Porta Helicópteros Jeanne D'Arc PDF Print E-mail
Wednesday, 16 April 2008 08:34

 

O ocaso do Jeanne d'Arc

O cruzador porta-helicópteros francês Jeanne d'Arc e sua escolta, o destróier Georges Leygues, passaram pelo porto do Rio em uma de suas últimas viagens de formação de oficiais. Fomos a bordo para mostrar como funciona a versão francesa da tradicional “viagem de Ouro”.

Introdução

O designador do grande navio já indica muito, “R- 97” , contemporâneo, pois, aos dois, já descomissionados, porta aviões da classe Clemenceau. O Clemenceau era o R-98 e seu gêmeo, o Foch, era o R-99 . O mesmo Foch que hoje em dia é o nosso NAe São Paulo.

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.
Jeanne D'Arc entrando na Baia de GuanabaraJeanne D'Arc passando pela Fortaleza de Sta CruzAproximação para a entrada do prático no Jeanne D'ArcAproximação para a entrada do prático no jeanne D'Arc

Construído em Brest entre 1959 e 1961 o navio foi lançado ao mar em 30 de setembro de 1961 assumindo inicialmente o nome de “ La Resolue ” (“A Decidida”, em português) Em 16 de julho de 1964 ele tomou seu nome definitivo e foi comissionado na Marine Nationale, justamente na missão de apresentar o mundo aos aspirantes da academia naval francesa. Junto com o Georges Leygues, adicionado em 1999, ele compõe o Grupo Escola de Aplicação dos Oficiais da Marinha (GEAOM).

Tripulação pronta para receber o prático.Prático subindo a bordoJeanne D'ArcJeanne D'Arc com o Pão de Açucar ao fundo
Lançadores de MM-38Meia nauPôpa do Jeanne D'Arc

A escolha tardia do nome Jeanne d'Arc para este novo navio homenageava a tradição do Esquadrão de Treinamento. Desde sua fundação em 1864, este nome foi usado tanto por um cruzador blindado operacional entre 1912 e 1928, quanto por um cruzador de treinamento, entre os anos de 1931 e 1964.

Helis no convôo

O cruzador porta-helicópteros francês desloca 12.000 toneladas e mede 182 metros de comprimento. Apresenta uma boca de 24 metros e um calado de sete metros e meio. Suas quatro caldeiras giram uma turbina cada, produzindo 40,000 cavalos força (29.420 kW) de potência o que lhe permite alcançar velocidades de até 28 nós. Aos 15 nós, em modo econômico, o navio pode navegar 7500 milhas marítimas ( 14000 km ) antes de ter que receber mais combustível. Como armamento, adiante do passadiço estão localizados duas torretas com canhões singelos 100 mm/55 (3.9") Model 1953 da firma francesa GIAT. O navio foi construído com quatro destas torretas, mas duas delas foram removidas em 2000. Para segurança contra pequenos navios, especialmente no porto, o navio tem apoios laterais para quatro metralhadoras de 12,7mm. Mais a vante estão colocados seis casulos de mísseis anti-navios MM38 Exocet com alcance efetivo de 38Km. Para proteção contra torpedos inimigos existe o sistema “Nixie”.

Jeanne D'Arc atracado no porto do Rio de JaneiroUma de muitas salas de aula e conferência a bordo do Jeanne D'ArcUma de muitas salas de aula e conferência a bordo do Jeanne D'Arc

Sensores

1 radar de busca aérea Thomson-CSF DRBV-22 D

1 radar de busca principal Thomson-CSF DRBV-51

2 radares de navegação Racal Decca DRBN-34

3 radares de controle de tiro de canhão 100mm Thomson-CSF DRBC- 32 A

Explanação sobre as funções do Jeanne D'Arc

Sonar

1 sonar DUBV-24

Contra-medidas

1 MAGE (ESM) Thomson-CSF ARBR-16

1 interferidor (jammer) ARBX-10

1 decoy PASSIVO anti-torpedo rebocado AN/SLQ-25 Nixie

TACAN : NRBP-20

1 sistema de identificação amigo-inimigo (IFF) NRBI-50

Mini coletiva para a ALIDECapitaine de Frégate Guillaume Chove comandante do George Leygues e o Capitaine de Vaiseau (CMG) Hervé Bléjean comandante do Jeanne D'ArcGazelle e AloueteGazelle

