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O Punho do Império - A bordo do USS Ross (DDG-71) |
Deslocando quase 8.500 toneladas, um moderno destróier
AEGIS Arleigh Burke, dentro de um exercício regional como
a Unitas, é sem duvida um gigante, não somente por
suas dimensões, mas especialmente, na sua capacidade bélica
contra alvos em terra. Os mísseis de cruzeiro BGM-109C
Tomahawk permitem que este navio cumpra este papel adicionalmente
às suas excepcionais características antiaéreas,
ASW e AsuW. Durante a recente campanha contra o Iraque, navios
americanos localizados no Mediterrâneo e no Mar Vermelho
normalmente disparavam Tomahawks contra alvos em Bagdá.
Com 33 oficiais e 300 praças e suboficiais a Ross precisa
de quase 50% mais gente do que a Fragata Rademaker para operar.
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AEGIS é o nome dado à combinação
de computadores, sensores e de armamentos que transforma um navio
numa poderosíssima central de controle do espaço
aéreo, da superfície e das profundezas. Capaz de
operar conectado em tempo real a outros navios AEGIS gerando uma
visão unificada integrada por satélite do teatro
de batalha. É o sentido máximo da “guerra
centrada em redes” no mar. Outras classes de navios que são
equipadas com sistemas AEGIS , como os cruzadores Classe Ticonderoga
e mesmo estrangeiros como a Classe F-100 da Espanha e os Kongo
da Força Marítima de Auto-Defesa do Japão. É uma solução
cara, mas extremamente poderosa. Ao colocar os Arleigh Burke para
complementar e eventualmente substituir os Cruzadores Ticonderoga, a US Navy
busca reduzir os seus custos operacionais e o numero de tripulantes
sem, no entanto sacrificar seu poder de fogo. No lugar dos lançadores
rotativos como o que vimos na Santa Maria, nesta classe todos
os mísseis são disparados desde casulos VLS –
Vertical Launching System, um equipamento genérico capaz
de lançar SAMs Standard SM-2, Tomahawks, Vertically Launched
ASROC (VLA) e mísseis antinavio Harpoon. O sistema AEGIS
permite que possam ser lançados simultaneamente 16 mísseis
Standard, um ou dois para cada alvo, uma façanha impressionante.
No USS Ross existem duas unidades de VLS, uma na pôpa com 64
cavidades para mísseis e outra na prôa com capacidade
para outros 32. Embutido no VLS existe um guindaste embora normalmente
os mísseis só sejam carregados no porto antes da
partida. Ao retornar os mísseis são imediatamente
removidos e carregados nos navios em vias de partir. Assim não
há risco do míssil envelhecer inutilmente enquanto
o navio esta no porto.
No coração do AEGIS esta seu Centro de Operações
de Combate (COC) de última geração. Ao redor
de dois telões gigantes, colocados defronte do posto do
TAO (Tactical Actions Officer), o responsável pelo COC,
existem 25 consoles digitais individuais, com pelo menos dois
dedicados simultaneamente a cada função básica:
guerra antiaérea, controle das aeronaves amigas operando
sobre o Grupo Tarefa, Guerra de Superfície, etc. Cada console
pode ser reconfigurado imediatamente para realizar qualquer uma
destas funções, o que gera uma redundância
muito valiosa em combate. Notável é o grau de automatização
na consolidação de dados dentro do COC, os computadores
do sistema AEGIS acompanham cada um dos contatos e gera os dados
sintéticos para acompanhar os dados brutos que cada vez
mais são menos importantes. Apesar disso era interessante
a presença universal de laptops junto aos operadores dos
consoles que, quase que automaticamente, iam sendo fechados no
exato momento que nos aproximamos. Um dos consoles controla uma
câmera estabilizada de TV e infravermelho, para ela os outros
navios aparentam estar parados como se ambos estivessem numa doca
seca. No Ross, o bom e velho lápis de cera só serve
para fazer anotações rápidas na tela do console.
