Cooperação militar Brasil e África: uma descoberta da "outra borda do Atlântico" PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Sunday, 08 June 2014 00:00

 

Cooperação militar Brasil e África: a descoberta da "outra borda do Atlântico"

Em 2012, ocorreu na Escola de Guerra Naval a segundo encontro de Marinhas da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) trazendo ao Rio os comandantes das forças navais e Guarda Costeiras de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste. Esta aproximação denota claramente o posicionamento da África como uma das regiões de maior interesse para a política exterior do Brasil. De onde veio, para onde vai e que repercussões esta aproximação terá para a futura atuação da Marinha do Brasil é o objetivo central desta nossa análise.

Um “Continente Negro”

Para fins de análise o continente africano costuma ser dividido geograficamente em duas grandes áreas, a África Subsaariana, povoada primariamente por povos negros e o Norte da África, habitado por populações árabes e berberes. Entre as duas existe na função da "barreira", o Deserto do Saara. Para os árabes, seu desenvolvimento, historicamente, sempre foi mais determinado pelas questões da bacia do Mar Mediterrâneo, e ainda mais recentemente pelas do Oriente Médio, do que propriamente do que ocorria no restante do continente africano.

Brasil-Africa000
Brasil-Africa000Brasil-Africa000
Brasil-Africa001
Brasil-Africa001Brasil-Africa001
Brasil-Africa002
Brasil-Africa002Brasil-Africa002
Brasil-Africa003
Brasil-Africa003Brasil-Africa003
Brasil-Africa004
Brasil-Africa004Brasil-Africa004

 

A ligação que une o Brasil e a Costa ocidental da África é muito antiga e igualmente profunda. Foi buscando o caminho mais rápido para contornar o Cabo da Boa Esperança em direção às Índias que navegadores portugueses chegaram pela primeira vez na América do Sul. Posteriormente, o Brasil viria a ser o destino final de milhões de escravos negros "adquiridos" na Guiné e em Angola por traficantes europeus. Estes negros "imigrantes forçados", no final, foram os antepassados de uma significativa parcela da moderna população brasileira. Mas existem outras ligações menos conhecidas, após a nossa independência em 1822 muitos agricultores portugueses no sul do atual estado da Bahia acharam mais prudente deixar o Brasil e se transferirem para outras colônias portuguesas na África. Foi justamente assim que o cultivo do cacau chegou a São Tomé e Príncipe, país que é conhecido, hoje, por seu chocolate artesanal.

A partir da onda de independência africana entre 1970 e 1985 que as ex-colônias portuguesas se abriram definitivamente para comercializar com o mundo, produzindo desta maneira importantes oportunidades para a exportação de produtos e serviços brasileiros. Na área de defesa isso não poderia ser diferente. Atuando de forma quase que independente a partir da denúncia do acordo militar com os EUA no governo Geisel, a incipiente indústria de defesa brasileira logo tratou de se posicionar para atender as importantes necessidades de segurança dos nossos principais interlocutores africanos.

Brasil-Africa005
Brasil-Africa005Brasil-Africa005
Brasil-Africa006
Brasil-Africa006Brasil-Africa006
Brasil-Africa007
Brasil-Africa007Brasil-Africa007
Brasil-Africa008
Brasil-Africa008Brasil-Africa008
Brasil-Africa009
Brasil-Africa009Brasil-Africa009

A origem do atraso

A África, a despeito de ter sido o "berço da humanidade", acabou por diversas razões sendo o continente que mais tardiamente se desenvolveu economicamente. Desde a época das grandes navegações no século XV e XVI a baixa densidade populacional do continente americano o tornava mais atrativo para colonização do que a África, o que ainda mais prolongou o ostracismo econômico africano. Lamentavelmente, coube ao Brasil, durante quase todo o século XIX, entre todos os países do mundo, ser responsável por uma significativa fatia do comércio global com a África em função da impressionante escala do seu comércio negreiro.

Brasil-Africa010
Brasil-Africa010Brasil-Africa010
Brasil-Africa011
Brasil-Africa011Brasil-Africa011
Brasil-Africa012
Brasil-Africa012Brasil-Africa012
Brasil-Africa013
Brasil-Africa013Brasil-Africa013
Brasil-Africa014
Brasil-Africa014Brasil-Africa014

Apenas com o advento da independência em bloco das colônias americanas das metrópoles européias e ainda mais com a descoberta de ouro e diamantes na África do Sul, é que ocorreu a chamada "corrida para a África" lá no finalzinho do século XIX. França, Portugal, Itália, Bélgica e Reino Unido trataram finalmente de definir as fronteiras interiores de suas respectivas áreas de influência naquele continente. Fenômeno este que realizado pelas potências européias de forma totalmente "remota" sem qualquer preocupação com a preservação da integridade, ou com o envolvimento dos grupos étnicos africanos que acabaram sendo fragmentados, em alguns casos voluntariamente entre as novas colônias européias.

Dois fatores no entanto, se uniram para a quebra deste paradigma e para o surgimento de novos países independentes naquele continente: a Segunda Guerra Mundial que abalou a capacidade econômica e militar da maioria dos países europeus, acompanhada pela forte pressão americana para a abertura de novos mercados globais, passando a ser livres do controle e das restrições comerciais das suas antigas metrópoles. Finalmente, a redivisão do globo durante o período da Guerra Fria. Isso fez com que entre os anos sessenta e setenta a União Soviética como política de estado tenha estimulado, especialmente, financiando ao tom de bilhões e bilhões de rublos, os mais variados movimentos de libertação nacional africanos, principalmente. O ano chave deste processo foi o de 1960, o chamado "Ano da África", onde nada menos que 17 países ficaram independentes naquele continente.

 

Brasil-Africa015
Brasil-Africa015Brasil-Africa015
Brasil-Africa016
Brasil-Africa016Brasil-Africa016
Brasil-Africa017
Brasil-Africa017Brasil-Africa017
Brasil-Africa018
Brasil-Africa018Brasil-Africa018
Brasil-Africa019
Brasil-Africa019Brasil-Africa019

Década de 60 e 70: Jânio. Jango e Geisel e nosso interesse pela África

Os continuados sinais colapso do império português na África ao final da ditadura Salazar foram perfeitamente compreendidos pelos governantes brasileiros a través da "Política Externa Independente" de Jânio Quadros que foi seguida expandida sob Jango. No entanto após uma breve "desconexão nos dois primeiros governos pós-64, com Médici e principalmente com Geisel, o Brasil se dirigiu, sem maiores ressalvas, para as oportunidades econômicas e políticas representadas pela nova África Independente. O governo Geisel se encontrava diante de uma situação de relativa fragilidade nas suas contas exteriores e sob o impacto do choque do preço do petróleo em 1973, precisava desesperadamente compensar isso com novos mercados para a ainda jovem indústria brasileira.

