IBSAMAR 2012 PDF Print E-mail
Written by Felipe Medeiros   
Saturday, 17 November 2012 03:18

 

IBSAMAR III

Durante os dias 10 a 26 de outubro de 2012, a Marinha do Brasil participou da comissão IBSAMAR III. Na continuidade da Atlasur - porém com a adição da Marinha Indiana e sem suas contrapartes latino-americanas - a MB deu prosseguimento no seu cronograma de exercícios multilaterais do ano. Como não podia deixar de ser, ALIDE esticou a sua visita à África do Sul para cobrir mais esse evento e pegar um pouco da perspectiva de uma das marinhas que mais cresce no mundo, tanto em ambições quanto em material, a indiana.

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Uma nova dimensão geoestratégica
A IBSAMAR aconteceu pela primeira vez em 2008 e tem a sua origem em uma reunião ministerial do Fórum Trilateral que congrega Brasil, Índia e África do Sul - IBAS (IBSA, como também costuma ser grafado em inglês). Os ministros de relações exteriores dos três países se reuniram nos dias 10 e 11 de março de 2005 na Cidade do Cabo para discutir questões de interesse mútuo, principalmente a liberalização do comércio entre as partes e – o ponto onde suas agendas convergem com maior ênfase – na reforma do Conselho de Segurança da ONU. Dentro da discussão sobre segurança internacional, os três países decidiram que deveriam promover também sua cooperação no âmbito militar, ocasião em que surgiu a ideia de promover um exercício naval trilateral. A indicação foi passada aos respectivos ministérios da defesa, que a concretizariam um pouco mais de três anos depois.
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De uma perspectiva estritamente geopolítica/geoestratégica a IBSAMAR é claramente mais ambiciosa que a Atlasur. Ao passo que é essa é desenhada para as ameaças que porventura recaiam sobre o Atlântico Sul, aquela está orientada também para as ameaças que incidem sobre o Índico, o que faz com que a sua “zona de interesse” abarque dois terços dos mares do Hemisfério Sul. Tal fato se reflete nas manobras que foram realizadas no decurso do exercício e nas discussões que ocorreram no nível de Estado-Maior.
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O chefe do componente brasileiro no Estado-Maior combinado dos três países Capitão de Mar-e-Guerra Marco Lucio,  nos explicou que: “A IBSAMAR tem uma intensidade muito maior que a Atlasur”. E complementa: “Ela ultrapassa o objeto mais imediato de um exercício naval multinacional, que é aumentar o grau de interoperabilidade entre os participantes. Essa ainda é a dimensão e função principais dela – é claro – mas vamos além. Durante nossas reuniões de planejamento ainda em novembro de 2011 já havíamos acordado um ‘novo enfoque’ para essa edição. Oficiais das três marinhas proferiram palestras cujos temas eram definidos baseados em pedidos das outras participantes. Os sul-africanos falaram de sua participação em operações antipirataria e antiterrorismo. A Operação Cooper, que eles desenvolvem autonomamente na região do porto de Pemba e do Canal de Moçambique, vem lhes oferecendo bastante expertise no que tange ao combate aos piratas. É uma experiência valiosa que gerou interesse entre indianos e brasileiros. Os oficiais da Marinha Indiana palestraram sobre seu engajamento no Golfo de Áden e sobre suas operações antipirataria (também autônomas) na Região do Oceano Índico (IOR – Indian Ocean Region – como ela costuma ser referenciada em artigos e documentos doutrinários indianos). A pedido deles, a MB palestrou sobre a operação de navios aeródromos, sua própria experiência com o Minas Gerais e as dificuldades de se manter e operar um navio desse tipo na atualidade”.
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Ainda em 2008, quando da primeira edição da Ibsamar, correu o rumor de que a Marinha Indiana teria sido originalmente convidada para participar de um Atlasur e recusado a proposta. Muito se especula também se os indianos já não teriam convidado a MB para participar de manobras no índico. Embora o CGT não pudesse confirmar ou negar nenhum dos dois, uma coisa é certeza absoluta; a MB e as outras marinhas estudam ativamente a possibilidade de realizar próximas edições da Ibsamar em outro país. Segundo o CMG Marco Lucio “a Marinha abriu definitivamente as portas para o Índico”. Segundo ele, o adido naval brasileiro na África do Sul visitou as Ilhas Seychelles e tem feito intensa comunicação com a representação diplomática brasileira (e com outros adidos, quando eles existem) em países como Moçambique e Paquistão (embora - isso seja claro - sua participação no exercício dependa, entre outros fatores, do estágio de tensão de suas relações com a Índia).