Os controladores de sonar não ficam aqui, eles se localizam
em outro compartimento, muito mais baixo e avante do COC.
O Ross não dispõe de um hangar para helicópteros,
característica que foi inserida nos DDG mais recentes de
sua classe, aqueles identificados como “Flight IIA”.
Neste exercício o SH-60 americano operava desde a Fragata
Samuel B. Roberts. Na popa existe um amplo convôo com o
piso levemente inclinado em direção à proa,
solução usada para reduzir/minimizar a assinatura
de radar do navio. Mesmo sem hangar, o Ross dispõe de todos
os equipamentos de datalink para operar buscas anti-submarino
em coordenação com os SH-60B LAMPS III de outros
navios. Embora não se trate de um design 100% “stealth”
a pronunciada angulação das laterais da superestrutura
demonstra a preocupação em reduzir o numero de ângulos
retos do projeto. As chaminés das turbinas estão
acondicionadas em duas estruturas em forma de caixa, ao seu lado
temos duas saídas das turbinas de geração
elétrica, uma terceira unidade esta separada e localizada
mais a baixo e a ré, adiante do convôo. O passadiço
é alto e cercado por duas amplas asas, com poltronas de
onde o Capitão pode acompanhar de perto as manobras. Abaixo
destas asas estão os quatro grandes painéis hexagonais
dos radares “phased array” AN/SPY-1D. Por dispor de
varredura eletrônica, as antenas destes radares não
se movem como as unidades tradicionais e assim podem acumular
simultaneamente as funções de controle aéreo
e radar de controle de tiro. Este radar é característico
dos navios AEGIS e opera na banda S (3100-3500 MHz), sendo tão
poderoso que pode acompanhar mais de 200 contatos simultaneamente.
A versão “SPY-1D” foi feita especialmente para
as Arleigh Burke, sendo mais leves que os mais de 13os primeiros
modelos “SPY-1A/B” usados nos Ticonderoga. As fragatas
espanholas da classe Álvaro de Bazan usam uma versão
com a antena ainda mais reduzida, a “SPY-1F”.
No meio da tarde estávamos nas asas do passadiço
quando nosso navio se aproximou do NT Marques de la Enseñada
por boreste. Rapidamente o Capitão deu ordem para reduzir
as máquinas e ficar a boreste do navio tanque. Na proa
um time de capacetes e coletes coloridos recebeu o cabo lançado
pelos marinheiros espanhóis e trataram de dar inicio à
faina de reabastecimento. Simultaneamente a Corveta ARA Robinson
ocupou sua posição no costado de bombordo do Marques.
Os dois reabastecimentos ocorreriam simultaneamente. Impulsionado
por quatro turbinas General Electric LM2500-30 o destróier
se movimenta tão agilmente como uma corveta, a despeito
do seu tamanho, muitas vezes maior. Encerrado o processo de TOM
(Transferência de Óleo no Mar os cabos são
removidos e imediatamente nos afastamos pra frente curvando a
toda máquina a boreste para nos afastarmos do Navio Tanque.
Sem ser submetida às restrições orçamentárias
tão restritivas de suas pares sul-americanas a US Navy
permite que seus capitães normalmente operem os navios
próximo de suas velocidades máximas. Exibida o USS
Ross não furtou de executar uma guinada a boreste em altíssima
velocidade, para o benefício dos fotógrafos presentes.
Visitando a central de máquinas do navio percebemos como
a adição de sistemas digitais simplifica a operação
do navio e permite a redução do número de
tripulantes. Num amplo painel duas pequenas telas de computador
exibem todas as informações que antes seriam expostas
por uma miríade mostradores de ponteiro, de lusinhas coloridas,
unidas por esquemas de fluxo.
O navio é organizado ao redor de “departamentos”,em
um destróier Classe Arleigh Burke, abaixo do Imediato (XO)
estão os Weapons Officer (Weps) (armamento), Combat Systems
Officer (COC/Sensores), Operations Officer (operações)
Chief Engineer e Engineer Officers, Supply Officer (Logística/Administração).