Brasil-Africa020
Brasil-Africa020Brasil-Africa020
Brasil-Africa021
Brasil-Africa021Brasil-Africa021
Brasil-Africa022
Brasil-Africa022Brasil-Africa022
Brasil-Africa023
Brasil-Africa023Brasil-Africa023
Brasil-Africa024
Brasil-Africa024Brasil-Africa024

Surpreendentemente coube ao Brasil, durante a vigência de um governo militar de direita, a oportunidade de ser um dos primeiros países a reconhecer o novo governo marxista do MPLA em Angola já no ano de 1975. Obviamente, naquele momento a expansão do comércio internacional seria mais importante do que qualquer filigrana ideológica. A aproximação com a África era um movimento de Estado e multifacetado. A Petrobrás buscava comprar petróleo e via a sua poderosa trading Interbrás, fazia simultaneamente um “hedge” cambial exportando produtos fabricados aqui para seus clientes. Em paralelo, empresas privadas como a Trading Cotia e as empresas construtoras aproveitaram este momento para abrir novas searas na África, processo este que alavancou fortemente o crescimento da nossa indústria de frango e de carne para a exportação.

Brasil-Africa025
Brasil-Africa025Brasil-Africa025
Brasil-Africa026
Brasil-Africa026Brasil-Africa026
Brasil-Africa027
Brasil-Africa027Brasil-Africa027
Brasil-Africa028
Brasil-Africa028Brasil-Africa028
Brasil-Africa029
Brasil-Africa029Brasil-Africa029

As viagens africanas de Lula e Dilma

Os governos de Sarney até FHC representaram uma mudança cíclica de política exterior que culminou com ma reaproximação forte com os parceiros "mais tradicionais", EUA, Europa e Japão, ao mesmo tempo em que desenfatizou o comércio com a África e com outros parceiros do chamado "Terceiro Mundo". Somente com os oito anos do governo Lula, com suas mais de 20 viagens ao continente africano, é que se verifica uma verdadeira retomada do foco brasileiro naquele continente.

Brasil-Africa030
Brasil-Africa030Brasil-Africa030
Brasil-Africa031
Brasil-Africa031Brasil-Africa031
Brasil-Africa032
Brasil-Africa032Brasil-Africa032
Brasil-Africa033
Brasil-Africa033Brasil-Africa033
Brasil-Africa034
Brasil-Africa034Brasil-Africa034

Mas é muito importante lembrar que a África de Lula é muito diferente daquela que Geisel conheceu. Ao longo destas três décadas os países africanos conseguiram re-estabelecer a ordem política interna, encerrando em definitivo longas e sanguinolentas guerras civis. Eles organizaram, minimamente, suas estruturas administrativas governamentais e, principalmente, abriram suas atividades mineradoras, especialmente aquela de petróleo, às indústrias internacionais que tinham não apenas o crucial know-how operacional quanto o acesso fácil ao financiamento internacional barato. Com estes fatores no lugar, o índice de crescimento do PIB dos países africanos subsaharianos, em média, passou de 5% em 2009 para 6,5 ao ano em 2013, atraindo, cada dia mais, a atenção dos vendedores de produtos de consumo e de serviços de infra-estrutura. Como fruto deste interesse aumentado, o comércio entre o Brasil e a o continente africano alcançou nos últimos anos a cifra nada desprezível de US$25 bilhões, cerca da metade que trocamos com nosso maior parceiro comercial, a China. Segundo artigo do jornal O Estado de São Paulo, a despeito dos efeitos da crise global, estes número aparentemente só crescem. Apenas nos três primeiros meses do ano de 2012 o crescimento sobre o mesmo período do ano passado cresceu 21% nas nossas importações e quase 40% nas nossas exportações para lá. Atualmente nossos três maiores parceiros comerciais na África são a África do Sul, a Argélia e a Namíbia, três países não-lusófonos.

Brasil-Africa035
Brasil-Africa035Brasil-Africa035
Brasil-Africa036
Brasil-Africa036Brasil-Africa036
Brasil-Africa037
Brasil-Africa037Brasil-Africa037
Brasil-Africa038
Brasil-Africa038Brasil-Africa038
Brasil-Africa039
Brasil-Africa039Brasil-Africa039

O papel do Brasil na CPLP

A atuação do governo brasileiro na África atualmente se centra em programas que são cobsnstituídos em blocos. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é justamente uma destas “portas de entrada” para o Brasil. Ela nasce de uma iniciativa essencialmente centrada nas questões cultural e social, e com o passar dos anos, tem buscado abranger suas áreas de interação. A nossa língua em comum segue sendo é uma grande avenida para facilitar a exportação de bens brasileiros para os países africanos e por solicitação dos próprios países africanos o Brasil tem sido levado a ajudar estes países em diversas áreas novas como a de formação de professores, a melhoria da saúde pública, desenvolvimento do agrobusiness, produção de biocombustíveis e mais recentemente, também, a cooperação na esfera militar.  Existe uma diferença de porte econômico considerável entre o Brasil e Portugal de um lado, e os demais países da CPLP do outro. Assim a oportunidade de crescimento econômico deste grupo é inegavelmente muito grande.

Assunto irrelevante em todas as demais áreas de atuação da CPLP, a presença de Portugal como membro da OTAN pode no entanto acabar interpondo-se ao progresso desta organização no campo militar.  Portugal é inegavelmente um dos eixos motrizes da CPLP visto pelo PIS europeu como o grande vetor político da lusofonia. Mas este alinhamento com a OTAN acaba por levantar dúvidas sobre como os interesses geopolíticos individuais do Brasil e de Portugal se comparam, ou mesmo conflitam, no que tange a África e o Atlântico Sul. Isso ficou especialmente evidente após os importantes discursos anti-OTAN proferidos pelo então-Ministro da Defesa Nelson Jobim em 2010.

