US Navy: Partnership Of Americas PDF Print E-mail
Thursday, 15 May 2008 08:07

 

 A “Parceria das Américas”: O maior esforço de diplomacia militar da US Navy na América Latina

 Em 2007 a ALIDE voltou a embarcar numa operação Unitas. Desta vez nossa ótica foi outra e embarcamos no USS Pearl Harbor para poder observar de perto a Marinha Americana e aprender como ela enxerga seus variados comprometimentos militares na nossa parte do globo

 Introdução

 Uma região bem tranqüila para padrões americanos, a América Latina não implica nos riscos e desafios característicos de outras regiões mais “quentes” como o Oriente Médio ou mesmo o Mar da China/Oceano Pacífico ocidental. Assim mesmo, o governo americano acredita que a proximidade militar e política com as marinhas latino-americanas é um requerimento fundamental para que a estabilidade continue a reinar por mais tempo ainda por aqui.

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.
Atividade no convôo da SB Roberts na Base Puerto BelgranoManutenção no CIWS PhalanxConvôo da SB Roberts com uma das aeronavesTripulantes da SB Roberts em postos de continência ao deixar Puerto Belgrano. Os navios da Marinha do Brasil, ao fundo,  aguardam sua vez de partir

 As forças militares americanas são divididas operacionalmente em grandes blocos de abrangência regional conhecidos como “Comandos”. A US Navy, assim como a Força Aérea e o Exército dos Estados Unidos, tem suas unidades regionais subordinadas operacionalmente a estes comandos regionais. O Grupo focado na América Latina é o “Southern Command” (Comando Sul), baseado na Flórida, não surpreendentemente um dos estados mais “latinos” dos EUA. O U.S. Naval Forces Southern Command (NAVSO), é a unidade da Marinha Americana subordinada ao Comando Sul, e tem sua sede em Mayport, próximo da cidade de Jacksonville, também na Flórida. Este é o grupo que mais proximamente  interage com as marinhas de todos os países ao sul dos EUA para programar cada um dos exercícios militares realizados entre as nações do continente.   

 O Partnership of Americas

 Desde  a década de 60 o exercício naval Unitas tem sido o principal ponto de contato desta relação diplomático/militar. Mas agora, com uma série de novos desafios, como o crescimento da importância das ameaças ligadas ao terrorismo e ao tráfico de drogas internacional, cada dia o cenário militar interamericano fica mais especializado e mais complexo e interessante. Neste ano o “Partnership of the Americas” incluiu a participação da US Navy em duas Unitas, as Fases Atlântica e Pacifico, além de um “Team Work South” no Chile e um Exercício Panamax no Caribe e no Pacífico. Cada operação destas contou com a presença de países distintos e colocando em operação conjunta todo um leque de navios diferentes.

Mitscher recebendo óleo do Patagônia sob a proteção da SB RobertsA La Torre levantando bem a proa no mar agitadoA La Torre jogando bastanteVista externa do Pearl Harbor já durante o Final Battle Problem

 Neste ano, apenas o GT40.0, o Grupo Tarefa americano, seria constante ao longo dos quase seis meses do Parnership of the Americas. Eles mandaram para o sul um destróier da classe Arleigh Burke, o DDG-57 USS Mitcher; a fragata Samuel B. Roberts FFG-58, uma dos muitos navios da onipresente classe Oliver Hazzard Perry; e um NDD da Classe Harpers Ferry, o USS Pearl Harbor. Excepcionalmente, nesta vez, o GT americano contou com a presença da fragata chilena Almirante Latorre, a FFG-14. Esta última é uma fragata da Classe L, recém recebida da Real Marinha Holandesa. Para comandar estes navios todos foi designado o Commodore Randy Snyder, comandante do DESRON (Destroyer Squadron) 40 navegando sob o comando operacional do NAVSO. O DESRON 40 é o sucessor do DESRON 6, que, anteriormente, ficava na Base Naval de Pascagoula, no estado americano do Missouri.

 Abaixo reproduzimos a entrevista com o Commodore Randy Snyder, Comandante do GT 40.0:

 ALIDE:  Qual a impressão do senhor sobre as perspectivas futuras do exercício Unitas?

