Rafale Tecnology Workshop na FIRJAN PDF Print E-mail
Friday, 14 October 2011 16:35

Na terça feira, 11 de outubro, as empresas francesas que oferecem o Rafale para a Força Aérea Brasileira - Dassault Aviation, Safran, Thales e suas subsidiárias - reuniram os membros da Federação da Indústria do Rio de Janeiro para mostrar o conteúdo de sua proposta e para convidar as empresas do estado a discutir como elas poderiam eventualmente se agregar ao grupo caso o Rafale venha a ser escolhido o vencedor da competição FX-2.

Um membro da FIRJAN comentou com ALIDE, naturalmente sem querer se identificar, que a fase de conquista de grandes parceiros nacionais já passou e que todas as empresas relevantes (as chamadas "second tier") que poderiam vir a se envolver no FX-2 até aqui já assinaram memorandos de entendimento (MOUs na sigla em inglês) em paralelo com os três concorrentes: suecos, americanos e franceses. Esta foi uma oportunidade usada pelos franceses para voltar a aparecer na imprensa num momento em que o FX-2 passa por uma "suspensão" até que o governo federal decida retomá-lo de vez. Efetivamente: afora os dois novos acordos assinados com a UFRJ e com a PUC do Rio, não houve muitas novidades para quem acompanha de perto o FX-2.

O evento começou com as tradicionais palavras de boas vindas dadas pelos organizadores do evento: o senhor Carlos Erane, Presidente do Fórum de Defesa e Segurança da FIRJAN; Jean Marc Merialdo, Representante do Grupo Rafale no Brasil; Michel Paskoff, Vice Presidente de Cooperações Internacionais da Dassault; e Jean Claude Moyret. Cônsul Geral da França no Rio de Janeiro.

Jean Claude Moyret - Cônsul da França no Rio de Janeiro

O diplomata abriu o evento salientando a profundidade das relações entre o Brasil e a França. Ele relembrou o Acordo Estratégico Brasil-França, recordando o apoio francês ao ingresso do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e explicando que a parceria entre os dois Estados extrapola a dimensão bilateral e encontra expressão também em foros multilaterais, como o G-20 e a própria ONU. Segundo Moyret, o comércio entre os dois países gira em torno de 10 bilhões de dólares por ano, o que faz do Brasil o quarto maior parceiro do comércio exterior da França. Ele citou, também, um dado inesperado. A França investe, hoje, mais no Brasil do que investe em qualquer outro dos BRICS (Rússia, China e Índia). No plano educacional a França se constitui no segundo maior destino de estudantes brasileiros no exterior, ao mesmo tempo em que é o primeiro país de destino para estudantes bolsistas. Falando diretamente aos industriais fluminenses, o cônsul enfatizou a ligação histórica da França com o Rio de Janeiro, mostrando que o Estado do Rio recebe um quarto de todo o dinheiro investido pela França no Brasil. A onda de criação de novos laboratórios e de centros de pesquisa na Ilha do Fundão (UFRJ) aponta que muito mais investimento em programas de alta tecnologia deve se dirigir para o estado no futuro próximo. Concluindo ele apontou três questões chaves que devem ser respondidas em breve aqui no Rio:

a) Como será dinamizado o segmento aeroespacial aqui no estado, em função da janela de oportunidade que se abre com a possível assinatura do contrato com o consórcio francês?

b) Como será dinamizada a pesquisa universitária no estado, de modo a integrá-la à indústria? Que função o contrato com a Dassault pode ter nesse processo?

c) Que lugar o contrato reserva à cidade e ao estado do Rio de Janeiro? Como eles podem potencializar seus ganhos (não somente financeiros, mas principalmente infra-estruturais) e atrair muitos dos investimentos que uma empreitada como o FX-2 demanda?

Jean Marc Merialdo - Diretor da Dassault Aviation para o Brasil:

Dentro de uma apresentação que resumiu uma série de detalhes sobre o Rafale e de sua oferta para a Força Aérea Brasileira dentro da concorrência chamada FX-2, Merialdo contou algumas novidades:

- Existem hoje 40 jatos executivos FalconJet (a linha de business aviation da Dassault) no Brasil

- O número atual de encomendas firmes do Rafale para as forças aéreas francesas totaliza 180 aeronaves, das quais, mais de cem já foram entregues.