ZOPACAS, uma boa idéia com um nome esquisito.

Para além do pragmatismo econômico da CPLP existe a ainda ZOPACAS, uma instituição que consegue ser simultaneamente muito ambiciosa no plano geopolítico e surpreendentemente frágil no plano de meios materiais para sua consecução. Lançada como proposta em 1986 durante o governo Sarney a “Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul” une sob o mesmo guarda-chuva geopolítico todos os 21 países costeiros africanos entre o Senegal e Arquipélago de Cabo Verde até a África do Sul com seus homólogos sul-americanos Brasil, Uruguai e Argentina. E em setembro de 1994 foi adotada a “Declaração de Desnuclearização do Atlântico Sul”. Este documento, com uma única penada, sumariamente pretendia impedir todos os países armados com armas atômicas, (principalmente EUA, Rússia, China, França e Reino Unido) de trazê-las para esta região independente de seu grau de ligação histórica com os países membros. Esta política efetivamente constrangia estes “big players” de se envolver nos temas da região garantindo ao Brasil e à Argentina indiretamente o papel de potências maiores  locais. É interessante notar que o direito ao uso de um sistema de propulsão nuclear nos futuros submarinos brasileiros está ressalvada nesta Declaração. Neste aspecto a ZOPACAS se assemelha aos acordos de desnuclearização institucionalizado anteriormente no Oceano Índico e no Pacífico Sul.

Curiosamente a ZOPACAS surgiu após o malogro da proposta argentina e da África do Sul do Apartheid de firmarmos com os EUA uma nova “Organização do Tratado do Atlântico Sul” - OTAS. Esta seria uma versão local no exato modelo da OTAN setentrional. A OTAS visava se contrapor à percepção de uma crescente presença militar soviética na região, especialmente a presença em Angola e Moçambique seus países aliados na África. O projeto de atrair os EUA pra o Atlântico Sul não atraiu ao Brasil, mas, posteriormente, já durante o governo Sarney a chegada de Mandela ao poder e a queda da União Soviética permitiram ao Itamaraty sair em campo para criar uma nova organização que justamente subvertesse a idéias originais da OTAS. A nova ZOPACAS assim abraçou os governos africanos negros e passou a pleitear o afastamento das atuais potências globais do Atlântico Sul. O intuito declarado era o de impedir que estas mesmas potências extraregionais, como na época da Guerra Fria, arrastassem para a orla do Atlântico Sul conflitos e crises perigosas globais que nada tinham que ver com nossa realidade.

Para o Brasil este conjunto de iniciativas da ZOPACAS apresenta muito semelhança com o que foi implementado na América do Sul, alguns anos depois, a criação da Unasul e do CDS sem a presença de EUA, Canadá, México e países caribenhos e centro americanos. Diferente da iniciativa sul americana onde existe uma série de programas políticos e econômicos em franco desenvolvimento, a ZOPACAS ainda sofre com uma falta de programas conjuntos efetivos, especialmente aqueles de cunho militar. Raiz disso sendo a ainda grande discrepância cultural, linguística e econômica verificada entre seus membros. Desenfatizada na política externa do Brasil durante os 12 anos dos governos dos presidentes Itamar e FHC, interessantemente coube à Angola a iniciativa de revitalizar a ZOPACAS para uma agenda do novo milênio. A ZOPACAS não é (nem pretende ser) uma organização político-econômica nos moldes da União Européia e também não é uma organização militar nos moldes da OTAN. Trata-se de uma obra em andamento onde sua configuração final será fruto das forças políticas no poder dos seus maiores membros ao longo das próximas décadas.

Nossos parceiros e rivais: China e EUA também estão interessados no Golfo da Guiné

Com o fim da polarização binária que caracterizou a Guerra Fria os Departamentos de Estado e de Defesa americanos se realinharam internamente para se aproximar mais do continente negro em sua nova fase de crescimento. No plano militar em outubro de 2008 foi anunciada a ativação de um novo comando geográfico para as forças armadas americanas: o Africa Command - Africom - comandado por um Oficial General de quatro estrelas. No entanto, desde então não lhes foi possível encontrar um único país naquele continente que se disponha a receber a sede definitiva da nova unidade. Seja pelo medo de contrariar importantes forças islâmicas/anti-americanas já existentes dentro de seus próprios países, ou mesmo de atrair a atenção de grupos terroristas internacionais interessados em punir o "Grande Satã". Este desinteresse dos países africanos acabou fazendo com que esta base deste novo Comando Conjunto militar americano ficasse mesmo em Stuttgart na Alemanha.

Após a recente decisão americana de retirar suas tropas e meios militares do Iraque e do Afeganistão, pretensamente para permitir um reorientamento militar em direção ao Pacífic (Pivot to the Pacific), uma nova iniciativa tem se materializado de forma muito mais discreta na África. Grupos extremistas islâmicos africanos como o Boko Haram no nordeste da Nigéria e o Al Qaeda in Magreb (AQIM) no norte do continente estão atraindo pequenas unidades de forças especiais das forças armadas americanas para a África. Atuando desde pequenas bases avançadas com o apoio não declarado dos governos locais e da França que tem importantes bases militares e logísticas na região do Sahel (fronteira entre o deserto do Sahara e a savana). No ar as forças especiais são complementados por um grande número drones dos mais diversos modelos. Eles servem tanto para espionagem diurn e noturna como para a realização de ataques pontuais com mísseis contra bases e campos de rebeldes e insurgentes. A principal base de drones americanos na África é o Camp Lemonnier no aeroporto internacional de Djibouti. Aonde esta iniciativa anti-terrorismo “discreta” vai desaguar no futuro ainda não se sabe, mas além dela existe uma outra atuação americana bem muito mais visível e menos “interventora” nos mares.