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Mesmo sendo recente, já seria possível observar alguma evolução na IBSAMAR desde sua primeira edição ate aqui? "Certamente que sim", nos diz o CMG Marco Lucio. "Embora isso por vezes não seja palpável, não resta duvida que a comissão já apresenta evolução. Veja o caso dessa edição, que, conta com o enfoque em novas ameaças. Embora não seja algo novo nas comissões na MB, ele vinha sendo razoavelmente incipiente nas edições anteriores da IBSAMAR. O fato de haver tantos 'drills' (exercícios) com esse enfoque neste ano já é [um claro] indicativo de evolução". E ele segue com seu argumento lembrando: "É fato que estamos ainda muito longe do grau máximo de complexidade operacional que Brasil, Índia e África do Sul podem alcançar juntos. Ainda não conversamos os detalhes da direção em que a IBSAMAR vai evoluir. Exercícios SAR, de evacuação e auxilio humanitário, operações anfíbias? Não sei. Todos são caminhos possíveis. Por enquanto vamos nos focar bastante em operações com helicópteros e especialmente com grupos de operações especiais, que são o elemento mais ‘novo’ aqui”.
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Na IBSAMAR I a MB experimentou uma limitação logística relativa à autonomia de seus meios que teve de ser contornada. Referimo-nos, como muitos de nossos leitores podem deduzir, à ausência do Marajó - então em PMG - e do Gastão Motta, que estava engajado em outras comissões. Como essas limitações vêm sendo dribladas, dado que uma travessia oceânica e a operação no continente africano é substancialmente mais complexa do que "subir" o litoral brasileiro e o Caribe até os Estados Unidos, por exemplo? "É tudo um questão de planejamento bem feito. Observamos sempre o tempo que vamos permanecer no mar; sempre que possível fazemos pernadas curtas, de cinco ou seis dias. A travessia do Atlântico é mais complicada. Não há maneira de fazê-la mais curta. Nossos navios sempre aguentaram muito bem essas condições, especialmente a Barroso que é bem nova. Mesmo assim buscamos - e até por uma questão de segurança mútua - procuramos fazer essas pernadas mais longas em grupo. Quantos mais navios melhor. Isso não esgota o problema, claro. Nós prestamos muita atenção à questão óleo. O CCIM - Centro de Controle de Inventário da Marinha - lida diariamente com isso. O pessoal de lá avalia e paga todo o óleo que usamos nos nossos navios, inclusive o que adquirimos fora do Brasil. E eles fazem um excelente trabalho garantindo que o nosso maquinário beba somente o melhor (risos). Associando isso aos cálculos bem feitos que o Operacional faz, nós contornamos todas essas dificuldades logísticas, sempre preservando a segurança do nosso pessoal e - claro - cumprindo a missão."
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A IBSAMAR ainda não conta com um Manual de Procedimentos próprio e vem usando a Standard Operational Order (SOO), manual de referência desenvolvido e publicado pela OTAN, que normatizou procedimentos em grande medida tradicionais em operações navais multinacionais nesse caso quais são os procedimentos? "Qualquer eventual procedimento que queiramos fazer que não conste no Standart Operational Order será discutido nas reuniões de planejamento e lá e chegaremos a alguma definição. Se quisermos realizar uma operação anfíbia, por exemplo, e precisarmos de procedimentos que não estão descritos no SOO, podemos escrevê-los ad hoc".
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Sobre a possibilidade de Brasil, Índia e África do Sul desenvolverem um guia de procedimentos unificados para as três marinhas, o CGT afirma que "não é um trabalho fácil e muito menos rápido, mas se pensa em fazê-lo. Entre outros fatores, dependemos ainda de uma demanda operacional que justifique todo o esforço, não apenas de escrever os procedimentos, mas também de implementá-los. Se aumentar muito o número e a intensidade das operações trilaterais, esse se torna um passo lógico. Por enquanto ainda é cedo, mas a nossa expectativa é que o intercambio entre as três marinhas aumente bastante nos anos vindouros."
