
Há
várias décadas, a palavra UNITAS serve de sinônimo
para o mais abrangente exercício militar regular da América
Latina. Neste ano, em sua 47ª edição, o exercício
contou com a presença de navios e aeronaves das Forças
Armadas brasileiras, americanas, argentinas, espanholas e uruguaias.
A Alide participou deste exercício durante dez dias na
costa do Rio de Janeiro e de São Paulo. Vejam o que mudou
nestes anos todos e em que tipo de cenário as nossas marinhas
estão se preparando para enfrentar no futuro.
Cada marinha monta as suas doutrinas e políticas
de emprego em função da sua experiência e
de elementos ensinados por outras forças navais. A maioria
das marinhas sul-americanas foram criadas na primeira metade do
século 19, montadas ao redor de almirantes e oficiais oriundos
da principal marinha da época a Royal Navy. Um sinal claro
desta origem está na onipresença do “nó
de Nelson” nas platinas sobre os ombros dos nossos oficiais.
Desta cultura única inicial cada uma das marinhas
sul-americanas evoluiu de acordo com suas características
ao longo dos anos. A US Navy assumiu o papel de grande referência
no período posterior a 1940, especialmente devido sua vasta
experiência em combate na segunda grande guerra e o imenso
tamanho de sua frota. Naturalmente o Atlântico Sul sempre
foi um dos oceanos mais relevantes nos planos de guerra americanos
e, embora não pudesse ser considerado uma zona “quente”,
era um canal vital para a o suprimento da costa leste americana.
Durante a Segunda Guerra, o estrago causado no transporte marítimo
pelos U-Booten nazistas obrigou a uma parceria próxima
entre Brasil e EUA para patrulhar as nossas costas e manter o
suprimento de matérias primas para a máquina de
guerra aliada.
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Planejando a Unitas XLVII |
A coordenação de cada exercício UNITAS no
Atlântico se alterna ciclicamente entre o Brasil a Argentina
e o Uruguai. No ano passado foi a Armada Uruguaya que agiu como
anfitriã e, no ano que vem, será a vez dos argentinos.
Sendo um exercício de grande porte dentro das nossas realidades,
o próprio processo de planejamento apresenta desafios semelhantes
ao que seria de se esperar de uma situação de guerra
real. A Fase Atlântica os americanos executam junto com
as marinhas do Brasil Argentina, Uruguai e Venezuela. A Fase Pacifico
é realizada com os colombianos, peruanos equatorianos e
chilenos.
Toda UNITAS partem de um documento único, o BI (“Basic
Instruction”) 2050. Este manual de muitas páginas
é um “esqueleto” com todas os capítulos
já ordenados e campos em aberto para todas as informações
imprescindíveis. O BI é o fruto de 46 exercícios
anteriores e seu objetivo é evitar que mudanças
impensadas acabem por excluir dados vitais para o sucesso do exercício.
Em paralelo, uma série de convites são enviados
para os países da região e para outros convidados
de acordo com o gosto do país anfitrião. Neste caso,
além dois quatro países básicos, Brasil,
Argentina, Uruguai e Estados Unidos (a Venezuela preferiu não
participar desta edição), a Espanha, a Grã-Bretanha,
a França, Portugal e a África do Sul foram convidados,
mas apenas o primeiro país aceitou.
Cada país indicou com quantos e com quais classes
de navios iria participar e, em função disso, a
equipe do Estado Maior da Div-2 partiu para atacar a maior tarefa
do esforço pré-exercício: a criação
de um cronograma mestre de eventos, o “Basic Schedule of
Events“ que atendesse às necessidades e expectativas
das varias marinhas para aquela UNITAS. Como sempre, houve duas
grandes reuniões para que todos os envolvidos contribuíssem
e finalmente concordassem com o exercício da forma proposta
pela Marinha do Brasil. Ambas realizaram-se aqui no Rio de Janeiro,
a Initial Planning Conference em junho de 2005 e a Final Planning
Conference que ocorreu em agosto deste ano.
Todos os aspectos logísticos foram de responsabilidade
da MB e ocorreram sem problemas. Na UNITAS os navios saem para
o mar como o TF138 ou Task Force 138 que é o número
padrão para o exercício. O Commander Task Force
(CTF) 138 foi o Commodore Dave Costa, da US Navy. Cada conjunto
de navios de um país era identificado com um dígito
após o ponto decimal. Os navios americanos compõem
sempre o Task Group (TG) 138.0, os demais paises seguem a regra
delineada no quadro abaixo:
138.1 Argentina
138.2 Brasil
138.3 Chile
138.4 Colômbia
138.5 Equador
138.6 Peru
138.7 Uruguai
138.8 Venezuela
138.9 Paraguai
138.10 Multinational Task Group Commander / Comandante do país
anfitrião
138.11 República Dominicana
138.12 Panamá
138.13 Bolívia
Os países convidados, como a Espanha nesta edição,
usam números de TG superiores a estes acima. Cada um dos
TG nacionais tem seu próprio TG Commander com Estado Maior
a bordo de um dos seus navios.
Um dois aspectos mais importantes desta
fase foi a determinação das regras de engajamento,
em inglês “Rules of Engagement”. Um comandante
de Força Tarefa, de Grupo Tarefa ou de navio, não
pode se dar ao luxo de agir de forma independente e inconseqüente.