O espaçoso convôo medindo 62 por 21 metros , localizado a ré, permite a realização simultânea de três operações de pouso e decolagem, e o espaço do hangar permite o embarque e a manutenção de dez helicópteros pesados ou leves. Para a missão de treinamento dos oficiais o navio viaja com dois Gazelles da Aviação leve do Exército de Terra (ALAT) do 1º Regimento de helicópteros de combate baseados em Phalsbourg além de dois Alouete III do Esquadrão 22S da Aviação da Marinha Francesa da base de Lanvéoc. O CMG Bléjean disse que eles “adorariam dispor de pelo menos um helicóptero Puma a bordo, mas que infelizmente estes helicópteros não estão incluídos nesta missão por estarem alocados a outras operações de maior prioridade.”

GazelleGazelleDetalhe do gazelleGazelle
AloueteAloueteAlouetedetalhe do Alouete

Com sua dotação completa, o Jeanne d'Arc carrega 600 pessoas entre os quais 51 são oficiais. Dos oficiais, 16 são instrutores dos cadetes. Para manejar o navio 425 praças se alternam nas 24 horas do dia.

A fragata anti-submarino Georges Leygues

Primeiro dos sete destróieres (“fragatas” para a marinha francesa, a despeito do “D” no indicativo do navio) da classe F-70 dedicadas à guerra anti-submarina. O Georges Leygues foi lançada ao mar em 17/12/1976 no estaleiro de Brest, entrando em serviço em 10 de setembro de 1979. O navio serviu na linha de frente da Marine Nationale em sua função básica por quase vinte anos, operando desde o porto mediterrâneo de Toulon, antes de ser transformado em navio-escola ao lado do Jeanne D'Arc. O Georges Leygues retem os equipamentos e sistemas bélicos característicos utilizados em diversas classes de escoltas em atividade atualmente e também apresenta uma sala de conferência, uma de estudos e uma de informática além de cinco compartimentos para acomodar até 36 dos alunos.

ConvôoRadar diretor de tiro Thomson-CSF DRBC- 32 A
metralhadora de 12,7mmLanchas

O navio desloca 4500 toneladas e mede 139 metros de comprimento, tem 14 metros de boca e 5,7 metros de calado. Sua motorização é CODOG (COmbined Diesel Or Gas) com duas turbinas Rolls Royce Olympus TM3B sendo complementadas por dois motores diesel Pielstick PA 6V280 STD de 5200 HP (3824 kW). O total de potência deste sistema é de 52.000 HP (38.240 kW), gerando uma velocidade máxima de 30 nós através de dois hélices quadripás de passo variável.

Cabine telefônicaPassadiçoPassadiçoPara bom entendedor, pingo é letra!
Passadiço6 lançadores de MM-38sala de controles de propulsão
PassadiçoCOCCOC

O armamento é composto de mísseis anti-aéreos de defesa de ponto Crotale EDIR e duas unidades dúplas Simbad/Mistral. Oito dos mísseis Crotale são transportados nos próprios lançadores enquanto outros 16 são armazenados nos paióis. Para guerra anti-submarino o navio dispõe de dois lançadores de torpedos L5, com 10 unidades nos paióis. Contra outros navios a fragata conta com quatro casulos de mísseis MM38 Exocet. Os seus sensores incluem um sonar de casco DUBV23 e um sonar rebocável DUBV43. Contra ameaças aéreas existe um radar de busca aérea DRBV26 e contra alvos de superfície existe uma unidade DRBV51C. Para despistar mísseis anti-navios o navio conta com um par de lançadores de chaff da empresa Syllex. A sua tripulação é composta de 18 oficiais e 177 praças. Como bem disse seu comandante Capitaine de Frégate Guillaume Chove “Em seus oito anos nesta função de treinamento, já se percebe uma verdadeira ‘osmose' entre a tripulação e os alunos transportados a bordo”.

