
Texto de Felipe Salles e Pierre Vincent
| VC-6: Operando Drones Sobre o Atlântico Sul |
Uma das oportunidades de ouro que normalmente ocorrem durante as Unitas é o “tiro real”. Nestes exercícios os navios disparam com seus canhões não somente contra alvos em terra e flares, mas também contra alvos aéreos tripulados remotamente. Essa é uma contribuição americana a um grupo que teria dificuldades de justificar a destruição de um alvo a jato valendo cerca de US$ 250.000,00 cada.
A unidade da US Navy que opera estes sistemas desta vez é um destacamento do Esquadrão VC-6 “Firebees”, sob o comando do LCDR (Capitão de Corveta) Paul Prokopovich. O nome ‘Firebees’ é uma clara e justificada homenagem ao primeiro alvo aéreo a ser usado ostensivamente nos EUA, o Teledyne Ryan BQM/MQM/AQM-34.
Estes sistemas são comumente chamados de “drones” no meio militar americano. Este termo originalmente se referia as abelhas operárias de uma colméia, maquinas trabalhadoras efetivamente sem vontade própria, laborando incansavelmente e exclusivamente em prol do interesse da comunidade. Um avião-robô, especialmente um que nasce para ser destruído, na cabeça dos seus primeiros operadores, evocava muito estas abelhas trabalhadoras.
Mas nesta Unitas a única estrela entre os “drones” foi o modelo mais moderno, o Northrop BQM-74E. Para atender aos requerimentos de duas Unitas e mais um Team Work South, seis destes aviões-robô foram carregados no Pearl Harbor antes de sua partida, sendo três unidades de backup para as três que seriam efetivamente destruídas com um disparo de míssil ao longo dos exercícios. Na Unitas Atlântico 2005, um míssil SeaWolf da Fragata Rademaker da Marinha do Brasil teve este privilégio. Desta vez caberia à fragata espanhola Santa Maria abater o alvo com seu míssil Standard SM-1.
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Mobilidade e modularidade é o tema básico das unidades como o VC-6. Cada um de seus BQM-74 é transportado, desmontado, dentro de uma grande caixa metálica que facilita seu transporte para o local das provas. Todos os equipamentos de apoio e de controle também são montados em caixas para simplificar o deslocamento da unidade.
Os alvos podem voar em modo automático ou remoto controlado. No primeiro caso os pontos de navegação são inseridos no sistema de navegação antes do lançamento e, daí em diante, o vôo se passa sem intervenção humana. No caso desta comissão, com a utilização de um perfil de missão a baixa altitude, a proximidade com que os drones passarão pelos navios recomenda o uso com controle remoto como fator de aumento de precisão do vôo e, por decorrência, da segurança. Assim que o USS Pearl Harbor deixou Puerto Belgrano os técnicos do VC-6 iniciaram a faina de desempacotar e montar os seus “robôs”. Esta montagem ocorreu durante alguns dias no convés externo a ré, a unidade ocupando um compartimento semelhante a um pequeno hangar a vante do elevador central. As caixas eram retiradas de seu interior com os monta cargas, e as fuselagens eram colocadas sobre carrinhos manuais de quatro rodas de cor branca. Quatro dos seis BQM-74E foram montados nesta fase atlântica, o resto ficaria reservado para depois. Na parte do convôo localizada mais para vante do Pearl Harbor, quase colado no guindaste de boreste, foram instalados os quatro lançadores que, mesmo apeados com correntes ao piso, ainda assim transmitiam uma certa impressão de fragilidade.
O destacamento do esquadrão VC-6 a bordo consistia de dois oficiais pilotos e de dez mecânicos. Todos os BQM-74E tinham sido fabricados depois de 2000, e sua vida em serviço normalmente envolvia uns cinco ou seis vôos antes de serem marcados para serem abatidos com um tiro fatal. Normalmente, após uma hora de vôo, ao esgotar-se seu combustível, o drone automaticamente aciona um pára-quedas que garante sua queda suave no mar. A pintura laranja day-glo utilizada neles serve para facilitar sua identificação tanto no ar, durante os tiros, quanto no mar na hora do resgate. Os compartimentos dos sistemas eletrônicos, por isso, são estanques, pois dificilmente eles resistiriam ao contato com a água salgada do mar. Uma característica interessante deste modelo é a existência de uma “lente” localizada no cone frontal. Este apetrecho é muito útil pois permite aumentar a refletividade radar do alvo para que ele possa simular desde caças pequenos e mísseis anti-navio até aviões de grande porte como bombardeiros e cargueiros militares. Segundo o pessoal do VC-6, qualquer navio da US Navy, independente de seu porte, está qualificado para lançar e operar esta família de drones.
