Baltops 2012: um velho nome em um novo mundo PDF Print E-mail
Written by Lukasz Pacholski e Felipe Salles   
Monday, 25 June 2012 00:00

 

Por Lukasz Pacholski em Gdynia, com Felipe Salles

 

Existe uma tradição de quarenta anos no Mar Báltico. Aqui, navios de guerra das marinhas dos países da OTAN operaram conjuntamente em um exercício anual conhecido como BALTOPS (Baltic Operations). O primeiro ocorreu em plena Guerra Fria, no ano de 1972, e desde então, o mundo mudou bastante. A Europa se reunificou, a Guerra Fria acabou, e navios militares deste continente são primariamente empregados em operações de combate em lugares muito distantes e não mais na preparação para uma iminente III Guerra Mundial. Sinalizando estas dramáticas mudanças geopolíticas, os primeiros navios das marinhas da Europa oriental começaram a participar do BALTOPS já a partir do ano de 1993.

 

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A realidade Geoestratégica militar do Mar Báltico

O Mar Báltico é um mar praticamente fechado, que se localiza entre o sul da Escandinávia e a costa norte da Europa. Ele não é muito grande, medindo 377,000 km2 ou, aproximadamente, o tamanho do território do estado brasileiro do Mato Grosso do Sul. No seu trecho de maior comprimento ele mede 1600 Km e em seu trecho mais largo, apenas 193 Km. Dinamarca, Alemanha, Polônia, Rússia, Finlândia, Suécia e as três republicas "balticas": Estonia, Lituânia e Látvia, tem costas marítimas que dão para este mar. Em todos estes países, a costa do Báltico é uma natural saída para os mercados no exterior através do transporte marítimo, tendem a ser sempre as áreas mais desenvolvidas e povoadas destes países. Na Noruega, Suécia e Finlândia, as óbvias questões climáticas óbvias só serviram para reforçar ainda mais esta tendência histórico-geográfica de povoamento.

A saída do Mar Báltico é restrita, se dando desde tempos imemoriais através dos estreitos canais dinamarqueses para o Mar do Norte, ou, desde o século passado, com algumas restrições de tamanho de calado, para o Oceano Ártico no nordeste e para o Mar Negro no sul, via a vasta rede de canais e rios interiores russos e ucranianos.

Espionagem eletrônica e visual, colocação de minas e a montagem de bloqueios ao tráfego marítimo, são as principais atividades realizáveis por submarinos em tempos de guerra e de paz.  . No Mar Báltico elas são particularmente críticas e igualmente indispensáveis. A profundidade média aqui é de apenas 55 metros, detalhe que facilita bastante o trabalho dos navios antisubmarino. Por esta razão se explica o porque desde a Primeira Guerra Mundial as marinhas locais tem investido pesadamente em frotas de submarinos.

Diferentemente da US Navy, a Marinha Rússa/Soviética nunca pode transicionar  completamente dos submarinos de propulsão convencional para os de propulsão nuclear devido a sua necessidade de operar no Báltico e também no Mar Negro, dois locais onde um mais ruidoso e muito mais rápido SSN teria bastante dificuldade de operar com a necessária discrição e segurança. Pode-se mesmo dizer que é justamente para ambientes como o Báltico que foi criada recentemente a tecnologia Air Independent Propulsion ("propulsão independente de ar" - AIP na sigla em inglês). Alemanha e Suécia são não por coincidência dois dos países pioneiros desta tecnologia. Um submarino de propulsão convencional (diesel-elétrico) equipado com o sistema AIP pode ficar dias debaixo d'água e aqui sua baixa velocidade enquanto submergido, pelo restrito tamanho do Báltico, não chega a ser uma restrição tão importante assim como seria em um grande oceano aberto como o Atlântico ou o Pacífico.

 

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Um mar com uma história de violência

O relativo isolamento dos Báltico fez dele por muitos séculos a província que exclusivos dos conflitos dos reinos locais. Dinamarquesas, suecos, germânicos, russos e finlandeses se alternaram, ao longo dos anos, ora invadindo, ora e sendo invadidos, uns pelos outros.

Durante a Segunda Guerra, os alemães conseguiram efetivamente fechar o acesso do Báltico aos navios aliados. Como consequência direta deste feito, os nazistas impuseram um sítio terrível, por mar e por terra, durante 872 dias sobre Leningrado, a segunda a maior cidade soviética.

