A instrução dos seus quadros é uma atividade presente no dia-a-dia de cada marinha de guerra, independente do seu porte. Um dos passos mais importante nesse processo de instrução é a viagem de conclusão de curso da Escola Naval. Todo ano a turma de formandos da EN parte em uma viagem ao exterior, onde eles terão a oportunidade de experimentar a vida marinheira por um período de x meses, longe de casa, se familiarizando com o papel que terão de desempenhar na sua futura carreira como oficiais da Marinha do Brasil. Nesta viagem, além das aulas teóricas normais do último ano os jovens terão muitas horas de prática nos simuladores de guerra naval que existem dentro do NE Brasil. Os meses do grupo no mar e seu contato com as diferentes culturas e realidades políticas, econômicas e militares dos países visitados, servem para despertar nos alunos uma visão mais crítica e ampla sobre as oportunidades e os desafios colocados perante do Brasil, e também da nossa Marinha, neste mundo globalizado e cada vez mais complexo do ponto de vista geopolítico.
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Cada viagem de formatura é única, cada uma tem um roteiro próprio e normalmente incluem uma série de visitas pré-agendadas a organizações militares locais em cada porto de parada. A viagem de 2006 partiu no dia 23 de Junho e seguiu para o Pacífico com paradas em Montevidéu e Buenos Aires. Após cruzar o canal do Estreito de Magalhães o U-27 aportou em Viña Del Mar , o maior porto do Chile. Daí em diante, a viagem segue para norte ao longo da costa oeste da América do Sul parando no porto de Callao , no Peru e em Guayaquil no Equador. Depois disso passa pelo Canal do Panamá para entrar no Mar do Caribe e segue até Fort Lauderdale, na Flórida. A travessia do Atlântico termina em Cork na Irlanda seguida por Londres. Ainda no norte da Europa o NE Brasil aportará em Copenhaguen(Dinamarca), Hamburgo(Alemanha), Rouen(França) e Lisboa(Portugal). Depois disso, o navio cruza o Mar Mediterrâneo parando em Pireu(Grécia), Haifa em Israel, Civitavecchia na Itália e Barcelona na Espanha. Uma parada final em Fortaleza chegando ao Rio de Janeiro no final deste ano.
*Face aos recentes acontecimentos no Oriente Médio, a etapa no porto de Haifa em Israel foi cancelada.
Para muitos deles esta é a primeira vez que eles vão ouvir uma língua estrangeira ao vivo, e uma experiência como esta não tem preço. Os mares não tem barreiras, e é justamente isso que nossos Guardas Marinha vão vivenciar na sua viagem de formação. A duração desta viagem é muito superior à das comissões executadas normalmente pelos navios de combate da nossa Esquadra. Por isso, inúmeras preocupações extras cercam o período de preparativos para a partida do NE Brasil. Uma das mais relevantes diferenças desta missão está no fato de que ele navegará sozinho, sem fazer parte de uma Força ou Grupo Tarefa, sem o apoio reconfortante de um navio de apoio logístico ou de um NDD com todas as suas oficinas e técnicos especializados. Panes e incidentes abordo, terão de ser resolvidas e contornados exclusivamente pela capacidade técnica e engenhosidade da tripulação do Navio Escola e dos seus alunos. Para minimizar os riscos nesta comissão o NE Brasil é o único navio da Marinha do Brasil que passa por um completo Período de Manutenção Geral (PMG) a cada ano. Todos os sistemas do navio são vistoriados e reparados preventivamente antes da data de partida para a viagem dos Guardas-Marinha.
| O Período de Manutenção Geral - PMG |
Anualmente, o navio passa por um Período de Manutenção Geral (PMG), quando são realizadas revisões em todas as instalações de máquinas, manutenção de vários equipamentos e execução de reparos, bem como obras de recuperação em compartimentos habitáveis, como preparação para o grande período de afastamento de seu porto base.
Durante o PMG são executadas, de forma programada, as ações de manutenção planejada, preventiva e preditiva, necessárias a reconduzir ou manter o material dentro de suas especificações técnicas. Neste período é também realizada uma inspeção completa e detalhada do material, destinada a verificar a sua deterioração, para uma eventual correção, incluindo verificações mais minuciosas do que aquelas efetuadas em outros tipos de inspeção.
Assim, de acordo com o seu ciclo de atividades, o navio realiza anualmente um PMG, a fim de prepará-lo para a execução da Viagem de Instrução de Guardas-Marinha, com seus equipamentos em condições de funcionamento adequadas e confiáveis, dadas às particularidades da comissão (longo período de afastamento do país). Este período de manutenção inicia-se logo após o regresso da viagem de instrução.
