Entrega caótica de comida é alvo de críticas PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Wednesday, 20 January 2010 14:18

ONU reprova estratégias dos EUA e do Brasil para distribuir comida a Haitianos e diz que papel de militares é só escolta. Aglomerações são critério para brasileiros entregarem mantimentos; já americanos vêm arremessando víveres de aviões com paraquedas

 

Uma semana depois do terremoto que deixou ao menos 2 milhões de pessoas em situação de emergência no Haiti, a Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) ainda não consegue controlar a distribuição de ajuda às vítimas, pulverizadas em iniciativas unilaterais de ONGs e de países como Brasil e EUA, ambos criticados pela coordenadora de ajuda humanitária da ONU no país, Kim Bolduc.

No caso brasileiro, a distribuição de alimentos e água está sendo feita sem nenhuma consulta ao Programa Alimentar Mundial (PAM), encarregado de planejar a logística da ajuda internacional. As doações estão sendo armazenadas na base militar do país e são redistribuídas a instituições ou em locais selecionados na região sob responsabilidade brasileira.

Anteontem à noite, a Folha acompanhou um caminhão da missão militar brasileira distribuindo alimentos na região da avenida Jean Jacques Dessalines, a principal de Porto Príncipe, quase completamente devastada e às escuras.

O critério para a distribuição era a concentração de pessoas dormindo nas ruas. "Quanto tiver muita gente, paramos", disse o militar encarregado.

As condições de entrega mudavam a cada parada. Na primeira, onde havia pouca gente, a fila foi ordenada, e a distribuição, tranquila. Já na terceira parada, onde havia várias dezenas de pessoas, houve empurra-empurra, e os militares tiveram trabalho para controlar quem tentava furar fila.

"É a primeira vez que recebemos comida desde o terremoto", disse Evodie Vanciné, 57, que teve forças para carregar a caixa por 15 metros até uma tenda sobre o asfalto com quatro crianças, a sua área delimitada por tijolos no chão. Questionada sobre o que vinha comendo desde o terremoto, só dizia "nada".

Um dos principais problemas foi o peso da caixa, que traz sardinha em lata, açúcar e leite em pó, entre outros produtos. Muitas vezes, as mulheres -algumas com filhos no colo- não tinham força para carregar e dependiam da disponibilidade de um soldado.

A organização se dividiu entre filas para "madame" e "monsieur". "Manger, manger (comer)", gritavam os soldados, para convocar à fila, formada em poucos minutos diante do caminhão.

Os militares demonstravam preocupação para evitar que a distribuição aglomerasse muita gente. Por isso, cada parada do comboio não durava mais de cinco minutos, deixando vários na fila sem nada.
Questionado se a distribuição parcial não geraria disputas e violência, um militar respondeu: "Esse é o problema".

Já a distribuição americana, em escala bem maior, vem sendo feita principalmente por via aérea. Aviões têm lançado kits de alimentos e comida com paraquedas, enquanto helicópteros jogam comida em voos rasantes sobre campos abertos. Embaixo, mostram as imagens divulgadas pela BBC, quem corre mais e tem mais força -geralmente homens- leva vantagem.

Ontem, dezenas de militares americanos chegaram de helicóptero ao semidestruído Palácio Nacional, no centro de Porto Príncipe, aparentemente para montar uma base ali.

Já há 5.000 militares americanos no Haiti -número que deve subir até atingir 13 mil- enquanto os capacetes azuis somam 7.200. Pelo memorando assinado com a Minustah, os americanos participarão apenas de assistência humanitária, enquanto a ONU continuará a cargo da segurança.

"Presente"

Essas iniciativas individuais têm sido criticadas pela coordenadora humanitária da ONU para o Haiti, a canadense Kim Bolduc, que pediu formalmente a todos os doadores que informem sobre seus locais de distribuição e exigiu que os EUA deixem de fazer distribuição aérea para evitar tumulto e violência. "Nós exigimos dos EUA que não continuem essa prática devido à possibilidade de perder o controle da multidão e de criar problemas de segurança", disse Bolduc, em entrevista à Folha ontem.

Segundo ela, há quatro dias já houve um incidente em Cité Soleil, a maior favela do país, quando funcionários da ONU testemunharam uma briga generalizada por causa de alimentos jogados do ar.
Bolduc também disse que não é função da missão militar brasileira distribuir comida dentro do organograma da Minustah, e sim do PAM.

"Os militares brasileiros ou americanos têm de fazer a escolta, proteger. Se eles estão dando algo às pessoas, isso não é distribuição de comida, isso é presentear", afirmou.

"Se a China doar mil toneladas de arroz, que doe ao PAM", exemplificou. "Estamos há décadas fazendo esse trabalho em todo o mundo, o Haiti não é o primeiro lugar. Por que querer inventar algo novo?"

 Fonte: Folha de S. Paulo - FABIANO MAISONNAVE

 

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