UNITAS XLVIII PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles e Pierre Vincent   
Thursday, 15 May 2008 08:03

 

  

 Introdução

 Nas palavras do Comandante de la Flota de Mar da Armada Argentina, a Unitas é um exercício muito importante para a Argentina, assim como para os demais países. Neste ano serão mais de 2500 militares a bordo dos quinze navios participantes, sem contar os muitos outros indiretamente envolvidos, como os que servem na Base Naval de Puerto Belgrano. Só de argentinos foram mais de 700 homens e mulheres em seis navios de guerra. Nos dias de porto, um bom número de simpósios e conferências uniram e compartilharam os conhecimentos dos diversos especialistas oriundos de cada uma das marinhas.

 O Almirante salientou que “com o aumento dos sistemas eletrônicos embarcados e a presença cada vez maior de computadores digitais e redes de dados, cada Unitas traz novas lições e novos desafios. Todos nós temos que adestrar a operação conjunta com outras marinhas, como seria necessário numa operação sob a égide da ONU”. A Argentina enviou seus navios para o Golfo Pérsico na primeira Guerra contra o Iraque. Nesta ocasião ficou clara a necessidade de se dominar não somente as leis nacionais, mas também a legislação internacional e os regulamentos da ONU. Concluindo, ele lembrou que “a Unitas nasceu para garantir a paz através da união e praticar a solidariedade entre as nações do Hemisfério Ocidental num mundo cada vez menor”. Além dos participantes, nesta edição também vieram observadores de países amigos: Portugal e Egito.

 O Almirante concluiu dizendo que na opinião dele não existe exercício com nome melhor e mais bonito do que o “Fraterno”, realizado anualmente entre as marinhas do Brasil e da Argentina. É uma palavra simples que, de cara, expõe a profundidade e proximidade da relação existente entre os dois povos e as suas marinhas.

 A UNITAS 2007 – Fase Atlântico se desenrolou entre os dias 4 e 11 de maio. 

 Chegando a Belgrano
 

 Na altura da costa do Brasil os GTs americano e brasileiro se encontraram no mar, ocorrendo então um longo exercício “Passex”. Nele o Navio Tanque Gastão Motta transferiu impressionantes 2 milhões de litros de combustível para os navios do GT 4.0 da US Navy. Apenas o Pearl Harbor recebeu quase 800.000 litros de MAR-C, o óleo combustível usado pela MB. Enquanto os navios americanos aportaram em Buenos Aires para reaprovisionar e permitir que seus marinheiros pudessem descansar após a longa viagem no mar, os navios brasileiros fizeram o mesmo numa parada intermediária de três dias no porto de Itajaí.

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.
Rebocador USS Pearl HarbourFragata BosísioUSS Pearl Harbour

 Na boca da Bahia Blanca os navios brasileiros encontraram o ARA Almirante Brown e os quatro navios do GT americano. Na manhã seguinte, dia 2 de maio, entre o início do processo de receber os práticos e o primeiro navio adentrar o canal, decorreram-se cerca de sete horas. Cada navio levou entre 4 e 5 horas até ser atracado.

   

 Em Puerto Belgrano

 Uma vez encerrado o demorado e delicado processo de fazer com que todos os navios cruzassem o longo canal de acesso até a Base Naval de Puerto Belgrano, um a um eles foram sendo devidamente posicionados ao longo do interior dos dois braços de píer em formato de “U” da base. Ao Fundo do “U” estavam dois destróieres argentinos da classe Meko 360, o La Argentina com o Almirante Brown posicionado contra seu costado externo. Logo atrás deles um navio anfíbio da armada Argentina, o “Bahia de San Blas”. Na proa do La Argentina estavam as duas escoltas brasileiras, a fragata Independência com a fragata Bosísio a contrabordo. Atrás destas, o navio tanque Gastão Motta e em seguida o navio logístico ARA Patagônia. Fechando o lado sul do cais, as duas fragatas OHP, a americana Samuel B. Roberts com a espanhola Santa Maria a contrabordo. Em paralelo a estas duas, do lado externo do píer, o ARA Santísima Trinidad, o destróier Type 42 argentino danificado por um ataque de mergulhador terrorista em 1973.

