliseu |
5 |
Ala Esquerda Externa |
Caça e Rec Tático |
3.850 |
Cap Av Aloísio Secchin Santos |
6 |
Ala Direita Externa |
Helicópteros |
4.200 |
Cap Av Afonso Henrrique J. de Andrade Jr. |
4 |
Ferrolho |
Caça |
3.800 |
Cap Av Emerson Mariani Braga |
6 |
Ala Direita Externa |
Caça |
3.400 |
Cap Av Marcos Antonio dos Santos |
3 |
Ala Esquerda |
Ataque |
3.650 |
Ten Av Wilson da Costa Matos |
2 |
Ala Direita |
Ataque |
2.950 |