Selex ES: Raven ES-05, o radar britânico do Gripen brasileiro PDF Print E-mail
Written by Diego Vieira   
Wednesday, 07 January 2015 21:08

 

 

 

Dois radares da empresa hoje conhecida como Selex ES foram selecionados no passado para serem usados nos programas de modernização do F-5E e do AMX da FAB. No primeiro caso foi o Grifo Br, e no segundo, o SCP-01 Scipio, desenvolvido conjuntamente com a Mectron. Com a seleção do Gripen NG para ser o novo caça da Forca Aérea Brasileira, as discussões sobre quais sistemas iriam equipar o projeto começaram quase que imediatamente. Neste exato momento a FAB se encontra terminando de negociar os termos ligados ao radar e à logística para seu próximo avião.  Por isso, o Raven ES-05, desenvolvido no Reino Unido pela Selex ES, empresa da holding italiana Finmeccanica, não poderia ficar de fora da atenção da ALIDE. Em meados de 2014 ALIDE foi a Edimburgo para conhecer a empresa e para entender o que é o novo radar do Gripen NG.

Um pouco de história

Após sua compra definitiva pela Finmeccanica, a SELEX S&AS Limited foi fundida com a empresa italiana concorrente Galileo Avionica S.p.A e a nova empresa passou a ser uma junção dos dois nomes. Nascida da fusão de suas três subsidiárias do grupo que trabalhavam com radares e com sistemas de comunicação: Selex Galileo, Selex Sistemi Integrati e Selex ELSAG. Apenas o braço no Reino Unido da Selex SE é o herdeiro direto dos longos e ricos legados tecnológicos das empresas Marconi, GEC e Plessey.

"No inicio foi difícil para ambas empresas se entenderem, partilhar informações e construir um elo de confiança, mas hoje, posso dizer com segurança que a nossa sinergia é grande e que temos conquistado importantíssimos passos para a nossa indústria com a tecnologia que estamos desenvolvendo." afirma Bob Mason, Marketing Director for Advanced Sensors  da Selex ES, ao final de um retrospecto da história da Selex Galileo.

Bob Mason contou a ALIDE que “na época da Segunda Guerra Mundial em especial durante a “Battle of Britain”, o governo britânico decidiu transferir para longe da orla do Canal da Mancha as empresas que estavam envolvidas no desenvolvimento dos primeiros radares. Por isso a fábrica da Ferranti veio para Edinburgh, na afastada Escócia."

A Ferranti, uma das empresas pioneiras da tecnologia de radar no Reino Unido, começou suas atividades em Edinburgh com o desenvolvimento miras giroscópicas para os Spitfires em um pequeno galpão, que, curiosamente, tem aproximadamente o mesmo tamanho do edifício dos dias atuais. Os radares aerotransportados vieram depois. No auge da Guerra Fria o desenvolvimento de tecnologias para sistemas eletrônicos para aeronaves explodiu com radares como o H2S equipando clássicos da aviação como o Bombardeiro Vulcan e Victor, o AI.23 criado para o interceptador supersônico English Electric Lightning, o “Blue Parrot” para o Buckaneer e o FLR para o cancelado bombardeiro supersônico BAC TSR-2. Nas décadas de 70 e 80 a Ferranti criou os radares para caças leves Blue Fox – usados no Sea Harrier FRS.1 - e em seguida o Blue Vixen para os Sea Harrier FA.2. O grande radar AI.24 Foxhunter dos caça Tornado F2 e F3 foi, por sua vez, uma parceria da Ferranti com a GEC-Marconi. A Selex ES é hoje a empresa líder do consórcio EURORadar responsável pelo desenvolvimento cooperativo internacional do radar CAPTOR do Eurofighter. Com isso em mente, pode-se entender o peso que essa empresa possui no campo de desenvolvimento de tecnologias inovadoras na área de radares aerotransportados e na de guerra eletrônica.

Edinburgh, uma aprazível cidade universitária, foi onde conhecemos as instalações de uma empresa que tem uma história que se assemelha muito com a dos próprios ingleses, renascendo das cinzas, conquistando mercados ao redor do mundo e fazendo história. Para mais informação sobre a evolução e consolidação da indústria de radares britânica não deixe de ler nosso artigo anterior sobre a Selex.

http://www.alide.com.br/joomla/index.php/component/content/article/75-extra/1060-selex-galileo-quer-reforcar-sua-ligacao-com-o-brasil-atraves-do-programa-gripen-ng

Mas as nossas questões para eles nessa visita vão além dos aspectos históricos, além das capacidades técnicas do radar, e principalmente, muito além de 36 aeronaves, o número inicial de Gripens NG contratado pelo governo brasileiro.

