O impacto das encomendas da Transpetro na indústria naval nacional PDF Print E-mail
Friday, 23 January 2009 17:16

 

O foco da ALIDE é normalmente o mundo militar, no entanto, no segmento da indústria naval os estaleiros e empresas fornecedoras acabam trabalhando indistintamente para clientes civis e militares, sendo assim os progressos verificados em um dos setores, naturalmente, acabam por afetar indiretamente o outro.

Neste momento a indústria de construção naval no Brasil se encontra passando por uma imensa revolução. Após duas décadas, praticamente paralisada, ela renasce vigorosamente, embalada numa série de mega-encomendas da Transpetro, subsidiária de transporte de combustível da Petrobrás. Este crescimento envolve a construção de vários novos estaleiros, além de revitalizar toda a indústria de insumos, componentes, sistemas e motores de emprego naval. Para entender as amplas repercussões destas mudanças ALIDE entrevistou O Sr. Sergio Machado, Presidente da Transpetro, para saber quantos navios, de que tipo, como serão construídos, e qual será o tamanho desse investimento. Quanto mais forte for a indústria naval civil do país, muito mais forte será sua indústria naval militar.

As encomendas já efetivadas

A empresa informa em seu site e nos documentos publicados sobre o tema, que o Programa de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro (Promef) está dividido em duas fases. A primeira fase do programa teve seu edital lançado em 2005 e prevê a construção de 26 navios, assim divididos:

Navio PanaMax Navio AFRAMax Navio SuezMax Navio SuezMax
[Ed.: Clique nas imagens para saber as diferenças entres os diversos tipos de navios. Fotos e infográfico Copyright Transpetro]

* 10 navios Suezmax e 5 navios Aframax :: Contrato assinado com o Estaleiro Atlântico Sul (PE)

* 4 navios Panamax :: Contrato assinado com o Estaleiro Eisa (RJ)

* 4 navios de produtos :: Contrato assinado com o Estaleiro Mauá (RJ)

* 3 navios  gaseiros (em processo de finalização de obtenção de financiamento do Fundo Marinha Mercante)

O investimento total previsto nesta fase é de US$ 2,5 bilhões, com a geração de 22 mil empregos diretos e capacidade de transporte para 2,7 milhões de Toneladas de Porte Bruto (TPB).

O Promef II (segunda fase do programa) teve seu edital lançado em julho deste ano (2008). No dia 15 de dezembro de 2008, a Transpetro recebeu as propostas dos estaleiros para a construção de mais 15 navios. Os lotes e estaleiros que disputam esta fase são:

Lote 1 (Quatro navios Suezmax DP) – Estaleiro Atlântico Sul (PE) e Estaleiro Eisa (RJ)

Lote 2 (Três navios Aframax DP) - Estaleiro Atlântico Sul (PE) e Estaleiro Eisa (RJ)

Lote 3 (Três navios de produtos claros) – Estaleiro Mauá (RJ)

Lote 4 (Cinco navios de produtos) - Estaleiro Mauá (RJ) e Estaleiro Rio Nave (RJ)

A geração de empregos diretos no Promef II será de 18 mil, para a construção de navios com capacidade para transportar 1,3 milhão de Toneladas de Porte Bruto (TPB). O investimento necessário ainda não foi estabelecido, já que as propostas dos estaleiros estão em fase de avaliação técnica e financeira por parte da Transpetro.

Uma novidade importante do Promef II é a encomenda de sete grandes petroleiros de posicionamento dinâmico (DP), que, pela primeira vez, serão fabricados no Brasil. O DP (dynamic position) permite que a posição e as manobras do navio sejam controladas automaticamente por meio de sensores e por GPS, o que torna o processo de atracação muito mais eficiente.

Esta fase prevê também a construção de dois gaseiros pressurizados de 4 mil m³, dois gaseiros semi-refrigerados de 12 mil m³ e 3 bunkers para transporte de combustível para navios.

