Tikuna no “Deployment”: o Predador das Profundezas PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Tuesday, 25 March 2008 09:22

 

Tikuna no “Deployment”: o Predador das Profundezas

Numa oportunidade histórica a Marinha do Brasil enviou, à costa leste dos EUA, seu mais novo submarino. Lá ele participou dos exigentes exercícios de aprestamento do Grupo de Batalha do Porta Aviões nuclear USS Harry S. Truman, que se dirige para um período de seis meses nas águas do Golfo Pérsico.

Tikuna do DESI ao “Deployment”

A Marinha do Brasil foi recentemente convidada pela US Navy a enviar um submarino para participar do programa Diesel-Electric Submarine Initiative, o DESI. Neste programa, os custos de combustível são totalmente custeados pela US Navy, de forma a que o numero de dias de mar seja o máximo possível. No passado, vários países latino-americanos importantes mandaram seus submarinos para o DESI, entre eles: Colômbia, Peru e Chile. Por diversas razões, a Marinha do Brasil optou por não participar deste programa. A maior delas é que, dentro do programa DESI, por razões de segurança nacional americana, os países participantes não recebem acesso a todos os dados operacionais gerados durante os exercícios com a US Navy.

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.
Sub Tikuna chegando a Mayport Naval BaseSub Tikuna chegando a Mayport Naval Baseclose da vela do Tikuna na chegadaJá com auxilio de rebocador

Aceitando as restrições da MB, a US Navy seguiu com um outro convite, para que o Tikuna fosse participar de dois exercícios de preparação do Carrier Strike Group do porta-aviões Harry S. Truman, realizados antes de sua partida para a região do Golfo Pérsico. Esta foi a proposta aceita pela MB. Antes mesmo que o submarino brasileiro pudesse deixar o Rio de Janeiro, foram necessárias três reuniões de planejamento que determinaram exatamente o que cada parte faria e como as informações obtidas seriam compartilhadas. Todo exercício militar embute em si um risco inerente de vazamento de informações militares confidenciais, tais como assinaturas magnéticas e eletrônicas, por isso, muita atenção é dada à questão das posições e profundidades relativas dos navios dentro de um exercício, para que o resultado possa ser interessante para ambas às partes. Por isso, aquilo que fosse acertado nesta fase seria chave para o sucesso da missão.

O traslado submarino do Rio ao Atlântico Norte

O programa de preparação da tripulação para esta missão começou nos simuladores da Marinha do Brasil na Ilha de Mocanguê. O Comandante do submarino, Capitão-de-Fragata Oliveira Júnior explicou: “Os exercícios realizados foram nos mesmos moldes dos realizados normalmente na nossa Esquadra. Apenas a quantidade de meios é que foi superior: mais navios de superfície, aeronaves e submarinos envolvidos simultaneamente.”

Em termos táticos, não foi preciso fazer nada de diferente, pois a tripulação já se encontrava na fase III de adestramento, o máximo patamar de adestramento dos meios da Esquadra.

Os nossos subs são conceitualmente costeiros, e nós inclusive não operamos submarine tenders de apoio, como foi planejar esta viagem?

Em termos logísticos o planejamento visou aproveitar ao máximo a capacidade do submarino para carregar combustível e de gêneros alimentícios. O CF Oliveira Júnior explicou: “O número de dias de mar e o tamanho da comissão como um todo permitiu realizar sem dificuldades os reabastecimentos nos portos programados. Por ter espaço limitado é necessário se fazer um consumo de gêneros dentro da seqüência inversa de arrumação dos paióis. Quanto a sobressalentes suspendemos com a dotação inicial recebida e acondicionada dentro das caixas específicas.” Ele comentou ainda que: “Um deslocamento de cerca de 30 dias de mar antes mesmo do início do primeiro exercício operativo, numa área com características tropicais com temperatura elevada, poderia ser uma dificuldade, mas o Tikuna realizou tudo como planejado. O desafio operacional era operar com meios de superfície, aeronavais e submarinos de seis diferentes países, simultaneamente, analisando como cada um deles operam seus diversos sistemas.”

CV USS John F. Kennedy ao fundoO sub Tikuna ao lado do USS  John F. Kennedy e ao fundo o sub peruano.Tikuna já atracadoCG USS Hue City

O cronograma estipulado da viagem determinava que o submarino fizesse as seguintes paradas durante sua comissão:

Suspendeu do Rio de Janeiro em 27/05/07 / Atracou em Fortaleza em 07/06/07;

Suspendeu de Fortaleza em 11/06/07 / Atracou em San Juan (Porto Rico) em 26/06/07;

Suspendeu de San Juan (Porto Rico)em 03/07/07 / Atracou em Mayport (EUA) em 20/07/07;

Suspendeu de Mayport (EUA) em 23/07/07 / Atracou em Mayport (EUA) em 03/08/07;

Suspendeu de Mayport (EUA) em 13/08/07 / Atracou em Mayport (EUA) em 17/08/07;

Suspendeu de Mayport (EUA) em 24/08/07 / Atracou em San Juan (Porto Rico) em 04/09/07;

Suspendeu de San Juan (Porto Rico)em 10/09/07 / Atracou em Fortaleza em 26/09/07;

Suspendeu de Fortaleza em 01/10/07 / Atracou em Salvador em 08/10/07;

Suspendeu de Salvador em 13/10/07 / Atracar no Rio de Janeiro em 19/10/07.