SB Roberts sendo manobrada por rebocadores na Base de Puerto BelgranoGastão Motta sendo manobrado por dois rebocadores em Puerto BelgranoGastão Motta deixando o porto com o auxílio de rebocadoresARA Patagônia sendo manobrado por rebocadores em Puerto Belgrano no dia da saída

 No braço norte do porto, próximo a sua entrada, ficou o USS Pearl Harbor. Em paralelo a ele, do lado de fora do píer, estava o quebra gelos argentino Almirante Irizar, que recentemente foi vitima de um terrível incêndio em alto mar. Atrás do “Bahia de San Blás” ficaram as outra duas Meko 360 que não participaram do exercício. A Sarandí ficou posicionada entre a La Heroína e a fragata chilena Latorre, que chegou junto com os navios estrangeiros. Atrás destas três, ficavam todas as corvetas Meko 140, dispostas em dois conjuntos de três navios. No primeiro, estavam a ARA Rosales, a Robinson e a Espora, no segundo, bem na proa do Pearl Harbor, ficaram a ARA Spiro, a Parker e a Gómez Roca.

 O USS Mitscher, devido ao seu tamanho e calado de 9,3 metros, teve que aportar no Puerto Ingeniero White, o grande porto comercial daquela região, localizado alguns quilômetros mais para o interior da Bahia Blanca, em frente à cidade do mesmo nome.

ARA Patagônia sendo manobrado por rebocadores em Puerto Belgrano no dia da saídaARA Patagônia deixando Puerto BelgranoDuas OHP em Puerto Belgrano. A espanhola Santa Maria e a Norte-Americana SB Roberts3 Corvetas Meko 140 na véspera do início do exercício
Contra-torpedeiros La Argentina (E) e Alm. Brown (D)Fragatas Bosísio (E) e Independência (D)Navios argentinos e brasileiros atracados em Puerto Belgrano3 Corvetas Meko 140 na véspera do início do exercício

 Toda esta faina se desenvolveu por toda a manhã, ocupando os tripulantes até a hora do almoço. Pela tarde, o primeiro evento formal foi a Cerimônia de Abertura no anfiteatro da moderna Escuela de Oficiales da Armada. Aqui se reuniram todos os comandantes de navios e os estados maiores dos comandantes dos Grupos Tarefas nacionais para receberem as boas vindas do Contra Almirante Antonio Torres, o Comandante da “Flota de Mar” (o equivalente do “COMEMCH” na Marinha do Brasil). Num curto pronunciamento, o Almirante deu boas vindas a todos e o mestre de cerimônias informou que os briefings finais para a realização do Final Battle Problem seriam realizados em seguida, para que cada comandante de navio e seu staff pudessem saber exatamente qual o papel que seria demandado pelo seu “comando”.

Hasteamento da bandeira de porto, na popa, momentos antes da saídaRebocadores manobram a fragata Santa Maria em Puerto BelgranoA espanhola Santa Maria pronta para sair de Puerto BelgranoVisão da La Torre a partir da proa. Fica evidente a dimensão do quebra mar que, como vimos durante o exercício, é indispensável neste projeto
Oficiais das diversas marinhas presentes na cerimônia de aberturaComandantes das forças presentes no exercício durante a aberturaComandantes das forças presentes no exercício durante a aberturaTropas alinhadas para a homenagem aos mortos no afundamento do Cruzador General Belgrano
Oficiais das diversas marinhas prestam continência aos mortos no afundamento do Gal. Belgrano
Oficiais das diversas marinhas prestam depositam coroas de flores no monumento erguido em memória aos que afundaram com o General Belgrano
 

 

 

 O Briefing do Final Battle Problem

 Os “Laranjas”, grupo sob o comando do Commodore Snyder, comandante do TG americano, se reuniram em uma sala e os “Azuis”, sob a tutela do Almirante Marco Antonio Falcão, se organizaram em outro. Do lado dos “Azuis” estavam as escoltas Independência, Bosísio, Latorre, Samuel B. Roberts, e a Spiro. O Commodore Snyder, por sua vez, recebeu sob seu comando, o USS Mitscher, a Santa Maria, a corveta Gómez Roca e os dois submarinos, o Tamoio e o Salta.

 Formando as “unidades neutras” (navios brancos) ficaram os navios maiores, o Pearl Harbor, o Patagônia e o Gastão Motta. No exercício eles representavam os mercantes que ao cruzar a área sob controle de azul deveriam ser escoltados e protegidos dos avanços das forças laranjas.    