O prazo de entrega das propostas para estas encomendas foi prorrogado e deve acontecer no início deste ano, a fim de permitir que os estaleiros sediados em Santa Catarina, estado atingido por enchentes e desabamentos, possam concorrer. Santa Catarina sedia algum dos potenciais ofertantes na construção de navios bunkers e gaseiros.

O cronograma de entrega das encomendas da fase I vai de 2010 a 2013. Já os navios da fase II têm entrega prevista entre 2011 e 2014.

O envolvimento da academia brasileira

Em 2006, a Transpetro e o Ministério da Ciência e Tecnologia e o Centro de Pesquisas da Petrobras, o Cenpes, firmaram convênios que garantiram investimentos em tecnologia. O recurso daí acertado – R$ 32 milhões – financia o Programa de Capacitação Tecnológica para Apoio à Indústria Naval Brasileira, responsável pela modernização tecnológica e capacitação profissional das empresas de construção naval do país.

A galeria de instituições e centros de pesquisa é vasta: Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal de Rio Grande (UFRS) e Universidade Federal do Pará (UFPA).

A base de referência para os trabalhos a serem desenvolvidos é o Centro de Excelência em Engenharia Naval e Oceânica, o Ceeno, do qual fazem parte o Cenpes, a Coppe/UFRJ, a Escola Politécnica da USP, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo e a Transpetro. Entre os projetos a implantar, destaque-se a criação de laboratórios para análise e avaliação de riscos e para a simulação de sistemas de construção naval.

 

ALIDE: Qual o status da indústria naval brasileira antes do início destas contratações da Transpetro?

Sérgio Machado: Lançado em 2005, o Promef é um programa destinado a revitalizar a indústria naval brasileira, em dificuldades desde a década de 1980, sob novas bases competitivas. O Promef visa a não só revitalizar os antigos estaleiros do País, como também criar uma nova geração de empresas em condições de disputar encomendas no Brasil e no exterior. Os estaleiros nacionais passaram 20 anos sem grandes encomendas - o último de grande porte encomendado foi o Livramento, em 1986 – e viram, neste período, um processo de concentração da carteira mundial de encomendas navais nas mãos dos asiáticos. Sem garantias e demandas, a indústria naval brasileira, que já havia ocupado o segundo lugar no ranking global de encomendas, perdeu postos de trabalhos e divisas, aumentando a defasagem tecnológica diante dos “grandes players” globais.

ALIDE: Houve uma onda de anúncios de construção de novos mega-estaleiros no país, quem são eles e em que estágio de implementação eles se encontram?

SM: Dentro do Promef, podemos falar na construção do Estaleiro Atlântico Sul, iniciada em abril de 2007, em Pernambuco, no Complexo Industrial Portuário de Suape, pelas empresas Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e PJMR. Aos players nacionais, juntou-se a coreana Samsung, primeiramente, prestando apoio tecnológico e, posteriormente, como sócia financeira do projeto. A unidade começou a operar em agosto deste ano e possui a maior carteira de encomendas da Transpetro (10 navios Suezmax e 5 navios Aframax).

Ao atingir a plena capacidade, no segundo semestre de 2009, o Atlântico Sul será o maior estaleiro do Hemisfério Sul. Sua capacidade de processamento será de 160 mil toneladas de aço/ano, com um milhão e 620 mil metros quadrados de terreno, área industrial coberta de 130 mil metros quadrados e um dique seco de 400 metros de extensão, 73 metros de largura e 12 metros de profundidade. No dia 5 de setembro do ano passado, o estaleiro foi palco da cerimônia de corte do aço para a construção do primeiro navio do Promef, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli.

ALIDE: Quais os maiores gargalos enfrentados por estes empresários na instalação de seus mega-estaleiros? Financiamento? Recursos humanos treinados e capacitados ou insumos, como chapas de aço, motores, bombas, etc?

SM: Esses desafios existem, mas estão equacionados, cada um deles, pela forma como o programa está estruturado. Temos como premissas básicas do Promef, fabricar navios no Brasil, atingir um mínimo de 65% de nacionalização, alcançar, no desenvolvimento do programa, preços e qualidade internacionalmente competitivos e garantir escala dos estaleiros, para que possam investir em instalações, tecnologia e capacitação, e, em conseqüência, viabilizar sua “curva de aprendizado”. Mão-de-obra qualificada adquire-se com treinamento e acesso a uma infra-estrutura de nível. Tecnologia, através de aprendizado com os parceiros internacionais.