Petty Officer Holly BoyntonCF Oliveira Jr e o CF Marco Lúcio com nosso enviado Carlos LimaCF Oliveira Jr recebe a Petty Officer Holly Boynton na Praça D'Armas do submarino Tikuna CF Oliveira Jr e CF Marco Lúcio

Uma viagem de longa distância, com um total de quase 9.000 milhas náuticas, já seria, por si só, um imenso desafio para a tripulação de qualquer submarino diesel-elétrico, como o Tikuna. Especialmente, ao não contar com a companhia de um navio de apoio logístico. No dia 27 de maio, após ter servido de navio escola na fase final do programa EQFCOS o submarino Tikuna partiu para os mares da América do Norte. Neste ponto, o Tikuna não tinha mais do que 209 dias de mar e partiu com seu complemento padrão de 41 tripulantes (Comandante, 07 Oficiais e 33 Praças). O comandante do submarino salientou que: “Todo o trânsito para os portos e áreas de exercícios foi mergulhado, sendo previsto até o término da comissão cerca de 2.100 horas de imersão.”

O trecho inicial, de pouco mais de 1.500 milhas náuticas, entre Rio de Janeiro e Fortaleza, local da primeira parada, foi percorrido em 10 dias. Por quatro dias, os tripulantes puderam descansar na capital cearense antes de realizar a etapa seguinte que os levaria através do Caribe até San Juan, na ilha de Puerto Rico. Foram aí mais de 2.000 Km sob o mar. Para garantir a segurança no mar todos os submarinos devem navegar apenas na superfície na área até 12 milhas náuticas da costa, no resto do caminho o submarino navega sob a superfície. De tempos em tempos o submarino emerge e informa por rádio “que está exatamente no ponto e na profundidade que deveria estar”. Quando a situação meteorológica não permitiu contato direto com as estações de rádio da MB em Belém ou em Natal uma “ponte” foi montada com apoio de outros navios brasileiros na região. Estavam por lá o NE Brasil, o NDCC Mattoso Maia e a Fragata Independência, que participava do exercício internacional Panamax, no Caribe. A despeito de passar próximo das águas de diversos países do nosso continente não foi agendado nenhum exercício de passagem (os “Passex”) como os que se realizam comumente entre unidades de superfície.

O Capitão-de-Mar-e-Guerra Kleber Pessek, Encarregado da Seção de Operações da Força de Submarinos da Marinha do Brasil comentou à Alide: “Neste tipo de missão a rotina é perigosa e muito esforço tem que ser dedicado a manter a guarnição aprestada”. Para ocupar a tripulação durante os longos trechos da viagem, o comandante agendou uma série de exercícios para manter a tripulação motivada e afiada. Os próprios sistemas de guerra submarina embarcados incluem modos de simulação que foram usados extensivamente para a exercícios. Por outras vezes, os ruídos dos mercantes que cruzavam aleatoriamente a derrota do Tikuna foram aproveitados para designar “alvos” devidamente detectados e identificados. A doutrina empregada na Marinha do Brasil exige que o submarino se posicione adequadamente em relação a estes navios, para só então, realizar seus ataques virtuais.

Na capital de Puerto Rico o Tikuna ficou atracado num pier na parte antiga da cidade, a Old San Juan. Além de uma oportunidade adicional para descanso após quinze dias navegando, em San Juan também ocorreu a troca do comando do CON - Comando de Operações Navais no Rio de Janeiro para o Comando de Treinamento de Grupos de Ataque de Porta-Aviões do Atlântico, a unidade da US Navy responsável por aqueles exercícios dos quais o Tikuna participaria. Na sede da Guarda Costeira americana nesta cidade [GE  18°27'37.06"N  66° 6'58.33"W], o comandante do submarino brasileiro foi brifado pelo Sr.Juan Fernandez e pelo LCDR Greg Badger, Oficial de Operações Submarinas do US Navy Carrier Strike Force Training Atlantic Fleet sobre seu papel na primeira parte de sua interação com os navios dos EUA e de marinhas amigas.

Um dos elementos mais desafiadores num deslocamento de longa distância, como este, é a necessidade do submarino de permanecer em contato como seu comando, mesmo estando muito longe das águas brasileiras. Para se comunicar com o mundo exterior, o Tikuna conta com rádios de alta-freqüência – HF e com um terminal comercial de comunicação satelital.