Hoje em dia, nesta época de comunicação e emprego
militar globalizados, suas ações são sempre
monitoradas de perto, pelos mais altos níveis políticos
de cada nação. Cabe aos níveis políticos
determinar os limites de ação da força naval
e ir alterando-o de acordo com a evolução dos eventos
locais. Cada marinha tem a obrigação de implementar
somente aqueles tipos de ações que seus lideres políticos
aceitem exercer.
O Grupo tarefa americano na Unitas este ano estava
sob a direção do US Naval Forces Southern Command
e sob o comando do Commodore Dave Costa, Comandante do Sexto Esquadrão
de Destróieres. Durante a fase do Pacífico, iniciada
no dia 8 de julho de 2005, incluía a o cruzador da classe
Ticonderoga USS Thomas S. Gates (CG 51), a fragata classe OHP USS
Samuel B. Roberts (FFG 58) e seus destacamentos aéreos oriundos
dos esquadrões de helicópteros HSL-42 and HSL-48,
adicionalmente o navio da Guarda Costeira Americana Forward (WMEC
911) completava o GT americano.
Devido à devastadora passagem do furacão
Katrina na região do golfo do México, a US Navy tomou
a decisão de retornar antecipadamente o Thomas S.Gates para
sua base na naval Station Pascagoula localizada na costa do estado
americano do Mississipi para que sua tripulação pudesse
apoiar os seus familiares naquela área tão duramente
afetada. Em seu lugar veio o destróier da moderna Classe
Arleigh Burke, o USS Ross (DDG-71).
Os navios argentinos chegaram antes à Baía da Guanabara
para a realização do Exercício Fraterno XXIV
realizada a partir de 10 de outubro em conjunto com a MB. Os demais
já se encontravam estavam no porto do Rio em 17 de outubro,
data oficial do início da Unitas XLVII/05.
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Os novos desafios mundiais refletidos na UNITAS |
A guerra é um evento muito delicado para as nações,
pois quase sempre as suas conseqüências na política
internacional podem ser ainda maiores do que no lado militar propriamente.
Por isso, hoje em dia, mais do que já foi no passado, a
decisão de declarar o início das hostilidades é
provavelmente uma das mais delicadas para qualquer Presidente
ou Primeiro Ministro. A forma de dar este passo deve ser calculada
nos mínimos detalhes para garantir o apoio da ONU e da
comunidade internacional nesta tacada do jogo geopolítico.
O oponente, sabendo destas limitações dos Estados
democráticos, sem dúvida, irá procurar criar
uma provocação que induza o outro lado ao erro e
a atos improvisados que politicamente lhes convenham. Isso é
o que se viu na antiga Iugoslávia e no Iraque nos passos
que antecederam ao estouro definitivo das hostilidades.A maior
lição desta UNITAS é como executar esse ato
de malabarismo, alcançando os objetivos políticos
estabelecidos sem ameaçar a segurança das tripulações
e de seus navios.
Outra característica importante aqui é a administração
das diferentes Rules of Engagement de cada país dentro
de uma força de coalizão. O comandante do Task Force
terá sempre de levar em conta o que os níveis políticos
permitem ou não permitem que suasforças façam
dentro da “Força de Paz”. Como cada país
tem limites diferentes, alguns não podem atirar nunca,
outros apenas ao serem alvejados outros ainda apenas se radares
de tiro forem travados ou ainda se radares de tiro forem acionados.
Ou seja, numa situação real o acionamento de um
navio localizado mais longe da região do alvo pode ser
indispensável para a força tarefa poder reagir adequadamente
à ameaça.
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A partida da Base Naval do RJ |
Embora a semana anterior tivesse sido de chuvas e tempo encoberto,
na sexta feira dia 21 o dia nasceu espetacular, chegamos na Base
Naval às 7:30, duas horas antes da hora prevista para nossa
partida, tempo mais do que adequado para nos orientarmos e ocuparmos
nossos camarotes. Fomos apresentados ao Capitão da Rademarker,
CF Newton de Almeida Costa Neto. As últimas caixas de mantimentos
estava sendo carregadas completando os estoques para esta missão
de dez dias. O movimento era intenso, praças vestidos de
coletes salva-vidas coloridos e capacetes se posicionavam para
dar inicio à desatracação da Rademaker. Atrás
de nós estava o ARA Santa Cruz, negro, discreto e pequeno
ao lado da Rademaker. No píer mais externo da BNRJ, os
navios argentinos e os americanos, acompanhados pela Corveta Jaceguai.
Na partida, a separação entre cada navio foi de
cerca de trinta minutos e a ordem de partida para esta comissão
foi: Corveta Jaceguai primeiro, seguida pela Fragata Rademaker,
a Fragata MEKO 140 argentina ARA Robinson, o Destructor ARA Almirante
Brown, a OHP americana USS Samuel B. Roberts, a Fragata Independência
saindo do Arsenal de Marinha e, finalmente, o destróier
USS Ross. Do outro lado da Baía da Guanabara, do cais do
Caju, partiram a Fragata espanhola Santa Maria, o navio tanque
Marques de la Ensenada e o recém incorporado navio logístico
uruguaio, General ROU Artigas. Ao cruzarmos a saída da
barra entramos no Oceano Atlântico e, neste ponto, um pouco
além da Fortaleza de Santa Cruz, a Fragata Rademaker e
a Corveta Jaceguai diminuíram o ritmo para aguardar a saída
dos demais navios para que todos os navios que estavam espalhados
se encontrassem, era o “Rendevous”, processo que durou
por cerca de uma hora a partir das 14:30.