Qualidade e preço competitivo, com a garantia de continuidade e escala aos estaleiros, de modo que estes possam investir em instalações, tecnologia e capacitação. O financiamento para a construção dos navios é proveniente do FMM (Fundo de Marinha Mercante), que tem recursos específicos para a indústria naval, sem risco de contingenciamento, repassados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

ALIDE: Alguma multinacional do ramo já anunciou planos de se estabelecer ou expandir as suas atividades no Brasil após o anuncio do programa industrial da Transpetro?

SM: A Samsung estabeleceu uma parceria com o estaleiro Atlântico Sul (PE), prestando assistência tecnológica. Em 2007, a gigante coreana oficializou sua entrada como sócia no estaleiro, adquirindo 10% do projeto. Outros grandes grupos, da própria Coréia, benchmark do setor no mundo, e da China, encontram-se negociando parcerias no Brasil. Tendo as encomendas da Transpetro como estopim, o País voltou ao mapa do investimento na indústria naval.

ALIDE: A demanda da Petrobrás por estes navios será constante ou será uma grande bolha encolhendo ao fim de atendimento da demanda reprimida?

SM: O Sistema Petrobras emprega mais de 170 navios/ano no transporte de petróleo e derivados, dos quais 54 da Transpetro. A diferença, da ordem de 120 navios, expressa o potencial de crescimento, só pela substituição dos afretados. A idade média da frota não pode superar 10 anos, a metade da atual. Apenas para esta renovação, portanto, as demandas potenciais do Sistema Petrobras chegam a 17 navios/ano, além do que já está contemplado pelas duas primeiras fases do Promef. O que a Transpetro também pode ressaltar, nesse sentido, é que as encomendas pelos Promef I e II não incluem qualquer demanda destinada a atender a exploração e produção das reservas de petróleo e gás localizadas na camada pré-sal. Estas recentes descobertas, aliadas às possibilidades de ampliação do setor de biocombustíveis, sinalizam que a demanda para toda a cadeia, incluindo navios, sondas e plataformas, seguirá firme nos anos a seguir.

Além disso, uma das principais características deste ressurgimento da indústria naval é que os estaleiros têm demandas para além do Promef e da Petrobras. O Estaleiro Eisa (RJ), por exemplo, recebeu encomendas da Log-In Logística Intermodal para a construção de porta-contêineres e da PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana, para construir 10 novos petroleiros.

ALIDE: É certo inferir que o programa de recomposição de meios da Marinha, atualmente em curso, compete pelos recursos limitados de engenharia da indústria naval com as encomendas da Transpetro?

SM: A Transpetro acredita que as demandas geradas pela área de Defesa e pela Marinha Mercante atuam de forma complementar, e não concorrentes entre si, no processo de reestruturação e renascimento da indústria naval brasileira. A história do setor em todo o mundo revela, com freqüência, que tecnologias desenvolvidas para embarcações militares permitiram usos civis, e vice-versa.

ALIDE: O que a indústria naval brasileira tem que ter para ser competitiva tecnológica e comercialmente com as indústrias da Noruega, Singapura, Coréia e China?

SM: A indústria naval brasileira já é competitiva globalmente e vem atendendo pedidos feitos por grandes empresas internacionais, como exemplificamos anteriormente. A meta sempre foi a competitividade global, um dos parâmetros do programa. Não queríamos fazer navios por fazer, sem estruturar uma cadeia produtiva de classe mundial. Tudo isso admitia uma curva de aprendizado, um certo tempo de adaptação. Porém, já na primeira fase do Promef, os navios foram encomendados por um valor apenas 1% mais caro do que se fossem encomendados no exterior. Este dado exemplifica como a indústria naval brasileira já é competitiva em relação aos grandes estaleiros internacionais.

Last Updated on Friday, 23 January 2009 18:38
 

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