Alguns anos depois, já no período da Guerra Fria, tanto a OTAN quanto o Pacto de Varsóvia sabiam muito bem da importância daquele mar em particular sobre qualquer nova guerra que porventura eclodisse entre os dois novos grupos rivais geopolíticos. Para o lado comunista, a dominação dos estreitos dinamarqueses seria uma passo incontornável, independentemente se o cenário fosse ofensivo ou defensivo, e essa tomada deveria, assim, ocorrer o quanto antes no conflito. Para atingir este objetivo, consideráveis  tropas e blindados anfíbios de fuzileiros navais soviéticos e dos seus países satélites assim como seus navios de desembarque ficavam baseados na costa da Polônia, prontos para emprego imediato. Respondendo a esta ameaça, países como Alemanha, Dinamarca, Noruega e Suécia apostavam em grandes flotilhas de navios patrulha rápidos armados com mísseis antinavio. Consequentemente, desde o fim da queda da União Soviética em 1991, estas frotas superespecializadas vem sendo progressivamente sendo reduzidas.  Em seu lugar, surgiram novos navios patrulha oceânicos e novos navios de escolta maiores, e com muita melhor capacidade para serem desdobrados em missão de paz e de coalizão internacional em outras partes do planeta.

 

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Um novo mundo

Na edição deste ano do Baltops, sob coordenação do "Expeditionary Strike Group 2" da Sexta Frota da US Navy, pode-se ver claramente como a realidade da Guerra Fria realmente ficou totalmente para trás – o cenário do exercício assume a existência de um conflito local com operações sob o mandato da ONU no mar e em terra. Vinte e cinco navios, trinta helicópteros e aviões e 1500 militares das marinhas polonesa, lituana, estoniana, francesa, russa, dinamarquesa, holandesa, alemã, letã, americana e norueguesa foram reunidas no porto polonês de Gdynia. Alguns dos navios presentes vieram como parte do Primeiro Grupo Permanente de Contramedidas de Guerra de Minas da OTAN (SNMCMG 1 - Standing NATO Mine Countermeasures Group 1). O chamado "Pre-Sail Weekend" no porto de Gdynia representa a partida do exercício deste ano. A única ausência notada entre os países convidados foi a Marinha da Suécia que, por razão não divulgada, acabou não comparecendo a esta edição.

No total, o porto polonês recebeu 25 navios militares. Um último, o navio de pre-posicionamento global americano, o porta-contêiner com capacidade roll-on/roll-off T-AK 3008 chamado USNS 2nd Lt. John P. Bobo, ficou ancorado no Golfo de Gdansk. Este navio é um dos 12 navios desta classe operados pelo Military Sealift Command (MSC) em proveito das forças armadas americanas. O MSC tem no total 30 navios logísticos distribuídos entres os seus programas de Combat Logistics Force, Special Mission Program, Prepositioning Program, Service Support, Sealift Program e Ready Reserve Force. O navio "T-AK" é, para todos os efeitos, um grande depósito flutuante permanentemente carregado de meios militares, esperando apenas ser dirigido até alguma área futura de guerra.

 

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A fase de porto durou de 31 de maio até 3 de junho, um período em que os navios ficaram abertos à visitação pública e suas tripulações puderam tomar parte de eventos variados como competições esportivas. No dia 30 de maio entraram apenas o navio alemão Homburg e os noruegueses Valkyrien e Alta. No dia seguinte entraram todos os demais navios. No dia quatro todos os navios partiram para a fase de mar do exercício.

O porto de Gdynia é composto por duas áreas mais internas e uma outra mais exterior. Toda a entrada do porto é cercada por um grande quebramar de quase três quilômetros de comprimento. Na parte interior, foram usadas duas bacias do lado norte, as VIII e IX, e na exterior, foram usadas a bacia I (Bacia Presidente), que fica logo defronte ao centro da cidade, e adicionalmente, um pier comercial mais isolado onde ficou apenas o cruzador americano da classe Ticonderoga CG 60 USS Normandy.

Como é praxe para navios da US Navy, uma barreira de contêineres foi erigida no píer especialmente para sua segurança, havendo ainda um detalhe de homens armados da Guarda de Fronteira polonesa controlando o acesso ao local 24 horas por dia. Lamentavelmente, para a imprensa polonesa especializada em defesa, parece que os americanos acreditam que o Mar Báltico seja uma região tão vulnerável às atividades terroristas como são o Oceano Índico e o Golfo Pérsico.