 Segundo a avaliação do comando das forças azuis, a força laranja dispunha de dois elementos que a tornavam superior aos meios de Azul: primeiro os dois submarinos, e em seguida o Mitscher. Um grande “desequilibrador”, assim era percebido o destróier Arleigh Burke, com sua grande capacidade anti-submarino, anti-superfície, antiaérea e especialmente os mísseis Tomahawk para atacar alvos em terra.

USS MitscherEsquilo da Marinha do Brasil aproximando-se do Pearl HarborIndependência com o helicóptero Independência batendo proa no mar agitado

 Este briefing foi conduzido pelo Cte Senna, CHEOP da 1ª. Divisão da Esquadra, unidade da Marinha Brasileira comandando o GT brasileiro na Unitas. Segundo ele, localizar e neutralizar o Mitscher deveria ser um objetivo primordial dos azuis. Entretanto nem tudo favorecia os laranjas: durante a noite, ao somar os dois SH-60B da SBR com o Super Lynx brasileiro, os azuis obtinham uma dianteira importante no ar.

 Os submarinos tinham a profundidade da área agindo contra eles. Cerca de metade do espaço dedicado ao exercício, localizado da boca da Bahia Blanca até o meridiano que corta a cidade de Mar del Plata, apresentava uma profundidade menor que 50 metros, e os submarinos estavam impedidos (por questão de segurança) de operar nestas condições. Para realizar sua missão de proteger o tráfego marítimo na área, o comando da força Azul decidiu criar um “Special Control Zone”, onde a presença esperada de um grande número de navios mercantes reais poderia complicar ainda mais a tarefa de localizar os navios laranjas que podem se esconder no meio deste tráfego.

Independência batendo proa no mar agitadoIndependência aproximando-se do Pearl Harbor para faina de light-lineIndependência aproximando-se do Pearl Harbor para faina de light-lineTripulantes da Independência a postos para a faina de light-line com o Pearl Harbor

 A área do exercício foi quebrada em três faixas verticais de oeste para leste: as sub-áreas “Alfa” e “Bravo”, e a terceira composta de “Charlie” e “Delta”. A “Charlie” incluía unicamente a região com uma profundidade inferior a 50 metros, e a outra compreendia a área mais profunda que isso. Uma quinta área “Echo” foi identificada a oeste da carta, efetivamente fora da área do exercício. A entrada e a saída dos mercantes nesta área controlada era feita exclusivamente através dos “portões” sul e norte que delimitavam os sea lanes. Os escoltas estavam distribuídos por entre as áreas Alfa, Bravo e Charlie; a Delta por ser mais distante seria coberta exclusivamente pelos helicópteros em missão de esclarecimento. Um conjunto de treze procedimento pré-planejados (os “PrePlans”) foram passados aos Comandantes de navio presentes para uso durante o exercício. Neles já se encontravam muitas situações previstas, desde os primeiros que são exclusivamente alertas via rádio aos navios laranjas, até os finais que envolviam o uso de armamento contra eles. A maioria destas ações mais agressivas exigiriam inclusive a autorização prévia dos juízes do exercício para serem implementadas, uma vez que um dos objetivos maiores dos “Final Battle Problems” atuais é justamente evitar que uma “batalha” real se inicie com o disparo de mísseis e de tiros de canhão.

Independência durante light-line com o Pearl HarborIndependência afasta-se do Pearl Harbor após a faina de light-lineIndependência escoltando o Pear Harbor a uma certa distância durante o Final Battle ProblemIndependência escoltando o Pear Harbor a uma certa distância durante o Final Battle Problem

 O planejamento da cobertura previa que os diversos mercantes seriam escoltados até a borda de cada sub-áreas, quando um outro navio azul, baseado na sub-área seguinte, assumiria a escolta deste navio até a fronteira da próxima sub-área. Mercantes navegando fora das “lanes” não seriam escoltados, e, assim, estariam optando por correr seus próprios riscos.

 Os navios Laranja poderiam decidir realizar três tipos de ações:

  1. Atacar todos os navios
  2. Atacar os navios Brancos
  3. Atacar os navios Azuis

 Os azuis identificaram que eles tinham três hipóteses para tentar realizar a sua missão:         

  1. Escoltar cada um dos mercantes na região afetada
  2. Partir para neutralizar de saída os navios e submarinos do país laranja
  3. Montar “sea lanes” para escolta e obrigar os mercantes a trafegarem por elas

 Destas três, tendo em vista as limitações do tamanho da área e o número de navios disponíveis para o grupo azul, apenas a terceira opção seria simultaneamente adequada, exeqüível e aceitável, e este foi adotado. Pra minimizar os riscos de submarinos estas rotas foram criadas exclusivamente próximas à costa, sobre o trecho da área restrita às operações   deles.