 R: Olhando para os exercícios deste ano, e os do ano que vem, eu não percebo que venha a ocorrer qualquer  grande mudança de formato. Nós precisamos organizar uma força multinacional que consiga trabalhar de forma integrada em ambientes complexos e mutáveis.  O que pode ser alterado de um ano para o outro são os objetivos pontuais do treinamento, mas o conceito mais amplo deve permanecer relativamente inalterado.  Eu participei de dois Exercícios UNITAS, e cada um deles foi um evento complexo que produziu desafios únicos tanto para as forças alocadas, quanto para a nação anfitriã.

 ALIDE:  Como os objetivos do Exercício têm evoluído através dos tempos?

 R: O núcleo central da UNITAS é e tem sido sempre a interoperabilidade.  Deixamos de ser uma série de eventos bilaterais para sermos um grande exercício multilateral, onde muitos países operam juntos.  Nós claramente aumentamos o espectro da UNITAS e melhoramos nossa capacidade de treinar uma grande variedade de situações no mar.

 ALIDE:  Seria correto afirmar que a UNITAS é um pré-requisito técnico para que países da América Latina possam operar junto com a US Navy em outros lugares mais conflagrados pelo mundo afora?

 R: As marinhas com quem operamos na América Latina são extraordinariamente profissionais e bem treinadas, com capacidades técnicas sólidas. Se um país específico se envolve ou não em  operações globais  é uma decisão exclusiva de seu governo.  A UNITAS é um dos muitos exercícios que auxilia para que cada uma das marinhas participantes possa melhorar sua capacidade para responder aos eventos quando isso lhes for solicitado por seus próprios governos.

 ALIDE:  Quais foram os benefícios práticos da conversão de DESRON 6 para DESRON 40, agora sob o U.S. Naval Forces Southern Command?

 R: Este realinhamento faz todo o sentido tendo em vista os nossos novos requerimentos de missão. O Destroyer Squadron 40 se subordina diretamente ao Commander, US Naval Forces Southern Command (NAVSOUTH) como um esquadrão tático focado na área de atenção do Southern Command. Nosso foco aqui está nos exercícios táticos, desde o planejamento até sua execução. Estarmos alinhados diretamente com o NAVSOUTH nos permite focar nossa linha de atuação com um conhecimento muito maior das marinhas desta região.  E podemos dizer que esta é uma ótima solução.

 ALIDE:  Porque estas classes de navios foram escolhidas para esta UNITAS?  Porque não outra combinação qualquer?

 R: A escolha dos navios participantes é determinada por dois fatores: a capacidade e a disponibilidade.  O Almirante Stevenson, comandante do NAVSO, especificou as capacidades que ele desejava para uma determinada missão ou exercício, e os planejadores avaliam a disponibilidade dos ativos para ver a melhor forma de atender aos requerimentos.  Ao alinharmos capacidade e disponibilidade, os navios específicos acabam sendo selecionados naturalmente.

 ALIDE: A presença do USS Pearl Harbor sugere a pergunta: existe a oportunidade para a inclusão de exercícios de cunho expedicionáro/anfíbio dentro da UNITAS?

 R: O USS Pearl Harbor foi incluído neste Exercício Partnership of the Americas para permitir a capacidade expedicionária/anfíbia durante outros exercícios que ocorrerão durante este deployment do POAto. Esperamos poder continuar a trazer navios como o Pearl Harbor em futuras encarnações do Partnership of the Américas de maneira que possamos expandir o leque de exercícios com as marinhas e outras forças militares da região.

 ALIDE:  A presença da CS Latorre integrando um Grupo Tarefa da US Navy por quase seis meses poderia ser vista como um prelúdio de exercícios similares a serem realizados com as marinhas de outros países?

 R: Ter a Latorre junto conosco nesta comissão é ótimo. Estamos realmente gostando de operar tão proximamente com os chilenos, e eu acredito que todos estão se beneficiando desta oportunidade. Eu não tenho uma perspectiva do que isso representa em termos de missões futuras, mas eu posso afirmar que esta foi uma ótima experiência, que nós esperamos que se repita no futuro, seja com o Chile ou com outras nações desta região. 