Pegadas no Deserto

Mason, acompanhado de um engenheiro de projetos, que a pedido da empresa não pode ser identificado, fez-nos uma breve apresentação sobre os vários sistemas de radar que integram a gama de produtos da empresa mostrando slides com imagens feitas pelos sistemas que estão sendo testados pela RAF ou por países que possuem pedidos/contratos com a Selex Galileo.

O ápice da apresentação ocorreu quando o tal engenheiro mostrou uma comparação de imagens obtidas com um sistema de radar, que muito se assemelhava em aparência as que são geradas pelo sistema FLIR.  “O que os diferencia os sistemas óticos/térmicos é que o nosso radar é capaz de gerar imagens com altíssima resolução, se comparamos essa imagem com uma do mesmo local no dia anterior é possível ver um traço cortando a imagem e um objeto logo acima dessa linha. Com o zoom conseguimos perceber que a ‘linha’ se trata na realidade das marcas dos passos humanos nas dunas e que o ponto preto é a pessoa caminhando. Em outras palavras, os nossos sistemas atuais são capazes de detectar até mesmo pegadas no deserto," afirmou o engenheiro. Isso demonstra o quão sensível e confiável é o sistema em si e como o desenvolvimento de sensores é um aspecto delicado de toda a nova tecnologia.

Justamente devido a esta questão de se tratarem de sensores da mais alta complexidade é que ALIDE perguntou sobre a visão da empresa sobre as cláusulas de Transferência de Tecnologia e o seu envolvimento com empresas brasileiras no programa Gripen NG. Bob Mason deixou claro que a Selex possui muito interesse em crescer no Brasil e que entende o formato de parcerias estratégicas demandadas pelo governo brasileiro no campo de transferência de tecnologia. Mas, como estes equipamentos são itens únicos, a sua produção em série praticamente não existe é muito complicado falar na construção de uma fabrica no Brasil, por hora. "É claro que temos todo o interesse do mundo em ter o Brasil como um parceiro estratégico, afinal as relações bilaterais entre os nossos países sempre foram muito fortes desde a sua independência, mas precisamos ser objetivos no ponto de vista corporativo e acima de tudo, precisamos ter cuidado para que não entreguemos um produto de qualidade inferior ou que tenha algum problema. Caso o Brasil consiga junto da SAAB uma parceria regional para a exportação do Gripen NG, eu acho que com maior volume de produção essa situação poderia ser contornada com uma maior facilidade." lembra Mason.

Perguntamos a Mason sobre as questões estratégicas mais amplas. Perguntamos diretamente sobre como é a relação de uma empresa do Reino Unido com um país que defende abertamente no plano internacional que 'las Malvinas son Argentinas'. Bob não pestanejou respondendo que, “sem dúvida, a questão das ilhas Falklands/Malvinas é delicada”, mas para ele essa questão de posição em nada afeta as relações bilaterais entre o Brasil e o Reino Unido. Mas ele logo lembra em tom sério que: “sendo uma empresa britânica, antes de qualquer acordo comercial poder ser assinado, é necessário que o Parlamento britânico aprove venda do produto para cada cliente. Certamente, pelo caráter histórico da nossa relação, nenhuma venda de produto de alta tecnologia provavelmente seria aprovado para ser repassado à Argentina, Bolívia ou Venezuela. Algo diferente seria o caso do Chile, Colômbia e do Brasil. Eu, como a grande maioria dos ingleses, vejo a América do Sul como uma região dicotômica. Não como algo único, como é normalmente a visão norte-americana.”

O Raven ES-05

No intuito de apresentar o projeto ES-05 de perto, foram apresentados um protótipo e uma unidade que estava passando por manutenção. O Raven ES-05 é um radar AESA, desenhado especificamente para ser empregado no Gripen NG. A tecnologia AESA faz com que os feixes eletrônicos emitidos pelo radar sejam movidos eletronicamente de um lado para o outro, de baixo para cima. A grande inovação do Raven está na sua capacidade de proporcionar um ângulo de varredura de 100°, essa tecnologia batizada de Wide Field of Regard (WFoR) ou Grande Ângulo de Visada. Isso  permite, entre outras coisas, que a aeronave possa realizar uma curva bem fechada logo após o lançamento de um míssil sem com isso perder o contato radar com o inimigo.

A antena AESA do ES-05 é montada sobre uma plataforma estrutural angulada que gira livremente e de maneira circular ao redor do eixo longitudinal da aeronave. Este é um movimento semelhante ao do giro dos ponteiros do relógio perfazendo um arco de movimento total de 290° no lugar do movimento pendular lateral e vertical, comum na maioria dos radares desse tipo. Por este mecanismo o Raven possui uma maior vida útil e permite uma grande redução dos custos de manutenção.