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Rumo ao sul: os exercícios básicos |
Logo em seguida foi a chegada dos helicópteros brasileiros
vindos em vôo da Base Aero-Naval de São Pedro d’Aldeia,
no oeste do estado do Rio de Janeiro. Eram dois Super Lynx do
HA-1, o 4001 para a Fragata Rademaker e o 4004 para a Fragata
Independência e um Esquilo do HU-1 (7087) para a Corveta
Jaceguai. Os helicópteros estrangeiros participantes eram:
um Sikorsky Seahawk SH-60B americano, um Bell 212ASW (HA18) espanhol,
um Eurocopter EC-555 Fennec e um Aerospatiale AS-219B Alouette
III. Durante a parada dos navios no Rio, eles permaneceram o tempo
todo hangarados nos seus respectivos navios. Sempre que os nossos
helicópteros chegam nos navios, imediatamente começa
o processo de requalificação dos pilotos para pouso
a bordo. Esta é uma etapa indispensável para que
os tripulantes possam em seguida operar as missões que
serão exigidas deles ao longo do exercício.
Em cada UNITAS, os exercícios começam simples e
vão ficando progressivamente mais exigentes a medida que
os dias se passam. Esta etapa inicial visa refrescar os conceitos
básicos de navegação e de comunicações
entre os navios, processos que se não bem dominados podem
resultar acidentes graves até mesmo com perda de vida.
“CCC-9-SF”. Por trás deste
nome crítico estava o primeiro exercício de navegação
em formatura da UNITAS XLVII. Por duas horas e meia os navios alternaram
suas posições relativas e rumo sob instruções
do controle do exercício, desta vez embarcado na Fragata
Independência. Começamos com uma formação
simples, uma coluna guiada pelo NT Marques de la Ensenada. O “guia”
é o navio de referência para todos os demais. As distâncias
e a posição relativa devem ser sempre calculadas em
relação a ele. O guia pode ser qualquer um dos navios,
independentemente do seu tipo ou de sua posição na
formatura. Durante este exercício, várias vezes havia
troca de guia, quando todas as distâncias e orientação
eram recalculadas em função do novo guia. Após
a coluna, guinamos para boreste e formamos uma “linha de marcação”,
todos os navios se deslocando em paralelo, mas cada um ligeiramente
mais adiantado que seu vizinho. Depois de alguns minutos nesta formatura,
recebemos nova ordem para formarmos em uma coluna. O guia apenas
guina para o novo rumo, os demais fazem o possível para se
posicionar adequadamente em relação a ele. Quanto
mais longe um navio estiver do guia, maior o deslocamento necessário
para ele entrar na sua posição final. Ainda em coluna
foram dadas ordens de “pós Juliet”. Isso faz
com que um par específico de navios trocasse de posição
na formatura. O que estiver mais adiante guina para bombordo e o
mais atrás acelera por boreste, paralelamente à coluna
até ocuparem o lugar um do outro. Desta vez, primeiroo ARA
Almirante Brown trocou com o ARA Robinson e, depois, a Fragata Rademaker
trocou de lugar com a Fragata espanhola Santa Maria.
Todos estes procedimentos executados na UNITAS
estão especificados em uma documentação chamada
“MTP” ou “Multinational Tactical Procedures”.
O MTP é uma simplificação das regras ATP ou
“Allied Tactical Procedures”, usado entre os países
da OTAN. Estes documentos são leitura obrigatória
para todos os participantes e garantem quer todos sigam o mesmo
conjunto de regras de navegação, de comunicação
e de emprego de armas e sensores.
A formatura seguinte foi a “Delta”, os navios navegando
em três colunas (3-4-3), uma formatura bastante mais complexa
que as anteriores. O guia agora era a USS Ross que estava na cabeça
da coluna central e a Rademaker ficou posicionada no final da
terceira coluna. Pouco tempo depois de estarmos formados em Delta
soou a ordem “Alfa” que é uma formatura em
coluna, porém montada em alta velocidade. Na formatura
“Alfa” o comando indica a ordem dos navios na nova
coluna e, como essa ordem era diferente da coluna anterior, isso
poderia gerar algum tipo de conflito caso algum dos navios não
tivesse entendido isso claramente. Nós fomos para a oitava
posição da coluna, onde antes estava a Santa Maria.
Para dar a partida do próximo exercício importante,
a Corveta Jaceguai se destacou do GT e saiu do alcance radar para
assumir seu papel de “vilão” do exercício
“Transit under surface threat” (navegação
sob ameaça de superfície) daquela noite. Antes disso,
tivemos o exercício “Gunnex”, com tiro de canhão
contra granadas iluminativas (GIL). Nos posicionamos em coluna
com a Fragata Independência, encarregada de lançar
as granadas no centro da formatura. Adiante da coluna estava o
USS Ross puxando a fila, depois a Fragata Rademaker com o ARA
Almirante Brown seguindo logo atrás. Os demais escoltas
estavam alinhadas atrás da Fragata Independência.
Tanto os nossos reparos de 40mm quanto as metralhadoras .50 seriam
usados no exercício, primeiro as de boreste, depois as
de bombordo. A área ao redor das asas do passadiço
estava apinhada, dezenas de oficiais e praças deixaram
seus camarotes, ninguém a bordo queria perder este show.