 ALIDE:  Como foi que se materializou a presença chilena no GT americano ? Isto representa uma nova perspectiva nas relações entre os países sul-americanos e os Estados Unidos?

 R: Eu não participei diretamente destas negociações com a Marinha Chilena. Mas devido à intensidade do contato existente entre os Estados Unidos e seus parceiros por aqui eu não caracterizaria a integração da fragata chilena como uma “nova perspectiva”. A própria Marinha Chilena, por exemplo, participa freqüentemente de exercícios conosco, como a RIMPAC (Rim of the Pacific Exercise).  Eu acredito que ter a fragata Latorre como um membro plenamente integrado do nosso Grupo Tarefa por praticamente todo o exercício é uma oportunidade de ouro para obtermos mais experiência em operarmos juntos.

 ALIDE:  O exercício PANAMAX vem demonstrando um grande crescimento, o Sr diria que isso colabora com, ou compete com, a UNITAS?

 R: O Exercício PANAMAX compartilha alguns objetivos com a UNITAS, como: operar num ambiente multinacional. No entanto, o PANAMAX é especificamente focado no uso de uma força multinacional para auxiliar o Governo do Panamá a garantir a segurança e a neutralidade do Canal do Panamá. Eu diria que os aspectos multinacionais de ambos os exercícios se complementam, mas, para além disso, o efeito seria “neutro”.  Os Exercícios  UNITAS são verdadeiro exercícios táticos multi-missão que permitem aos navios e às suas tripulações a oportunidade de trabalhar em várias áreas operacionais e a desenvolver relacionamentos que perdurarão por todas as suas carreiras militares.

 ALIDE:  Qual sua percepção sobre o futuro da UNITAS e de outros exercícios na América Latina?

 R: Eu acredito que a UNITAS, assim como outros exercícios marítimos, indubitavelmente têm futuro nesta região e que são uma parte importante na inter-relação militar e na parceria militar entre marinhas e países.  O objetivo de unir uma força multinacional que consiga operar conjuntamente nestes ambientes complexos e mutáveis, como eu disse antes, deve continuar constante ao longo dos anos.  As ameaçar reais podem mudar e isso irá forçar mudanças nos objetivos do treinamento, mas seu conceito geral deve se manter como tem sido até hoje.

SB Roberts sendo manobrada por rebocadores na Base de Puerto BelgranoSB Roberts sendo manobrada por rebocadores na Base de Puerto BelgranoVista externa do Pearl Harbor já durante o Final Battle ProblemO Comandante da La Torre em seu camarote
Mitscher aproximando-se do Pearl Harbor durante exercícioUSS Mitscher vista a partir do Pearl HarborMosaico de antenas da USS MitscherPequeno raio de curva evidenciando a manobrabilidade da Mitscher

 

 Os vários eventos do Partnership Of the Americas

 Unitas – “Cooperação regional e segurança hemisférica”

 Um exercício militar tradicional, a Unitas iniciou-se num claro contexto de Guerra Fria, logo no início dos anos 60. Seu nome deriva da palavra latina para “união”, sendo essencialmente, na sua primeira encarnação, uma simples seqüência de sete exercícios binacionais anuais realizada pela US Navy junto com as principais marinhas de guerra do nosso continente.    

 À época, as experiências recentes da Segunda Grande Guerra demonstravam claramente que, numa hipotética guerra futura, seria bem grande a chance de navios dos países latinos terem que operar em conjunto e/ou complementando os Grupos e Forças Tarefas americanos. Para tanto a Unitas nasceu focada nas atividades de guerra anti-submarina e na operação conjunta. Comunicações e procedimentos comuns são cruciais para evitar que os navios das várias marinhas acabassem colidindo, ou pior, atirando por engano um contra o outro no meio do oceano.