Nos navios maiores como os Navios Aerodrómos, existe um
numero maior de “Officers” do que aqui. Embora nenhum
dos “department heads”, no momento, seja mulher, existe
um grande número de praças a bordo do sexo feminino.
Segundo a Master Chief Petty Officer Sharon Laguna, a US Navy
não tem nenhuma restrição às mulheres:
“Nós somos todos marinheiros, independente do sexo”.
No entanto, não é tolerado nenhum tipo de relacionamento
afetivo entre tripulantes do mesmo navio: “O perigo é
que num momento crítico, como no meio de um ataque, o foco
do marinheiro/a possa ser dividido entre sua obrigação
e o bem estar de uma pessoa específica a bordo.”
Entre casais, onde ambos estão servindo, a Marinha busca
manter pelo menos um dos membros do casal em terra a qualquer
momento, para que a sua família, filhos, pais; não
se vejam desassistidos. A Master Chief Petty Officer Laguna é
a praça mais graduada e por isso se reporta diretamente
ao Comandante do navio, cabe a ela garantir o bem estar dos praças
e coordenar o trabalho dos demais suboficiais. Segundo ela, na
US Navy, os “Suboficiais tocam a Marinha”, são
eles que vão ensinar aos oficiais novatos como operar o
navio e como interagir com os praças. Diferente do que
ocorre no Brasil poucos oficiais encaram a vida na Marinha como
uma opção de vida toda, um grande numero nem vai
para para a Naval Academy, entrando via ROTC (o equivalente ao
nosso NPOR) direto da universidade. Assim um oficial pode entrar
e sair da Marinha varias vezes ao longo da sua vida, cada período
é um contrato de prazo definido. Daí a importância
no caso deles dos Suboficiais que levam as suas vidas inteiras
na Marinha. Por seu tamanho a US Navy precisa de milhares e milhares
de praças aceitando assim tripulantes sem a nacionalidade
americana. No USS Ross, fomos apresentados a um dos praças
estrangeiros, um rapaz africano, natural do Togo, e segundo a
Master Chief, seu domínio de francês já tinha
sido valioso para o navio em mais de uma ocasião. Não
pude deixar de congratulá-lo pela recente classificação
da sua seleção para a Copa do Mundo o que lhe deixou
com um imenso sorriso. Os Destroyers Classe Arleigh Burke são
preparados para lutar num ambiente de contaminação
Nuclear, Bacteriológica e Química (NBC) assim, existem
apenas quatro portas que dão acesso ao interior, todas
são duplas e contam com pressão positiva do ar-condicionado
para evitar a entrada de qualquer partícula contaminada.
O fumo já é totalmente proibido no interior dos
navios da US Navy desde 1992, para os fumantes inveterados só
resta a cobertas exteriores.
Durante nossa passagem pelo convés externo podemos
ver todos os passos de um grupo armado do USS Ross, no convôo,
se preparando para abordar, com um bote inflável negro,
a Fragata Independência num exercício de busca de
carregamentos ilegais.
Como seria de se esperar o navio é totalmente preparado
para telecomunicaçãoes, um cyber café foi
montado próximo ao rancho dos praças que por sua
amplitude e decoração bastante colorida mais parecia
uma cafeteria de universidade americana do que um compartimento
num navio de guerra. Os oficiais em sua maioria tem seus próprios
laptops e acessam a internet via rede interna e satélite
a qualquer momento desde seus camarotes. Todas as mensagens recebidas
e enviadas são monitoradas para evitar vazamentos de informação
sigilosa que possam vir ameaçar a segurança do navio.
O USS Ross é baseado no porto de Norfolk no estado
da Virgínia e assumiu o papel de nau capitânea do
GT americano após a volta do USS Thomas S. Gates. Ao encerrar
esta Unitas O USS Ross foi ordenado direto para outra missão,
sem que seus tripulantes pudessem aproveitar mais um pouco da
Cidade Maravilhosa, mas, assim é a vida na marinha da última
super-potência.