A energia nuclear no mundo e no Brasil após Fukushima PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Friday, 13 May 2011 12:38

 

 

O acidente de Fukushima arrefeceu o aquecimento que a indústria nuclear experimentava em anos recentes, nos países industrializados. Partidos ligados ao movimento verde ganham espaço e políticos que apoiavam as usinas nucleares estão revendo suas posições.


Na Alemanha - supridora da tecnologia das usinas de Angra - a expansão do parque nuclear foi cancelada e a chanceler Angela Merkel já declarou que as usinas existentes "serão desativadas o mais
cedo possível".


No Brasil, entretanto, os políticos não têm mostrado sensibilidade para rever posições equivocadas. No dia seguinte ao acidente de Fukushima, o ministro de Minas e Energia declarou que "as usinas de Angra são 100% seguras e o plano de construir outras não será revisto".


Angra está perto dos centros mais densamente povoados e industrializados do Brasil. Um acidente nuclear ali provocaria perdas humanas e paralisaria grande parte da economia, como está acontecendo no Japão pós-Fukushima. Não precisamos correr esse risco. Apesar das conhecidas questões ambientais, a alternativa mais racional para se expandir o sistema elétrico é aproveitar o potencial hidráulico, em combinação com parques eólicos e com biomassa, complementados por térmicas flexíveis.


De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial hidrelétrico brasileiro é de 267,8 GW, dos quais 188,5 GW não estão em aproveitamento, aí incluído o potencial das pequenas hidrelétricas, que é de 17,5 GW, como se vê na tabela. A região norte (essencialmente a Amazônia)
detém 65% do potencial não aproveitado.


Se, por motivos de caráter social e ambiental, os planos de expansão do sistema elétrico forem
reformulados, limitando-se em 80% o potencial a aproveitar na Amazônia - e se as hidrelétricas
amazônicas forem projetadas para inundar 0,3 km2 /MW, a área alagada pelos reservatórios será de
aproximadamente 27 mil km2, incluindo a área já ocupada pelos rios nas estações chuvosas. Isso
equivale a 0,5% da área da região - uma alteração perfeitamente assimilável pela natureza.


É indispensável que se faça um inventário dos aproveitamentos hidráulicos e eólicos, ordenandoos
por mérito econômico, social e ambiental; e que se institucionalize um processo decisório submetido a
controle público, para organizar a sequência das usinas a serem construídas e descartar as que
apresentarem problemas insuperáveis.


Se esse processo já estivesse em vigor em 2003, é possível que um aproveitamento como o de Belo Monte tivesse dado lugar a hidrelétricas com reservatórios pequenos, escalonados ao longo dos
rios, com melhores atributos sociais e ambientais.


Mediante uma política energética que respeite o mérito dos projetos, as empresas públicas e o empresariado do setor de geração elétrica deverão se transformar nos maiores defensores do
ecossistema amazônico, pois alterações causadas por desmatamentos comprometerão a vazão dos rios,
inviabilizando as próprias hidrelétricas.


De acordo com um levantamento feito pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica da Eletrobrás, em conjunto com as firmas Camargo-Schubert e True Windows Solutions há dez anos, o potencial eólico brasileiro para ventos com velocidade média superior a 7 m/s é de 143,47 GW. Em razão da evolução tecnológica, como a maior altura das torres dos aerogeradores, e do avanço nas medições de inventário, há indicações de que esse potencial poderá dobrar.


A interligação dos sistemas hidrelétrico e eólico permitirá que parte da energia gerada nos parques eólicos seja acumulada na forma de água nos reservatórios hidrelétricos - de modo semelhante às malhas termo-eólicas de alguns países europeus, nas quais a energia eólica permite que se economize gás natural ou óleo combustível.


Esse sistema hidroeólico poderá operar em sinergia com usinas termelétricas a biomassa, pois a frota automotiva brasileira é em grande parte alimentada com etanol, forçando a produção de bagaço emescala suficiente para alimentar termelétricas de pequeno porte, totalizando uma capacidade da ordem de 15 GW a partir de 2.012, segundo a Única.


Portanto, o sistema interligado hidroeólico-térmico teria uma capacidade global de 425 GW.


Como reserva de segurança, esse sistema teria um pequeno parque de usinas a gás, flexíveis, que
somente operariam em períodos hidroeólicos críticos. Essa solução tem custos de investimento inicial
significativamente inferiores aos da alternativa nuclear equivalente, sem exigir os custos e cuidados das
gerações futuras, por séculos, para o combustível nuclear irradiado, de cerca de 1 mil toneladas por
reator.

Por outro lado, segundo o IBGE, a população brasileira deverá se estabilizar em 215 milhões de
habitantes por volta do ano 2.050, de modo que daí em diante o referido sistema integrado poderá
oferecer continuamente cerca de 8.650 kWh firmes por habitante por ano, superior a muitos países de
alta qualidade de vida. Com isso, o Brasil seria o primeiro grande país a ter um sistema elétrico de fato
sustentável, econômica e socioambientalmente.


Joaquim Francisco de Carvalho é doutor em Energia pela USP, pesquisador do programa de
pós-graduação em Energia da USP (PPGE/USP), ex-diretor industrial da Nuclen, primeiro presidente do
IBDF (precursor do Ibama).


Joaquim F. de Carvalho e Ildo Sauer - é diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da
Universidade de São Paulo, Coordenador do PPGE/USP, Ph.D. em Engenharia Nuclear pelo MIT,
ex-gerente de projeto do circuito primário do reator nuclear da Marinha (1986-89)

Fonte: Valor Econômico 

Last Updated on Friday, 13 May 2011 12:51
 

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