Muita fumaça momentos antes da Mitscher usando toda sua força para uma impressionante Após acelerar, a Mitscher guina para sair de formaçãoSB Roberts manobra para assumir sua posição durante exercício

 A opção pelo foco na atividade ASW na América Latina foi algo natural, durando até 1965. Neste período, a maioria das marinhas da região era equipada com navios americanos feitos para ASW e construídos durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, o Brasil teve que entrar de cabeça na atividade anti-submarina neste conflito, devido à forte presença de submarinos nazistas nas nossas costas. Depois de 1965, exercícios antiaéreos e anti-superfície foram adicionados aos de guerra anti-submarina, reconhecendo as novas capacidades adquiridas com a substituição daquela geração de escoltas do imediato período pós-guerra. Atualmente, exercícios de Guerra Eletrônica (EW) e de defesa antimíssil já são praticados também.

SB Roberts vista praticamente de perfilSB Roberts ultrapassando o Pearl Harbor durante exercícioSB Roberts manobra para assumir sua posição durante exercícioSB Roberts manobra para assumir sua posição durante exercício

 A partir de 1999, por sugestão brasileira, o formato do exercício foi substancialmente alterado para permitir que as marinhas da região também pudessem interagir entre si. Assim, o evento passou a ter apenas três fases: a Atlântica, a do Pacífico e a do Caribe. Na primeira, além da US Navy, participavam a Argentina, o Uruguai, a Venezuela e o Brasil. Na fase do Pacífico, era a vez do Chile, Peru, Equador, e Colômbia. Na fase Caribe, a partir de 1980, começaram a ser realizados exercícios de desembarque anfíbio, e deles participavam marinhas de todo o continente. Várias marinhas estrangeiras como a França, Canadá, Espanha, Portugal, África do Sul e Alemanha têm participado ao longo dos anos como convidados. Hoje em dia o maior foco está na contenção da escalada de crises e nas Maritime Interdiction Operations, como as que ocorreram sob as ordens da ONU no Golfo Pérsico durante a primeira Guerra do Golfo, e no Adriático, nas várias crises militares nos Bálcãs.

 A Fase Caribe já não existe mais, e neste ano a Fase Atlântica foi realizada na Argentina, a partir de Puerto Belgrano, principal base naval daquele país, localizada perto da cidade de Bahia Blanca, cerca de 600 quilômetros ao sul de Buenos Aires. A Fase Pacifico ocorreria no Equador, mas questões essencialmente políticas forçaram, na última hora, sua mudança para as águas da vizinha Colômbia.

A La Torre no ápice da sua subida, antes de mais um mergulhoInstante em que a La Torre fica com a proa completamente mergulhadaA La Torre já no movimento de subidaFinalizando a subida, a água escorre pela proa
 

 

 Team Work South 2007

 Este é um exercício bi-anual realizado sempre no Chile com a Marinha Americana e com países convidados. Pela localização geográfica do Chile, este exercício acabou ocorrendo exatamente entre as duas fases da Unitas. Em 2007, o TWS ocorreu entre 30 de maio e 11 de junho com duas fases na costa norte do Chile. A primeira destas iniciou-se no pequeno porto de Mejillones com uma série de eventos de cunho esportivo. Em seguida os participantes encararam três dias de mar, onde foram treinados tiros de canhões, guerra anti-submarina e operações aéreas.

 No dia 31 de maio houve um grande exercício de desembarque anfíbio, realizado na região de Taltal, em Caleta Cifuncho, com a participação de fuzileiros navais americanos e chilenos.

 No dia 3 de junho, o USS Mitscher teve a rara chance de disparar três de seus mísseis Standard contra alvos aéreos, além de lançar dois mísseis Harpoon, num raro SINKEX, afundando o casco de um navio pesqueiro chileno aposentado. Adicionalmente, vinte tiros de canhão foram disparados contra alvos em terra, num tipo de ação conhecida como Naval Surface Fire Support (NSFS ou Suporte de Fogo Naval contra Superfície). Os alvos foram identificados e designados, via rádio, por observadores chilenos localizados em terra. Foi a primeira vez que o Mitcher teve a chance de disparar seu canhão contra alvos em terra. Dezoito navios no total participaram do TWS2007 e ao entrarem no porto de Iquique, todos tiveram a oportunidade prestar uma saudação aos mortos do navio chileno Esmeralda, afundado naquele porto, durante a Batalha de Iquique no ano de 1879.

