A Al-Qaeda ainda é forte sem Bin Laden PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Wednesday, 04 May 2011 10:14
   

Apesar da morte do terrorista saudita, células da rede herdaram seus ensinamentos e EUA devem     
evitar repetir erros aprendidos no Iraque     
   
A morte de Osama bin Laden é um golpe significativo para a Al-Qaeda. Nos comentários que se     
seguirão a sua morte, muitos concordarão com a curiosa proclamação do analista Peter Bergen na rede    CNN no domingo à noite. Para ele, isso marca o fim da guerra ao terror. Mas, na verdade, a morte de Bin Laden não encerra esse capítulo da história.

    
Dois pontos merecem consideração: as ideias estratégicas de Bin Laden para vencer uma    superpotência -que os planejadores americanos nunca compreenderam completamente -permearam     
sua organização e são amplamente compartilhadas por células afiliadas à Al-Qaeda.

    
Em segundo lugar, 2001 nos ensinou uma lição crítica: não deveríamos permitir que a morte de     
Bin Laden nos leve a perder de vista a ameaça contínua que a Al-Qaeda representa. Os paradigmas de     Bin Laden para a luta contra uma superpotência inimiga foram forjados durante a invasão soviética do     
Afeganistão.  

   
Bin Laden viajou ao Paquistão no início dos anos 1980, logo depois do início da guerra. O  analista do instituto Brookings Bruce Riedel, ex-agente CIA observa em seu livro "Em busca da Al-Qaeda" que, Bin Laden foi desde o início um grande financiador dos mujahedin.     


Mas foi sua primeira visita às linhas do front no Afeganistão, em 1984, que deixou uma impressão duradoura no jovem Osama, e lhe deu uma sede por mais ação.   

 
Quando Bin Laden e seus camaradas de armas árabes resistiram a vários ataques das forças especiais russas (spetsnaz) perto de Khost, Afeganistão, na primavera de 1987, o saudita foi visto como     
herói de guerra na mídia árabe, apesar daquela batalha ter sido insignificante para o desfecho da guerra.     
Impacto econômico. Uma lição que Bin Laden tirou da guerra contra os soviéticos foi a importância da economia de seu inimigo. A União Soviética não só se retirou do Afeganistão com uma      
derrota ignominiosa, como o próprio império soviético desmoronou pouco depois, no fim de 1991.   

 
Com isso, Bin Laden achou que ele não havia somente superado uma das superpotências mundiais no campo de batalha, como havia realmente jogado um importante papel na sua extinção.   

   
Nos últimos anos, o terrorista comparou os Estados Unidos à União Soviética em numerosas ocasiões -e essas comparações foram explicitamente econômicas. Em outubro de 2004, Bin Laden disse que assim como os combatentes árabes e os mujahedin afegãos haviam destruído a Rússia economicamente, a Al-Qaeda agora estava fazendo o mesmo com os Estados Unidos, "continuando sua      
política de sangrar a América até o ponto da falência."    

 
Da mesma forma, num mensagem em vídeo de setembro de 2007, Bin Laden afirmou: "Os erros      
de Brejnev estão sendo repetidos por Bush."    

 
Corações e mentes. Um segundo aspecto da experiência de Bin Laden na invasão soviética do      
Afeganistão que influenciou seu entendimento estratégico de sua luta contra os Estados Unidos foi a      
amplitude da resistência e a reação do mundo árabe à guerra. A invasão soviética indignou o mundo      
muçulmano, incluindo chefes de Estado, clérigos, a mídia local, e a população.  

    
A multidão de árabes que acorreu ao Sul da Ásia para ajudar a causa afegã -cerca de 10 mil no      
total -foi um atestado da indignação generalizada provocada pela invasão.   

   
A jihad afegã foi ajudada também por uma rede de doadores conhecida como a "corrente      
dourada", cujos financiadores eram principalmente da Arábia Saudita e de outros Estados árabes do      
Golfo.      