Lançada a GIL, os projéteis traçantes
de 40mm imediatamente começaram a espocar. Num ritmo de aparentemente
uma ou duas por segundo, os riscos vermelhos se dirigiram exatamente
para o alvo, tiros perfeitos. Após o silenciar dos reparos
pesados, iniciaram os tiros da metralhadora, igualmente precisa,
acertando o alvo em cheio. Ao fundo pudemos ver e ouvir os tiros
dos canhões do ARA Almirante Brown disparando contra a mesma
GIL. Em seguida, os observadores vão para o costado de bombordo
para o lançamento de uma nova granada. Mais tiros e mais
acertos no alvo, a tripulação da Fragata Rademaker
está claramente apta e preparada para atacar alvos aéreos
com seus canhões. A satisfação é geral
com os bons resultados alcançados, talvez por isso não
faltem sorrisos e apertos de mão para todos os envolvidos.
O primeiro dia se encerra com a certeza de que muito mais virá
pela frente.
Durante a madrugada os navios assumem uma formatura por setores
com o General ROU Artigas ocupando a posição central.
Nosso setor fica a boreste mais a ré da formatura, interessantemente
alguns navios, como a Fragata Santa Maria e o USS Ross, receberam
setores bem maiores do que os demais navios do Grupo Tarefa.
Logo no começo do exercício começaram os
primeiros UNREP (“Underway Replenishment” ou, em português,
TOM - Transferência de Óleo no Mar), um reabastecimento
de óleo combustível pelo navio tanque Marques de
la Enseñada com os navios em movimento. O NT espanhol era
o único navio tanque do grupo e por isso teve muitas oportunidades
de treinar seu pessoal. O TOM começa com a bandeira “Bravo”
sendo topetada no mastro do navio tanque. Isto significa “navio
pronto para faina de reabastecimento”. Neste momento o navio
a receber o combustível se dirige ao costado do NT, mantendo
menos de 100 metros de distância um do outro. Nós
tivemos de esperar a Fragata Santa Maria acabar sua faina para
tomar a posição dela à boreste do NT. Os
navios são conectados entre si por cabos de aço
cada vez mais grossos e estes cabos são usados para deslizar
os mangotes de combustível até o pesado “plug”
se conectar no receptáculo padrão da Fragata brasileira.
O próximo passo é começar o bombeamento de
óleo. Durante todo este processo, o passadiço fica
em contato com a área de máquinas para monitorar
a quantidade de óleo que foi recebido. O plug do navio
espanhol estava todo “decorado” com adesivos dos navios
estrangeiros que eles atenderam, e a Fragata Rademaker não
se fez de rogada e também deixou sua marca. Paradas as
bombas, ar comprimido é injetado no mangote para limpá-lo,
evitando, não somente poluir o oceano, como também
deixar uma mancha de óleo na superfície que informe
aos inimigos da presença de um navio tanque adiante. Durante
esta faina é normal que se aproveite pra trocar documentos
em papel e meio magnético, além de pequenos objetos
entre os dois navios. Para comemorar o sucesso do procedimento
e saudar a outra tripulação, a F-49 ergueu sua bandeira
negra com o machado de guerra e acelerou adiante guinando em velocidade
para longe do NT.
Ao invés de utilizarem as bandeiras para
se comunicarem, os navios fizeram uso de mensagens em código
Morse usando os telégrafos luminosos localizados nas asas
do passadiço. Por mais simples que possa aparentar ser para
o observador leigo, um TOM é um procedimento muito perigoso.
Aqui qualquer falha pode causar um acidente grave, desde vazamento
de óleo sob pressão, a uma colisão entre os
navios ou até uma ruptura dos cabos de aço que unem
os dois navios. Segundo comentou o Capitão Newton: “Esse
navio-tanque, como o nosso Marajó, rabeia muito, e pra compensar
isso, a escolta que é mais leve e ágil, tem de aplicar
guinadas de até quatro graus no rumo para acompanhá-lo.”
Se o primeiro exercício de Qualificação
de Pouso a Bordo foi feito de dia, a segunda vez foi realizada
a noite, quando todos os quatro pilotos executam uma série
de pousos e decolagens desde o convôo iluminado pelos holofotes
localizados sobre o hangar. É um processo repetitivo; decolar,
fazer curva, “entrar no gate”, “fazer a rampa”
e, finalmente, pousar. À noite estas operações
são sempre mais críticas, especialmente quando os
navios estão em formatura cerrada, a cerca de 1000 jardas
(aproximadamente 1.000m) de distância uns do outros. Muitos
estão fazendo suas próprias operações
aéreas, não sendo raro ter as aeronaves se cruzando
durante seus procedimentos. Pra piorar a situação,
os radares navais não têm muita precisão tão
perto do navio, funcionando muito melhor a partir de certa distância
devido à menor interferência das ondas. Para tentar
amenizar este tipo de problema, a sensibilidade dos radares pode
ser regulada para evitar que o “clutter” das ondas
venha acidentalmente obscurecer um contato de navio inimigo. Nessa
noite recebemos más notícias. A previsão
meteorológica para o dia seguinte indicava possibilidades
de ondas entre 3,5m e 4m. Estávamos chegando perto do nosso
limite meridional, ao largo de Itajaí, no estado de Santa
Catarina.
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Lançando um Sea Wolf - DRONEX |
Um dos pontos altos da vida de um oficial da Esquadra brasileira
sem duvida é poder participar de um lançamento de
míssil, seja anti-aéreo ou anti- navio. Nesta UNITAS,
coube este privilégio à tripulação
da Fragata Rademaker. Para que esse evento possa ocorrer como
previsto, o míssil, o lançador, os radares de detecção
e de controle de tiro, os sistemas do COC e, principalmente, os
tripulantes devem todos estar devidamente preparados e capacitados.
