Vocação para dizer sim e não PDF Print E-mail
Monday, 31 August 2009 14:21

  

Rio - O discurso duro e ao mesmo tempo apaziguador do presidente Lula na reunião de cúpula da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), ocorrida em Bariloche, na Argentina, é exemplo típico da acertada política externa brasileira. Mas que ainda encontra resistências nos setores mais ligados à segurança nacional, que entendem como fraqueza a vocação diplomática do Brasil no trato com seus vizinhos.

 

No encontro da Unasul, os presidentes da região discutiram a ampliação do acordo militar que permitirá aos Estados Unidos manter 1.400 pessoas em sete bases na Colômbia, pelos próximos dez anos. Este acordo, negociado pelos dois países nos bastidores, causou polêmica quando veio à tona neste mês. Surpreendeu Brasil e Argentina e atiçou a animosidade de presidentes ligados ao bolivarianismo (e, logicamente, ao antiamericanismo), como Rafael Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia) e Hugo Chávez (Venezuela), que chegou a dizer, na última reunião da Unasul, em Quito, que “Ventos de guerra começam a soprar na região”.

 

Em Bariloche, Lula não lançou mão do histrionismo beligerante do colega, mas foi contundente. Pediu garantias jurídicas de que as operações americanas não violarão os territórios dos demais países da América do Sul. Fez esta exigência e uma crítica pertinente a Álvaro Uribe. O presidente colombiano afirmara que a presença americana no combate ao narcotráfico deve ser encarada de modo natural, pois os Estados Unidos mantêm forças militares na Colômbia desde 1952. Se for assim, pontuou Lula, se a estratégia utilizada até hoje não se mostrou eficaz, ela deve ser repensada. Foi um recado direto. Ainda que a Colômbia tenha a soberania de permitir ações americanas em seu território, elas já não são bem-vindas.

 

A outra mensagem foi de conciliação, mas com alvo certo, baixar a guarda de Hugo Chávez e seus colegas. É preciso, afirmou Lula, que os países da região se voltem a estratégias de paz e que seus governantes tenham moderação. O alerta faz sentido. Em 2008, o investimento em armas na América do Sul foi de US$ 51 bilhões, 30% a mais do que em 2007. Para países subdesenvolvidos, cuja história é marcada por longos períodos de paz, e, que, ao mesmo tempo, enfrentam sérios problemas relacionados à pobreza e à desigualdade, não há a menor razão para se entrar numa corrida militarista.

 

Nesse sentido, o discurso de Lula se coaduna perfeitamente com o papel que o Brasil deve desempenhar, o de líder natural da região, que não precisa medir forças em pelejas infrutíferas. No entanto, essa vocação diplomática, de mediador de conflitos entre vizinhos, tem sido questionada dentro do próprio governo.

 

Em recente visita ao Rio, o ministro da Defesa Nelson Jobim deu declarações de insatisfação em relação ao suposto bom-mocismo da política externa brasileira, afirmando que o país precisa estar preparado para quando tiver de dizer “não”. Jobim, que tem um plano de reestruturação para o Ministério da Defesa, pretende criar um contraponto ao Instituto Rio Branco, fazendo da Escola Superior de Guerra um centro de formação de quadros profissionais voltados para uma carreira civil da defesa. O objetivo é que a área deixe de ser um assunto exclusivamente dos militares. E que a ação dos civis não se restrinja à via diplomática.

 Pode ser uma boa ideia. Mas é preciso que haja uma consonância em relação à tradição brasileira não belicista.

 

Fonte: JB- Editorial

Last Updated on Thursday, 03 September 2009 12:20
 

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