Dessa maneira, esse período contempla a execução de diversos serviços tais como: tratamento e pintura do casco, do costado, dos ferros e das amarras; revisão das lanchas orgânicas, das balsas e de coletes salva-vidas; revisão do Sistema de Direção de Tiro e dos canhões; revisão geral dos motores de propulsão e do sistema de geração e distribuição de energia elétrica; limpeza e verificação dos tanques de água e óleo e revisão da unidade de tratamento de esgoto; revisão geral do sistema de ar condicionado e limpeza do sistema de ventilação; calibração de radares e equipamentos de navegação e reparo de equipamentos avariados.
Durante o PMG, diversos equipamentos e compartimentos do navio ligados diretamente a sua operacionalidade também são revisados, tais como os radares de navegação, os simuladores táticos e os equipamentos de comunicações. Os serviços atinentes à manutenção do casco e de seus acessórios são realizados durante o período de docagem do navio.
Antes do término do PMG, o navio realiza rápidas viagens com o intuito de testar os reparos executados. É o período destinado a Experiência de Máquinas, que é precedida de verificações com o navio atracado. Após a Experiência de Máquinas, o navio realiza outra viagem preparatória, com a finalidade de alinhar seus equipamentos que por ventura tenham sido “desregulados” durante o período de manutenção.
| A CIASA -
Comissão de Inspeção e Assessoria de Adestramento |
Em função da substituição do pessoal a cada ano e das normais necessidades de adestramento, a tripulação do navio passa por um processo de treinamento (adestramento na linguagem da MB), que culmina com a verificação do seu grau de eficiência. Desde os adestramentos preliminares até a verificação de eficiência uma comissão, formada em cumprimento a determinação do Comando-em-Chefe da Esquadra e coordenada pelo Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão (CAAML), denominada de Comissão de Inspeção e Assessoria de Adestramento (CIASA), recebe a atribuição de bem adestrar a tripulação para superar situações de emergência, que possam ocorrer na Viagem de Instrução, ou durante um conflito.
Dessa maneira, nas exigências da CIASA, também são contemplados, na medida do possível, as possibilidades do Navio-Escola Brasil ser empregado em situações de conflito, a saber: como plataforma de comando e controle de forças navais; no transporte de fuzileiros navais e de forças especiais; ou então como navio hospital.
Os navios da MB recebem uma classificação para o nível de adestramento das suas tripulações. Nas fases I e II busca-se o adestramento individual e de equipes setoriais, tais como as equipes de navegação, de combate a incêndio e a alagamentos, de condução da propulsão e da parte elétrica do navio, comunicações etc. Na fase III, o navio como um todo, onde as equipes setoriais interagem entre si e os adestramentos envolvem todos a bordo, até alcançar-se um nível que o capacite a navegar com segurança e a operar com outros navios.
Para passar de uma fase de adestramento para outra, o navio é inspecionado pela CIASA que, antes da vistoria, orienta os tripulantes por meio da condução de adestramentos. Dessa maneira, na medida em que os adestramentos alcancem resultados satisfatórios e elevados níveis de segurança, a CIASA aumenta gradativamente o grau de dificuldade do exercício, a cobrança de procedimentos e a pressão psicológica das equipes, de forma a buscar a máxima prontidão operativa do navio e as melhores condições de segurança da navegação e dos tripulantes.
Durante os adestramentos são simuladas as mais diversas ocorrências que podem acontecer na Viagem de Instrução, tais como: avarias em equipamentos do navio, navegação em condições de mar adverso, incêndios, alagamentos, queda de um tripulante na água, perda de governo do navio, redução da disponibilidade de energia elétrica, navegação em águas restritas, de transferência de carga leve (passagem de carga entre os navios, quando em navegação), de operações aéreas entre outras. Após o termino das obras do PMG e a aprovação do navio pela comissão especial do CAAML, o Navio-Escola “Brasil” estará pronto para receber os Guardas-Marinha e iniciar a sua XX Viagem de Instrução.
| VSA - Verificação de Segurança Aeronaútica |
Entre as Fases 1 e 2, ocorre a VSA (Verificação de Segurança Aeronáutica), que consiste na saída do navio para a realização de operações aéreas, quando, toda a tripulação será qualificada por uma equipe do SIPAAER - Serviço de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos.
Uma aeronave do esquadrão HU-1 foi designada para a realização desta qualificação. Vários pousos e decolagens são executados com a finalidade de adestrar a tripulação para que a mesma esteja apta a operar com helicópteros em seu convôo. A aeronave realiza exercícios de Pick-up no convôo, suspendendo uma carga de 50 Kg e realizando várias passagens em que apanhava e deixava a carga, qualificando assim, também os pilotos do HU-1 nesta oportunidade.