 Neste ano, além dos navios americanos, estiveram presentes neste evento coordenado pela Armada Chilena, a Royal Navy com o destroyer Type 42 HMS Southampton, a Marinha Francesa com a fragata Prairial, e a Armada de la Republica Argentina, com a corveta Meko 140 ARA Robinson. Os chilenos levaram para o TWS as fragatas Almirante Williams, Almirante Condell, Capitán Prat e a Almirante Blanco Encalada, além da Latorre. Ambos os submarinos do tipo Scorpène, o Carrera e o O’Higgins, participaram junto com o navio tanque Araucano e o rebocador de alto mar Galvarino.

 A segunda fase do exercício se iniciou quando este grande grupo suspendeu de Iquique, no dia sete de junho. Durante três dias houve exercícios de guerra anti-submarina contra o submarino chileno Carrera, assim como operações de MIO (Maritime Interdiction Operations - controle de área marítima) com operações de abordagem e de busca nos “navios suspeitos”. Ao final os navios foram separados em dois grupos, Azul e Laranja, para realizarem um novo “Battle Problem”. O navio inglês e o argentino, pelo menos desta vez, estavam do mesmo lado, o Azul.  Ao final a Southampton cruzou o estreito de Magalhães seguindo no caminho em direção ao seu período de patrulha nos mares ao redor das ilhas Falklands.

 PANAMAX

 A etapa final do Partnership of the Americas envolverá a participação do TG 40.0 num exercício de grande porte que busca criar uma série de arcos de defesa concêntricos ao redor de ambas as entradas do Canal do Panamá. Para isso participarão navios de inúmeras nações, gerando um exercício de um escopo muito mais abrangente que a UNITAS ou mesmo o Team Work South.

 Para todo o mundo, e especialmente para os Estados Unidos, o Canal do Panamá é um daqueles pontos críticos que pode mudar o rumo de uma guerra global. Nesta época de globalização em grande escala da economia ele ainda é um elo econômico vital, estando em curso uma expansão da capacidade de suas eclusas de maneira a permitir a passagem de navios cada vez maiores.

 Durante a Segunda Guerra mundial espiões alemães na Colômbia buscaram obter o máximo de informações precisas sobre o Canal para poder tentar destruí-lo. Sem o Canal plenamente operacional a capacidade da US Navy de mover rapidamente seus navios do Atlântico para o Pacífico, e vice versa, seria muitíssimo prejudicada. Os japoneses por sua vez também chegaram a planejar um ataque arrojado contra o canal usando grandes submarinos capazes de levar hidroaviões de ataque, mas a guerra acabou antes que essa missão pudesse ser levada a cabo. Ciente da fragilidade do Canal, mesmo antes do início da Segunda Grande Guerra a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos já operava no país centro americano e, em 1941, construiu na Zona do Canal uma grande e moderna instalação, a Base Aérea Howard, equipada com caças e bombardeiros muito superiores ao que existia no resto da América Latina naquele momento. Howard foi, até a retirada dos americanos do Panamá em 1999 e a conseqüente devolução da Zona do Canal para aquele país, o principal ponto de operações militares anti-narcóticos dos EUA, de eram operados cargueiros, aviões radar E-3 e caças F-15 e F-16 das Air National Guard.

 

 A fragata USS Samuel B. Roberts

 Por razões técnicas, a fragata americana Samuel B. Roberts FFG-58 acabou se destacando dos demais navios da Partnership of the Americas e passou pelo Rio de Janeiro, após o encerramento da Fase Atlântica da Unitas 2007. Fomos a bordo e entrevistamos o seu comandante, oficiais do navio e do seu Destacamento Aéreo Embarcado, para ter mais um ângulo exclusivo sobre o deployment POA da US Navy.