O Tikuna, como todos os submarinos brasileiros, é baseado na Base Almirante Castro Silva -BACS- na Ilha de Mocanguê, em Niterói. É lá, também, onde fica o Comando da Força de Submarinos da Marinha do Brasil, sob o comando do Vice-Almirante ARNALDO DE MESQUITA BITTENCOURT FILHO . O Tikuna é um submarino do tipo IKL 209-1500 Mod.,uma expansão e modernização da classe Tupi original IKL 209-1400, que se caracteriza por apresentar um notável alcance, em velocidade econômica, de até 11.000 milhas náuticas sem antes reabastecer de combustível.

O DESI - Diesel Electric Submarine Initiative

A Guerra Fria contra a União Soviética evidenciou para a US Navy a superioridade operacional dos então novos submarinos nucleares sobre os convencionais, especialmente nos importantes quesitos de velocidade e alcance praticamente ilimitado. Estas duas características eram particularmente importantes devido à imensidão dos oceanos abertos e dos teatros de operação que agora eram globais e não mais apenas regionais. O submarino nuclear ao dispensar o emprego de navios de reabastecimento e de manutenção de apoio (submarine tenders) se tornava uma arma muitas vezes mais letal e discreta do que os seus antecessores convencionais. Na segunda guerra mundial a posição da formidável flotilha de submarinos da marinha nazista era facilmente localizada pelos aviões de patrulha aliada que se dedicavam a seguir os tenders até que os u-booten aparecessem na superfície. Com o colapso da União Soviética pareceu por algum tempo que a US Navy tinha ficado sem oposição nas profundezas das “águas azuis”. A sensação de segurança neste período foi tanto que a maioria dos esquadrões de aviões patrulha anti-submarino embarcados nos porta aviões americanos foram retirados de serviço, relegando esta função exclusivamente às escoltas do Grupo de Batalha de Porta-Aviões, ou, “CVBG”. A US Navy alega que com a chegada do novo modelo do helicóptero Sikorsky SeaHawk, o SH-60R, não haveria mais necessidade de uma aeronave dedicada e cara como o Viking nos Carrier Strike Groups americanos. Se eles tem ou não razão nesta mudança a história vai contar.

O “preço” de se ter uma frota de submarinos 100% nuclear, no entanto, é pago no campo das emissões sonoras. O sistema de propulsão atômico dos submarinos de ataque (SSNs) apresenta um nível de ruído interno considerável, sendo seu silenciamento total, uma tarefa tecnicamente impossível. Ao contrário, o submarino diesel-elétrico pode navegando sob o modo elétrico ser quase que totalmente silencioso.  Por esta razão é que, recentemente, os novos submarinos de propulsão diesel-elétrica, uma solução barata de se comprar e de manter, com tripulações menores do que 100 tripulantes, passaram a ser uma grande preocupação para a segurança dos navios americanos. Países com antagonismos políticos atuais ou potenciais com os EUA, como: Venezuela, Irã, Coréia do Norte e China, além da Rússia, totalizam quantidades preocupantes de submarinos diesel-elétricos. Tendo essa realidade em vista, foi criado em  pela US Navy , o programa Diesel Electric Submarine Initiative (DESI). 

 USS Farragut FFG USS R G Bradley Submarino Tikuna FFG USS McClusky

Para sua realização, submarinos de marinhas amigas são convidados aos EUA para realizar uma série se exercícios voltados para dar às tripulações americanas as estratégias e a prática necessárias para melhor identificar e anular a ameaça representada pelos SSK. Todos os custos incorridos por estas marinhas em combustível e com as tripulações, são assumidos pela Marinha Americana, agindo como incentivo adicional e elemento viabilizador econômico. Historicamente, a Base de Mayport, localizada na Florida, é usada para a recepção e acomodação destas unidades estrangeiras. Mayport é a casa do componente naval do US Southern Command (Comando Sul) o que explica a presença de submarinos de vários lugares do nosso continente. Aproveitando sua presença no programa DESI deste ano, o submarino peruano Chipana foi também convidado a participar do treinamento do Strike Group do USS Harry S. Tuman, operando ao lado do Tikuna na força laranja.

Em Mayport: Relações Públicas Internacionais

Nos dias em que o submarino passou por Mayport houve uma série de eventos que serviram, para aproximar ainda mais o pessoal das duas marinhas. Entre eles, uma visita oficial, com almoço, dos oficiais do Tikuna ao USS The Sullivans – DDG-68 – que, baseado em Mayport, não participou dos exercícios de mar por se encontrar em meio a um período de manutenção prolongado. A visita dos oficiais brasileiros a um destróier de ultima geração da classe Arleigh Burke é sempre uma ocasião importante. No dia seguinte foi a oportunidade dois brasileiros devolverem a cortesia e receber o pessoal do destróier a bordo do Tikuna, também para almoço.

