Em nome da reconstrução PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Saturday, 23 January 2010 00:00

Envio de mais 1,3 mil militares brasileiros para a missão de paz no Haiti começa a ser definido na segunda-feira. Primeiros a desembarcarem na capital do país, Porto Príncipe, serão oficiais da área de engenharia do Exército

 

O Comando do Exército começa, na segunda-feira, a discutir com outros países a formação das novas tropas da Força de Paz para atuar no Haiti. A decisão de enviar mais 1,3 mil homens foi decidida pelo governo brasileiro na quinta-feira, depois que a Organização das Nações Unidas (ONU) autorizou o aumento do contingente, que terá como principal obrigação a reconstrução do Haiti. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, negociou diretamente com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), a edição de um decreto legislativo para efetivar o envio dos militares. No mesmo dia, os Estados Unidos anunciaram um aumento de 3,5 mil homens em Porto Príncipe.

Os primeiros homens do novo contingente deverão ser da área de engenharia do Exército, pela necessidade imediata de reconstrução do país, arrasado pelo terremoto de 12 de janeiro. O comandante da força, general Enzo Martins Peri, afirmou na semana passada que o volume de obras que serão necessárias em Porto Príncipe, após a catástrofe, é muito superior ao que as tropas brasileiras poderão ajudar. Além disso, o país caribenho precisa de ajuda imediata na área de saúde. Os dois setores, no entanto, já estão dominados pelos soldados americanos que desembarcaram na capital haitiana durante a semana.

O treinamento dos brasileiros é feito no Centro de Instrução de Operações de Paz (CIOPaz), no Rio de Janeiro. Os primeiros a serem treinados são os oficiais e integrantes do Estado Maior do Exército que ficam à frente dos contingentes. Em seguida, recebem a qualificação capitães e tenentes. O curso dura entre três e quatro semanas. Os subtenentes, sargentos, cabos e soldados recebem o treinamento em seus próprios quartéis, repassados pelos superiores que frequentaram o CIOPaz. Cada equipe que segue para o exterior é composta por cerca de 900 militares. Os grupos atuam em um esquema de revezamento — a cada semestre, é enviado um novo contingente.

Experiência

Além dos comandantes de batalhões, o centro forma oficiais para atuar como observadores militares, além de generais e altos funcionários da ONU que atuarão em missões de paz pelo mundo. Até agora, formou pelo menos sete dos 11 contingentes que o Brasil enviou para o Haiti, desde 2004, e também policiais das Nações Unidas (Unpol) — a maioria deles, das PMs estaduais —, não só brasileiros, mas de outros países. No ano passado, militares do CIOPaz foram para a Guatemala, onde as tropas do país já atuaram para formar grupos de ação em regiões de conflito. A maioria dos instrutores do centro esteve nas primeiras guarnições enviadas a Porto Príncipe.

O Brasil tem hoje 1.266 militares atuando na Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (Minustah), que reúne forças de 17 países, num total de 6,7 mil homens. São os brasileiros os que possuem o melhor treinamento na América Latina, inclusive exportando seus instrutores para outras nações, como Alemanha e Canadá. A atuação no Haiti, que seria encerrada provavelmente no fim de 2010, deverá se estender por mais cinco anos, afirmou Jobim(1), nesta semana.


1 - Farda liberada
A polêmica sobre o uso de uniforme militar pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, que esteve no Haiti, dois dias depois do terremoto, com uma farda de camuflagem, deveria ter terminado em 2007. Há quase três anos, a Procuradoria-Geral da República afirmou que, por ser chefe das Forças Armadas, Jobim poderia usar o uniforme. Na época, o chefe do MPF, Antônio Fernando de Souza, julgou uma representação de um coronel da reserva do Exército, que protestou contra o uso da farda camuflada pelo ministro em uma visita à Amazônia. O uso do uniforme foi uma forma sugerida pelo comandante da força, Enzo Peri, para aproximar o ministro das tropas.