Vista dos 2 hangares da SBRSua condecorações CIWS PhalanxHangar

 Esta é a terceira comissão do CDR Marc Weeks a bordo de uma fragata OHP (classe Oliver Hazard Perry), mas a primeira como Comandante. Segundo Weeks, com 51 navios construídos, as OHP foram até recentemente a mais importante (numericamente falando) classe de escoltas da US Navy. Ela se caracteriza principalmente por ser uma plataforma de baixo custo, quando comparada com as demais classes em serviço na US Navy e com as classes que a antecederam, obviamente. Podem até não ser as mais bem armadas, mas, podem ser anexadas a qualquer tipo de missão exceto a de ataque a terra (“Strike”). A OHP era uma competente plataforma nos cenários antiaéreo (AAW) e anti-submarino (ASW), e tinha uma capacidade anti-superfície acima da média quando foi introduzida. As ameaças e a tecnologia, ambas mudaram. No entanto, restrições orçamentárias fizeram com que as OHP acabassem não sendo modernizadas para enfrentar estas mudanças. Com a chegada de dezenas de novos navios da Classe Arleigh Burke, equipados com o Sistema AEGIS, as fragatas OHP acabaram perdendo seus lançadores de mísseis SM-1 e a missão AAW passou integralmente para as Arleigh Burke. Em paralelo, outros sistemas passivos foram adicionados a esta classe de fragatas e os despistadores ESM (MAGE em português) ampliados.

A ALIDE ( Felipe Salles) entrevista o CDR Marc Weeks comandante da SBRA ALIDE ( Felipe Salles) entrevista o CDR Marc Weeks comandante da SBRPraça D'ArmasQuadro na Praça D'Armas
 

 

 As fragatas OHP, hoje, podem não ter meios para destruir o “arqueiro” mas, certamente, têm meios para se defender da “flecha”. Num mundo perfeito, o “arqueiro” (caca inimigo) seria abatido à distância pelos mísseis Standard guiados pelos sistemas AEGIS dos destróieres. Estas foram as dolorosas lições aprendidas no incidente da USS Stark, onde dois Mirage F-1 iraquianos acertaram uma OHP com seus Exocet nas águas do Golfo Pérsico em 1987. Curiosamente as OHP jamais operaram o sistema ASROC (torpedo lançado por foguete) apenas o míssil anti-superficie Harpoon e um par de helicópteros SH-60 com seus mísseis e torpedos.

 A remoção da capacidade de lançar o míssil SM-1 envolveu apenas a remoção do “secondary fire control system” e do braço lançador MK.13. Todos os demais componentes como o carrossel e os paióis continuam instalados, não tendo havido nenhum tipo de alteração nas características de navegação do navio (marinharia). A tendência é que as fragatas desta classe, assim que forem retiradas de serviço, sejam substituídas por uma combinação de DDG Arleigh Burke aliados aos novos navios modulares LCS (Littoral Combat Ship), que estão em desenvolvimento neste momento. A classe atual tem uma vida útil prevista para mais oito a 16 anos, já que foram entregues a partir de 1987, sendo a Samuel B. Roberts a terceira mais nova em serviço na US Navy.

FFG Samuel B. Roberts na Base Naval do Rio de JaneiroPlaca da incorporaçãoSanitário de uma OHPSanitário de uma OHP
Lançador do SM1 retiradoVisão da prôaCICCIC
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 A principal arma das OHP, segundo o CDR Weeks, são seus helicópteros. “Nunca se tem helicópteros suficientes numa escolta como a nossa. Por causa deles é que fazemos guerra anti-submarina tão bem, além de serem uma plataforma de observação de grande valor”. A despeito de poderem carregar dois SH-60 no mesmo navio, raramente eles voam ao mesmo tempo, por questões de segurança. Se a fragata estiver operando escoteira, ou seja, sem a companhia de outros navios, dificilmente os dois helicópteros serão operados em conjunto. No entanto, havendo outros convôos disponíveis no GT, esta restrição pode ser contornada. Se um helicóptero sofrer um acidente interrompendo a operação do convôo do navio, o outro, ainda em vôo, não teria mais onde pousar. Os Sea Hawks tem por missão a realização de missões ASW, ASuW e SAR.

