Um momento crítico para o Oriente Médio PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Tuesday, 03 May 2011 11:01
 
    

A morte de Bin Laden ocorre no período em que o mundo árabe está virando as costas para a     
ideologia da Al-Qaeda     
    
Nos primeiros dias da primavera árabe, o presidente Barack Obama disse com frequência a seus  assessores que o movimento que se alastrou do Cairo ao Iêmen -um lugar onde a Al-Qaeda encontrou suas raízes intelectuais, o outro onde encontrou refúgio -criavam o que chamou de uma "narrativa     
alternativa" para uma geração descontente.   

 
Não houve imagens de Osama bin Laden sendo desfiladas pelas ruas, ele notou. Nem houve     
gritos de "Morte à América". A questão agora é se a morte de Bin Laden pelas mãos das forças especiais  americanas e da Agência Central de Inteligência (CIA) incentivará o movimento a promover a democracia na região ou -uma alternativa muito real -alimentará as forças islâmicas que agora tentam preencher o novo vácuo de poder no mundo árabe.

    
A Casa Branca, sem surpresa, argumentou no domingo à noite que a morte de Bin Laden ocorria     
no momento crucial em que o mundo árabe está virando as costas para a ideologia da Al-Qaeda.     
"É importante notar que é muito adequado que a morte de Bin Laden ocorra no momento em que     
um grande movimento para a liberdade e a democracia está se alastrando pelo mundo árabe", disse um   dos consultores de segurança nacional de Obama a repórteres numa conferência telefônica no domingo   à noite, após o ataque espetacular ao complexo habitacional protegido por altos muros onde estava Bin    Laden.  

   
"Ele estava em oposição direta àquilo pelo que os maiores homens e mulheres do Oriente Médio     
e do Norte da África estão arriscando suas vidas: direitos individuais e dignidade humana."     
Se a Casa Branca de Obama se mostrar correta em sua interpretação dos fatos, a morte do líder     
da Al-Qaeda representará bem mais que a simples eliminação do mentor dos ataques de 11 de setembro  de 2001. Reforçará o argumento de que a via da Al-Qaeda para mudanças no Oriente Médio -pela     
violência -jamais desbancou um único ditador e jamais acarretou uma verdadeira mudança. Por essa     
razão, o apelo da Al-Qaeda já estava enfraquecendo antes de Bin Laden encontrar o seu fim.   

 
Isso também poderá marcar o começo de uma nova era em que a guerra global ao terror, como o     
governo de George W. Bush a definiu, já não é a razão de ser da política externa americana como tem     sido desde a tarde de 11 de setembro de 2001. Durante anos, as relações dos Estados Unidos com o     
mundo foram medidas quase inteiramente pelo julgamento de Washington sobre se os países estavam     ajudando ou impedindo essa guerra.   

 
Estratégia. Como candidato, Barack Obama prometeu mudar isso sem deixar de perseguir,     
incansavelmente, uma estratégia de contraterrorismo -e a caçada de Bin Laden. Até agora, porém, as     
esperanças de Obama de virar os EUA para uma direção radicalmente diferente se resumiram mais a     
aspirações do que a planos. Ele tentou redirecionar a atenção americana para a Ásia, onde repousa o      
futuro econômico do país, e perseguir uma agenda notável de reduzir enormemente o papel das armas    nucleares em todo o mundo. Mas esses esforços estiveram sempre subordinados às questões restantes    das "guerras legadas" de Afeganistão e Iraque: o "reforço" de 30 mil soldados no Afeganistão para      
impedir que o país se tornasse novamente um abrigo da Al-Qaeda; o fracassado esforço de fechar a      
prisão na Baía de Guantánamo, Cuba; o mergulho na relação espinhosa com um Paquistão      
nuclearmente armado.

     
A primavera árabe somou um novo elemento complicador na medida em que Washington tentava      
guiar eventos que prometiam uma nova relação com a região que estava destituindo seus ditadores e,     talvez, à beira de abraçar alguma forma de democracia. Mas, como os assessores mais francos de      
Obama admitiram, esse é um movimento que está basicamente fora do controle de Washington.   

   
Agora, a eliminação do símbolo central da Al-Qaeda oferece uma nova oportunidade para      
Obama defender que o grupo já não precisa ser uma fixação da política americana. "Até agora, fizemos    um bom trabalho para desmantelar a Al-Qaeda", disse um dos principais consultores de Obama neste      
ano, enquanto agências de inteligência estavam ajustando secretamente a mira no complexo de luxo nos  subúrbios de Islamabad, Paquistão, onde Bin Laden foi morto. "Ainda não estamos em      
"desmantelamento", e certamente não em "derrota"." Hoje, Obama pode dizer que está mais perto      
desses dois objetivos.  

    
Aliás, no domingo à noite, seus assessores afirmaram que os supostos sucessores de Bin Laden,      
incluindo Ayman al-Zawahiri, não têm seu carisma e apelo, e sua morte provocará um racha na      
organização.  

   
A decisão de lançar o corpo de Bin Laden ao mar faz parte de um esforço cuidadosamente      
articulado para evitar um lugar de enterro que possa se tornar um santuário para o líder da Al-Qaeda, um lugar onde seus seguidores poderiam declará-lo um mártir.   

   
Mas nada disso garante que a "narrativa alternativa" de que Obama frequentemente fala se      
instalará. Com a Irmandade Muçulmana mostrando algum sucesso na organização para as próximas      
eleições no Egito, e grupos extremistas querendo se aproveitar da guerra civil na Líbia e dos protestos na Síria, não está nada claro que as revoluções em curso não serão sequestradas por grupos que têm uma   afinidade maior com a ideologia da Al-Qaeda do que com a reforma democrática.      


Henry Kissinger observou recentemente que os revolucionários "raramente sobrevivem ao      
processo da revolução". Há geralmente uma "segunda onda" que pode guinar para uma direção      
diferente. A maneira como essa segunda onda ocorrerá, seguindo o caminho aberto pelos jovens      
criadores da primavera árabe, ou o dos acólitos de Bin Laden buscando vingança, determinará se      
Obama poderá usar a morte de Bin Laden para pôr um ponto final numa década sinistra.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK      
*É CHEFE DA SUCURSAL EM WASHINGTON E ESCRITOR      

Fonte: O Estado de S.Paulo - *David E. Sanger, do The New York Times

 

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