Brasil-Africa040
Brasil-Africa040Brasil-Africa040
Brasil-Africa041
Brasil-Africa041Brasil-Africa041
Brasil-Africa042
Brasil-Africa042Brasil-Africa042
Brasil-Africa043
Brasil-Africa043Brasil-Africa043
Brasil-Africa044
Brasil-Africa044Brasil-Africa044

 

Africa Partnership Stations (APS)

Este exercício regional americano ocorre anualmente e é praticamente uma sub-UNITAS. Ele pretende atender a várias necessidades simultaneamente, a de exibir a bandeira dos EUA nos países das costas leste e oeste do continente, criar a chance de embarcar temporariamente pequenos grupos de militares das marinhas locais em navios da US Navy e da US Coast Guard para lhes dar um mínimo treinamento operacional, ainda que seja bem básico, além de permitir a realização de pequenas atividades locais de boa vizinhança/”goodwill” como reformar e pintar escolas, transportar donativos dos EUA para distribuição em projetos de ONGs. Poucas marinhas, no entanto, tem tido a capacidade técnica e material para colocar seus navios no mar visando interoperar minimamente com os navios americanos, como ocorre a décadas na América Latina. A exceção a esta "regra" tem sido normalmente o Marrocos, a África do Sul e a Nigéria. Os americanos pressionados pelos cortes no seu orçamento militar estão aparentemente refocando os meios utilizados para engajar o continente. A edição 2014 do exercício Obangame Express que foi coberta por ALIDE mostrou que com a aposentadoria das fragatas da classe Oliver Hazard Perry a presença da US Navy neste continente está sendo entregue a navios de apoio/desembarque anfíbio (LSD/NDD) e ao novo catamarã logístico joint high speed vessel USNS Spearhead (JHSV 1).

Brasil-Africa045
Brasil-Africa045Brasil-Africa045
Brasil-Africa046
Brasil-Africa046Brasil-Africa046
Brasil-Africa047
Brasil-Africa047Brasil-Africa047
Brasil-Africa048
Brasil-Africa048Brasil-Africa048
Brasil-Africa049
Brasil-Africa049Brasil-Africa049

Dentro da conhecida estratégia americana de capturar "corações e mentes", São Tomé abriga desde 1992 uma grande retransmissora dirigida toda a África central da programação da rádio do governo americano, Voz da América, em um local conhecido como Pinheira, situado à alguns quilômetros ao sul da capital são-tomeense. Em contrapartida, esta estação transmite, também, a programação da Rádio do Governo de São Tomé sem qualquer ônus para o estado local. Em 2010 sua Marinha recebeu dos americanos por doação uma lancha de patrulha costeira Archangel 440 com 44 pés construída pelo estaleiro americano SAFE Boats International. Este modelo tem assentos montados sobre uma "suspensão" para dar conforto aos tripulantes mesmo indo a mais de 40 nós. Mas doações como esta não representam uma solução sustentável de longo prazo. Duas lanchas menores, doadas anteriormente, sofreram por falta de manutenção e foram usadas erraticamente por pouco tempo naquele país devido à crônica falta de verba para combustível da Guarda Costeira e também pela falta de mão de obra qualificada para manutenção e operação destes meios.

A oportunidade e o risco chinês

A China, transformou-se nos dias atuais na “locomotiva industrial” do planeta, pra sustentar este seu crescimento é indispensável a existência de fontes confiáveis das principais matérias primas. A grande atratividade do continente africano para os chineses reside justamente aí, nos commodities. Adicionalmente a declarada política chinesa de não-interferência nas questões internas dos governos africanos apenas serviu para tornar ainda mais gritante seu contraponto à política ocidental de atrelar sua ajuda humanitária (e raramente a ajuda para o desenvolvimento) com a necessidade de mudanças políticas nas sociedades africanas. Por enquanto no plano militar a China ainda é menos pujante que na sua atividade comercial mas a expansão continuada da esquadra chinesa já a permite realizar uma patrulha anti pirataria nas costas da Somália ininterruptamente. A construção de mais e melhores navais num forte ritmo em breve permitirá à Marinha Chinesa marcar sua presença de forma consistente também na costa oeste do continente africano. A indústria naval chinesa é usada pelo país como moeda de troca com os países africanos como foi o caso da “venda” do navio “NNS Elephant” para a Marinha da Namíbia em troca de formas de compensação não-monetárias como direitos de mineração. A indústria chinesa tem múltiplos produtos das mais diversas configurações, desde lanchas de casco inflável, para inspeção no mar e no porto, até porta helicópteros anfíbios com mais de 20000 toneladas de deslocamento. Para melhorar a posição dos chineses eles conseguem oferecer estes navios no mercado global com custos que são muito mais agressivos do que qualquer coisa que os estaleiros ocidentais possam fazer. A capacidade dos chineses de criar parcerias com as marinhas da costa oeste africana já é grande e vai se expandir demandando do Brasil uma maior proatividade no campo político, econômico e militar que atuando de forma sinergética consiga comprovar aos governantes africanos os benefícios de se tratar com um país com uma cultura mais próxima versus uma aproximação crescente com os chineses.

O desgaste produzido pelas iniciativas bastante predatórias dos chineses são agravadas por questões até certo ponto intangíveis da divergência cultural. Os líderes africanos têm cada dia mais dificuldade de justificar perante seu público local o habito chinês de importar mão de obra chinesa para realizar as grandes obras de infraestrutura contratadas à sua indústria. Numa região com poucas oportunidades de emprego a importação de trabalhadores braçais é um ponto muito delicado. Angola, que foi um dos primeiros países africanos a tratar com os chineses já está começando a buscar formas de minimizar número de novos negócios do governo com as empresas chinesas. Além das empresas a África tem se tornado a nova fronteira para empreendedores chineses. Howard W. French ex-correspondente do New York Times em Xangai e posteriormente na África Central e Ocidental no seu último livro “O segundo continente da China” mostra como a recente imigração de mais de um milhão de chineses para a África deixou um legado de reserva e de decepção nos africanos. Para eles os novos “empreendedores” chineses se comportam e tratam seus empregados africanos de maneiras racistas e exploradoras, desconfortavelmente próximas do que era comum na época dos antigos colonizadores europeus.