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 Com a oportunidade de operar durante a Unitas ao lado da Santa Maria, uma outra OHP  construída na Espanha para a Armada Espanhola, podemos comparar as duas. As FFG após  a 58 deslocam 4100 toneladas e apresentam um casco mais comprido e mais largo que a Santa Maria, que também não dispõe do RART, o reboque para helicópteros das OHP americanas. O navio espanhol tem um MAGE mais simples e as antenas no mastro são substancialmente diferentes do padrão americano.

PassadiçoPassadiçoPassadiçoPassadiço

 Nem sempre os dois helicópteros são embarcados na OHP. Nesta ocasião específica, este par de SH-60s inicialmente participaria de outra missão marcada para deixar o porto americano no mesmo dia que a Samuel B. Roberts. Mas, em cima da hora foi decidido que os dois embarcariam na missão de circunavegação da América do Sul e não na sua missão originalmente programada. A “Sammie B” partiu de Mayport junto com a fragata chilena Latorre no dia 28 de março. Normalmente estes navios fazem um deployment de seis meses a cada 18 meses. No restante do tempo eles participam de exercícios locais dentro de seu programa de “Continuous Certification Requirements”- os Requerimentos de Certificação Continua. Dentro da programação pré-determinada o USS Mitscher, que partiu oito dias antes da “Sammie B”, inevitavelmente retornará para seu porto oito dias antes dela. As duas fragatas fizeram sua primeira parada no porto da ilha de Martinica, nas Antilhas Francesas. O destróier Mitscher seguiu para o Panamá para encontrar e escoltar o USS Pearl Harbor que vinha do Pacifico via o Canal do Panamá. Apenas em Salvador, no nordeste brasileiro, é que todos os navios do GT americano se encontraram, uma vez que a rota deles pelo Caribe foi alterada em razão do clima ruim no local. Depois da Bahia a parada seguinte ocorreu em Buenos Aires, por quatro dias.

PassadiçoPassadiçoInclinometro com a marca do recorde da SBRAntena do radar
 

 

 Em seguida houve uma rápida navegada em direção a Puerto Belgrano, para o inicio da fase Atlântica da UNITAS 48. Segundo o CDR  Weeks “A fase de mar da Unitas é sempre muito interessante, com uma boa variedade de navios diferentes. Os exercícios complexos caminharam muito bem, tanto na gerência do evento, quanto na sua execução. Exercícios como este são muito relevantes para as operações da US Navy no “mundo real”. Coisas mais “rústicas” como troca de mensagens por sinalizadores luminosos ainda têm validade e são praticadas menos do que o ideal dentro da US Navy. Um navio inimigo ainda pode interceptar e ouvir o tráfego de rádio para saber como montar uma armadilha”. Weeks também lamentou que o exercício de ataque aéreo tenha ocorrido tão rapidamente, fato esse que acabou por impedir que fossem exercitadas, ainda mais, as comunicações entre os diversos  navios.

Porta de entrada do CICEscada do Passadiço ao CICCIC Officer

 Durante a fase inicial (Work-Up) os exercícios do datalink argentino (Link ARA) ocorreram entre a Latorre, Santa Maria, Mitscher e Pearl Harbor. Durante o Final Battle Problem apenas a Latorre e a SBR estavam usando o datalink para se comunicar, pois os demais navios ou eram neutros ou eram inimigos. Neste exercício a SBR fez um reabastecimento no mar com o Gastão Motta, e os SH-60 americanos e espanhóis fizeram várias simulações de perfis de ataque. Weeks falou também que “os modernos submarinos de ataque diesel elétricos (SSKs) são armas incrivelmente capazes, especialmente em águas litorâneas e em pontos de estreitamento (choke points)”.  Durante a missão de proteção dos comboios do FBP, a Samuel B. patrulhou a área central da zona de controle junto com a ARA Almirante Brown, mas seus helicópteros não acharam nenhum dos submarinos naquela região.

Prôa da SBRECMAntena de comunicaçãoLançador de Chaffs MULKA Mark 137 Mod 10
Lançador de Chaffs MULKA Mark 137 Mod 10ECMAntena de comunicação por satéliteAntena de comunicação por satélite
 

 

 O Comandante da Samuel B. Roberts disse também que “gostou da América do Sul. E que qualquer oportunidade que a US Navy tenha de operar com outras marinhas é um treinamento de tremendo valor”. Um dos oficiais deste navio foi “shiprider” (observador) a bordo da Santa Maria, mas nenhum estrangeiro veio a bordo.