 O Final Battle Problem seria de longa duração, se estendendo de 0h00 do dia 8 até o dia 11 às 15h00, ou antes, se assim desejar o juiz.

 

 Um Estranho no Ninho Argentino

 A rivalidade, e em alguns momentos da historia, hostilidade declarada entre os vizinhos Argentina e Chile quase eclodiu numa guerra real no ano de 1978. Nesta ocasião a disputa por três pequenas ilhas no acesso ao Canal de Beagle, localizado no extremo sul do continente, colocou ambas as forças militares em alerta máximo. Poucos anos depois o apoio logístico chileno aos britânicos durante a Guerra das Malvinas afastou ainda mais os dois paises sul-americanos. Mas foi preciso a redemocratização de ambos os países e mais de 25 anos se passarem para que um navio militar chileno viesse a aportar na principal base naval Argentina. Esta honra histórica coube a fragata Almirante Latorre FFG14 (a ex-HNLMS Jacob van Heemskerck) sob o comando do Capitán de Navio Rodrigo Alvarez.

A fragata La Torre proporcionando um belo visual no mar agitado
A fragata La Torre proporcionando um belo visual no mar agitado
O seahawk espanhol aproximando-se da Santa Maria para pouso
A espanhola Santa Maria posicionando-se para o exercício de tiro
Bosísio vista pela alça de mira óptica do Alm. BrownBosísio pela mira optrônica do Alm. BrownUSS Samuel B. Roberts sendo abastecida pelo ARA Patagônia com a USS Mitscher ao fundoUSS Samuel B. Roberts sendo abastecida pelo ARA Patagônia

 A Latorre é uma fragata da Classe “L”, construída na Holanda e comissionada em 5 de novembro 1983 para a marinha daquele país, tendo sido adquirida há poucos anos pelo Chile. Junto com ela, dentro do projeto “Puente II”, foram compradas mais uma “L” e outras duas fragatas multi-função da classe “M”. As “L” se destacam no ambiente sul-americano por portar um lançador múltiplo de mísseis anti-aéreos de longo alcance do tipo Standard SM-1MR. Curiosamente, este modelo não conta com um convôo na popa para a operação de helicópteros. As “L” deslocam 3,750 toneladas e podem levar até 40 mísseis Standard em seu lançador Mk-13 que fica posicionado a ré. Complementando os Standards, o navio ainda leva um lançador óctuplo de Sea Sparrow na proa. O navio é movido por duas turbinas a gás Olympus e outras duas Tyne, a mesma combinação presente nas Type 22 da Marinha do Brasil e nas Meko 360 argentinas. Para guerra anti-superfície esta classe usa os mísseis Harpoon de origem americana. Para realizar a defesa de ponto a Latorre conta com um sistema inglês Goalkeeper.CIWS montado na sua popa.

Corveta Spiro escoltando o Pearl Harbor durante exercício de abastecimento no mar sob ameaça aéreaOs dois navios tanques, o Pearl Harbor e a fragata Bosísio, cobrindo um dos setores da formação contra ameaças aéreasGomez Roca, em primeiro plano, com o Patagônia e a Mitscher ao fundoMitscher recebendo óleo do Patagônia sob a proteção da SB Roberts

 A presença da Almirante Latorre na fase Unitas Atlântico é explicada por sua presença integral no exercício “Partnership of the Americas”, como um apêndice do Grupo Tarefa 40.0 da Marinha Americana. A Latorre partiu de Valparaiso no dia 26 de fevereiro navegando direto até Mayport onde, após duas semanas no porto, partiu junto com a Samuel B. Roberts para circunavegar o continente sul-americano. Segundo o Capitan de Navio Alvarez as missões de longa duração estão cada dia mais comuns na Armada de Chile, especialmente no Oceano Pacífico. O envolvimento da Marinha do Chile com a US Navy é evidenciado também pela escala e pela importância do exercício Team Work South 2007  realizado neste ano nas costas do Chile. Ele completou que, “a despeito de fazerem parte de um Grupo Tarefa da US Navy, o navio de maneira alguma abre mão de suas restrições legais impostas pela legislação e constituição chilenas”. Este exercício demonstra o apoio do Chile e da sua Armada ao conceito de operações conjuntas e cooperativas proposto pelo almirante americano Mike Mullen em 2006 para operações globais integradas em grande escala, formando assim uma metafórica marinha (multinacional) com 1000 navios. A tal “Thousand-ship Navy” seria, assim, várias vezes maior que qualquer marinha individualmente poderia ser, mesmo a americana.