Família de PM em luto

A família do 1º tenente da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) Cleiton Batista Neiva recebeu, na quinta-feira, ainda de forma extraoficial, a confirmação da morte do policial. Até o fechamento desta edição, nem a Organização das Nações Unidas nem a PMDF haviam enviado uma posição oficial aos familiares — que, ontem, mandaram até rezar uma missa em memória do oficial. Coube ao tenente Sérgio Carreira, amigo de Cleiton e que mantém permanente contato com os colegas no Haiti, informar a família que os técnicos da ONU teriam terminado o exame da radiografia da arcada dentária de Cleiton e concluído que o corpo encontrado na terça-feira nos escombros do Hotel Christophe era mesmo o do brasiliense. Segundo o tenente Carreira, apenas trâmites burocráticos impedem a confirmação da ONU.

Cleiton Neiva tinha 33 anos e desde 2004 atuava no Haiti, na polícia internacional, cedido pela PMDF. Tornou-se membro do contingente da ONU e acompanhava o número dois das Nações Unidas no país, o brasileiro Luiz Carlos Costa — que também morreu no terremoto de 12 de janeiro. Relatos de Porto Princípe dão conta de que os dois estavam na mesma área do hotel no momento do tremor. O corpo do diplomata foi identificado no sábado.

O brasiliense era tido como desaparecido até a quinta-feira. Apesar de os militares terem resgatado um corpo na terça-feira, não puderam reconhecê-lo, por falta de documentação. Cleiton possuía uma marca de nascença no região do baço. Nem isso foi suficiente para que pudesse ser oficialmente registrado como vítima do desastre. Foi quando os militares pediram para que a família, que mora em Ceilândia, enviasse uma radiografia da arcada dentária.

O tenente Carreira mantinha acesa a esperança de que Cleiton fosse encontrado com vida. Em seu blog pessoal (missaodepaz.wordpress.com), postava informações que apurava via internet com amigos que participam da missão de paz no Haiti. Na noite de quinta-feira, confirmou a morte com a publicação de um texto intitulado Adeus ao herói policial militar brasileiro. Coube a ele a obrigação de ligar para a família do amigo.

Desolado, Admilson Neiva, pai de Cleiton, chorou copiosamente durante os 30 minutos em que conversou com o Correio, na tarde de ontem, em Águas Lindas (GO). “Tanta coisa está acontecendo que parece que estou dormindo. Acho que só vou acordar quando vir o corpo de Cleiton”, emocionou-se. Na última vez que conversaram por telefone, no dia do aniversário de Admilson, o policial prometera que visitaria a família no fim de janeiro, com o filho, Yannick, 1 ano. Havia três anos que Cleiton era casado com a austríaca Irene Hoeglinger, jornalista da ONU. Ela e a criança estavam em Porto Príncipe na hora do terremoto, mas não sofreram ferimentos. Não há confirmação de quando o corpo de Cleiton deve chegar no Brasil.


Emoção em Minas

São João Del-Rei (MG) — Foi sepultado ontem, às 17h20, em São João del-Rei, no Campo das Vertentes, o corpo do primeiro-sargento Leonardo de Castro Carvalho, de 29 anos, um dos 18 integrantes do Exército Brasileiro mortos há 11 dias no terremoto em Porto Príncipe, capital do Haiti. Depois do velório no salão nobre da prefeitura, no Centro Histórico, o caixão seguiu para a Igreja de São Gonçalo Garcia, onde houve missa de corpo presente. O corpo foi enterrado no cemitério que fica nos fundos do templo católico, sob salva de tiros e toque de silêncio. O caixão foi carregado por oito cabos e soldados do 13º Batalhão de Infantaria de Montanha – Regimento Tiradentes, de São João del-Rei, que viajam no início de fevereiro para o Haiti. Todos usavam o capacete azul da Organização das Nações Unidas (ONU).

Herói

Centenas de pessoas, entre familiares, amigos, militares e moradores prestaram homenagem ao primeiro-sargento desde o início da madrugada, quando o corpo chegou à cidade. As paredes do salão nobre da prefeitura estavam cobertas por muitas mensagens e fotos coloridas com imagens de Leonardo.

Recebendo o apoio dos amigos e muito consternada, a mãe do militar, Leandra de Castro Carvalho, 53 anos, disse que o filho merece o tratamento de herói por tudo o que fez em 10 anos de carreira militar, entre os quais o período de seis meses no Haiti. “O meu filho chegaria no dia 16 e estávamos preparando uma grande festa para recebê-lo”, lamentou-se.

Fonte: Correio Braziliense - Edson Luiz

 

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