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Para quem acompanha o histórico de participação da Marinha do Brasil na IBSAMAR um aspecto em particular acaba saltando aos olhos. Na primeira edição do exercício foram integradas duas fragatas classe Niterói, a Defensora (F-41) e a Independência (F-44). Para a segunda edição optou-se apenas por uma fragata, a Niterói (F-40). Na terceira edição, quando o Brasil liderou o planejamento do exercício e esperava-se uma participação, enviou-se "apenas" uma corveta. Não seria sinal de uma baixa prioridade atribuída ao exercício por parte da MB? "De maneira alguma", responde o CGT, "a Marinha prestigia muito a IBSAMAR. A participação ou não de um ou mais navios é uma questão de disponibilidade de meios. A MB mandou apenas um escolta, é verdade, mas mandou o melhor escolta da esquadra. Não podemos esquecer que a Marinha quer mostrar a Barroso na África, que é onde estão seus maiores clientes em potencial".
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A ALIDE já mostrou que Almirante Marcelio - Presidente da EMGEPRON - já viajou por vários países africanos em mais de uma ocasião promovendo a classe Barroso e os navios de patrulha fabricados no Brasil. Embora seja demais dizer que o envio da Barroso tenha sido condicionado por um esforço comercial, não parece absurdo supor que o almirantado tenha essa dimensão em mente quando opta por enviá-la. O Comandante Marco Lucio completa: "O nosso engajamento no Líbano compromete sensivelmente o nosso nível de disponibilidade. A partir de agora teremos um navio saindo dessa missão, um participando nela e um em adestramento para render a anterior. Isso é claro, sem contar as outras comissões, nacionais e multinacionais, das quais a MB tradicionalmente participa. Tudo isso concorreu para que esse ano viéssemos até aqui só com o Barroso. Mas isso não significa que a MB não faca bom juízo da IBSAMAR. É bem possível que em 2014 destaquemos mais meios”.
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Defender o Atlântico Sul e o Índico é uma tarefa bem mais complexa do que defender "apenas" o Atlântico Sul. Teria essa diferença algum impacto no modo como se pensa a IBSAMAR em relação ao que se planeja na ATLASUR? “Certamente que sim!”, responde o Comandante Marco Lucio, “a IBSAMAR é bem mais ambiciosa. Ela ainda é muito nova - apenas um bebê - mas vê-se claramente a diferença. As capacidades aqui são maiores. Os meios são mais modernos. Enfim, a importância atribuída é maior. As diferenças não começam e acabam no âmbito do material, todavia. O nível de ambição é outro. O Brasil quer influenciar todo o Atlântico Sul; a África do Sul, as duas costas do seu continente e a Índia, todo o Oceano Índico e o Pacífico Ocidental. Isso demanda um nível diferenciado de preparo. É claro que boa parte desse preparo é feito internamente, dentro de casa. Mas exercícios multinacionais oferecem uma chance valiosa de intercambio de conhecimentos e de construção de relações mais sólidas. Tenho certeza que daqui a alguns anos as manobras e exercícios que realizamos dentro da IBSAMAR terão evoluído muito em diversidade e complexidade”.
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Diário de bordo
Ainda durante a fase de porto, entre o fim da Atlasur e o início da IBSAMAR, chegou a notícia de que o SAS Queen Modjadji I, o submarino sul-africano que estava destacado para as duas comissões, teve problemas na válvula de um de seus tanques de lastro. Embora esse mal funcionamento não comprometesse integralmente a capacidade operacional do submarino e os sul-africanos tivessem cogitado seriamente suspender com ele para o exercício – enviando inclusive convite para o submarinista brasileiro que já atuara como oficial de ligação no Queen durante a Atlasur – ao final foi decidido que ele não participaria da IBSAMAR para não expor sua tripulação a riscos desnecessários.