Um dos destaques deste adestramento é a simulação de Crash no convôo, quando a equipe de Cav do navio é posta á prova. Os instrutores/Observadores estão atentos e simulam várias situações que podem ocorrer durante um Crash. Tudo é anotado para posterior verificação quanto ao desempenho da tripulação. A equipe médica do navio também é posta à prova, com a simulação de feridos por explosão e quando a equipe de Cav retira o piloto e o leva para a enfermaria para que todo o procedimento seja testado, desde a retirada da aeronave acidentada até a enfermaria do navio.
Durante a fase de CIASA, o navio executa algumas viagens para poder testar todos os seus sistemas, e a ALIDE pode participar de uma delas até a cidade de Santos.
O NE Brasil estava retornando de sua viagem a Salvador e após uma breve parada no Rio de Janeiro, ocorreu o embarque do ComForSup Contra-Almirante Wilson Barbosa Guerra, e suspendemos no fim da tarde com destino a Ilha Grande. Na baia de Ilha Grande recebemos a visita do Comandante do Colégio Naval Capitão-de-Mar-e-Guerra Sérgio Luiz Coutinho e da turma de alunos do 3º ano, que aproveitaram esta oportunidade para se familiarizar com o navio.
Durante esta etapa, mais exercícios são conduzidos, como o de homem ao mar, quando o navio precisa rapidamente guinar para se posicionar afim de efetuar o resgate. Um mergulhador é lançado para ajudar o homem e manter sua estabilidade. No navio, homens armados dão cobertura contra eventual ataque de tubarões. Após a parada do navio, é efetuado o içamento do homem para bordo e imediatamente a equipe médica assume, aquecendo-o com uma manta térmica e levando o mesmo para a enfermaria.
Mais um exercício que é realizado rotineiramente, o de incêndio a bordo com a equipe de CAV desempenhando seu papel com a presteza necessária. Os alunos do CN tem mais uma oportunidade para ver como se da a vida à bordo.
Na parte da tarde os alunos ainda tem a oportunidade de conhecer de perto todos os equipamentos da equipe de CAV do navio, podendo vestir e usar as mascaras contra fumaça e ver o quão importante é para o navio possuir estes equipamentos e saber usa-los.
Antes da partida, temos o Cerimonial a Bandeira com a presença de todos os alunos do CN. Após as despedidas em que certamente eles levarão em suas mentes todas as imagens deste dia, o NE Brasil parte para a cidade de Santos. De manhã, na chegada a Santos, logo após a atracação, tem ínicio a mais um exercício. Este voltado para a contenção de "manifestantes" que desejam subir a bordo, sendo prontamente rechassados pela tripulação do avio. Apesar do Brasil ser um país que não cultiva desafetos, sempre temos que estar prontos para eventos desta natureza, e a tripulação do NE Brasil está!
O navio possui um Departamento de Ensino com sete oficiais que exercem as tarefas de instrutoria. Entretanto, todos os demais oficiais de bordo também participam da instrução, ministrando as disciplinas do ciclo pós-escolar. Esse trabalho é complementado pelo convívio diário dos Guardas-Marinha com a oficialidade e a guarnição do navio.
Existem a bordo recursos instrucionais, que são empregados na preparação dos Guardas-Marinha para a execução das atividades dos oficiais da MB, como por exemplo:
a) sala para ensino de navegação, onde os Guardas-Marinha tem a disposição um amplo espaço dotado de mesas, repetidoras do sistema de radar (sistema que detecta outros navios, aeronaves, ilhas, partes da costa de territórios continentais etc) e da agulha giroscópica (equipamento destinado à orientação do navio), anemômetros (verifica a intensidade e a direção do vento) e odômetros (medidor da distância navegada, em milhas);
b) repetidoras da agulha giroscópica, para treinamento de navegação visual;
c) Centro de Informações de Combate, equipado com um sistema de informação tática, onde são processadas as informações relativas à navegação, visual e radar, e a movimentação de outros navios e aeronaves;
d) auditório com capacidade para 206 lugares;
e) salas de aula; e
f) circuito fechado de TV, composto de estúdio de vídeo com equipamentos para gravação de programas em fita para instrução, além de monitores instalados em diversos locais de bordo.