COCCOCCOCCOC
COCCOCCOCCOC

Uma das grandes vantagens para a Marinha Francesa de usar dois navios dentro do Grupo de Ensino é que assim é possível praticar operações complexas, mas comuns no dia-a-dia naval, como, por exemplo, as transferências de óleo no mar (TOM) e de carga leve entre navios, além de exercícios de manobras táticas e navegação em formatura, todos claramente impossíveis de serem realizados com um único navio-escola. Só como exemplo, o Capitaine de Vaiseau (CMG) Hervé Bléjean, comandante do Jeanne d'Arc, apontou durante sua entrevista que “durante a vida do Jeanne d'Arc já se realizaram mais de 400 TOMs, transferindo uma quantidade total de óleo que facilmente moveria um carro de passageiro por mais de 1000 anos.”

O treinamento dos Cadetes

A cada ano o Esquadrão recebe um novo grupo de alunos da Academia Naval e da Academia Militar da Frota. Ao lado destes, servem também alunos da Academia do Corpo de Suprimento Naval, oficiais intendentes, médicos militares, e cerca de vinte jovens oficiais estrangeiros. Ocasionalmente embarcam no Esquadrão oficiais do serviço hidrográfico e da diretoria de construção naval. Para os alunos esta viagem representa a segunda etapa na sua formação, sendo seguida posteriormente por uma etapa de especialização de acordo com os interesses e vocações de cada um. A viagem anual do GEAOM se inicia no fim de um ano e se conclui 170 dias depois. Viagens ao Atlântico normalmente se alternam com viagens ao Índico e ao oriente.

A Viagem 07/08

Nesta missão, o número total de alunos é de 124, onde doze são do sexo feminino. Um dos alunos é francês e acaba de cursar a academia naval alemã, enquanto 19 outros oficiais alunos vem de outras marinhas, como, a do Reino Unido, da Bélgica, da Alemanha, da Grécia, do Egito, da Índia, do Kuweit, de Madagascar, da África do Sul, do Congo, de Camarões, da Nigéria, de Togo, do Marrocos e da Espanha.

Corredores largosFragata George LeyguesEntrando na Baia de GuanabaraAproximação para a entrada do prático no jeanne D'Arc

Durante este percurso, vários exercícios multilaterais e bilaterais são realizados, com as mais variadas marinhas do mundo. Para a Marine Nationale esta é uma oportunidade única de dar ao aluno uma perspectiva global de suas futuras atividades. Ao entrar em contato com tantas marinhas e culturas assim díspares o jovem oficial passa a dar maior valor à necessidade de se preparar para compreender estas realidades diversas, além de provocá-los a desenvolverem novas habilidades em línguas estrangeiras. A despeito de ser realmente uma escola, o Grupo nunca perde sua vocação operacional estando sempre pronto a entrar em ação em situações de crise humanitária ou de combate a ilícitos internacionais como pirataria e tráfego de drogas. Exemplos disso ocorreram em 1998 e 1999 na América Central e em Moçambique, nas operações Cormoran e Limpopo II, em que o Jeanne d'Arc participou no resgate de populações vitimadas por furacões. Durante as campanhas de 2003-2004 em que o navio participou da missão de reestabelecimento da paz no Haiti, também conhecida como Operação Carbet. Em seguida ao terrível maremoto de 26 de dezembro de 2004 o Jeanne d'Arc e o Georges Leygues foram desviados por cerca de dois meses de suas missões de treinamento para levar assistência aos aldeões isolados pela catástrofe.

Lançador do missel Crotale

A viagem atual se iniciou no dia 15 de dezembro no porto de Brest , na costa noroeste da França. De lá os dois navios cruzaram o Atlântico Norte chegando em Nova Iorque em tempo para as comemorações do Ano Novo. No dia dois de janeiro os franceses deixaram a gelada “Big Apple” em direção as águas mornas do Caribe, chegando em Fort de France nas Antilhas Francesas no dia 10 de janeiro para um breve período de descanso de cinco dias em terra. Em seguida uma rápida parada em Porto of Spain, capital de Trinidad Tobago partindo para mais uma longa pernada até a capital carioca.

