Nem todos comemoraram PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Tuesday, 03 May 2011 09:20
  
 
 

Raiva no Líbano contrasta com comemoração no Iraque pela morte de Osama     
   
Há uma década, o nome Osama bin Laden era constantemente ouvido nas capitais do mundo árabe: ele era líder, sheike até herói para muitas pessoas. Mas, depois de sua morte, o homem que prometeu a liberdade ao mundo árabe foi reduzido a uma simples nota de rodapé no livro das revoluções que estão acontecendo em alguns países da região que ele “defendia”.   

 
Ontem, as reações à morte de Osama no Oriente Médio foram as mais diversas: desde raiva nos  locais mais conservadores do Líbano ao regozijo entre os muçulmanos xiitas do Iraque, vítimas da carnificina ocorrida em nome da Al-Qaeda.

    
Mas a reação mais notável deu-se em países como Tunísia e Egito, onde seu nome é o eco do passado, dividido entre Ocidente e Oriente, entre onipotência americana e impotência árabe. Nos últimos     
meses, parecia que as únicas pessoas a citarem o nome de Osama eram os porta-vozes dos poderosos,  como Moammar Kadafi e Hosni Mubarak, que evocavam as ameaças da Al-Qaeda para justificar o     
apego ao poder em um mundo árabe que hoje pouco se parece com o cenário que ele ajudou a criar.     
Para um homem que teve grande responsabilidade em duas guerras e na intensificação da intervenção norte-americana norte da África, Iêmen e Iraque, sua morte serviu, mais do que qualquer coisa, como epitáfio de uma era. Para muitos, em um mundo árabe onde três quintos da população têm menos de 30 anos, o ataque às Torres Gêmeas de 11 de setembro de 2001 é apenas uma lembrança da     
infância.     
– Bin Laden era o fenômeno de uma crise de tempos passados – diz Radwan Sayyid, professor     
de Estudos Islâmicos da Universidade Libanesa de Beirute.     


Para ele, o mundo árabe tem, hoje, outras questões para debater.     
– O problema não é destruir, mas construir algo novo: um novo estado, uma nova autoridade, uma nova sociedade civil.  

   
Chamados de vingança e ódio já começaram     


A perseguição do governo norte-americano desperta, há muito tempo, suspeitas entre os árabes, que continuam céticos em relação aos motivos e alvos norte-americanos, já que Washington já apoiou     
ditaduras em países árabes e fez alianças sem restrições com Israel.  

   
Depois da notícia do assassinato, houve muitos chamados de vingança e ódio, muitos deles feitos publicamente pelo primeiro-ministro palestino e chefe do Hamas, Ismail Haniyeh. Ele chamou     
Osama de guerreiro árabe e muçulmano. Outros sugeriram que a batalha simbolizada por Bin Laden     
entre Estados Unidos e militantes islâmicos continuará, e, de fato, sua organização sempre foi     
suficientemente disseminada para sobreviver à sua morte.     


– O senhor Obama falou que a justiça havia sido feita. Vamos ver de que forma. Desaprovamos     
as reações e celebrações norte-americanas. Qual é a grande vitória, a grande conquista? Bin Laden não  é o fim do movimento – desafiou Bilal al-Baroudi, pregador muçulmano conservador de Trípoli.   

 
Mas as opiniões foram distintas. Marwan Shehadeh, ativista islâmico e pesquisador da Jordânia,     
argumentou que os árabes veriam a morte de Bin Laden através das lentes da grande antipatia pelas     
Forças armadas norte-americanas.     


– Ele era uma figurar popular e carismática para muitas pessoas, mesmo entre os mais moderados.   

 
É considerado modelo da luta contra a hegemonia americana. Concordando ou não com suas ideologias, ele é visto como um batalhador revolucionário – diz Shehadeh.   

 
Ao mesmo tempo, ele acredita que, dentro do mundo muçulmano, a morte de Bin Laden irá simbolizar uma revolução diferente: o afastamento da violência e a aproximação a outras formas de     
engajamento político.   

 
– Este fato vai ser uma virada na história do movimento islâmico. É um momento em que os     
extremistas estão recuando, dando mais espaço a correntes moderadas que têm uma visão mais     
compreensiva – diz.     


Embora ainda experimentais, as revoluções árabes, particularmente as do Egito e da Tunísia,     
introduziram uma nova fórmula política, na qual as correntes islâmicas talvez tenham uma fatia do bolo.     
Enquanto um grande ódio permanece sobre as Forças armadas norte-americanas e sobre o tratamento     de Israel aos palestinos, a atenção constantemente é virada para eles, enquanto ativistas debatem que     
tipo de estado deve emergir. Alguns temem que a morte de Osama tire o foco do desafio.   

 
– Há semanas estamos todos discutindo as revoluções nos países árabes, sonhando com nosso     
novo futuro. Agora temo a reação dos grupos próximos a Bin Laden, que podem trazer de volta a ideia de que árabes são terroristas e simplesmente odeiam a América – disse Lotfy.     

Fonte:Jornal do Brasil -  Anthony Shadid -The New York Times  

 

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