Merialdo recapitulou alguns dados sobre a Rafale International (RI), o consórcio montado entre a Safran, a Thales e Dassault (um grupo que ele lembra, tem 135.000 funcionários, mais da metade dos quais são engenheiros; e que obteve, em 2010, um faturamento de 27 bilhões de Euros). Ele conclui sua apresentação lembrando que a Índia abriu uma concorrência internacional muito semelhante à brasileira, embora de dimensões maiores (126 aeronaves) e que os concorrentes da RI no Brasil, o Gripen e os F-18 e -16 foram descartados.

 

 

Os convênios com a academia carioca

Neste evento foram assinados diversos convênios entre as empresas do grupo Rafale International e a COPPE/UFRJ e com o Centro de Recnologia da PUC-RJ. Pela UFRJ falaram os Professores Nelson Maculan e José Herskovitz, pela PUC, falou o Professor Carlos Frederico Borges Palmeira. Abaixo estão os slides da apresentação do Professor Herskovitz, descritiva do convênio com as empresas francesas.

 

 

Cláudio Moreira - Coordenador do Fórum de Defesa e Segurança da FIRJAN

Segundo Cláudio Moreira existe uma vocação histórica para a Defesa no Rio desde o tempo do Reinado Português na cidade e do Império brasileiro que o sucedeu. Veterano de muitos anos na área de defesa da Embraer, onde foi Diretor de Parcerias Estratégicas, Moreira salientou para o público presente que três lições importantes foram aprendidas por todas as empresas que conseguiram sobreviver ao colapso coletivo da indústria de defesa nacional na década de 90:

a) É necessário que ocorram compras de seus produtos por parte do governo brasileiro;

b) É necessário que hajam linhas de produtos dedicadas ao mercado civil; e

c) É necessário que seus produtos tenham escoamento externo, isto é, que haja exportações

Basta que falte um destes itens acima para que se comprometa gravemente a saúde econômica e as perspectivas de longo prazo da empresa.

Diferente do que se cria nas décadas de 70 e 80, "offsets não são uma panacéia, são, sim, ferramenta que precisa ser gerida. E cabe sempre ao governo realizar esta gestão. Na década de 80 nem o Ministério da Indústria e Comércio (hoje MDIC) nem o Ministério das Relações Exteriores (MRE) conhecia o offset.” Moreira o disse em tom de crítica. Ele assinala que muitos, aparentemente, crêem em soluções milagrosas advindas de acordos de offset. Segundo ele, é necessário que se discuta melhor de que modos esses acordos irão funcionar e enfatizou a importância da orientação e direcionamento por parte do Estado brasileiro na confecção, regulamentação e fiscalização desses acordos.

Ele seguiu comentando que “A Política Tecnológica cabe ao Estado. Só ele pode definir para a indústria quais novas tecnologias são as mais atrativas. A indústria de defesa não tem como substituir o governo neste aspecto. Inclusive, o que se busca, realmente, não é exatamente a tal ‘Transferência de Tecnologia’... o que realmente precisamos obter é a 'Autonomia Tecnológica', que é a efetiva absorção da Transferência de Tecnologia”.

Para Moreira, a Estratégia Nacional de Defesa é muito importante porque ela colocou o aspecto “nacional” antes do da “Defesa” (na contramão da anterior “Política de Defesa Nacional”). Este tema é importante demais para ficar circunscrito unicamente ao Ministério da Defesa; todos os demais ministérios, da Fazenda, do Planejamento, MRE, MDIC, etc.; tem que se envolver na Defesa Nacional. Esta é uma questão de Estado. “Se somarmos todo o investimento prometido para o os próximos anos pelo governo federal em Defesa, Energia, infraestrutura, etc. chegamos a um número na casa dos 700 bilhões de dólares até 2030, e isso tudo dificilmente será factível. MAS! apenas uma fração deste dinheiro já torna o Brasil um comprador muito importante, e empresas de muitos países vão fazer questão de participar destas concorrências”.

Sobre o impacto da Medida Provisória 544, no dia 29 de setembro, que cria uma clara distinção entre as empresas brasileiras de material de defesa e as estrangeiras, Cláudio Moreira lembrou que: "Ela só vai valer de verdade quando for finalmente regulamentada. Por enquanto ela é só uma boa intenção." Ele ressalta que o processo de transformação da MP em lei deve levar, se for rápido, em torno de um ano, não sendo surpreendente que ele se arraste além do ano que vem e entre por 2013. E explica: “dentro do texto da MP544 existem restrições à 'renúncia fiscal' que impõem limites ridículos às compras de defesa para o período que vai do ano de 2011 até 2013, efetivamente transformando-a em uma medida procrastinadora dos investimentos”.