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A previsão inicial era de que os navios suspendessem no dia 15 de outubro, mas o outrora “Cabo das Tormentas” fez valer o seu nome. Os ventos na região de Simon’s Town eram muito fortes, o que inclusive viria a comprometer boa parte do cronograma de exercícios quando no mar. Em terra, todavia, o problema era outro. O navio de apoio logístico indiano de 27.500 toneladas de deslocamento, o INS Deepak. No dia 15, um forte vento soprava em direção à costa e os rebocadores disponíveis na Base Naval de Simon’s Town não teriam força para rebocá-lo até a saída da baía. A estimativa era de que, se soltassem as espias do Deepak para desatracá-lo, o vento o empurraria até a praia! Até havia rebocadores fortes o bastante para a tarefa em Cape Town, mas o atraso seria inevitável mesmo que eles viessem a Simon’s Town, de modo que se optou por esperar condições metereológicas melhores. Importante notar, os dias eram bastante bonitos, até, com céu claro e boas condições de visibilidade a partir do meio dia, aproximadamente. O problema era o vento, que soprava a altas velocidades e mudava de direção com uma frequência bastante incômoda.
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O dia 16, felizmente, amanheceu com ventos mais fracos, e o  Grupo de Controle (GRUCON) decidiu aproveitar a oportunidade para suspender e iniciar a 1ª fase da IBSAMAR III. A primeira atividade do cronograma do exercício foi um “Cross Decking”, manobra bastante simples em que os helicópteros pousam nos convoos dos navios que não os seus de origem em regime de alternância. O problema é que as condições metereológicas pioraram de novo. O vento relativo chegou à casa dos 40 nós. Mas para não comprometer todas as atividades do dia, os pilotos dos helicópteros da Barroso e do Deepak acordaram em realizar a manobra, garantindo que as medidas necessárias de segurança seriam observadas.
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Os helicópteros do SAS Amatola e do Delhi, todavia, não levantaram voo. Levantamos voo da Barroso em direção ao Deepak, o que revelou um aspecto delicado de operações em situações de vento hostil. Como a velocidade relativa dele era muito alta, o rotor de cauda alcançava rotações altíssimas, a fim de manter estável o Lynx. Quando ficamos atrás da colossal superestrutura do Deepak, todavia, entramos numa área abrigada, onde a velocidade do vento é muito menor. As rotações do rotor, porém, continuam na velocidade em que vinham, o que gera um “tranco” no helicóptero que pode causar acidentes fatais se incorrer em perda de estabilidade de voo. Tivemos que arremeter quando da primeira tentativa de pouso, inclusive; mas pousamos sem maiores problemas na segunda. Pousamos em seguida no Amatola enquanto o HAL Chetak (Aéroespatiale SA316B Alouette III fabricado sob licença na Índia) do Deepak seguia sua própria rotina (Amatola e depois Barroso). Vale ressaltar que os pilotos da MB anteciparam tudo que aconteceria quando tentassem pousar no Deepak e explicaram e orientaram ALIDE ao longo de todo o processo. Somando isso ao fato de que operaram sob ventos fortíssimos quando outros não o tentaram, apenas os pilotos que mantêm alto grau de adestramento e aprestabilidade são capazes de atenuar e sair dessa situação, mostrando que nesse aspecto a MB em nada deve às outras marinhas.
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A série de atividades planejadas para o dia seguinte, quarta-feira, tiveram que ser sucessivamente canceladas ao longo do dia devido a uma piora nas condições do vento. Na tarde daquele mesmo dia, porém, as condições melhoraram um pouco e foi realizado um exercício de transferência de carga leve, o “Light Line” entre o Deepak e a Barroso, com a tradicional troca de presentes entre os comandantes de cada navio. O Deepak mandou uma belíssima placa alusiva ao navio e um kit com um porta-cartão, chaveiro, caneta e relógio. Na noite daquele dia houve um exercício de tiro com uma granada iluminativa (GIL). A primeira foi lançada, mas não acendeu. A segunda funcionou perfeitamente e pode-se ver na ocasião, o quão preciso e estável é o tiro do canhão 40mm Bofors Trinity da Barroso, mesmo quando comparado ao tiro dos canhões do Amatola e do Delhi.
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A quinta-feira, dia 18, amanheceu com ventos bem menos inclementes. Foi possível, assim, realizar um PHOTEX no meio do dia. No final da tarde aconteceu novo “Light Line” entre a Barroso e o Deepak, mas este foi “apenas” para o treino dos procedimentos de marinha e não envolveu troca de presentes.
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Com a previsão do tempo indicando nova piora para os ventos a partir do final da manhã atracamos em Cape Town encerrando a primeira fase da IBSAMAR.