Isso em si já seria uma grande tarefa se a Fragata Rademaker
não tivesse passado pelo grave incidente em 30 de novembro
de 2004, quando um canhão de 40mm do Destróier ARA
Sarandí acidentalmente disparou contra seu passadiço
e o mastro, destruindo o radar de tiro frontal e um dos casulos
do lançador dianteiro do Sea Wolf. Havia na época
uma expectativa de que fosse necessário pelo menos dezoito
meses para que a F-49 pudesse re-estabelecer sua capacidade de
lançar mísseis anti-aéreos. No entanto, devido
à disponibilidade dos componentes necessários na
recém-desativada Fragata Dodsworth (F-47) e com um grande
empenho da tripulação da Fragata Rademaker e do
pessoal do Arsenal de Marinha, menos de um ano transcorreu até
a data deste lançamento.
Para este exercício específico, a Fragata Rademaker
recebeu a visita do Almirante Carlos Augusto de Sousa comandante
da 2ª Divisão da Esquadra, unidade da Marinha responsável
pelo exercício Unitas deste ano. Ele chegou logo cedo num
helicóptero Esquilo do HU-1 acompanhado pelo seu Chefe
do Estado Maior, Capitão-de-Fragata Carlos Frederico C.
Primo. Os navios foram dispostos em coluna na seguinte ordem:
Ross (Guia), Rademaker, Almirante Brown, Independência,
Santa Maria, ARA Robinson, Jaceguai e Samuel B Roberts. Por segurança,
foi estipulado que os navios deveriam manter uma distância
de 1.000 jardas entre cada um deles.
O exercício Dronex foi dividido em duas fases. Na primeira,
todas as escoltas, menos a Fragata Rademaker, se alternariam,
dois a dois, atirando no alvo com seus canhões e, somente
no final, um tiro do SeaWolf destruiria o alvo teleguiado Northrop
BQM-74E Chukar lançado pela Fragata americana Samuel B.
Roberts.
Cada navio estava autorizado a disparar um número de projéteis
contra o alvo.
ROSS 5 pol. 20 tiros
RADEMAKER SEAWOLF 1
ALMIRANTE BROWN 40 MM 60 tiros
INDEPENDENCIA 4.5 pol. 10 tiros
SANTA MARIA 76 MM 12 tiros
ARA ROBINSON 40 MM 60 tiros
JACEGUAI 4.5 pol. 10 tiros
SAMUEL B ROBERTS 76 MM 20 tiros
Nos COCs os operadores ouviram a ordem clara
de atirar contra o alvo. “Drone fechando… make target
number xxx hostile, kill target number xxx with guns”
Para este exercício, a pontaria os canhões
foi desalinhada propositadamente em alguns graus para evitar que
os tiros disparados viessem a destruir o alvo antes de chegar a
vez do SeaWolf.
Não se pode negar que o pessoal da Northrop tem bom humor,
pois a palavra “Chukar” dá nome a um tipo codorna
selvagem da América do Norte, um belo nome para um pequeno
avião não tripulado que provavelmente terminará
sua vida operacional sendo abatido. O modelo “E” já
é a terceira versão deste sistema que iniciou seu
serviço com a US Navy em 1968 e, desde então, já
foram produzidos mais de cinco mil unidades de todas as variantes.
A agora rebatizada Northrop-Grumman está desenvolvendo
um novo Chukar, a versão “F”, de asas enflexadas
com a qual pretende continuar com o sucesso desta família
de alvos aéreos. A versão “E” lançada
no Dronex soma um piloto automático pré-programável
com a capacidade de controle remoto por rádio, elementos
que, juntos, agregam segurança e dificuldade ao exercício.
Características de operação
do Alvo
• IFF: mode 3 code 5000
• Propulsão: Turbina
• Velocidade: 230-465 nós
• Altitude: 1.000 to 30.000 pés
• Duração máxima: 62 min
Condições meteorológicas
mínimas:
•Teto: 1000 pés
• Visibilidade: 3 nm
• Chuva não significante
• Sem tempestades ou relâmpagos
• Vento relativo < 35 nós
• Estado do mar menor que 3
• Balanço < 15º
Para o Dronex, uma série de procedimentos de segurança
foram acertados antecipadamente pela tripulação
da F-49 para não haver surpresas caso por algum defeito
o alvo viesse a colidir com qualquer parte do navio. Para tanto,
o time de controle de avarias teria de estar a postos para reagir
imediatamente neste caso.
Para capturar adequadamente este evento, uma equipe de vídeo
do NAe São Paulo estava a bordo com seu equipamento profissional
de vídeo. Nosso fotógrafo ficou bem na proa do navio,
num local privilegiado para fotografar o lançamento. Em
paralelo, um dos oficiais do navio filmava o evento desde a asa
do passadiço, área que foi determinada com o perigosa
demais para nós os civis, mas: “em Roma fazemos com
os romanos”. De lá pudemos observar a equipe de armamentos
conectando os contatos, fazendo o check pré-lançamento
e ativando o míssil Sea Wolf. Para este exercício,
três mísseis estavam montados nos lançadores,
dois no de vante e um no lançador de ré. Como o
sistema de lançamento é automático, se o
alvo se aproximasse pelo arco traseiro ele seria engajado pelo
míssil de trás. Se fosse pela frente, como programado,
haveria um segundo míssil de back up caso o primeiro apresentasse
qualquer problema.