 O Pre-Sail Conference

 Esta foi a última reunião, na tarde anterior à partida dois navios. Seu objetivo maior era relatar qualquer alteração de planos em relação às informações constantes do material previamente distribuído. Nesta ocasião ficou definido que os helicópteros Fennec (Esquilo) argentinos não poderiam participar da Unitas por razões técnicas e por isso eles seriam substituídos pelo único UH-12 do Esquadrão HU-1, da Marinha do Brasil, que veio a bordo da fragata Independência. Outro tema importante era a previsão meteorológica que apontava para fortes ventos e mar pesado durante todo o período inicial do Exercício. As ondas, segundo o serviço de meteorologia da Armada Argentina, poderiam chegar até 4 metros no quarto dia.

Tripulantes de todas as marinhas participantes do exercício durante a instrução de técnicas de imobilização provida por pessoal da Guarda Costeira Norte-AmericanaTripulantes de todas as marinhas participantes do exercício durante a instrução de técnicas de imobilização provida por pessoal da Guarda Costeira Norte-AmericanaTripulantes de todas as marinhas participantes do exercício durante a instrução de técnicas de imobilização provida por pessoal da Guarda Costeira Norte-AmericanaIndependemente de sexo ou bandeira os militares participaram deste exercício trocando experiência e técnicas

 Neste dia também foi realizado o “MIO Seminar”, um curso rápido oferecido por especialistas da Guarda Costeira Americana, para os tripulantes que compunham os Grupos de Vistoria e Inspeção/Grupos de Presa dos vários navios presentes. Dezenas de militares de todos os países se reuniram no “Gymnásio del Comando de la Flota de Mar” para aprender as melhores e mais seguras maneiras para imobilizar tripulantes hostis e/ou perigosos que porventura estejam a bordo dos navios inspecionados em alto mar. Técnicas de imobilização e de colocação de algemas foram exibidas e exercitadas repedidas vezes.

 A Partida

 Na manhã do dia 4 os navios foram um a um deixando o porto. Após os práticos terem desembarcado, a partir da bóia 11, os navios foram divididos em dois grupos. Aquele que agrupava o Gastão Motta, a Santa Maria, a Independência, a Bosísio e a Latorre, escoltados pelo aviso ARA Teniente Olivieri (A-2) e pelo navio balizador Punta Alta (Q-63), realizou uma saída de porto através de canal simulado no meio de um campo minado também simulado. Os demais saíram dá áreas de forma independente para desobstruir o canal de acesso à Bahia Blanca. Nesta tarde, os navios com helicópteros fizeram os seus QRPBs (Qualificação/Requalificação de Pouso a Bordo) e os que não levavam helos fizeram “leapfrogs” (troca de posição dos navios dentro da coluna de navegação). Um “rendezvous” de todos os navios e o destacamento da Corveta ARA Gomez Roca deu início ao Trânsito sob Ameaça de Superfície, entre 23h00 e 03h00 do dia seguinte.

Esquilo Bi da Marinha do Brasil realiza passagem enquanto aguarda a liberação do convôo do Pearl HarborAeronave brasileira após a decolagem a partir do Alm. BrownA fragata Independência aproxima-se da Santa Maria durante exercio de MIOGastão Motta manobrando com a Santa Maria em sua bochecha de boreste
 

 Às 8h00 iniciou-se, na área Teresa, o CASEX S-1, o combate simulado entre os dois submarinos. De um lado o Tapajó, da Marinha do Brasil e do outro o ARA Salta da Armada Argentina. Para garantir a segurança das tripulações os submarinos tiveram que operar em profundidades diferentes e, ao encerrar o exercício, às 14h00, cada um deixou a área numa direção oposta.

