A festa durou pouco, mas a ressaca.... PDF Print E-mail
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Monday, 24 May 2010 13:22

 

As consequências para o Brasil e para o presidente Lula do revés causado pelo acordo firmado com o iraniano Ahmadinejad

 

Nos últimos meses, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sustentado a imagem de grande amigo do Irã e de seu líder, Mahmoud Ahmadinejad. Com tal posição, Lula se colocou ao lado de um personagem pouco respeitado na comunidade internacional. Quando fala em encontros internacionais, como a Assembleia-Geral da ONU, Ahmadinejad espanta ouvintes da sala. É um extremista religioso que reúne, entre seus amigos mais próximos, apenas políticos simpáticos às ditaduras: o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o ditador cubano Raúl Castro e o líder norte-coreano, Kim Jong-il. É um antissemita que não reconhece a legitimidade do Estado de Israel e, em vários discursos, questionou fatos históricos a respeito do extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Sobre os ombros de Ahmadinejad pesa também a sangrenta repressão aos protestos contra sua reeleição, em 2009, que terminaram em dezenas de mortos e centenas de presos políticos. Na ocasião, enquanto a comunidade internacional condenava o desrespeito aos direitos humanos, o presidente Lula classificou a disputa no Irã como “choro de perdedor”. Mais tarde, o próprio governo iraniano reconheceu que houve fraude. O Irã mantém dezenas de jornalistas em cativeiro e, desde os protestos do ano passado, sites como o da rede de notícias inglesa BBC são bloqueados no país.

Em sua visita a Teerã na semana passada, o presidente Lula foi tratado como seu maior aliado por Ahmadinejad. Isolada desde que a teocracia islâmica foi implantada no país, em 1979, Teerã se mobilizou para recebê-lo. Ele recebeu tratamento VIP. Na entrada do luxuoso hotel Steghlal, onde a diplomacia brasileira e as delegações dos países do G15 (que reúne nações em desenvolvimento) estavam hospedadas, havia uma grande faixa em que Lula e Ahmadinejad apareciam lado a lado, com as mãos levantadas e os rostos felizes. Lula diz acreditar nas intenções pacíficas do programa nuclear iraniano e afirma que o acordo que costurou em Teerã entre Brasil, Irã e Turquia ajudará a manter o mundo livre de guerras nucleares. Mais que isso, Lula diz acreditar que se trata de um exemplo de como o Brasil pode ser uma ponte entre os países do Ocidente e os países daquilo que, em outros tempos, costumava ser chamado de mundo em desenvolvimento. “Fomos ao Irã e conseguimos fazer o que o Conselho de Segurança queria que fosse feito há seis meses”, disse Lula. “É muito engraçado que algumas pessoas não gostaram que o Irã aceitasse a proposta, porque tem gente que não sabe fazer política se não tiver o inimigo, e sou daqueles que só sabem fazer política construindo amigos.” A questão central é: dá para confiar em um “amigo” como Ahmadinejad?

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão das Nações Unidas encarregado de coibir a expansão de armamentos nucleares, acusa o Irã de desrespeitar o Tratado de Não Proliferação (TNP), principal acordo internacional que regula a questão. O país mantém um programa para construir reatores nucleares e desenvolver tecnologia capaz de enriquecer urânio a 20%, o ponto de partida para chegar à produção de ogivas. Desde o ano passado, o Brasil sustenta a arriscada posição de defender o Irã no Conselho de Segurança da ONU, onde ocupa uma das dez cadeiras rotativas. Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e Alemanha consideraram o acordo costurado pelo Brasil insuficiente para garantir que o Irã não produzirá armas nucleares.

No dia seguinte à divulgação do acordo, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, anunciou que os cinco países, membros do Conselho de Segurança da ONU, concordavam em apertar as sanções sobre o Irã. A França afirmou que 12 dos 15 países do Conselho estavam convencidos de que era necessário adotar sanções para brecar as ambições atômicas do Irã. Em retaliação, o governo iraniano afirmou que, se for punido, deixará de cumprir os termos do acordo assinado com Brasil e Turquia. Em três dias, o acordo no qual a diplomacia brasileira e o presidente Lula empenharam seu prestígio internacional durante meses estava relegado a segundo plano. “Quando anunciado, o acordo parecia uma clara vitória do Brasil e da Turquia”, afirma Peter Hakim, presidente do Inter-American Dialogue, um centro de estudos de relações internacionais. “Mas não foi um sucesso diplomático do Brasil. Ele não evitou que o presidente Ahmadinejad declarasse que não pararia de enriquecer urânio.”