Basicamente, Bin Laden se instalou no topo de uma grande organização multinacional durante a      
guerra provocada pela invasão soviética. Seus membros incluíam combatentes, trabalhadores      
humanitários e outros voluntários. Ela contou com uma presença significativa da mídia, doadores      
externos e apoio generalizado.      


E quando a Al-Qaeda mais tarde se engajou numa luta global contra os Estados Unidos, Bin      
Laden e seus companheiros compreenderam igualmente a mídia e a luta por simpatia e lealdade em      
todo mundo muçulmano como campos de batalha cruciais.    

 
Em uma carta de 2005 ao líder da Al-Qaeda no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi, o vice de Bin      
Laden, Ayman al-Zawahiri notou que "mais da metade dessa batalha está ocorrendo no campo de      
batalha da mídia".   

   
Esses pilares gêmeos da estratégia da Al-Qaeda não morreram com Osama bin Laden. Eles      
permeiam a organização e suas afiliadas. Para compreender isso, basta olhar Inspire, a revista em língua  inglesa da Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP, na sigla em inglês), a afiliada iemenita do grupo.

Um número especial da publicação publicado em novembro de 2010 comemorou um complô que conseguiu colocar bombas de tetranitrato de pentaeritrina (PETN) dentro de cartuxos de impressoras que eram transportados por aviões da Fedex e da UPS. O atentado frustrado custou US$ 4.200 para a AQAP   contra, na estimativa da revista, de "bilhões de dólares em novas medidas de segurança" para os      
Estados Unidos e outros países ocidentais. Se os estrategistas americanos tivessem compreendido      
essas percepções estratégicas gêmeas desde o começo, eles poderiam ter conseguido evitar algumas     mancadas iniciais dispendiosas. Além disso, se as autoridades de Washington houvessem entendido o      
objetivo da Al-Qaeda de ampliar sua luta contra os Estados Unidos, elas poderiam ter levantado mais      
objeções à invasão do Iraque.    

 
O exemplo iraquiano. Isso coloca um segundo ponto crítico: não devemos nem declarar a Al- Qaeda morta nem declarar encerrada a luta contra a militância jihadista. Em 2002, quando os EUA se      
preparavam para a guerra com o Iraque, muitos observadores acreditaram equivocadamente que a      
guerra no Afeganistão fora vencida, e a Al-Qaeda, significativamente degradada.      


O ex-vice-presidente americano Dick Cheney, em dezembro de 2002, por exemplo, descreveu a      
guerra no Afeganistão como a vitória mais dramática dos Estados Unidos na guerra contra o terrorismo.      
"O regime Taleban e os terroristas da Al-Qaeda haviam encontrado o destino que eles escolheram para     si mesmos", disse.      


Em consequência dessa percepção falsa, uma quantidade significativa de ativos de inteligência e      
militares foram desviados do Afeganistão para o Iraque. Um exemplo disso foi o deslocamento de      
unidades como a Delta Force e o Seals Team Six da Marinha, além de plataformas de vigilância aérea      
como o drone Predator.    

 
O resultado dessa transferência de recursos era previsível: enfraqueceu os esforços americanos      
no Afeganistão e permitiu que a insurgência prosperasse. O Iraque continuaria desviando recursos da      
campanha afegã não apenas quando os EUA e seus aliados travaram a nova guerra, mas também anos    depois.  

    
A morte de Bin Laden é um golpe para a Al-Qaeda. Resta a ver se os EUA comemorarão de novo prematuramente, e proporcionarão a seus inimigos uma oportunidade de se reagrupar. TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK *É DIRETOR DO CENTRO DE ESTUDOS DA RADICALIZAÇÃO DO TERRORISMO NA FUNDAÇÃO PARA DEFESA DA DEMOCRACIA

Fonte: *Daveed E. Sgartenstein-Ross, Foreign Policy -O Estado de S.Paulo  

 

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