A unidade de comando do BQM-74E é dividida em três módulos: o Mission Command Console (MCC), que monitora toda a movimentação do drone. O Tactical Control Console (TCC), que agrupa o joystick do piloto e todo o painel (remoto) que um piloto precisaria para voar pessoalmente o alvo caso ele fosse tripulado. E o Ground Radio Frequency Unit (GRFU) que estabelece a ligação do datalink bi-direcional entre o controle remoto no navio e o drone em seu vôo.
Os pilotos do VC-6 são extraídos dos quadros de pilotos de fast jets da US Navy, sempre após um mínimo de 4-5 anos de experiência nesta área. O LCRD Prokopovich, por exemplo, foi piloto de F-14 no VF-103 “Jolly Rogers” antes de vir pilotar os drones. Para voar drones o piloto de caça tem que primeiro passar pelo curso de RCO (Remote Control Officer), pelos simuladores de vôo e finalmente por vôos acompanhado de instrutor. O BQM-74E é movido por um turbojato Williams J400-WR-404, que queima o mesmo combustível JP-5/JP-8 dos helicópteros normalmente usados a bordo. As turbinas de cada um dos quatro drones foram testadas por muitos minutos antes deles serem finalmente levados para o convôo.
Os mecânicos manualmente levantaram os alvos dos carrinhos e os posicionaram sobre seus quatro lançadores dispostos paralelos um ao outro, posicionados para um disparo para boreste. A estrutura do lançador permite que o alvo decole já numa atitude inclinada para cima. Para deixar o navio e acelerar até o ponto em que sua turbina possa funcionar adequadamente, o BQM conta com duas pequenas “garrafas” de decolagem assistida por foguete (RATO- Rocket Assisted Take Off). Este sistema produz uma longa pluma de fumaça e fogo que no entanto não dura o suficiente para danificar a chapa metálica do piso do convôo do navio.
O convôo foi totalmente evacuado por segurança, o que não impediu que muitos observadores se posicionassem nos corredores externos existentes a ré da superestrutura do navio. A decolagem é um processo muito rápido, uma explosão alta seguida por uma língua de fumaça. Os primeiros segundos do vôo são obstruídos pela massa do imenso guindaste de boreste. Posicionados ao fim da coluna de navios não há visibilidade alguma do vôo e dos ataques rasantes executados pelo alvo. O primeiro BQM visava atrair os tiros de canhão dos navios e, para não destruí-lo neste momento do exercício, os sistemas de tiro receberam um “erro” obrigatório que fazia com que seus sistemas automáticos de tiro acertassem obrigatoriamente atrás do alvo. Isto seria o suficiente para provar o sistema defensivo, no entanto preservando o alvo para o tiro do míssil espanhol em seguida. Por questões de autonomia do alvo foi decidido que um segundo BQM-74E seria lançado exclusivamente para o tiro do Standard. E iniciou-se a preparação do lançamento do segundo enquanto um helicóptero e uma lancha RHIB inflável com mergulhadores seguia para a área do “splashdown” do primeiro alvo. Muitas vezes o estado do mar pode impedir que o alvo seja localizado e recuperado. Mas, desta vez, a despeito das previsões iniciais de tempo ruim, a natureza ajudou e logo o alvo já se encontrava de volta a bordo, pronto para ser enxaguado profundamente, para remover o mais rápido possível os resíduos da água salgada de dentro de sua turbina e compartimentos internos. Ao lado do tirante do pára-quedas existe uma alça de cabo de aço coberta de borracha amarela que é usada para erguer o pequeno avião do mar com o guindaste. O segundo alvo foi lançado com a mesma pirotecnia do primeiro, mas, infelizmente, o míssil da fragata espanhola deu “nega” e não foi lançado, permanecendo armado no lançador. Este foi um exemplo da superioridade dos modernos sistemas VLS (Vertical Launch Systems) sobre os sistemas com braço lançador, como o Mk-13 presente na OHP espanhola. Ao ser verificado o problema, tem que ser empreendido um longo e delicado procedimento para desativar e, só depois, remover o míssil do braço do lançador. Nesta situação, qualquer erro pode se transformar em uma situação fatal para a tripulação do navio.
Depois desta primeira fase, ainda muitas outras oportunidades de fogo real aguardavam pelo destacamento do VC-6 antes que eles retornassem a sua base, em Norfolk, concluindo sua participação nos seis meses do exercício Partnership of the Americas 2007.