Qual afinal teria sido a intenção de Lula ao envolver o Brasil numa questão tão complexa, com um personagem tão nefasto e que ainda por cima nos afasta de nossos tradicionais aliados, como Estados Unidos, Europa e Japão? O acordo firmado pelo Brasil era tão frágil que começou a ruir poucas horas depois de assinado. Ainda na tarde da segunda-feira, logo depois da partida do presidente Lula de Teerã, o governo iraniano afirmou que não interromperia seu programa de enriquecer urânio a 20%. Era o primeiro sinal de que o Irã não se comportava como aquele parceiro confiável que fez Lula falar em “vitória da diplomacia”. Parecia mais aquele Irã que os americanos diziam que não cumpre acordos e só queria “usar” o Brasil para ganhar tempo e continuar a produzir mais urânio enriquecido para a bomba. “O governo brasileiro foi um pouco inocente sobre as intenções do Irã”, afirma Stewart Patrick, diretor do Council on Foreign Relations, uma instituição de estudos de relações internacionais.

Trata-se de uma visão caridosa a respeito de nossa diplomacia. É difícil acreditar na ingenuidade de um político experiente como Lula ou de um chanceler tarimbado como Celso Amorim. O mais provável é que ambos soubessem que tipo de risco estavam correndo. Embora sempre tenham afirmado o contrário, eles já deveriam imaginar que o acordo tinha poucas chances de ser eficaz e, provavelmente, acreditavam que ele apenas apontaria um caminho viável para futuras negociações com o Irã. Era uma aposta. Se tivesse dado certo, poderia trazer frutos para o Brasil em sua tentativa de se firmar como dono de um novo protagonismo na cena global. “O crescimento da influência do Brasil é inevitável”, afirma Patrick. “Estados Unidos e outras potências estabelecidas terão de abrir espaço para o Brasil.” O próprio embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, afirmou recentemente que a diplomacia americana terá de lidar com um fato: o Brasil estará mais presente em questões internacionais e terá de ser ouvido.
Dúvidas geradas pelo acordo com o Irã afetarão
as pretensões externas de Lula e do Brasil

Se, no futuro próximo, o Brasil mantiver posições que o afastem progressivamente dos Estados Unidos – e o Irã é apenas o exemplo mais eloquente –, isso poderá ter um custo alto para nós. “O Brasil é um novo jogador e, muitas vezes, suas ambições excedem suas capacidades”, diz Patrick. “O Irã é um parceiro pouco confiável e pouco estável. O Brasil deu a eles o benefício da dúvida”, diz Matias Spektor, coordenador de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Isso representa uma aposta, e toda aposta, quando dá errado, traz custos.” Para o escritor e analista americano Andrés Oppenheimer, o circo armado por Lula em Teerã é um “caso típico de megalomania”. “Lula está tentando resolver sozinho os maiores problemas do mundo – como o programa nuclear iraniano ou, semanas antes, o conflito israelense-palestino – ao mesmo tempo que praticamente não move uma palha para tentar mediar disputas que estão muito mais perto de casa, na própria América Latina”, afirmou Oppenheimer em artigo publicado na semana passada. “O Brasil não pode ser um anão diplomático em sua própria região e tentar ser um gigante longe de casa.”