No entanto, o que deveria ser um exercício rápido
acabou demorando quase quatro horas devido à falta de combustível
no primeiro drone. Ao fim dos exercícios de tiro de canhão,
este BQM-74E caiu no mar como previsto, porém o processo
de recuperação da aeronave pela “Samuel”
e seu reposicionamento no final da coluna demoram bem mais de
uma hora além do previsto. Um segundo drone foi lançado
pela fragata americana, realizando duas passagens de teste antes
de ser autorizado o início da “corrida de fogo”.
Neste momento, parecia que o tempo tinha se acelerado... O ODE
(Oficial Diretor do Exercício) divulgou a distância
clara (green range); A Rademaker “trecou” o drone
correspondente ao designado pelo controlador de Guerra Aérea
(AW); O ODE disseminou no canal de rádio a autorização
para disparar o míssil “make tn xxxx hostile / kill
tn xxxx with birds”.
O BQM-74E veio de boreste mas, ao invés de vir numa rota
transversal simples, ele deu uma quebrada para a esquerda e fez
uma curva longa à direita intersectando a direção
da Rademaker meio inclinado. Esta alteração fez
com que os sistemas automáticos do COC deixassem de considerar
o drone uma ameaça primária passando ela para o
fim de uma lista de outros alvos potenciais. Ao perceber isso
os controladores do COC re-inseriram aquele track manualmente
como sendo o prioritário, ganhando segundos valiosos para
o abatimento do alvo. Na distância máxima, os radares
localizaram o alvo e imediatamente sob controle dos radares de
tiro, os lançadores começaram a “conteirar”,
girando e erguendo-se na direção identificada do
alvo silenciosamente e com grande agilidade. Conforme me tinha
sido avisado, o sinal do lançamento iminente seria o abrir
das conchas que tampam os dois lados do compartimento do míssil.
Isso ocorreu pouco mais de um segundo antes do lançamento
do SAM. Para minha surpresa, o Sea Wolf não dispara com
um “Sushhhh!”, como se ouve na televisão. O
barulho é um alto e sonoro BUM!, parece muito mais um tiro
do que qualquer outra coisa. O drone, para ajudar na sua observação,
vinha em direção a nós deixando um rastro
de fumaça preta atrás de si. O SeaWolf, por sua
vez, riscou o claramente céu com sua fumaça branca
e em alguns segundos explodiu em um cogumelo branco. O alvo já
não existia mais. O helicóptero foi imediatamente
enviado ao local para tentar localizar restos dele para serem
presenteados à tripulação da Fragata Rademaker
em comemoração a este feito. O CF Newton apareceu
no passadiço vindo do COC com as chaves de disparo nas
mãos e com cara de quem tinha sido pai pela primeira vez....
Poucas palavras e muitos sorrisos e abraços.
A Rademaker e sua tripulação tinham
se provado serem “letais”, sem dúvida o maior
elogio para um navio de guerra, independente da marinha a qual ele
opere. No briefing final da UNITAS na Base Naval do Rio de Janeiro,
em Mocanguê, a tripulação americana produziu
a unidade de guiagem do drone que havia sido pescado do mar presenteando-a
à Rademaker na pessoas de seu Chefe de Operações,
o CF Flammarion.
Uma missão importante para este exercício foi realizada
pelo AS-555 Fennec da Armada Argentina. Ele foi incumbido de garantir
que nenhum navio mercante ou pesqueiro penetrasse na área
de tiros, onde poderiam se expor ao perigo. O Fennec permaneceu
em alerta 15 durante todo o evento.
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A Guerra anti-submarina: Casex A-2, A-3, A-4 |
A maior experiência de guerra da Marinha do Brasil ocorreu
na Segunda Guerra Mundial, quando muitos mercantes de bandeira
brasileira foram afundados por submarinos alemães. Este
cenário está cada vez mais real especialmente tendo
em vista a crescente participação do país
na comercialização de insumos básicos, desde
o minério de ferro até petróleo, carne e
grãos. Desde o fim da Segunda Grande Guerra, muita energia
tem sido gasta para manter esta capacidade sempre atualizada na
nossa marinha. Os exercícios incluiram o “Transit
under sub threat”, ou navegação sob ameaça
de submarino onde o Grupo Tarefa se dispunha ao redor dos navios
mais lentos e desarmados, no caso o Marques de la Enseñada
e o Gal Artigas, e dividiam a área em setores de cobertura
de sonar. Normalmente estes exercícios ocorriam durante
a madrugada para adicionar um elemento extra de dificuldade e
realismo. Uma das principais armas dos navios contra os submarinos
é o “Towed Array”, um sonar que é arrastado
vários metros atrás do navio. Mas o TA não
é perfeito ele determina muito bem a direção
de onde emana o ruído, mas, a posição exata
do sub só é oferecida pelas sonobóias lançadas
pelos helicópteros de bordo. Outra característica
do uso dos TA é a necessidade de manter-se longe dos demais
navios para que por acidente um deles não atropele o sonar
no mar destruindo um hardware tão caro.
Nesta UNITAS os exercícios anti-submarino
estão divididos em três blocos, cada um mais difícil
que o anterior. Em cada um o submarino tem mais liberdade de ação,
exigindo cada vez mais dos seus “caçadores”.
