
Texto: Felipe Salles, Carlos Filipe Operti e Rodrigo Bendoraytes
| A Reunião da Aviação de Caça - RAC 2006 |
A Força Aérea Brasileira é muito zelosa de sua história e de suas tradições, e a comunidade da Caça o é ainda mais. As unidades mantém incorporadas em suas rotinas referências ao seus passados e ao passado da Caça, e o fazem com orgulho. E tal importância se reflete também na Força Aérea como um todo, que tem o dia 22 de Abril, Dia da Aviação de Caça, como uma de suas datas comemorativas mais importantes. Nesse dia, no ano de 1945, o 1º Grupo de Aviação de Caça, combatendo o Nazi-fascismo nos céus da Itália durante a Segunda Guerra Mundial, realizou o seu maior número de missões em um mesmo dia, em prol do avanço aliado contra as forças do Eixo. Foram 11 missões, entre o nascer e o pôr-do-sol, totalizando 44 sortidas (4 aeronaves por missão), que ajudaram a conter a fuga das tropas alemães no norte da Itália. E é durante a semana do dia 22 de Abril que anualmente os caçadores brasileiros se reúnem para reverenciar o passado e trocar experiências, na Reunião da Aviação de Caça.
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Os comandantes e pilotos de todos os dez esquadrões de caça operacionais se encontram na Base Aérea de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, para saudar os veteranos e, especialmente, trocar experiências sobre suas atividades no ano anterior. É aqui também onde o Comandante da III FAe (3ª Força Aérea) tem a oportunidade de, num único local, se reunir simultaneamente com todos os comandantes dos esquadrões, seus subordinados operacionais. Em paralelo, a III FAe e os esquadrões também aproveitam o evento para realizar encontros setoriais das áreas de: Pessoal, Inteligência, Materiais, Segurança de Vôo e Operações. Nestes encontros são comparados os indicativos de eficiência de cada esquadrão e são compartilhadas as melhores práticas administrativas e operacionais.
A RAC também é o palco ideal para palestras, internas e externas, que ajudem a acelerar o desenvolvimento individual dos esquadrões e principalmente dos caçadores. Neste ano, a Embraer enviou um especialista que apresentou o tema do status do programa de emprego de mísseis BVR nas aeronaves da empresa. O foco foi o F-5BR e a flexibilidade dos software e aviônicos instalados na sua modernização. O outro palestrante foi Robert Hewson, consultor sobre armamento aéreo da tradicional editora inglesa Jane’s.
Entre as palestras internas coube ao 2°/3° GAv apresentar suas experiências com o uso operacional dos sistemas FLIR do A-29, usados em conjunto com visores de visão noturna (NVG - Night Vision Goggle). O 1°/14° GAv, de Canoas, responsável na FAB pela introdução do F-5EM, apresentou um estudo sobre as características operacionais do novo radar deste avião.
Nesta edição, a Reunião da Aviação de Caça foi organizada pelo 1°/16°GAv, Esquadrão Adelphi, e contou com mais de 130 caçadores entre os esquadrões operacionais e a III FAe. Além deles esteve presente também o 2º/5º GAv, Esquadrão Joker, incorporado à recém criada I FAe (órgão ao qual estão subordinadas as unidades de instrução), que é o esquadrão atualmente responsável pela formação operacional dos pilotos de A-29 da FAB. Devido ao limite de espaço no pátio e nos hangaretes, a presença de aeronaves de esquadrões de outras bases foi limitada a seis por esquadrão, gerando um total de 54 aviões visitantes.