Concluindo, o representante da FIRJAN enfatizou o papel fiscalizador que o Estado deverá assumir no sentido de criar novas e melhores salvaguardas jurídicas às empresas que se disponham a transferir tecnologia, com vistas a reduzir a sensação de risco de "porosidade". Ele assinala que o país ainda não é visto por empresas estrangeiras como um bom fiel dos segredos industriais que se propõe a receber e que muitas firmas temem a evasão de seu know how e subsequentes crimes de violação de propriedade intelectual. Finalmente ele arrematou com: "O Rio de Janeiro é um Estado privilegiado na atração de novas indústrias porque está em vias de receber ainda mais investimento em infraestrutura nos próximos anos; programas transformadores como a Companhia Siderúrgica do Atlântico, o Arco Rodoviário Metropolitano, o Porto de Açú, entre tantos outros".

Laurent Mourre - Diretor da Thales no Brasil

A Thales é uma empresa com grande presença no Brasil, neste evento Mourre apresentou em grandes números sua empresa, as suas linhas de produtos, assim como a Omnisys sua subsidiária brasileira. Ele destacou o significativo aumento do papel da Omnisys como empresa exportadora de alta tecnologia dentro do Grupo Thales. Para mais detalhes sobre os planos futuros da empresa no Brasil vejam este artigo anterior de ALIDE.

 

 

Sami Hassuani - Diretor Presidente da Avibrás

Numa curta apresentação Hassuani apresentou sua empresa e, em particular, o programa AV-RE 40 salientando que ao contrário do que normalmente se pensa, ele não se tratou de um exemplo cássico de transferência de tecnologia, mas sim de um programa de desenvolvimento 100% nacional, onde a fabricante européia MBDA foi contratada pela Marinha do Brasil exclusivamente para realizar o programa de validação do novo motor desenvolvido pele Avibrás para a remotorização dos mísseis antinavio Exocet MM40 existentes nos estoques da Marinha do Brasil. A apresentação concluiu com a exibição de um teste em bancada onde se pode ver a queuima do novo motor por toda a duração prevista no requerimento básico.

 

Klaus Muller - O futuro dos mundos digitais imersivos segundo a Dassault Systèmes

Um interessante ângulo desenvolvido neste evento veio da Dassault Systemes a exitosa empresa spin-off da Dassault Aviation que criou e vem comercializando a família de sistemas CAD 3D CATIA, uma linha usada por quase todas as grandes empresas de engenharia aeroespacial do mundo, inclusive pela Embraer aqui no Brasil. Para eles, para muito além das aplicações tradicionais, toda a educação das crianças de primeiro e segundo grau poderá vir a sofrer uma revolução (e atualização) qualitativa aproximando o processo de aprendizado àquilo que a maioria dos jovens modernos realmente gosta, dos videogames competitivos.

 

 

Michel Paskoff - Vice Presidente de Cooperações Internacionais da Dassault Aviation

Paskoff começou ressaltando os mais de 60 anos de experiência de sua empresa no setor aeroespacial, e lembrou o grande sucesso internacional das várias gerações de caças Mirage. Ele ressaltou que a Thales e a Safran, ambas da Rafale International, já possuem subsidiárias no Brasil, a Omnysis e a Turbomeca do Brasil, respectivamente. Paskoff defendeu a escolha pelo avião da Dassault baseado em dois grandes fundamentos. Primeiro, a empresa opera com o estado da arte da tecnologia de aviões de caça e segundo, eles oferecem um produto “independente”, isto é, 100% francês, não estando sujeito, portanto, a cerceamentos à exportação estrangeiros (notavelmente norte-americanos). Ele assinalou ainda o fato de a RI estar disposta a reforçar parcerias com universidade, empresas e centros de pesquisa. Em termos de nacionalização de componentes e serviços, ele afirma que há interesse em instalar a linha de montagem final dos caças no Brasil, não somente dos Rafale brasileiros, mas dos franceses também. Não obstante, tenciona-se que as asas e os radares sejam feitos inteiramente no Brasil, bem como os motores e turbojatos. Além dessas tecnologias, o Brasil absorveria também todo um know how na área de materiais compostos e desenvolveria P&D em tecnologia de mísseis, por meio da MBDA.

Gerard Poirier -  VP de Cooperação em P&D da Dassault Aviation

Um tema que foi explorado em detalhes na apresentação abaixo foi a estratégia francesa de atrair a academia para junto da indústria de alta tecnologia via o fomento da criação de polos de tecnologia como descrito na apresentação abaixo.

 

Last Updated on Thursday, 20 October 2011 01:36
 

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