Mesmo contra oponentes tão tecnicamente
avançados, os tripulantes do Tapajó mais de uma vez
conseguiram que eles perdessem o contato. A força de submarinos
da Marinha do Brasil, mesmo enxuta, com muito menos unidades do
que o ideal, tem a capacidade de criar um sem número de dificuldades
para forças navais estrangeiras operando na nossa costa.
Submarinos são as armas mais devastadoras no oceano, especialmente
com o Atlântico tão amplo, profundo e cheio de lugares
ideais para se esconder. Nesta UNITAS o planejamento não
os deixou de fora. Além dos exercícios de luta anti-submarino,
em duas ocasiões os submarinos participantes, do Brasil
e da Argentina, tiveram oportunidade de se enfrentar um contra
o outro. Nos dois casos estes exercícios foram realizados
longe do grupo principal de navios para estes não interferissem
inadvertidamente na experiência. Desta vez, o Santa Cruz
e o Tapajó se enfrentaram, sempre operando em profundidades
distintas para evitar o risco de uma colisão. Os submarinos
navegam sempre em silêncio uma vez que qualquer ruído
ou sinal emitido pode dar ao oponente uma janela de primeiro tiro.
Os submarinos convencionais (SSK) são muito silenciosos,
dando uma maior dificuldade ao exercício.
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Ataque aéreo! O ataque dos AMX |
A manhã do dia 22 foi gasta inteira sob a perspectiva
iminente de um ataque aéreo. Estávamos rumando para
sul em duas colunas. A da esquerda era encabeçada pelo
USS Ross e seguida pelo ROU Gal Artigas, NT Marques de la Enseñada,
a Fragata Santa Maria e, finalmente, o ARA Almirante Brown. Nós
estávamos na coluna da direita, seguido pelas outras escoltas.
Às 9:34 os primeiros ruídos de um P-95 Bandeirulha,
orbitando à 16 milhas de distância, foram detectados.
Às 15:00 um sinal espúrio (“bogus”)
foi alertado por um dos outros navios, mas não pode ser
confirmado pela Fragata Rademaker. Finalmente, às 15:30,
quase no fim da janela permitida para o ataque, dois AMX da FAB,
vetorados por um longínquo P-95, atacaram o ROU Gal Artigas
com suas “bombas burras”. Estávamos a cerca
de 70 milhas de Santos e o atacante veio no rumo 140 e cruzou
por cima de todos os navios principais da coluna da esquerda virou
para a direita e sobrevôou a F-49 a baixa altitude.
É difícil imaginar que, numa crise real, uma força
aérea moderna expusesse seus principais meios de bombardeio
desta forma a uma Força Tarefa tão bem defendida
por mísseis SAM como a nossa. Os mísseis anti-navio
e as munições “stand-off” de longo alcance,
são ferramentas imprescindíveis para o emprego efetivo
de aeronaves contra alvos no mar. As bombas burras nos dias de
hoje, apenas condenariam seus pilotos a morte, causando nenhum
ou pouco dano à frota inimiga. Esperamos que estas lições
destes exercícios estejam claras para a FAB tanto quanto
estão para a Marinha do Brasil. Em 1982, nas Malvinas os
argentinos fizeram ataques exatamente assim com sus A-4, mas eles
não tiveram condições para se preparar adequadamente,
e sem duvida pagaram um preço alto por isso. Alguns dias
depois outro ataque foi realizado contra o Task Force por outros
dois AMX com resultados semelhantes.
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O Invader Jack e a guerra eletrônica |
Uma das grandes novidades desta UNITAS foi um Learjet 35, mas
engana-se quem imagina que era um jatinho executivo comum e corrente.
Este foi o ano da estréia na UNITAS do “Invader Jack”
um avião executivo convertido para simular, tanto em perfil
de vôo quanto de emissões, um ataque de míssil
anti-navio. O programa é operado pela firma civil americana
Flight International, contratada pela US Navy. Sob as asas deste
Learjet existem duas antenas em formato de míssil que emitem
toda sorte de sinal eletrônico para desafiar a competência
dos oficiais de guerra eletrônica dos navios alvo. Porém,
ao mesmo tempo em que esta aeronave cumpre seu papel de simular
um atacante, ela também está permanentemente gravando
os sinais emitidos pelos radares e outras fontes de energia eletromagnética
dos navios do exercício, sendo assim, literalmente, uma
faca de dois gumes. Todas as aproximações desta
aeronave são feitas a baixa altitude, seguindo o perfil
que se espera de um míssil SSM ou ASM. Os resultados finais
destes exercícios têm de ser compilados em terra
juntando um grande número de fontes num programa de computador
capaz de dizer com mais precisão que navio afundou, que
aeronave foi abatida.
Para nosso benefício, o piloto do Invader
Jack passou baixo e lento para que pudéssemos flagrá-lo
adequadamente.
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O Final Battle Problem – Um teste naval sem solução
tradicional |
Os dois últimos dias da UNITAS foram ocupados pelo Final
Battle Problem, um cenário de “role playing”
em que os navios são divididos em times e são obrigados
a interagir como se fosse numa situação normal.
