Uma visita a Chernobyl PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Friday, 13 May 2011 12:51

 

Ban Ki-moon - é o Secretário-Geral das Nações Unidas


Há 25 anos, a explosão em Chernobyl liberou uma nuvem radioativa sobre a Europa, lançando
uma sombra em todo o mundo. Hoje, a tragédia ocorrida na usina nuclear de Fukushima Daiichi no
Japão continua tendo desdobramentos, causando medo nas populações e levantando difíceis questões.


Ao visitar Chernobyl, há poucos dias, eu vi o reator, ainda mortal, porém envolvido por concreto.


A cidade em si está abandonada e silenciosa. As casas, vazias e em ruínas, são as provas mudas de
vidas dilaceradas e de um mundo inteiro deixado para trás e perdido para aqueles que o amavam.


Mais de 300 mil pessoas foram deslocadas em função do desastre em Chernobyl; cerca de 6
milhões foram afetadas. Uma região geográfica equivalente a metade do território da Itália, ou mesmo
equivalente ao meu próprio país, a República da Coreia, foi contaminada.


Uma coisa é ler sobre Chernobyl quando estamos distantes. Outra é ver o que restou do local.
Para mim, a experiência foi profundamente emocionante e as imagens ficarão gravadas na minha
memória por muitos anos. Elas fizeram-me lembrar de um provérbio ucraniano: "Não há tal coisa
chamada dor alheia". Podemos dizer o mesmo sobre um desastre nuclear. Não há tal coisa como a
catástrofe de um outro país.


Como estamos dolorosamente aprendendo mais uma vez, acidentes nucleares não respeitam
fronteiras. Eles representam uma ameaça direta à saúde humana e ao meio ambiente. Eles repercutem
economicamente e afetam tudo, desde a produção agrícola até o comércio e a prestação de serviços em
nível mundial.


O mundo testemunhou uma inquietante história de acidentes evitados por pouco. Nós temos o
dever e o compromisso com os nossos cidadãos de aplicar normas mais rígidas desde a idealização,
construção e operação de novas centrais nucleares até às eventuais desativações.


Este é um momento de profunda reflexão; hora de um verdadeiro debate. Para muitos, a energia
nuclear parece uma escolha lógica e limpa numa era de crescente escassez de recursos. Mas os
resultados nos obrigam a nos perguntar: Calculamos corretamente os riscos e os custos dessa escolha?
Estamos fazendo tudo o que podemos para preservar a segurança dos habitantes do planeta?
Uma vez que as consequências são catastróficas, a preservação da segurança deve estar acima
de tudo. Tendo em vista que o impacto ultrapassa as fronteiras, essas questões devem ser debatidas
globalmente.


Por isso, após visitar a Ucrânia por ocasião do 25º aniversário do desastre, apresento uma
estratégia em cinco tópicos para melhorar a segurança nuclear para o nosso futuro:


Em primeiro lugar, é hora de fazer uma revisão completa dos atuais padrões de segurança, tanto
a nível nacional quanto a nível internacional. Em segundo lugar, precisamos fortalecer o trabalho da
Agência Internacional de Energia Atômica no que diz respeito à segurança nuclear.


Em terceiro lugar, precisamos nos concentrar de forma acentuada na nova correlação estreita
existente entre os desastres naturais e a segurança nuclear. As mudanças climáticas representam mais
incidentes extremos e mais fenômenos meteorológicos de crescente gravidade. Com o número de
centrais nucleares aumentando consideravelmente nas próximas décadas, nossa vulnerabilidade
crescerá.
Em quarto lugar, devemos realizar uma nova avaliação do custo-benefício da utilização da
energia nuclear, levando-se em conta os custos com prevenção de acidentes e preparação para
desastres, inclusive os custos de limpeza no caso do pior ocorrer.


Finalmente, em quinto lugar, precisamos construir uma forte ligação entre proteção nuclear e
segurança nuclear. Numa época em que os terroristas procuram materiais nucleares, podemos dizer com
convicção que uma usina nuclear que é mais segura para sua comunidade é também mais segura para
todo o mundo.

Minha visita a Chernobyl não foi a primeira visita que fiz a uma central nuclear. Há um ano, visitei
o Semipalatinsk no Cazaquistão, principal centro de testes nucleares da antiga União Soviética. No
último verão, no Japão, eu me encontrei com os Hibakusha, sobreviventes das explosões atômicas em
Nagasaki e em Hiroshima.


Estive nesses lugares para enfatizar a importância do desarmamento. Durante décadas,
negociadores vêm tentando estabelecer acordos que limitem (e eventualmente eliminem) as armas
nucleares. No ano passado, vimos um progresso encorajador.


Com a lembrança de Chernobyl e, agora, com o desastre em Fukushima, devemos ampliar
nossa visão. De agora em diante, devemos tratar a questão da segurança nuclear com a mesma
seriedade com que tratamos a questão das armas nucleares.


O mundo testemunhou uma inquietante história de acidentes evitados por pouco. É hora de
encararmos os fatos de frente. Nós temos o dever e o compromisso com os nossos cidadãos de aplicar
normas mais rígidas para planejamento, treinamento e intervenção em situações de emergência, desde a idealização, construção e operação de novas centrais nucleares até às suas eventuais desativações.


Questões relativas à energia e à segurança nucleares não são mais puramente assuntos de
política nacional, somente. São assuntos de interesse público mundial. Nós precisamos de padrões
internacionais para construção, de acordos que estabeleçam garantias de segurança pública,
transparência plena e intercâmbio de informações entre as nações.


Façamos desse aprendizado o legado duradouro de Chernobyl. Em meio ao silêncio que lá jaz,
eu vi sinais da vida renascendo. Um escudo de proteção está sendo erguido sobre o reator danificado.
As pessoas estão começando a retornar. Tomemos a decisão de dissipar a última nuvem de Chernobyl e
oferecer um futuro melhor para as pessoas que têm vivido, há tanto tempo, sob sua sombra.

Fonte:  Valor Online

Last Updated on Saturday, 14 May 2011 14:51
 

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