 A oeste dali os demais navios se prepararam para, entre 09h00 e 13h00, realizar transferência de óleo no mar, real e simulada, enquanto aguardavam o ataque de aeronaves de terra. Para isso, compareceram dois Super Etendart e, posteriormente, dois Embraer Xavante (curiosamente chamados de “MC-32” na Argentina). Sua estratégia era afundar, com ataques rasantes, os alvos de maior valor, neste caso, o Patagônia, o Gastão Motta e o Pearl Harbor.

MB-326 da Armada Argentina realiza passagem sobre o Alm. Brown após simular ataque aos navios tanques e o Pearl HarborMB-326 da Armada Argentina realiza passagem sobre o Alm. Brown após simular ataque aos navios tanques e o Pearl HarborMB-326 da Armada Argentina realiza passagem sobre o Alm. Brown após simular ataque aos navios tanques e o Pearl HarborMB-326 da Armada Argentina realiza passagem sobre o Alm. Brown após simular ataque aos navios tanques e o Pearl Harbor
 

 Nesta noite houve tiros contra granadas iluminativas entre 20h30 e 23h30, e poucas horas depois ocorreram os exercícios de trânsito sob ameaça submarina. Aqui, cada um dos submarinos se posicionou dentro de uma área própria e o GT tinha que cruzar ambas durante a faina de TOM evitando que os submarinos tivessem sucesso em destruir os alvos de maior valor. Por questões de segurança, neste exercício foi proibido o uso de sistemas rebocados do tipo Tactical Towed Array (TACTAS), sonares de profundidade variável (VDS) e de detectores rebocados de torpedos (TTD). Este exercício ocupou toda a manhã do dia 6 de maio. De tarde ocorreram manobras para fotografias (Photex), onde os navios começaram afastados 2000 jardas e foram se aproximando até alcançar as 500 jardas de separação. Em seguida ocorreram os pousos “crossdeck” (aeronaves de um navio pousando em outros navios) e exercícios de transferência de carga pelos helicópteros do GT. O Esquilo bi-turbina da Marinha do Brasil, o “Águia 69”, e um dos SH-60B da Samuel B. Roberts fizeram vários pousos e decolagens do convôo do Pearl Harbor.

Os navios participantes da Unitas XLVIII formando para o fotexOs navios participantes da Unitas XLVIII formando para o fotexOs navios participantes da Unitas XLVIII formando para o fotexOs navios participantes da Unitas XLVIII formando para o fotex
Os navios participantes da Unitas XLVIII formando para o fotexOs navios participantes da Unitas XLVIII formando para o fotexOs dois navios tanques que participaram do exercício Patagônia e Gastão Motta, acompanhados pela fragata Santa MariaGastão Motta e a Bosísio durante exercício de reabastecimento no mar sob ameaça aérea
Aproximação do Esquilo no contra-luzEsquilo Bi da Marinha do Brasil realiza passagem enquanto aguarda a liberação do convôo do Pearl HarborMomentos antes do toque no convôo do USS Pearl HarborO ofical de sinalização confere as correntes antes de liberar a decolagem da aeronave brasileira
Seahawk embarcado na SB Roberts aproxima-se para pusar no Pearl Harbor, formando trilhas de condensação nas pontas das pás da héliceSeahawk embarcado na SB Roberts aproxima-se para pusar no Pearl Harbor, formando trilhas de condensação nas pontas das pás da héliceSH-60B da USNavy após decolagem a partir do Pearl HarborPor este ângulo ficam vísíveis os tubos de lançamento de sonobóias, do lado esquerdo, e o Detector de Anomalias Magnéticas, do lado direito, evidenciando a vocação anti-submarina desta aeronave
 

 

 O Final Battle Problem

 O exercício Unitas foi dividido em duas etapas: primeiro o “Work-up” e em seguida o FBP. No primeiro, uma série de exercícios padrão de cunho mais simples vai sendo sucedido por outros cada vez mais exigentes, até que as tripulações e os vários Estados Maiores estejam confortáveis com sua capacidade de operação conjunta com as demais unidades.

 Como anfitriões coube aos argentinos a tarefa de coordenar todos os participantes para que o exercício tivesse sucesso. Houve três etapas individuais de planejamento: a Inicial, a Intermediária e a Final. O cenário e a distribuição dos meios para o Final Battle Problem foram propostos pelos argentinos, já no primeiro destes encontros. Em cada um deles, o projeto do exercício como um todo era atualizado com os recursos disponíveis, e ia sendo firmado ao serem resolvidas todas as dúvidas e as pendências operacionais que naturalmente aparecem nestes casos. Um cenário para o FBP envolvendo forças terroristas foi inicialmente proposto pelos americanos, sendo, no entanto, prontamente descartado pelos anfitriões, pois na Argentina eles são constitucionalmente impedidos de empregar a Armada em casos desta natureza.