canhão DCN/Creusot-Loire 3.9 (100 mm)/55 Mod 68 CADAM

Na saída do porto do Rio, a Fragata Bosísio e o Submarino Tamoio da Marinha do Brasil, realizaram uma “Passex” com os navios franceses, que, em seguida, realizaram um segundo cruzamento do Atlântico, em direção à capital angolana, Luanda, entre os dias 1º e 5 de março . O passo seguinte é para o sul até à Cidade do Cabo, na África do Sul. Entrando no Oceano Índico o GEAOM se dirigiu para Mayotte, nas ilhas Comoros e em seguida se dividiu, o Jeanne d'Arc seguindo para a cidade de Antsiranana na ilha de Madagascar e o Georges Leygues adentrando Dar es Salaam na Tanzânia. No dia 13 de abril os navios chegam juntos a Djibouti, antiga possessão francesa entre o chifre da África e o Mar Vermelho. No fim do mês chegam a Alexandria seu último porto africano e em seguda rumam para Barcelona no sudeste espanhol antes de retornarem à França. Após breves paradas nos portos de Ruen (Jeanne d'Arc) e St Malo (Georges Leygues) a viagem se encerrará no dia quatro de junho; novamente em Brest.

Lançador do missel CrotaleLançadores do missel MM-38Lançadores de ChaffPôpa da Fragata George Leygues e seu sonar rebocável DUBV43. O mesmo foi utilizado no exercício contra o Submarino Tamoio da Marinha do Brasil.

Mas a passagem dos anos já está evidente para o veterano porta-helicópteros, uma modernização de grande porte não se justifica mais e entre 2010 e 2012 o navio deve sair de serviço. O Comandante Hervé Bléjean, respondendo sobre o futuro do GEAOM após a saída de cena do porta-helicópteros disse: “A situação ainda está indefinida, a construção de um navio novo exclusivamente para esta função, no momento, nos parece meio difícil de ocorrer uma vez que nos encontramos num forte programa de re-equipamento e construindo novos porta-aviões, fragatas e submarinos. Uma das várias hipóteses em análise seria espalhar os alunos diretamente pelos diversos navios de linha da esquadra francesa, outra possibilidade, ainda, seria a construção de um navio-escola pan-europeu, mas, para isso, os vários currículos teriam que ser ‘alinhados' e isso toma tempo. Hoje em dia o nosso navio não transporta uma escola, ele É a escola.” E foi, justamente, seu uso intensivo como escola que acabou impedindo que o Jeanne d'Arc fosse devidamente modernizado ao longo dos anos. Assim, apenas o George Leygues dispõe de sistemas avançados de comunicação, como o datalink, cabendo a ele realizar a interface do grupo com o resto do mundo militar francês.

As Operações “Inter-armées” francesas

Sendo uma das forças armadas mais efetivas do mundo não deixa de saltar aos olhos a grande interrelação entre a Marinha Francesa e as demais forças francesas. O CMG Bléjean explicou que:” A Marine Nationale não precisa ter sua própria estrutura de treinamento para pilotos, já que toda a fase básica ocorre dentro das escolas da Força Aérea Francesa, a Armée de l'Air. Aqueles pilotos que forem designados para voar caças embarcados são, em seguida, enviados aos EUA para fazer esta conversão operacional. Por sua vez apenas algumas funções de helicópteros embarcados são atribuídas à MN, especialmente a guerra anti-submarino e anti-superfície. Os helicópteros pesados de transporte de tropas e de carga (Super Puma/Cougar) são todos do exército francês. O pilotos do exército qualificados nas aeronaves recebem um curto curso de pouso em navios (grandes) nas unidades da Marine antes que possam operar a bordo. Além dos grandes Cougars que estão em fase de substituição pelos modernos NH-90 em todas as FFAA francesas, operam embarcados também os helicópteros de ligação e de ataque Gazelle e em breve os Tigre. Caminhando por dentro do navio percebe-se em muitos lugares os diferentes macacões de vôo dos pilotos do Exército e da Marinha, mas isso não faz com que “panelinhas” se formem, aqui são todos militares franceses executando a mesma missão, juntos.

 

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