Brasil-Africa050
Brasil-Africa050Brasil-Africa050
Brasil-Africa051
Brasil-Africa051Brasil-Africa051
Brasil-Africa052
Brasil-Africa052Brasil-Africa052
Brasil-Africa053
Brasil-Africa053Brasil-Africa053
Brasil-Africa054
Brasil-Africa054Brasil-Africa054

O Petróleo e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar

Um dos elementos que serviu para reinserir a África e principalmente os países do Golfo da Guiné na lista de prioridades das grandes e médias potências é inegavelmente a descoberta de grandes jazidas de petróleo em terra e no mar. O então Vice Presidente Richard Cheney salientou esta visão no seu National Energy Policy Report de maio de 2001: "A África Ocidental deverá ser um das fontes de óleo e gás de maior crescimento para o mercado dos Estados Unidos." Ele adicionou que : "O óleo africano tende a ser de alta qualidade e com pouco teor de enxofre, tornando-o adequado para os exigentes requerimentos técnicos das refinarias americanas, garantindo assim uma fatia de mercado pelos centros de refino da Costa Leste dos EUA". Para os Estados Unidos é crucial encontrar novas fontes de petróleo que fossem menos "complicadas" do que o Oriente Médio é para eles hoje em dia. Sob esta lógica, o Golfo da Guiné desponta como uma opção muito conveniente para eles. Segundo o Oil and Gas Journal em 2003 nada menos que oito por cento das reservas mundiais estariam localizadas na região do Golfo da Guiné.

Brasil-Africa055
Brasil-Africa055Brasil-Africa055
Brasil-Africa056
Brasil-Africa056Brasil-Africa056
Brasil-Africa057
Brasil-Africa057Brasil-Africa057
Brasil-Africa058
Brasil-Africa058Brasil-Africa058
Brasil-Africa059
Brasil-Africa059Brasil-Africa059

Se tanta riqueza existe no subsolo marinho do Golfo da Guiné o limitado desenvolvimento das marinhas locais não deixa de ser surpreendente. A explicação disso reside no fato de que todos estes países tiveram o processo de independência de suas metrópoles ocorrendo primariamente em terra. Como regra geral, por estas razões ao longo dos anos, as marinhas locais acabaram sendo muito menos aquinhoadas de verbas do que seus respectivos Exércitos e Forças Aéreas. Também no período de maior turbulência que se seguiu à independência atuação dos grupos políticos oposicionistas (insurgentes) que confrontavam estes jovens governos, ocorria muito mais no interior do que na costa oceânica. Esta peculiaridade deu aos generais uma maior prioridade de verba e um maior poder político interno no período subseqüente. A riqueza “potencial” do petróleo só vira riqueza real quando as barreias ideológicas deixam de impedir que empresas multinacionais ocidentais possam ser autorizadas a extrair este petróleo em troca de royalties, não mais prescindindo a existência de uma capacitada empresa petrolífera nacional. Petróleo e gás retirado no mar sairá sempre mais caro que se for extraído em terra, no entanto no caso específico africano os poços no mar (com plataformas flutuantes automatizadas como as unidades FPSOs – “Floating Production Storage Offloading” - usadas em caso de poços localizados a maiores distâncias da costa, inegavelmente acabam representando um adicional de segurança se comparados aos vulneráveis poços terrestres. E isso sem dúvida atrai os investidores estrangeiros para aquela região.

Brasil-Africa060
Brasil-Africa060Brasil-Africa060
Brasil-Africa061
Brasil-Africa061Brasil-Africa061
Brasil-Africa062
Brasil-Africa062Brasil-Africa062
Brasil-Africa063
Brasil-Africa063Brasil-Africa063
Brasil-Africa064
Brasil-Africa064Brasil-Africa064

Brasil-Africa065
Brasil-Africa065Brasil-Africa065
Brasil-Africa066
Brasil-Africa066Brasil-Africa066
Brasil-Africa067
Brasil-Africa067Brasil-Africa067
Brasil-Africa068
Brasil-Africa068Brasil-Africa068
Brasil-Africa069
Brasil-Africa069Brasil-Africa069

O dano do "fogo amigo" na constituição das marinhas africanas

Uma riqueza natural que foi mais fácilmente reconhecida e protegida pelas classes políticas locais do que outras foi a dos cardumes de peixe e os crustáceos existentes nas respectivas ZEEs. Países como Namíbia e Angola com apoio financeiro de organizações estatais e/ou ONGs estrangeiras acabaram comprando navios de patrulha pesqueira para tentar controlar o acesso não autorizado de navios pesqueiros estrangeiros. Estes pesqueiros, especialmente os de bandeira espanhol e chinesa, estão acostumados a se aproveitar da falta de controle nas ZEEs de outros países ao redor do globo. Na falta de uma marinha bem estruturada, foram criadas secretarias de pesca civis que receberam a operaram estas modernas frotas de patrulha. As secretarias de pesca, no entanto, acabaram por diluir intencionalmente ou não a importância imediatas total das jovens marinhas perante o governo daqueles países, minimizando sua utilidade.

Brasil-Africa070
Brasil-Africa070Brasil-Africa070
Brasil-Africa071
Brasil-Africa071Brasil-Africa071
Brasil-Africa072
Brasil-Africa072Brasil-Africa072
Brasil-Africa073
Brasil-Africa073Brasil-Africa073
Brasil-Africa074
Brasil-Africa074Brasil-Africa074

IBSAMar e Atlasur

Se é verdade que o exercício naval mais tradicional das Américas, o UNITAS, vem continuamente perdendo espaço a cada ano que passa, outras janelas de aprendizado se abrem na nossa parte do globo.

Brasil-Africa075
Brasil-Africa075Brasil-Africa075
Brasil-Africa076
Brasil-Africa076Brasil-Africa076

Uma nova parceria de segurança para os mares meridionais, desde o Atlântico até o Índico está se consolidando neste momento. Diferente dos programas de "fundação/construção" com pequenas marinhas africanas citados acima, existe ainda um trabalho muito mais complexo e "igualitário" envolvendo as Marinhas do Brasil, da África do Sul e da Índia. Em 2012 ocorrerá a terceira edição do exercício IBSAMar na costa sulafricana. Segundo o Chefe do Estado da Marinha Indiana contou para ALIDE em 2008, esta conjugação intercontinental de marinhas "visa criar um canal de cooperação e de troca de experiências operacionais que permita aos três países atuarem em conjunto para garantir a segurança desta região marítima, dispensando totalmente a atuação de potencias extra-região". ALIDE acompanhou este exercício na sua primeira edição e contou a sua história aqui e aqui.

O Atlasur, por sua vez não inclui a Índia, mas conta com a presença de Uruguai e Argentina, dois países que lastimavelmente não se encontram no ápice de suas condições operativas por razões unicamente econômicas e de política interna. Este ano será realizada a nona edição deste evento, uma vez mais na África do Sul.