Contra-torpedeiro Alm. Brown visto a partir do Esquilo da Marinha do BrasilO Alm. Brown e suas características chaminés inclinadasAlm. Brown e SH-60 da USNavy ao fundoAlm. Brown como parte da Força Azul durante o Final Battle Problem, a poucas milhas do Pearl Harbor
Alm. Brown como parte da Força Azul durante o Final Battle Problem, a poucas milhas do Pearl HarborAlm. Brown como parte da Força Azul durante o Final Battle Problem, a poucas milhas do Pearl HarborAlm. Brown como parte da Força Azul durante o Final Battle Problem, a poucas milhas do Pearl HarborAlm. Brown como parte da Força Azul durante o Final Battle Problem, a poucas milhas do Pearl Harbor
 

 A grande mudança deste exercício foi a mudança das suas datas. Historicamente a Unitas ocorria bem no final do ano, sendo praticamente a coroação da uma seqüência de exercícios intra-nacionais e binacionais, como as Esquadrex, Tropicalex e Temperex e as Fraterno com os argentinos. Mas, justamente neste período, o tempo piorava sensivelmente nos mares do sul, o que atrapalhava o aproveitamento dos diversos exercícios. Em função disso, daqui para frente foi decidido mudar a Unitas para que ocorresse apenas no primeiro semestre.

 A Marinha do Brasil, para realizar seu papel de comando das forças azuis, usou neste caso o seu procedimento padrão de planejamento de missões. O exercício foi apropriadamente quebrado em termos de “cenário”, “meios” e “missão”.Para saber se seu projeto tático tinha consistência, a Div-1 levou ele para ser testado previamente nos simuladores do Centro de Jogos da Escola de Guerra Naval. Por isso coube aos instrutores da EGN, o papel de comandar as forças laranjas.

 O planejamento do “Comando Azul” (Marinha do Brasil) apoiava-se na criação de corredores de tráfego marítimo (“sea lanes” em inglês) cruzando a região afetada de leste para oeste. Apenas os navios mercantes circulando dentro destes corredores estariam aptos a serem protegidos pelos escoltas de Azul.

 A sub-área “Echo” foi criada pela Div-1 do lado de fora da área do exercício, caso alguma circunstância política no cenário exigisse que aquela área fosse incluída nos planos táticos durante o decorrer do exercício.

 Durante o planejamento os argentinos ofertaram um P-3 Orion e um S-2T Turbo Tracker para o “Comando Azul”. No entanto, na “hora H” o P-3 não estava disponível, e assim coube ao S-2T realizar ambos os vôos previstos de 4 horas cada. Como a região do exercício era bem costeira não houve nenhuma perda ao se utilizar um modelo patrulheiro de alcance menor ali. As fragatas Independência e a Latorre patrulharam a sub-área “Alfa”, a OHP Samuel B. Roberts e a Almirante Brown assumiram a sub-área “Bravo”, e a Bosísio e a corveta ARA Spiro cuidaram da “Charlie”. A sub-área “Delta”, localizada além da linha isobatimétrica de 50 metros, ficou sob atenção exclusiva do Super Lynx da MB e dos dois Sikorsky Sea Hawks da SBR.

Super Lynx da Marinha do Brasil aproxima-se do Alm. Brown para transferência de pessoalSuper Lynx da Marinha do Brasil aproxima-se do Alm. Brown para transferência de pessoalSeahawk aproximando-se do Pearl Harbor num dia muito nublado com o ARA Patagônia ao fundoSH-60B aproximando-se do Pearl Harbor num dia de muita chuva
 