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Uma perspectiva indiana: Entrevista com o Capitão-de-Corveta Kartik Kumar
O Capitão-de-Corveta Kartir Kumar embarcou na Barroso no dia que ela suspendeu de Cape Town para servir como oficial de ligação do staff indiano, que estava sediado no navio tanque Deepak, de onde ele foi destacado. ALIDE aproveitou os dias que o CC Kumar passou a bordo do navio brasileiro para ter uma interessante conversa sobre a participação da Marinha Indiana na IBSAMAR, seu valor para a instituição e os navios que ela mandou para África do Sul. Nosso diálogo com o simpático e prestativo oficial, no entanto, prosseguiu e adentrou novos temas, como os seus programas de reaparelhamentos, seus objetivos estratégicos e suas relações com as marinhas e governos de outros países.
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ALIDE: Qual os motivos e o valor de a Marinha Indiana participar de um exercício como a IBSAMAR. O que ele agrega de valor para vocês?
CC Kartirk Kumar: “A Marinha Indiana dá grande importância à cooperação com marinhas como a do Brasil. A força está crescendo muito, em termos de material. Aliás, a Marinha é o ramo que mais vem crescendo nos últimos anos; meus colegas da Academia Militar que foram para o Exército e para a Forca Aérea gostam de reclamar disso comigo, em tom de brincadeira, claro. Temos muitos navios, vários dos quais estão no estado da arte das tecnologias embarcadas; mísseis modernos; logo teremos submarinos nucleares e contaremos com um porta-aviões modernizado e um projetado e construído na Índia, além do seminovo que já operamos. Mas temos muito pouca história. A Marinha do Brasil, assim como algumas outras marinhas sul-americanas, são muito antigas, datando da primeira geração dos impérios coloniais. Sim, nós temos mais navios atualmente, mas não somos arrogantes a ponto de achar que não temos a aprender com vocês. Estamos crescendo e isso demanda aprendizado e troca de experiências. Operar como a Marinha do Brasil é muito parecido com operar com as marinhas europeias, do ponto de vista de procedimentos, de preparo e de emprego. E há muito valor nisso para nós, justamente porque estamos trabalhando para aperfeiçoar os nossos (procedimentos) e desenvolver a doutrina para operar os meios que estamos adquirindo.”
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ALIDE: Você mencionou seus colegas da Academia Militar que depois foram para o Exército Indiano e para a Forca Aérea. Como assim?
KK: Ah, sim! Até onde sei isso é uma particularidade indiana, mas posso estar equivocado. Os jovens que desejam entrar para as forcas armadas fazem uma prova unificada. Se passarem, eles entram na Academia Militar, fazem um curso básico lá e depois são transferidos para as academias de cada força. Por isso eu disse que tenho colegas de academia que foram para o exército e para a forca aérea. Esse concurso, aliás, é um dos, senão o mais disputado da Índia. Todo ano cerca de um milhão de jovens fazem as provas! Às vezes esse número é um pouco menor ou maior, mas a ordem de grandeza é essa. Ser militar hoje na Índia é muito bom. O pagamento é bem razoável para a média do país e há muito prestígio. A população indiana admira e respeita muito os seus militares.
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ALIDE: Por que tanto prestígio?
KK: Já estivemos em várias guerras e estamos constantemente sob o fantasma de entrar de novo em outra. Isso mexe com o sentimento nacionalista e concorre para que a população reconheça o valor de seus militares; suponho eu".
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ALIDE: Como estão as relações da Índia hoje com o Paquistão? Ele ainda é uma ameaça? Em que medida o reaparelhamento da Marinha Indiana é voltado para ele? A marinha indiana parece ter ambições maiores.
KK: As relações com o Paquistão oscilaram bastante ao longo do tempo. Se descrevêssemos essa relação em um gráfico expressando a tensão entre os dois países, ela seria uma senoide. Hoje eu diria que estamos em um vale. Todavia, as questões que fizeram com que entrássemos em guerra permanecem não resolvidas, por isso é difícil dizer que estamos em paz. O que é até tragicômico, porque se eu for do local onde moro na Índia até o Paquistão, consigo me comunicar com praticamente todo mundo. Ao passo que se eu for ao sul da Índia, não acho que ninguém que fale meu idioma.