Serviços técnicos militares: a boa experiência do Brasil na Namíbia

Recentemente contamos aos nossos leitores sobre o importante programa de cooperação militar realizado pela Marinha do Brasil na Namíbia. Um dos últimos países a ficar independente no planeta a Namíbia precisou de ajuda estrangeira para construir suas forças armadas, e por intermédio da ONU acabou ficando aos cuidados do Brasil a consultoria para a estruturação da Marinha daquele país. Poucos anos após seu início este programa já deu claros frutos e a Marinha da Namíbia já operava dois navios patrulhas vindos do Brasil, uma corveta Classe Imperial Marinheiro de segunda mão (ex-Purus) e um novo NPa 200 da classe Grajaú.

Em 2013 ela deu baixa na veterana corveta ex-Marinha do Brasil após poucos anos de uso, recebendo o NNS Elephant seu mais novo navio, desta vez de procedência chinesa, um peculiar híbrido de Navio Patrulha Oceânico com Transporte de Tropas. Para ocupá-lo oficiais brasileiros do Corpo de Fuzileiros Navais da Esquadra estão auxiliando os militares namibianos a montar seu próprio corpo de fuzileiros navais. Em paralelo, um time da Esquadra está trabalhando para estruturar a área de Estado Maior daquela Marinha. O sucesso e o baixo custo desta experiência chamou a atenção de diversas marinhas na África e além, gerando repetidas solicitações de propostas para a implementação de programas semelhantes, mas nenhum destes foi assinado recentemente.

O potencial na África para a indústria brasileira de construção naval militar.

A grande maioria das marinhas africanas ainda não pode ser considerada como operadoras de sistemas "hi-tech". Elas precisam criar seus procedimentos operacionais e para isso começarão usando navios mais simples como navios patrulha costeiros e oceânicos, justamente o coração do programa de reequipamento da Marinha do Brasil antes da assinatura do muito mais complexo PROSUPER.

Há anos que a EMGEPRON, Empresa de Gerenciamento de Projetos Navais, subordinada ao Ministério da Defesa via a Marinha do Brasil trabalha para ofertar estas linhas de navios para as Marinhas Africanas. A visita da Corveta Barroso a sete países africanos em 2010 além de promover as boas relações entre a Marinha do Brasil e suas congêneres africanas carregava uma grande apresentação do potencial industrial e de serviços dada indústria de defesa brasileira. O legado da reunião de Chefes das Marinhas da CPLP de 2012 se limitou a ampliar o nível de conhecimento mútuo que foi o maior benefício extraído pelas várias marinhas presentes ao evento aqui no Rio de Janeiro. Se um dia foi todo dedicado a apresentações que buscavam descrever aos interlocutores a situação operacional, material e doutrinária de cada uma das marinhas/guardas costeiras, o segundo foi exclusivamente focado na apresentação dos diversos modelos de navios brasileiros disponíveis para exportação. As comitivas visitaram a corveta Barroso, o Navio patrulha Macau de 500 toneladas, um dos navio patrulha de 200 toneladas e ainda as lanchas de patrulha da classe Marlim. Até hoje o único sucesso comercial da indústria brasileira foi a venda de um navio patrulha da classe Grajaú (de 200 toneladas) e de duas lanchas de patrulha construídos no Estaleiro Inace para a Marinha da Namíbia. Mas outras conversas estão em andamento Senegal e Gana sendo outros candidatos.

Mas ainda não se pode esperar qualquer tipo de "fidelidade" vindo destes potenciais clientes... A Guiné Equatorial a despeito de declarações de interesse por navios brasileiros no final comprou lanchas armadas de Israel e mais recentemente adquiriu navios patrulha da Coréia do Sul e uma fragata leve da Bulgária.

A Divisão Naval do Leste, exemplo da projeção naval brasileira no século XIX

O grande pensador e estrategista naval americano do século XIX, Alfred Thayer Mahan, cujas idéias acabaram por nortear todo o emprego da US Navy durante o Século XX e além, sustentava que para poder efetivamente controlar os mares mantendo os seguros para seu tráfego mercante uma marinha precisava dispor bases no exterior que a permitiriam reparar e aprovisionar seus navios mesmo estando longe do seu território americano. O ideário competentemente cunhado por Mahan tantos anos atrás deixa de ser repudiado e passa a ficar mais popular toda vez que um país rompe o limiar de potência local e passa a ambicionar uma fatia maior do poder global. Foi assim na URSS, na China na última década e deve ser também no Brasil nos próximos anos.

Não são muitos os estudiosos brasileiros que sabem que entre os anos 1827 e 1831, logo nos primeiros anos do Império Brasileiro, a Marinha Imperial de uma forma curiosamente (pré-) mahaniana, operou um grupo de seus navios militares do outro lado do Atlântico a partir do porto português de Cabinda ao norte de Angola.

O estabelecimento desta Divisão Naval derivou de um acordo em 1826 entre o Brasil e o Reino Unido que visava à extinção do tráfego negreiro da África para o Brasil o quanto antes isto fosse possível. Ironicamente, ao ser iniciada no ano de 1827, a atividade da Marinha Imperial buscou essencialmente proteger os navios negreiros de bandeira brasileira do freqüente ataque de corsários que agiam a serviço das repúblicas argentinas. Em 1830 a unidade militar foi desmontada e assim, embora que de uma maneira fora da lei, cerca de um milhão de escravos ainda foram trazidos ao Brasil nos vinte anos seguintes. Agora eles vinham de maneira ilegal, para sustentar a demanda naquele período cada vez maior puxada pela expansão da agricultura intensiva nacional de produtos para a exportação.

É curioso que quase 200 anos depois destes eventos pioneiros os agora independentes países africanos de língua portuguesa, assim como os demais países da costa ocidental do continente, passem a enxergar no Brasil como um bom parceiro para formar suas marinhas, equipá-las com navios modernos e para auxiliá-los com nossos próprios meios seus esforços de manutenção da paz, mapeamento do relevo submarino e no controle do aproveitamento econômico de suas ZEE. Para cumprir todas estas missões pode ser que uma nova organização brasileira na África tenha que ser criada. Vejamos se agora apenas se o Governo Federal se encontra finalmente pronto para colocar dinheiro de verdade nas suas sedutoras promessas de parceria naval intercontinental.