Neste caso, o estado do Rio de Janeiro representava um país
independente, rico produtor e exportador de petróleo. Ao
norte existe um grande país com problemas econômicos
severos e, ao sul, um outro que não deseja ver uma guerra
começar na sua vizinhança. O país do norte
busca criar uma situação política que justifique
uma intervenção sua no Rio de Janeiro. O FBP começa
com autorização da ONU de se enviar para a região
uma força naval que possa proteger o pais “XXX”
das ameaças “externas”. A missão especifica
envolve patrulhar a região em frente aos principais portos
do país de maneira que armas ou produtos proibidos não
sejam levados ilegalmente para forças rebeldes que buscam
derrubar o governo local. As organizações de inteligência
receberam noticias que o cargueiro X pode estar levando estes
itens proibidos. O Marques de La Enseñada fez o papel deste
cargueiro suspeito e a corveta Jaceguai fez o papel de um navio
militar do país laranja. O Artigas e os submarinos não
participaram deste exercício. Assim, as outras escoltas
foram posicionados, três a três em áreas de
patrulha semicirculares nos dois lados da boca da Baía
da Guanabara.
Nas primeiras 18 horas, nada ocorreu, pois a
corveta ficou em patrulha bem mais a oeste dos dois setores de patrulha
aliados. A fragata Liberal fez o papel de outros navios mercante
de bandeira neutra, que deveriam ser interrogados e inspecionados
de acordo com as ordens passadas para a esquadra aliada. No meio
do dia seguinte, o Marques apareceu e se recusou a aceitar as ordens
de parar e ser inspecionado. Todas as escoltas foram então
autorizadas a deixar suas zonas de patrulha e partir para interceptá-lo.
Com a perspectiva de ser tomado, a corveta laranja foi acionada
e se dirigiu para leste para evitar que o Enseñada fosse
capturado. Quando a corveta chegou perto, uma equipe da Brown já
havia entrado no navio e descoberto as cargas ilegais, imediatamente
confiscando o navio e estando prestes a enviá-lo para o porto
da cidade de Castelhanotown. Ao ver o cargueiro em posse das forças
da ONU e cercado pela Rademaker por bombordo e para Brown por boreste,
o capitão da Jaceguai tentou cortar a proa da Rademaker para
se interpor entre o cargueiro e a fragata brasileira mas, prevendo
esse movimento, o Capitão Newton ordenou motores adiante
para fechar esta porta para a corveta. A reação da
corveta foi a esperada, cortaram o motor e deixaram a Type 22 passar
batida adiante para, em seguida, guinar fortemente para boreste
e passar pela popa da F-49. A agilidade superior do navio menor
fez com que a Rademaker com sua inércia muito maior não
pudesse fazer nada além de ir se aproximando do Marques para
não dar espaço para a Jaceguai se meter no espaço
entre os dois navios. Do outro lado do cargueiro, a Brown também
se aproximava dele para evitar que ele pudesse mudar o seu curso.
Nessa hora o radar de tiro da corveta foi acionado, manobra repetida
pela imediatamente Rademaker. Os navios estavam próximos
demais para usarem mísseis, só lhes restando os canhões
e as metralhadoras .50. A Ross e a Samuel que observavam todo o
movimento dos navios, lá de trás, mais afastadas,
começaram a se aproximar fechando a corveta laranja por trás.
Neste momento o exercício foi dado como encerrado e os navios
receberam ordens de se afastar uns dos outros.
O último jantar da comissão é uma cerimônia
muito importante a bordo. Nesta ocasião tivemos a entrega
do pin da Ordem do Martelo de Batalha ao CMG Randolfo Eimar Cordeiro
Bezerra que nos acompanhou nesta comissão. O momento foi
muito solene e inspirador com o Capitão enfatizando a importância
dos resultados alcançados pelo navio nestes últimos
dias, especialmente em relação ao exitoso lançamento
do SeaWolf. O navio é uma família e como famílias
ele não é estático no tempo. Vários
oficiais estavam prestes a deixar o navio, alguns para assumir
seus próprios comandos e outros para novos desafios em
postos de terra. Um outro Oficial entrava para o ser o novo CheOp
do navio e se preparava para passar a fazer parte da tripulação
da Rademaker. Novo ano, nova vida. Finalmente, nós, que
entramos por apenas 10 dias, saímos com a certeza que parte
dos nossos sonho e aspirações para um Brasil melhor
e mais importante nos cenários geopolíticos regional
e global passa pela seriedade, profissionalismo e patriotismo
daquela família de gente madura e ponderada, com gente
jovem e cheia de garra e energia.
A caminho do Rio de Janeiro, foi realizada a última das duas missões
“Photex”. Dois helicópteros, o Super Lynx da
Rademaker e o Esquilo do HU-1 da Corveta Jaceguai, decolaram para
fotografar os navios da UNITAS navegando juntos. Nosso fotógrafo
estava por lá e tirou algumas imagens inesquecíveis,
pena que o céu azul não apareceu para coroar este
evento. A Fragata Rademaker ficou no centro da Formatura a ré
da formação. Nas duas alas externas a Corveta ARA
Robinson e a Corveta Jaceguai, na frente o Marques de la Enseñada
cercado pelos dois navios americanos.
Entramos lentamente na barra da Baía por
volta das 14:00 do domingo, a cidade estava coberta por uma extensa
nuvem escura que pouco condizia com a imagem mental que as pessoas
fazem do ensolarado Rio de Janeiro. A ordem de entrada dos navios
foi a exatamente oposta à de saída, por isso nós
fomos os penúltimos a atracar. Os submarinos chegaram no
dia anterior e o Santa Cruz já estava na sua posição,
atrás de nós. O USS Ross ficou fundeada fora da BNRJ
por algum tempo e depois partiu rumo às suas missões
prementes.
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