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De fato, o reaparelhamento da Marinha não é particularmente voltado ao Paquistão. Eles investiram seus recursos para serem uma potência terrestre com uma forca aérea poderosa. Eles não têm pujança econômica para se tornarem também uma potência naval. Nós temos condições de negar o uso do mar à Marinha Paquistanesa sem maiores embaraços e impedi-los de negá-lo a nós, que é a estratégia deles.

A Marinha Indiana já cruzou essa barreira há muito. Nossos objetivos são outros agora. O Comando Naval Ocidental deve influenciar eventos na costa do Paquistão, no Golfo Pérsico, no Chifre da África e na costa leste do continente africano. O Comando Naval Oriental tem em suas diretrizes a influência no leste do Índico, na Península da Indochina e na região dos estreitos. Esse Comando é o responsável também pela defesa contra uma eventual agressão chinesa.

ALIDE: Então de acordo com a doutrina indiana a China é uma ameaça em potencial?

KK: A China talvez seja a principal ameaça à segurança da Índia atualmente; isso sem sequer entrar nas questões da fronteira terrestre, mas atendo-nos exclusivamente à questão marítima. É nítido para nossos analistas que a China começou uma política de “expansão” marítima. Todas essas disputas no Mar da China Meridional foram o primeiro indicativo. O início das operações com um porta-aviões é outro. Há pouco mais de dois anos eles tornaram público seu conceito do Cordão de Pérolas (String of Pearls), que inclui portos que saem da China, cruzam a Península da Indochina e acabam em Karachi, contornando o território indiano, portanto. Eles têm uma agenda expressa de influenciar o Índico, que nós naturalmente consideramos como um espaço privilegiado nosso. Nada disso quer dizer que o governo ou a Marinha Indiana pretendem antagonizar a China. Um conflito de grandes proporções não é bom para ninguém, mas nós enxergamos essas ameaça e nos preparamos para ela.


ALIDE: Para encerrar o tópico reaparelhamento, e quanto ao submarino nuclear indiano? Qual seu papel dentro deste cenário?
KK: Entendo que o submarino nuclear que o Brasil está desenvolvendo e construindo lançará torpedos e será, por isso, um submarino nuclear de ataque. A classe Arihant, que nós estamos desenvolvendo, será um submarino nuclear para lançamento de mísseis balísticos; o primeiro desenvolvido fora dos cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Para nossa Marinha o objetivo era ter uma plataforma extra para lançamento desse tipo de míssil, e não depender exclusivamente daqueles baseados em terra. O que, é claro, nos dá maior flexibilidade operacional. O fato de eles sempre estar em local desconhecido, na leitura do Alto Comando, é essencial para aumentar o nível de incerteza de nossos eventuais adversários e reduzir a PKILL (a probabilidade de acerto no alvo) de seus sistemas antibalísticos.


ALIDE: Quem são os principais fornecedores estrangeiros da Marinha Indiana hoje? Como é o diálogo deles com a indústria nacional?