 

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Qualquer avaliação de um evento como este deve sempre começar por sua maior "estrela", neste caso esta era, inegavelmente, a fragata dinamarquesa F361 HDMS Iver Huitfeldt que com outros navios dinamarqueses, poloneses, russo e dos países bálticos ficou na Bacia Presidente. Este moderno navio, o primeiro de uma nova classe de três unidades, foi comissionado apenas no início deste ano, e literalmente cheira a "navio novo". O formato de seu casco é derivado direto do modelo empregado na classe Absalon que o procedeu na Marinha Real Dinamarquesa, mas seu armamento anti aéreo, vai bem além dos universais mísseis ESSM "Evolved Sea Sparrow Missile" usados para defesa de ponto, e inclui ainda um lançador vertical para os poderosos mísseis Raytheon Standard SM-2 na função de defesa de área. Para localizar os seus alvos à máxima distância e assim guiar estes mísseis, a classe conta com um Radar Thales Nederland APAR operando junto com outro do modelo SMART-L. A tripulação se encontra em meio a um intenso programa de treinamento, uma vez que a fragata fará a partir de setembro seu primeira participação na missão antipirataria européia no Oceano Índico. O navio realizará esta missão para garantir a segurança do tráfego civil contra o assédio dos piratas da Somália.

Ao seu lado no porto em Gdynia estava o navio logístico L15 HDMS Absalon sobre o qual ALIDE escreveu há alguns anos, uma proximidade que permitiu uma boa comparação entre os dois navios. Além destes dois navios, os dinamarqueses ainda trouxeram a Gdynia a fragata de patrulha HDMS Thetis e alguns navios multi-função de pequeno porte: os navios chamados laconicamente MSF 1, MSF 2 e MSD 5. Estes pequeninos, parados à sombra de seus irmãos maiores, cumprem um papel valiosíssimo de apoio, e devido à instalação neles de equipamento multifuncional podem ser empregados até mesmo na função de guerra contra-medidas de guerra de minas (MCM).

Outro convidado importante neste ano foi o navio de desembarque anfíbio da Marinha da Rússia 102 Kaliningrad, que, interessantemente, foi construído em um estaleiro polonês antes do final da Guerra Fria. Este navio foi por muitos anos um assíduo frequentador das bases navais polonesas, uma vez que aqui ficava baseada uma subdivisão avançada dos fuzileiros navais da antiga União Soviética. Mas, desta vez, ele será lembrado, especialmente, por sua orquestra que tocou continuamente durante a sua entrada no porto e também no "Open Day". Em frente ao  Kaliningrad ficou o "veterano" francês – a corveta (localmente classificada como "aviso classe D'Estienne d'Orves/A69") F793 Commandant Blaison.

 

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Os três países bálticos participaram enviando seus "novos" navios: o caça-minas estoniano M313 Admiral Cowan (o ex- HMS Sandown Royal Navy, um dos três navios desta classe que foram adquiridos do Reino Unido, o caça-minas lituano M54 Kursis (o ex- HMS Dulverton, classe Hunt) da  Royal Navy o navio patrulha lituano P11 Zemaitis (o ex- Flyvefisken da Marinha Dinamarquesa, classe StandardFlex 300), o navio de apoio letão A53 Virsaitis (ex-Vidar, lança-minas da Marinha Norueguesa) e o caça-minas M-06 Talivaldis (ex-Dordrecht da Marinha Holandesa).

Da Noruega veio o caça-minas de design revolucionário M350 Alta (classe Alta) e o navio de apoio A535 Valkyrien que ficaram na bacia IX. O grupo de navios da Marinha alemã consistiu de cinco caça-minas (M 1096 FGS Passau, M 1063 FGS Bad Bevensen, M 1064 FGS Gromitz,  M 1099 FGS Herten e M 1069 FGS Homburg) e o navio logístico (tender) A514 Werra. Este é o mesmo tender que ALIDE conheceu em janeiro passado na nossa cobertura da operação da fragata União no Líbano. A Marinha da Holanda se fez representar na BALTOPS por dois caça minas, o navio hidrográfico A902 Van Kingsbergen e o navio de apoio logístico A900 Mercuur. Os belgas, por sua vez participaram com dois varre-minas da classe tripartite, o M862 HNLMS Zierikzee e M863 HNLMS · Vlaardingen.

 

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Toda esta frota, mais os navios dos anfitriões poloneses – três varre-minas, um submarino e dois navios de desembarque – deixaram Gdynia no dia 4 de junho para as operações conjuntas. Tradicionalmente a BALTOPS 2012 se encerrará em Kiel na Alemanha, onde se iniciará o processo de planejamento para as manobras de 2013.

 

 

Last Updated on Wednesday, 27 June 2012 21:14
 

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