Tropas em prontidão Print
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Thursday, 21 January 2010 13:28

Efetivo de 1,3 mil militares será mobilizado para ajudar na reconstrução do país devastado pelo terremoto. Corpos de vítimas chegam a Brasília

 

O governo brasileiro quer disponibilizar um efetivo extra de 1,3 mil militares para o Haiti — 900 para envio imediato e 400 para a reserva. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, decidiu se antecipar ao pedido da Organização das Nações Unidas (ONU) e ontem mesmo negociou com o presidente do Congresso, senador José Sarney (PMDB-AP), um decreto legislativo autorizando a ida das tropas da missão de paz.

Ontem, os corpos de 17 soldados e oficiais que morreram em Porto Príncipe em consequência do terremoto chegaram a Brasília, por volta das 20h. O Comando do Exército também confirmou a morte do major Márcio Guimarães Martins, subindo para 18 o número de militares brasileiros vítimas da tragédia. Hoje, haverá uma cerimônia de homenagem póstuma na Base Aérea de Brasília, marcada para as 16h. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é esperado no evento.

Na terça-feira, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, autorizou a ida de mais 3,5 mil homens para a Missão da ONU para a Estabilização do Haiti (Minustah), que hoje conta com a participação de mais de 9 mil pessoas, entre militares e civis. Para adiantar os trâmites burocráticos, que devem durar pelo menos 15 dias, Jobim ligou para Sarney na manhã de ontem e negociou um projeto para o envio de novas tropas brasileiras, que se juntarão aos 1.266 militares que já se encontram em Porto Príncipe. Segundo a assessoria do Senado, Sarney convocou uma reunião da Comissão Representativa do Congresso para a próxima segunda-feira, quando conversará com todos os líderes de partidos para tratar do decreto legislativo.

Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou, em conversa com o secretário-geral da ONU, ontem, que o Brasil está disposto a enviar mais recursos ao Haiti, além dos US$ 15 milhões já disponibilizados pelo governo brasileiro. “O presidente Lula reiterou a disposição de continuar colaborando, independentemente dos milhões de dólares já oferecidos”, afirmou o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim. Ele ressaltou que, até o momento, a ajuda ao Haiti se limita às questões emergenciais, como necessidade de alimentos, água e atendimento médico.

Segundo Amorim, Lula reforçou também a importância da organização de um grupo civil para arrecadar doações. No próximo dia 25, haverá uma reunião de ministros de diversos países em Montreal, no Canadá, para garantir mais recursos para os haitianos. “Não está claro ainda para mim se os países vão fazer ofertas nesse dia ou se vão preparar outra reunião. É possível que haja uma indicação preliminar e, depois, presidentes e ministros se reunam”, disse Amorim, que também participará do encontro.

Homenagem

Os corpos de 17 dos 18 militares brasileiros vítimas do terremoto chegaram a Brasília na noite de ontem em um avião Hércules C-130, da Força Aérea Brasileira (FAB), que partiu de Porto Príncipe, na noite de terça-feira, e fez escala em Manaus. Segundo o Comando do Exército, havia a necessidade de complementar os trabalhos de medicina legal, no tocante à conservação dos corpos, em razão das sérias dificuldades de infraestrutura encontradas no Haiti. Hoje, após a homenagem aos mortos, os corpos seguirão para seus estados de origem.

Além dos 18 militares brasileiros, três civis morreram. Entre eles, estava a médica Zilda Arns e o segundo homem da ONU no Haiti, Luiz Carlos Costa. O velório de Costa será realizado hoje, no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro. Uma brasileira com dupla nacionalidade também foi vítima do terremoto. Segundo o Itamaraty, a família não divulgou seu nome e o enterro seria feito na Europa, para onde o corpo foi levado. O tenente da Polícia Militar do Distrito Federal Claiton Batista Neiva, que estava no país a serviço das Nações Unidas, continua desaparecido.


1 - Violência

O Ministério da Defesa negou ontem que haja uma onda de violência no Haiti em decorrência da devastação provocada pelo terremoto que atingiu o país na semana passada. Segundo o ministério, a situação da segurança no país está “próxima ao que era antes” do tremor, especialmente na capital Porto Príncipe.


RELAÇÃO COM OS EUA NÃO ESTÁ ARRANHADA

O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, garantiu ontem que a relação entre Estados Unidos e Brasil na coordenação de ajuda humanitária ao Haiti não está arranhada. “O assessor de segurança nacional do presidente Barack Obama (general Jaimes Jones) me disse: ‘Nós queremos obedecer rigorosamente às determinações da ONU e do comando, que é um comando brasileiro.” Com a declaração, Marco Aurélio Garcia contemporiza a insatisfação do ministro da Defesa, Nelson Jobim, que no início desta semana havia reclamado do comando “unilateral” dos norte-americanos sobre o tráfego aéreo no país caribenho. Garcia destacou ainda que o problema do Haiti é “fundamentalmente” de natureza social, e não apenas de segurança e estabilidade política. “A comunidade internacional não tem mais desculpas para dizer que o Haiti não é um problema dela. É sim”, disse.

“Ficaremos o tempo necessário”

A estabilização do Haiti — país mais pobre da América Latina — já era uma tarefa titânica antes mesmo do terremoto que assolou a capital Porto Príncipe em 12 de janeiro. Após a catástrofe, a missão de reconstruir o país se tornou ainda mais difícil. Entretanto, os brasileiros que estão no comando militar da missão da ONU na nação caribenha asseguram sua intenção de se manterem firmes em seu propósito. “Vamos ficar aqui o tempo que for necessário, porque agora temos mais motivos para estar neste lugar”, afirmou o comandante do batalhão brasileiro da Missão da ONU para a Estabilização do Haiti (Minustah), coronel João Batista Bernardes.

A base Brabatt, próxima ao aeroporto de Porto Príncipe, é o centro nevrálgico das atividades da tropa brasileira, que perdeu 18 homens no terremoto da semana passada. Nessa base também estão as tropas do Nepal, Chile e Equador, e todos convivem amigavelmente, embora o número de brasileiros seja maior. É dessa base que partem as patrulhas brasileiras com os capacetes azuis da ONU e os grupos de Engenharia do Exército para limpar as ruas dos escombros e remover os feridos e os corpos.

Na última semana, uma parte do complexo militar foi destinada a receber e redistribuir os carregamentos de ajuda humanitária. “Nossos soldados entram em contato com os líderes comunitários de um determinado bairro, e eles selecionam entre 60 e 80 mulheres que vão receber a ajuda humanitária. Quem recebe a ajuda são sempre as mulheres”, informou um funcionário que trabalha na base.

Em meio ao desespero dos habitantes, nas portas da base formam-se filas de centenas de haitianos em busca de uma oportunidade de trabalho, mesmo que por apenas um dia. Muitos já trabalharam na base e agora esperam poder limpar os jardins ou as barracas em troca de água e alimentos.

 

 Fonte: Correio Braziliense - Edson Luiz