Ainda para ampliar a capacidade de instrução, o navio-escola também possui modernos equipamentos, sendo que os mais importantes foram projetados e desenvolvidos pela Marinha do Brasil, em parceria com indústrias nacionais. Dentre esses, destacam-se:
a) Sistema de Simulação Tática e Treinamento SSTT2 , que possibilita o aprendizado relacionado com as operações navais, previstas para serem executadas em situações de conflito. Esse sistema, modernizado em 2005, incorpora tecnologia de ponta em simulação e representa um valioso instrumento para o aperfeiçoamento da capacidade profissional dos futuros oficiais. A Escola Naval e o Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão, organizações militares da Marinha do Brasil, também possuem o SSTT2;
b) Terminal Tático Inteligente (TTI), que atua como um sistema de compilação de dados táticos integrado aos radares do navio; permitindo, assim, aos futuros oficiais, a preparação para, em breve, interagirem com os complexos sistemas de armas dos meios da Marinha do Brasil; e
c) Terminal de Controle de Avarias (TCAV), proporciona o monitoramento de diversos compartimentos do navio na eventualidade de qualquer sinistro a bordo, além de também contribuir para a familiarização dos Guardas-Marinha com sistemas modernos, que são empregados na manutenção dos navios com capacidade de navegar e combater, mesmo quando sofrem avarias.
É importante mencionar, mais uma vez, que todos esses sistemas foram totalmente desenvolvidos e construídos no País, o que permitiu o domínio de tecnologia sensível e de elevado custo, caso fossem adquiridos no exterior.
Durante a viagem de instrução, além dos eventos diários realizados a bordo, os Guardas-Marinha também participam de visitas de estudo a instituições, cujas atividades sejam relacionadas com o aperfeiçoamento profissional dos futuros oficiais da MB, tais como: museus marítimos, estaleiros e academias navais, bases navais e aeronavais e centros de adestramento de Marinhas Amigas.
No transcorrer da estadia nos portos estrangeiros também são realizadas exposições, de modo a ser divulgada a cultura brasileira e o turismo em nosso País , assim como a capacidade da Marinha do Brasil e da indústria nacional, quanto ao atendimento de produtos e serviços que podem ser oferecidos às nações visitadas e a outras marinhas.
O Navio Escola Brasil - U 27, foi o terceiro navio da Marinha do Brasil a ostentar esse nome. Ele foi construído pelo Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro - AMRJ, Ilha das Cobras localizado no Rio de Janeiro. Em dezembro de 1975 a Marinha iniciou o projeto de substituição do NE Custódio de Mello, usando um projeto desenvolvido pela Diretoria de Engenharia Naval - DEN a partir do casco das fragatas classe MK 10. Em junho de 1978 a DEN concluiu a viabilidade do projeto, imediatamente iniciando os trabalhos de adaptação e detalhamento, sendo o projeto de contrato em março de 1981.
Em 18 de setembro de 1981, foi batida a quilha do casco 106, em cerimônia presidida pelo Ministro da Marinha, AE Maximiano Eduardo da Silva Fonseca, contou com a presença do Ministro dos Transportes Dr. Eliseu Rezende e do Chefe do EMFA, General-de-Exercito Alacyr Frederico Werner, além de outras autoridades. O Navio foi lançado em 23 de setembro de 1983. Concebido à partir de um projeto desenvolvido pela Diretoria de Engenharia Naval, ao ser concluído, possuía 60% de índice médio de nacionalização.Depois de realizar as provas de mar e a avaliação dos sistemas de armas e navegação, foi submetido à Mostra de Armamento e incorporado em 21 de agosto de 1986, em cerimônia presidida pelo então Ministro da Marinha, Almirante-de-Esquadra Henrique Sabóia. Naquela ocasião, assumiu o comando o Capitão-de-Mar-e-Guerra Alberto Annaruma Júnior.
Desde sua incorporação à Marinha do Brasil, em 21 de agosto de 1986, até os dias de hoje, o Navio Escola Brasil transformou mais de 4.800 Guardas-Marinha em oficiais da marinha do Brasil. São 20 anos de serviços prestados à Marinha do Brasil .
O NE Brasil executa uma missão muito importante e seguirá fazendo isso por muito tempo ainda. Enquanto algumas marinhas do mundo persistem na tradição de fazer a viagem de formatura a Marinha do Brasil dispensou os belos veleiros em troca de uma sala de aula moderna e tecnologicamente avançada capaz de preparar os formandos para exatamente os desafios que os aguardam a borda dos navios escolta da Esquadra, reduzindo o tempo de preparo do novo oficial até que se encontre plenamente apto a defender o Brasil ao redor do Globo. Boa viagem NE Brasil!
* Nossos agradecimentos ao Comandante do NE Brasil Capitão-de-Mar-e-Guerra Alipio Jorge Rodrigues da Silva e a toda tripulação do navio pelo apoio durante a realização desta matéria.