 Após o inicio do FBP ambos os lados aparentavam não desejar iniciar o conflito, e acabaram escoltando os navios brancos um de cada lado, sem que nenhuma hostilidade tenha eclodido. Por sua iniciativa o árbitro decidiu criar um “ataque de terroristas” contra um navio branco. Os vilões foram lançados “virtualmente” pelo ARA Salta e as escoltas azuis foram instruídas a ir caçá-lo no meio do mar entre as sub-áreas “Alfa” e “Bravo”. A Spiro, a Latorre e a Independência deram o combate ao Salta, que operava em conjunto com o Sea Hawk da Santa Maria. Este Sea Hawk em um momento se aproximou da “Sammie B”, mas, alertado a abandonar imediatamente a região, aceitou as ordens sem questionar. Encerrado esse exercício inopinado, retornou-se à tarefa de escolta dos “mercantes brancos”. Ainda no primeiro dia todos os navios de superfície laranjas já tinham sido localizados pelos helicópteros azuis. Como todos os navios gradualmente foram se aproximando uns dos outros, a inicialmente temida vantagem das armas de maior alcance do destróier Arleigh Burke foi rapidamente se diluindo.

 No fim do Problema de Batalha foi criado um sub-cenário que testaria a capacidade de reação rápida dos azuis. Na hipotética ilha Zulu, pertencente ao país roxo, mas povoada de nacionais de laranja, uma sublevação do povo laranja demandou que tropas anfíbias fossem enviadas à ilha para restabelecer a ordem. Neste momento o USS Pearl Harbor deixou de ser um navio branco e assumiu sua função primária de navio de desembarque anfíbio. As escoltas de azul rumaram para um “porto” na costa, onde encontraram o NDD, e seguiram mais rápido que puderam para a Ilha Zulu, localizada a 150 milhas náuticas de distância. Aos laranjas coube se reposicionar, fazendo a cobertura da Ilha e tratando de tentar afundar o Pearl Harbor o quanto antes. No momento em que finalmente seriam disparados os primeiros mísseis anti-navio, o árbitro deu como encerrado o exercício.

 Neste Final Battle Problem ficou evidente para todos a importância de se ter um planejamento inicial flexível que possa ser reorganizado durante a própria realização da missão.

 Os navios brasileiros partiram de Bahia Blanca via Buenos Aires onde ficaram de 18 a 20 de maio, chegando ao Rio de Janeiro no dia 31 de maio. 

A Bosísio aproxima-se para formar com o Pear HarborFragata Bosísio ultrapassando o Pearl HarborVista pela popa da BosísioBosísio aproximando-se do Pearl Harbor
Patagônia acompanhada pela Spiro durante formação para FotexAs escoltas ainda em coluna após o exercício de tiro contra drone aéreoAs escoltas quebrando a formação após o exercício de tiroA Santa Maria saindo da formação após a conclusão de mais uma etapa do exercício
O navio tanque Gastão MottaO navio tanque Gastão MottaGastão Motta acompanhado de perto pela Corveta Gomez RocaO navio tanque Gastão Motta
A corveta argentina Gomez RocaBote com a equipe de abordagem e a corveta ao fundo, apoiando a operaçãoMembros da equipe de abordagem da Spiro, apesar do bote ser do ARA Parker, aproximando-se do Pearl HarborIntegrante da equipe de abordagem da Spiro embarcando no Pearl Harbor
Cerca de metade do caminho entre a contra-torpedeiro Alm. Brown e a fragata Santa MariaDepois de cerca de uma hora a equipe de abordagem alcança a Santa MariaOs membros da equipe de abordagem, um a um, embarcam na Santa MariaA montagem deixa claro que, mesmo num mar aparentemente tranquilo, uma pequena embarcação é extremamente difícil de ser detectada visualmente, o que evidencia a gravidade de situações como homem ao mar e operações de abordagem onde vulneráveis botes e lanchas são utilizados em mar aberto
Tripulantes do Patagônia a postos para uma faina de Transferência de Óleo no MarDetalhe da conexão na extremidade do mangoteNavio tanque adquirido da França, Ex-Durance, ARA PatagôniaARA PAtagônia após uma simulação de TOM com o USS Pearl Harbor
Super Lynx da Marinha do Brasil aproxima-se do Alm. Brown para transferência de pessoalExato instante em que o Super Lynx deixa o convôo do Alm. Brown, com seu trem de pouso parcialmente no arA Spiro durante exercício MIO. É possível observar o bote sendo lançado por boresteA corveta Spiro formando com o contra-torpedeiro Alm. Brown
A corveta Spiro formando com o contra-torpedeiro Alm. BrownA corveta Spiro afundando a proa consideravelmente num mar não tão agitadoDetalhe do lançador Mk13 carregado e conteiradoA Santa Maria jogando no mar agitado

 

 

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