KK: O governo indiano tem o não-alinhamento e a defesa incondicional do interesse nacional indiano como prerrogativas fundamentais. Durante a Guerra Fria buscamos negociar com as duas potências, embora por vezes tivéssemos ficado mais inclinados a fazer acordos e negócios com um do que com outro. Hoje, e mais especificamente na parte naval, eu diria que nossos principais fornecedores estrangeiros são Israel e Rússia. Aliás, tem sido eles dos com certa folga já há alguns anos. Entre sete e dez eu diria. Os russos são nossos parceiros na parte de mísseis, tanto em codesenvolvimento tanto como fornecedores; estão reformando um de nossos navio-aeródromo; e fizeram o leasing de um submarino nuclear classe Akula para a Marinha Indiana. Todos são exemplos bem conhecidos. Os israelenses são parceiros de peso em muitos sistemas táticos, tanto de armas quanto de Comando e Controle; e na parte de sensores. Nossas relações com o governo israelense já são muito boas e só vem melhorando. Aliás, eu acho que a Índia é o único país do mundo que mantém relações verdadeiramente amistosas com Israel e Irã (risos). Nós compramos muito petróleo iraniano e muito material de defesa israelense. E somos absolutamente neutros e toda e qualquer disputa envolvendo os dois países.



Considerações finais:
Ainda que nesta edição a execução das manobras planejadas tenha sofrido muito devido aos fortes ventos que atingiram a costa da África do Sul, a IBSAMAR não deixa de ser um importante exercício no cronograma da MB. Ela oferece a oportunidade de operar com dois parceiros que estão completamente fora do eixo Estados Unidos - América do Sul e que ocupam um espaço parecido dentro do cenário internacional atual como potências emergentes. A IBSAMAR não é apenas reflexo da cooperação dentro do IBAS, mas tem potencial para ser também um agente motivador dessa integração, retroalimentando virtuosamente esse ciclo. Aguardemos agora para ver a evolução operacional do exercício talvez com o emprego de navios aeródromos e aeronaves de asa fixa no futuro e de uma ampliação de projetos conjuntos entre as indústrias de defesa dos três países.


Meios indianos presentes na IBSAMAR:

INS Delhi
Contratorpedeiro para defesa antiaérea da classe Delhi. Projetado e construído na Índia na Mazagon Dock Limited. Seu projeto lembra bastante as linhas de destróieres russos, especialmente os das classes Sovremenny e Kashin, embora o CC Kartik negue esta influência e enfatize que a classe foi inteiramente projetada dentro da Índia.
Deslocamento: 6.900 toneladas
Comprimento: 163 metros
Boca: 17,4 metros
Calado: 6,5 metros
Propulsão: COGOG, 4 turbinas DT-59 e 2 M36E
Velocidade: 28 nós
Tripulação: 350; 40 dos quais são oficiais
Sensores:
1 radar de busca aérea MR-775 Fregat MAE
1 radar de busca de superfície Bharat RAWL
3 radares de navegação MR-212/201 Vaygach-U (NATO: Palm Frond)
1 sonar Bharat APSOH
Armamento:
16 mísseis de superfície Kh-35 (NATO: Switchblade - 4 lançadores quádruplos tipo KT-184)
32 mísseis Barak 1 (4 mísseis por célula, 8 células em um lançador vertical)
2  sistemas de mísseis antiaéreos Shtil’ (NATO: AS-N-12 Grizzly)
1 canhão de proa de 100 mm AK-100
2 gatling guns AK-630, 30 mm
2 RBU-6000  lançadores de foguetes antissubmarinos de 213mm
5 tubos para torpedos de diâmetro variável, 25-53 mm

INS Deepak
Navio tanque da classe Deepak construído na Itália pela Fincantieri.
Deslocamento: 27.500 toneladas
Comprimento: 175 metros
Boca: 25 metros
Calado: 9,1 metros
Tripulação: 248
Alcance: 12.000 milhas (19.000 quilômetros) a 15 nós
Armamento: 4 CIWS tipo AK-630

Last Updated on Tuesday, 01 October 2013 17:35
 

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