Há semelhanças com o Vietnã PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Thursday, 03 December 2009 13:46

 

Em seu discurso na terça-feira, o presidente americano, Barack Obama, recusou as críticas dos que comparam o Afeganistão ao Vietnã, argumentando que a atual operação dos EUA é apoiada por uma ampla coalizão internacional, e que o Afeganistão, diferentemente do Vietnã, pode ser estabilizado. Mas em entrevista ao JB, David Fleischer, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília, defende que há semelhanças entre as guerras travadas nos dois países asiáticos, como o uso de estratégias de guerrilha pelos Talibãs e Vietcongs, o fato de ambos fazerem fronteira com países simpáticos à resistência e o histórico comum de já terem conseguido expulsar grandes forças de ocupação no passado.

O que acha da comparação entre as guerras do Afeganistão e do Vietnã?

– A comparação não é perfeita, mas há algumas semelhanças. O Vietnã vinha de uma situação de guerras contra ocupações muito antes da invasão americana nos anos 60 e 70, como a guerra contra o Japão e, mais tarde, a de independência contra os franceses. Os rebeldes no Afeganistão também haviam lutado contra a ocupação soviética nos anos 80 e 90, e os soviéticos também foram derrotados, a exemplo do que ocorreu com os EUA no Vietnã.

Uma diferença nítida está no fato de o Afeganistão ser um país extremamente descentralizado, com chefes regionais, e o Talibã é uma guerrilha baseada na religião, enquanto os rebeldes do Vietcong eram ideológicos. Ironicamente, durante a ocupação soviética do Afeganistão, os EUA apoiaram um grupo de rebeldes que mais tarde se tornaria a Al Qaeda. Mas a grande diferença entre a atual guerra do Afeganistão e o conflito no Vietnã é que agora a OTAN está profundamente envolvida.

Há risco de uma reedição no Afeganistão do que ocorreu no Vietnã, ou seja, os EUA perderem a guerra?

– Acho que dessa vez os EUA não vão perder a guerra. É bom lembrar que, daqui há três anos, termina o primeiro mandato de Obama e ele sabe que precisará mostrar algum resultado positivo no Afeganistão até lá. Pela matemática, esse resultado seria o início da retirada, anunciado na terça-feira. Obama disse que três anos são suficientes para acabar com o Talibã e se retirar do país. Sinceramente, acho isso muito arriscado.

O Afeganistão pode ser comparado ao Vietnã dos anos 60 do ponto de vista da instabilidade do país, e de que ali também se trava uma guerra não convencional?

– Há semelhanças entre as estratégias de guerrilha dos Talibãs e dos Vietcongs. Apesar de não ter selvas como o Vietnã, o Afeganistão se caracteriza pelo relevo acidentado, mas, com relação à geografia, o melhor paralelo diz respeito às fronteiras.
Enquanto o Vietnã faz fronteira com a China, que, mesmo sendo um país aliado dos EUA, apoiava os rebeldes do Vietcong durante a ocupação americana, o Afeganistão é vizinho do Paquistão, também aliado dos EUA, mas que apoia ou pelo menos dá refúgio aos rebeldes Talibãs. Como ocorreu no Vietnã, os soldados norte-americanos no Afeganistão não têm permissão para cruzar a fronteira do Paquistão.

O senhor considera que Obama está realmente seguro quanto ao envio de mais tropas americanas ao Afeganistão?

– Talvez Obama esteja enviando mais 30 mil soldados para encorajar a Otan a fazer o mesmo. A falta de tropas aliadas foi um dos problemas sérios no Iraque, principalmente quando a Inglaterra decidiu começar a retirar suas forças, desencadeando ação semelhante em outros países. Hoje, parece que Obama realmente acredita que seus aliados vão se comprometer com um aumento de soldados no Afeganistão.

O senhor acredita que Obama conseguirá iniciar a retirada das tropas do Afeganistão em três anos, como ele afirmou?

– Acho que em três anos Obama conseguirá reduzir drasticamente as forças Talibãs na região, mas eliminálas totalmente será muito difícil. Infelizmente, Obama herdou as guerras do Afeganistão e do Iraque, e não tem muita saída, além de aumentar as tropas e apoiar o atual governo afegão para não permitir que o Talibã volte ao poder. Daqui a três anos, termina o primeiro mandato de Obama. Até lá, ele sabe que precisará mostrar resultados positivos no Afeganistão.

Fonte: Jornal do Brasil - Joana Duarte

 

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