 Para defesa contra pequenos botes a OHP carrega metralhadoras de 25mm e de 0.50”, que são instaladas ao redor da amurada do navio. Embora  a comunicação satelital seja uma realidade muito maior na US Navy do que nas marinhas da América do Sul, até eles tem que conviver com o fato de que o número de canais disponíveis nos satélites é limitado. Além disso, dependendo da sua latitude, HF e UHF podem ser formas de comunicação mais confiáveis. É também da natureza das operações multinacionais o uso de canais de voz via rádio. Todo o plano de comunicações do exercício é determinado pelo NAVSO antes do seu início. E por isso, invariavelmente, a comunicação via rádio não desaparecerá tão cedo.

 A OHPs receberam o sistema antimíssil Phallanx do modelo “1B”, que inclui uma câmera térmica que permite que ele seja usado contra barcos pequenos que se aproximem, além dos mísseis anti-navio para qual o sistema foi criado originalmente. Sobre a superestrutura se apresentam dois poderosos lançadores de chaff do tipo NULKA Mk.137 Mod 10, um apontado para cada bordo.

 A US Navy espera que após os reparos nos Estados Unidos a Samuel B. Roberts possa se juntar novamente ao GT 40.0 para concluir a sua participação no POA.

Lançadores de ChaffMetralhadoraMastro principal
Fragatas Defensora e ConstituiçãoFaina de carga na SBR
 

 

 

 Os SH-60B do Esquadrão HSL-48 "Vipers"

 Dois helicópteros Sikorsky SeaHawk operaram durante a UNITAS na Samuel B. Roberts. Para suportá-los, 24 oficiais e praças compuseram o Destacamento Aéreo Embarcado naquele navio. Destes, seis eram pilotos, 16 eram mecânicos e três eram mergulhadores de resgate. Estes helicópteros não têm sonar de mergulho (dipping sonar), assim dependem exclusivamente das informações transmitidas pelas sonobóias lançadas no mar. Cada helicóptero pode lançar até 25 sonobóias a cada surtida. Durante o Final Battle Problem um total de 25 sonobóias foram lançadas. A sonobóia mergulha na água e em seguida flutua até a superfície para repassar ao navio as informações identificadas no mar. O sistema LAMPS de guerra anti-submarino permite que todos os sensores do helicóptero possam ser monitorados pelos operadores no navio, assim como controlados remotamente, em tempo real, via o datalink. Os dados enviados são automaticamente casados com os dados do próprio navio no CIC da fragata. A primeira coisa que os SH-60B faziam no Final Battle Problem era subir a 6000 pés para seu radar poder obter uma visão bem ampla de toda a região ao redor do navio, partindo em seguida para identificar com precisão cada um dos contatos levantados. O SH-60F é o modelo que recebeu o sonar de mergulho e o novo modelo “R” introduz uma configuração modular que permite a mudança da configuração do helicóptero, rapidamente, no mar, durante a missão.

Antena receptora de sinais das sonobóiasGuincho
SH-60B SeahawkTubo PitotPlaca protetora dos sensores de ECMExaustor
CockpitNo convôo com o rotor dobradoDetalhe do piso do convôo
Trilho
 

 

 O míssil Penguin, que era a principal arma antinavio dos SeaHawks, agora está saindo de circulação, sendo substituído pelo míssil Hellfire, originalmente uma arma antitanque. Para guiar este míssil o helicóptero dispõe de um sistema FLIR de visão infravermelha, e para autodefesa ele possui um detector de “plume”, sensor capaz de identificar o disparo de um míssil antiaéreo por sua fumaça. Sobre o hangar existe um “T”, o Horizontal Reference Bar, e o SGST – Stabilised Glide Slope Indicator – referências visuais que permitem ao piloto saber que atitude assumir independentemente da movimentação do convôo sobre as ondas.

 

 

 

 

 

 

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