O sistema integrado ao Radar é de ultima geração, podendo detectar diferentes alvos e realizar a identificação dos mesmos com uma antecedência maior, não importando quantos são, separando-os individualmente. Isso fornece ao piloto uma avaliação precisa e constante de tudo que se passa ao seu redor.

A Antena AESA do Raven esta dotada e transmissores e receptores digitais multicanais empacotados em LRUs (“Line Replaceable Units” – Módulos eletrônicos fácil e rapidamente removíveis e reinstalados no próprio pátio de estacionamento). A facilidade na realização de manutenção do sistema em si, como todas as unidades são modulares, é um dos pontos mais importantes da nova geração. Na ocorrência de qualquer problema, basta trocar um modulo do radar, certificar que as conexões estão fechadas e iniciar tudo novamente. Mason destaca que essa troca pode ser feita por qualquer pessoa, sem a necessidade de um treinamento extenso. Essa capacidade única torna o acionamento e a manutenção da aeronave muito mais ágil.

O novo modelo permite um maior grau de intercâmbio entre os diversos modos de engajamento, sejam eles ar-ar ou ar-terra, capacitando a aeronave de realizar diferentes funções numa mesma missão.

Com peso total de 215 quilos, o Raven é compacto, cabendo dentro da limitada área frontal que dispõe o Gripen NG. “Ele possui um dos menores bicos de avião de caça construído na era moderna” disse Mason. Uma grande dificuldade foi desenvolver um sistema que pudesse ser fixado em um espaço pequeno, que fosse resistente e principalmente eficiente.

Mas uma característica impressionante do ES-05 é a sua capacidade de rastreamento de alvos. Durante a visita, pudemos testemunhar o funcionamento do radar em uma sala de testes e o que chamou a nossa atenção foi que embora o aeroporto de Edimburgo estivesse a quase 180 graus da posição em que o radar estava apontando, o mesmo era capaz de detectar as aeronaves estacionadas no pátio, além de outras duas que se encontravam em aproximação.

A fábrica

O tour pela Selex foi concluído com uma visita à fábrica, onde todo o serviço de construção e de manutenção é realizado e cujas dimensões se aproximam das de um campo de futebol.

A expectativa de se ver linhas de produção gigantescas, mais uma vez, caiu por terra. E ali encontramos uns 230 funcionários divididos pelas diversas áreas, incluindo nesse número desde a chefia até a limpeza.

As áreas de construção e de manutenção são segregadas. Na área de construção poucos funcionários trabalham instalando os componentes e testando os sistemas, a montagem final ocorre ali antes que o radar seja encaminhado para a área de testes localizada no andar superior. O contraste dos equipamentos de ultima geração fica visível na manutenção. Aqui Mason contou que, para garantir a manutenção dos equipamentos vendidos anteriormente aos clientes, os equipamentos de teste usados nesse processo precisam ser compatíveis com a tecnologia usada na produção dos radares. Chega a ser ao mesmo tempo visualmente esquisito mas certamente interessante. É como uma volta no tempo, ver nos dias de hoje osciloscópios do tamanho de uma TV 40 polegadas sendo usados para a manutenção de um radar construído no inicio dos anos 60. Para agravar a cena o funcionário que os emprega não aparenta ter mais de 30 anos de idade. Contudo, o motivo é claro, é sempre melhor usar a ferramenta original, aquela mais adequada, para realizar a manutenção. Chega a parecer a comprovação literal do tradicional ditado brasileiro “panela velha é a que faz comida boa”.

“Esperamos muito poder construir uma relação profunda com o Brasil, e que ela seja a pedra fundamental de muitas outras que virão posteriormente, Posso afirmar que desejo não falta, mas certamente temos muitos desafios a transpor até que tudo isso seja concluído. Nós já tivemos a visita do Brigadeiro Saito em meados de maio desse ano e o que posso adiantar é que ele e toda a equipe da FAB estão muito satisfeitos com o radar. Basta saber e quando, quantos e como poderemos atingir as expectativas e desejos da FAB para com o sistema e isso não e uma coisa que depende só de nós, mas do governo brasileiro e principalmente das parcerias, dos incentivos que teremos daqui para frente”.

Bob Mason fechou a nossa entrevista comentando: “Queremos ajudar o Brasil a ser uma potência, mas pergunto aos brasileiros, sem qualquer arrogância, apenas como uma pergunta: será que estão preparados para lidar com as responsabilidades que advém disso? Particularmente, quero muito que o Brasil seja algo mais importante na sociedade, acredito nos brasileiros e gosto da forma de pensar e por isso estou empenhando esse esforço para que o Brasil tenha o que há de melhor em tecnologia de radares na atualidade, por isso trabalho para que o Raven seja o radar da FAB, e que ajude o Brasil a conquistar os seus objetivos".

Last Updated on Friday, 16 January 2015 12:16
 

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