Conclusão

A opinião do Comandante da Marinha do Brasil sobre as perspectivas futuras da relação Brasil-Africa

Em rápida entrevista com o Comandante da Marinha, conversamos sobre a crescente relação Brasil-Africa e o papel primordial que a MB tem nesse sentido de viabilizar sua consecução plena.

ALIDE: “Como tem progredido ao longo dos anos a relação militar-militar entre Brasil e os países africanos da costa oeste?”

Almirante Moura Neto: Brasil mantém crescente cooperação na área de Defesa com esses países, conforme dispõe a Política de Defesa Nacional (PDN), que estabelece prioridades aos países da África, em especial aos da África Austral e aos de língua portuguesa. Nesse sentido, a progressão da relação de defesa com os países africanos da costa ocidental está em sintonia com as decisões do Governo Brasileiro.

A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) configura-se hoje como um fomentador de acordos e disseminador da idéia de cooperação, apresentando-se como uma instância de discussões e interação no Atlântico Sul e como única estrutura que reúne todos os países dessa região. Esforços de revitalização da ZOPACAS foram intensificados a partir da Cúpula de Angola, em 2007, quando se discutiram novas áreas de cooperação.

Entre 2003 e 2011, foram assinados Acordos de Cooperação no Domínio da Defesa com sete países africanos (África do Sul, Angola, Guiné Equatorial, Moçambique, Namíbia, Nigéria e Senegal). Estão sendo realizadas atividades nas áreas de formação militar, levantamento da plataforma continental, ciência e tecnologia, operações comerciais e doações brasileiras, além de terem sido alcançados avanços na cooperação relativa ao Atlântico Sul. Foi criado, também, um Centro de Formação de Forças de Segurança em Guiné-Bissau e está em instalação, naquele país, a Missão Brasileira de Cooperação Técnico-Militar. Além disso, houve o apoio brasileiro à criação do Corpo de Fuzileiros Navais da Namíbia e o envio de instrutores para o Centro de Aperfeiçoamento para Ações de Desminagem e Despoluição em Uidá, Benin.

Merecem destaque, ainda, a compra de navio-patrulha construído no Brasil e os contratos assinados para a compra de lanchas-patrulha brasileiras pela Namíbia; a compra dos aviões Super-Tucano por Angola; bem como o protocolo de intenção assinado para a venda de corveta brasileira à Guiné-Equatorial. Na área de Ciência e Tecnologia militar, o Brasil e África do Sul estão desenvolvendo, conjuntamente, um novo modelo de míssil ar-ar (Projeto A-DARTER) e estão em discussão outras possibilidades de trabalho conjunto.

ALIDE: “O programa da MB para o desenvolvimento da Marinha da Namíbia é um sucesso. É do interesse do Brasil e da MB reproduzir este programa em outro país africano? A quantas anda o interesse de Moçambique neste programa?”

MN: A Marinha do Brasil (MB) demonstrou interesse em auxiliar a formação dos militares da Marinha de Guerra de Moçambique (MGM). Para tal, os seguintes eventos foram tratados, recentemente:

•        possibilidade de doação de normas, livros e publicações nas áreas de navegação, meteorologia, oceanografia, hidrografia, mergulho, combate a incêndio, controle de avarias, patrulha naval, inspeção naval, busca e salvamento, sobrevivência no mar e controle naval do tráfego marítimo;

•        a MB ofereceu vagas nos seguintes cursos para o ano de 2013:

a)        Curso de Estado-Maior para Oficiais Superiores (C-EMOS);

b)        Curso de Estado-Maior para Oficiais Intermediários (C-EMOI);

c)        Curso de Aperfeiçoamento de Superfície em Máquinas para Oficiais C-Ap/Sup-MAQ);

d)        Curso de Aperfeiçoamento em Motores e Máquinas (C-Ap-MO);

e)        Curso de Aperfeiçoamento em Máquinas (C-Ap-MA); e

f)        Curso de Controle Naval do Tráfego Marítimo;

•        a MB ofereceu estágio a bordo dos navios para Sargentos; estágio no Centro de Instrução Almirante Alexandrino (CIAA); no Centro de Instrução Almirante Milcíades Portela Alves (CIAMPA) do Corpo de Fuzileiros Navais; e no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), a fim de contribuir com a reciclagem e atualização dos Engenheiros da MGM;

•        a MB informou a possibilidade de transferência de um simulador de manobras para a MGM;

•        a MB ofereceu um Estudo Preliminar de Engenharia à Escola Naval de Pemba;

•        será estudada pela MB a viabilidade de reflutuação do dique flutuante afundado no píer da Base Naval de Maputo;

•        foi proposta a venda de uma embarcação para a prática da navegação - Lancha de Apoio ao Ensino Profissional (LAEP-10 ou LAEP-7); e

•        foi proposta a elaboração de um estudo preliminar para as Bases Navais de Maputo, Pemba e Metangula, para adoção de um modelo padrão para a MGM.

ALIDE: “Qual é a dinâmica dos eventos que reúnem os comandantes das Marinhas da CPLP? O que se apresenta e o que de ação concreta já saiu destes encontros?”

MN: Foi estabelecido, em 2008, em Portugal, que a partir daquele ano seria realizado, a cada dois anos, o Simpósio das Marinhas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A sede seria em sistema de rodízio entre os países. O I Simpósio foi realizado, em Lisboa, entre 2 e 3 de julho de 2008, tendo como Tema Central: "O papel das Marinhas no atual contexto internacional”; o II Simpósio foi realizado em Luanda - Angola, de 30 de junho a 1º de julho de 2010, com o Tema - "As Marinhas e os desafios do Século XXI”; e o III realizado no Rio de Janeiro, RJ, com o Tema – “Garantia da defesa e segurança marítimas, em âmbito nacional, regional e global. A cooperação entre as Marinhas para o monitoramento e o controle do tráfego marítimo nas águas jurisdicionais dos países”.

Nesses simpósios são oferecidos diversos tipos de cooperação, como por exemplo, cursos, intercâmbios, realização de exercícios e treinamentos, navios e embarcações pelas Marinhas do Brasil e de Portugal. Alguns desses já foram aceitos por Marinhas da CPLP e outros ainda estão em estudo. Deve-se ressaltar que a maioria dessas Marinhas têm dificuldades financeiras para prosseguir com as cooperações.