Outro risco no apoio ao Irã é a desconfiança criada em torno da real posição brasileira em assuntos nucleares. O Brasil é, ao lado de Estados Unidos e Rússia, um dos poucos países que têm reservas de urânio e dominam a técnica de enriquecer o metal para produzir armas nucleares. Setores das Forças Armadas e do Itamaraty, como o ministro de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, dizem que o TNP – de que o Brasil é signatário – é um tratado injusto por privilegiar as potências que já têm armas nucleares. Alguns afirmam que o Brasil também deveria ter o direito de produzir ogivas nucleares, algo vetado pelo TNP. Em 2004, numa inspeção de rotina, o país viveu uma pequena crise com a AIEA, por não dar acesso total aos técnicos às instalações de pesquisas nucleares em Resende, Rio de Janeiro. Cada país que obtém a bomba torna mais fracos esses controles estabelecidos pelo TNP – e mais forte a posição daqueles que defendem a bomba brasileira. “Se o Irã consegue ter acesso à bomba atômica, todo o sistema que regula a proliferação de armas nucleares pode sofrer um colapso semelhante ao que atingiu o sistema financeiro mundial em 2008”, diz Spektor.

Todas essas dúvidas terão efeito sobre as pretensões internacionais de Lula e do Brasil. Na semana passada, o presidente Lula repetiu que a ONU tem de ser reformada, porque ainda representa o “mundo de 1945”. Mas é improvável que alguém tão próximo de um pária internacional como Ahmadinejad obtenha apoio para se tornar secretário-geral das Nações Unidas, ambição que alguns atribuem a Lula. Outra reivindicação de longo prazo do Brasil, uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, também se afasta a cada passo que o Brasil dá para se distanciar dos Estados Unidos. “Uma óbvia consequência diplomática é o efeito na confiança dos Estados Unidos em como o Brasil vai se comportar e se conduzir como poder global”, diz Patrick. “Há dúvidas sobre se o Brasil, como membro permanente do Conselho, seria um aliado com quem daria para contar. Há realmente ceticismo sobre isso.”

Perdido o jogo diplomático, o Brasil terá ainda de decidir como se portar na hora da votação sobre as sanções. As sanções propostas pelos Estados Unidos preveem medidas para rastrear e bloquear recursos iranianos usados na compra de equipamentos nucleares e restringem a compra de armas pesadas, como veículos blindados, aviões, helicópteros de ataque e mísseis. Qualquer país será proibido de vender ao Irã equipamentos para mísseis balísticos capazes de carregar armas nucleares. Na visita ao Irã, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi consultado pelos iranianos sobre a possibilidade de o Brasil vender armamento e aviões regionais. Jobim pediu uma lista, para ver o que poderia ser vendido, mas sem muitas esperanças. “Mas existem muitas restrições”, disse Jobim.

Sanções, no entanto, podem não representar uma solução eficaz para bloquear o programa nuclear iraniano. É importante lembrar que o Irã já sofre sanções desde 1979, quando a revolução islâmica varreu do poder o xá Reza Pahlavi e instaurou o regime teocrático dos aiatolás. Por causa delas, o país vive uma realidade esquisita. Apesar de ser o quarto maior exportador de petróleo do mundo, importa gasolina porque não consegue comprar equipamentos para refinarias. “Não há dúvidas de que as sanções não são instrumentos perfeitos, mas seria exagero dizer que nunca funcionam”, diz Patrick.

Na lógica da política internacional, um país não deve ser cordato. É preciso discordar, marcar posição, empurrar. Mas é preciso saber as posições a defender. E medir as apostas. Tudo leva a crer que, com a aprovação das sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU, a aposta de Lula terá dado errado.

A sete meses do fim do mandato, é natural que Lula se preocupe mais com a imagem que deixará para a história do que com a herança que legará a seu sucessor na política externa. “O Brasil é uma potência em ascensão no cenário global, com uma reivindicação legítima por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e é um Estado com uma longa história de simpatia e identificação com a posição do Irã em questões nucleares”, afirma Trita Parsi, presidente do Conselho Nacional Iraniano-Americano, especialista nas relações entre Irã e Estados Unidos. “O Irã encontrou no Brasil um aliado improvável, mas muito necessário.” Independentemente da natureza do programa nuclear iraniano, essa aproximação renderá frutos a Ahmadinejad. E, se ele estiver mesmo fazendo a bomba, terá ganhado tempo. Em qualquer cenário, ele é o maior vitorioso.

 Fonte: Revista Época- Leandro Loyola, de Teerã, e Guilherme Evelin

 

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