Esse ano os aviões começaram a chegar em Santa Cruz no dia 17, uma Segunda-feira. Com péssimas condições meteorológicas, chuva, vento e frio, as aeronaves vinham todas para o pouso com o auxílio do PAR (Precision Approach Radar), sozinhas ou em pares. Nesse “balé aquático” pousaram os F-5EM do 1º/14º GAv de Canoas, os A-1 do 1º/10º GAv e do 3º/10º GAv de Santa Maria, os Tucanos do 3º/3º GAv de Campo Grande e os A-29 do 1º/3º GAv de Boa Vista. Devido a necessidade de pousar todos os aviões pelo PAR, o que aumenta consideravelmente o tempo necessário para os procedimentos de aproximação e pouso, o resto dos esquadrões só começou a chegar na manhã do dia 18. Pousaram então, ainda sob condições adversas de tempo, os Xavantes do 1º/4º GAv da Base Aérea de Natal, junto com a principal novidade da RAC desse ano, o primeiro Atlas Impala Mk.II da FAB, adquirido da Força Aérea Sul-Africana. Em seguida chegaram os A-29 do 2º/5° GAv também da Base Aérea de Natal, os Xavantes do 1ºGDA de Anápolis, e os A-29 do 2º/3º GAv da Base Aérea de Porto Velho, juntando-se todos os visitantes aos donos da casa, o 1º GAvCa e o 1º/16º GAv. Para tornar menos cansativa a viagem, e também por conta das condições climáticas, alguns esquadrões optaram por pernoitar em locais como Lagoa Santa, São José dos Campos e Pirassununga antes de seguirem para o Rio de Janeiro.
É durante a RAC que ocorrem as comemorações do Dia da Caça. Normalmente realizadas no próprio dia 22, esse ano elas foram divididas em duas partes. A primeira, a cerimônia militar, foi realizada no dia 20. Estiveram presentes autoridades militares, veteranos do 1º Grupo de Caça e convidados, que assistiram à solenidade no pátio da Base, e após a uma demonstração dos aviões no estande de tiro da mesma, com lançamento de bombas por aeronaves A-1, F-5EM, A-29 e Xavante, além do Impala que fez uso apenas de seus canhões de 30mm.
No dia 22 foi realizada a cerimônia na praça do P-47, voltada para a lembrança da atuação do 1º Grupo de Aviação de Caça na campanha da Itália. Logo após a cerimônia o Tenente-Coronel Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro, chegou na BASC à bordo de um A-1 do Esquadrão Centauro (3º/10º GAv), pilotado pelo comandante da unidade. Homenageado por seus companheiros no auditório da Base, ele assistiu junto a eles e aos veteranos do GAvCa à tradicional encenação da Ópera do Danilo, obra criada ainda na Itália pelos pilotos brasileiros para contar a saga de um de seus companheiros que foi abatido e conseguiu voltar para a base em Pisa à pé, após de um mês de fuga.
Segundo o anfitrião do evento e comandante do 1°/16° GAv, Ten-Cel Moretti, “O desempenho das aeronaves modernizadas na demonstração de bombardeio, na manhã de quinta-feira, demonstra que a FAB está ficando cada vez mais moderna, e isso é uma grande coisa”.
A este novo rumo da FAB citado pelo Ten-Cel Moretti deve-se acrescentar o projeto de modernização das aeronaves A-1, cujos testes das primeiras aeronaves modificadas devem começar em 2008, entrando eles em operação nos esquadrões dois anos depois, com a denominação de A-1M.
A Reunião da Aviação de Caça desse ano foi uma das mais diferentes dos últimos tempos, com várias mudanças significativas. Foi a primeira aparição do 1°GDA sem seus Mirage III. Os Jaguares foram para a RAC com os AT-26 Xavante, mas com o moral ainda elevado, apesar da perda de seus tradicionais F-103, na expectativa da chegada de seus novos vetores, os Mirage 2000B/C. Entre os pilotos da unidade já é possível ver, presa no braço do macacão de vôo, bolacha da nova aeronave. O Esquadrão Pampa por sua vez deu um grande salto tecnológico com o recebimento do F-5EM, comprovando a eficiência da aeronave durante o lançamento de bombas no estande de tiro. Os “Grifos” e “Escorpiões” iniciaram suas operações com os novos Super Tucano no ambiente para o qual eles foram concebidos para operar, a Amazônia. O 3°/3°GAv fez sua última aparição na RAC com os T-27 Tucano, já que no dia 15 de maio recebeu os primeiros quatro Super Tucano de um total de 17 que serão operados pelo esquadrão.
E a última novidade foi a incorporação dos AT-26A (Impala) ao acervo da FAB. Inicialmente essas aeronaves seriam usadas como fonte de peças de reposição para os Xavantes, porém a constatação das boas condições dessas células fez com que se optasse por colocá-las no serviço ativo. Além disso, o Impala é equipado com RWR, lançador de chaff e flare e dois canhões de 30mm, o que confere a ele uma considerável capacidade de combate.