ALIDE: “A decisão da Namíbia de comprar (ou receber como contrapartida comercial) um novo navio militar da China não é prova que algo pode estar nos faltando para garantir a venda de novos navios militares brasileiros por lá?”

MN: O Brasil deve sempre levar em consideração a possibilidade de uma nação amiga obter navios de um terceiro país. Essa é a dinâmica do “negócio” dos produtos de Defesa. Os países são soberanos para decidirem seus destinos. A Marinha que adquire um meio deve considerar nessas aquisições todos os aspectos envolvidos no longo prazo, como manutenção, reparos, obtenção de sobressalentes e capacidade de operação com eficácia, entre outros.

ALIDE: “As marinhas dos países da CPLP tem alguma agenda de treinamento onde a visita de um navio da MB possa servir para contribuir com algo? Estamos longe de poder propor a realização de um exercício naval regular tipo a Unitas entre as Marinhas africanas e a nossa?”

MN: O recém adquirido Navio-Patrulha Oceânico (NaPaOc) “Amazonas”, no seu trânsito para o Brasil, atracou nos seguintes portos: Mindelo – Cabo Verde, Cotonou – Benin, Lagos – Nigéria e São Tomé - São Tomé e Príncipe. Foi acordado com as Marinhas desses países a realização de treinamentos básicos de patrulha naval e ações antipirataria. Para 2013, está sendo planejado um exercício básico de controle de área marítima com as Marinhas de Angola, da África do Sul e da Namíbia. É intenção evoluir, progressivamente, com esses treinamentos.

Entretanto, não se espera que atinja o nível da Operação UNITAS em curto e médio prazos, pois essas Marinhas não possuem, ainda, meios compatíveis para exercício desse nível.

ALIDE: “O governo Brasileiro consegue fazer propostas de parceria com a África que incluam simultaneamente a MB e outras empresas brasileiras como a Petrobras, Vale e Embrapa?”

MN: O Governo Brasileiro, por meio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX-Brasil), tem implementado diversas ações com intuito de estreitar o relacionamento comercial e estimular o desenvolvimento de parcerias de empresas brasileiras no exterior.

Para o setor de Defesa, há, atualmente, um convênio em vigor entre a APEX e a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE), a fim de promover as exportações das empresas brasileiras, incluindo apoio para exposições em feiras internacionais de Defesa e patrocínio de visitas de potenciais clientes ao Brasil, o qual tem sido empregado mais especificamente pela Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON) para divulgação dos produtos e serviços do setor naval de Defesa junto ao mercado africano, com resultados positivos.

A política externa do País nos últimos oito anos convergiu esforços para recuperar a capacidade de negociação, adotando o conceito de “eixo horizontal” de relacionamento entre os Estados, promovendo parcerias com países da África, Ásia e Oriente Médio. Esse eixo representa uma dimensão da política externa, também conhecida como relações Sul-Sul e, por meio dela, o Brasil conseguiu aumentar sua participação no mercado do sul, estabelecendo contatos mais amplos com a Índia e a África do Sul.

Entretanto, uma vez que as instituições estatais e as empresas privadas brasileiras atuam nos países da África nas suas respectivas áreas de competência, não se visualiza, em princípio, parceria da MB com as instituições citadas. Mas, certamente, há ajuda mútua quando agências desses órgãos estiverem estabelecidas nos países estrangeiros.

ALIDE: “Estamos considerando agregar as marinhas da costa oeste do continente africano ao SISGAAZ quando ele estiver pronto?”

MN: O Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) é um sistema específico para o Brasil, assim, não se visualiza agregar as Marinhas da África Ocidental a ele. Entretanto, alguns sub-sistemas do SisGAAz, como por exemplo, o Sistema de Informações sobre o Tráfego Marítimo (SISTRAM), o Long Range Identification and Tracking System (LRIT) e o Automatic Information System (AIS), poderão ter informações compartilhadas mediante acordo entre as respectivas partes, negociado caso a caso.

ALIDE: “Quando os comandantes das Marinhas africanas vem ao Brasil eles nos pedem alguma coisa? Treinamento, navios novos, navios usados?”

MN: Sim, há diferentes tipos de solicitações que variam para cada Marinha, de acordo com seus interesses. Entretanto, as mais comuns são de fornecimento de meios e equipamentos,  realização de cursos e treinamentos, além de construção de unidades navais.

ALIDE: “Qual o status das negociações da EMGEPRON com Gana, Benin e Guiné Equatorial? Para a venda de novos navios brasileiros, especificamente.

MN: As negociações de venda de produtos de Defesa são normalmente demoradas, especialmente quando se trata de meios complexos, como são os navios de guerra, e de países que necessitam de financiamento para concretizar a aquisição. Devido ao excelente relacionamento mantido com os países africanos que têm demonstrado interesse nos produtos da EMGEPRON, diversas propostas técnicas e comerciais têm sido formuladas, apresentando produtos com características adequadas à realidade econômica e ao cenário tecnológico daquele continente. As propostas para Benin, Gana e Guiné Equatorial ainda se encontram em apreciação, o que é considerado normal no ramo industrial de Defesa.

ALIDE: “A chegada dos novos NaPaOcs da classe Amazonas deve dinamizar, ampliar o número de visitas da MB aos portos africanos?”

MN: Essa é a nossa intenção.

Cabe ressaltar que durante a travessia do Reino Unido para o Brasil, o Navio-Patrulha Oceânico (NPaOc) “Amazonas” realizou exercício de demonstração de ações antipirataria e treinamentos de manutenção entre navios com a Guarda Costeira de Cabo Verde, a Força Naval do Benin, a Marinha da Nigéria e a Guarda Costeira de São Tomé e Príncipe, além de visitas protocolares e públicas, durante as estadias nos portos de Cotonou (Benim), Lagos (Nigéria), Mindelo (Cabo Verde) e São Tomé (São Tomé e Príncipe). Além disso, pretende-se incluir atividades análogas, por ocasião do planejamento das travessias dos NPaOc “Apa” e“Araguari”.

ALIDE: “Quantas visitas o Comandante da Marinha já fez à África desde sua posse?”

MN: Sete visitas.

Last Updated on Thursday, 22 October 2015 07:22
 

Translate

Browse this website in:

Busca Rápida
Serial
(FAB, MB ou EB)


Copyright © 2018 Base Militar Web Magazine. All Rights Reserved. Joomla! is Free Software released under the GNU/GPL License.