Outra oportunidade única foi a viagem de 64 quilômetros ao norte de Jacksonville para conhecer a Base de Submarinos de King's Bay, a Strategic Weapons Facility, Atlantic (SWFLANT), onde ficam localizados os submarinos lançadores de mísseis nucleares da US Navy. Lá, eles visitaram o Trident Training Facility, o equivalente americano ao CAAML, localizado na Base Naval de Mocangue. Neste local novas tripulações dos submarinos nucleares são formadas e também tripulações atuais recebem cursos de atualização em suas carreiras. O único submarino visitado, no entanto, foi o USS Scranton, um SSN da Classe Los Angeles que estava lá para troca de seus torpedos. O submarino estava docado numa área protegida dos “olhos curiosos” dos satélites inimigos por um grande teto que cobria toda a área de serviço. No seu interior os brasileiros puderam visitar o posto de comando e o painel do operador de sonar, não sendo possível ver as áreas de maquinas, nem o reator de energia atômica.

O HST (Harry S. Truman) C2X

Dentro do programa regular de aprestamento de um grupo de ataque de porta-aviões (Carrier Strike Group – CSG) para um desdobramento de seis meses no exterior, a US Navy realiza um Comptuex, ou Composite Training Unit Exercise, uma série de exercícios, progressivamente vez mais complexos, ainda nas águas americanas. Um destes exercícios é conhecido pela sigla “C2X”, ou, Comand and Control Exercise. Nas palavras do próprio Contra-Almirante Rich O'Hanlon, comandante do Carrier Strike Force Training Atlantic Fleet, este exercício é o local onde “nós treinamos a criação rápida de um Joint Task Force. Ao longo dos últimos anos, temos alcançado progressos notáveis no compartilhamento dos procedimentos comuns, assim como, na criação de uma visão operacional comum (COP - Common Operational Picture), e do esforço de planejamento colaborativo entre os comandantes subordinados a um JTF. No futuro iremos também experimentar com capacidades avançadas para a gerência e o controle do fluxo de informação nas redes do Joint Task Force, adicionando novas capacidades avançadas de controle de tiro.”

FFG USS McCluskyDDG USS CarneyTikuna com um FFG e um DDG Flight II ao fundo em MayportFFG USS Boone

O C2X visa garantir que todos os elementos que compõem o CSG, estão aptos a operar, com segurança e com eficiência, de forma integrada. Cada um dos comandantes de navio deve ser capaz de operar dentro de um conjunto maior de navios com uma clara visão de suas tarefas e pleno domínio dos seus devidos mecanismos de acionamento. O Exercício é dividido em quatro sub-eventos, o IAC2-1, o IAC2-2 onde se adestram as capacidades ASW de aeronaves e das escoltas; e dois “Battle Problems”, cada um mais complexo e exigente que o anterior. No “IAC” o submarino oponente é obrigado a se expor na superfície, de tempos em tempos, emitindo com seu radar, para que os sensores e as habilidades dos “caçadores” possam ser testados.

Simbolizando uma grande mudança de atitude recíproca entre franceses e americanos e deixando para trás o severo atrito do inicio da campanha americana no Iraque, uma força-tarefa de duas escoltas e um submarino nuclear de ataque cruzou o Atlântico para participar do Comptuex do USS Harry Truman. Isso promete ser a tendência para o futuro próximo, especialmente após a eleição do novo governo de direita de Nicolas Sarkozy em Paris. A Fragata Lafayette, por exemplo, foi escolhida a dedo, uma vez que ela homenageia um dos fundadores e mentores da independência americana que tinha nacionalidade francesa, Marquis_de_Lafayette. Os navios franceses apenas participaram do exercício C2X e não do JTFEX que veio a seguir.

Dentro do C2X as tarefas iam ficando cada vez mais complexas e exigentes a cada novo dia. Outra situação interessante é que ficou patente a dependência dos destróieres classe Arleigh Burke dos navios Tanques grandes da US Navy, Devido ao seu alto consumo de combustível, estes navios escolta tem que reabastecer a cada três dias em media, o que faz com que um CSG nuclear fique dependente de um navio tanque, o que, a princípio, seria um contra-senso. Durante todo esse exercício o Task Group se deslocou e coube ao submarino Tikuna, operando exclusivamente dentro de uma área pré-determinada, monitorar e acompanhar seu progresso. Em algumas ocasiões, as forças oponentes demonstraram ter detectado a movimentação do submarino brasileiro, mas, após uma seqüência de manobras de despistamento, os oponentes desistiam. Foi nesta ocasião em que o Tikuna chegou a ficar menos de dez mil jardas do CVN americano USS Harry Truman, distância esta, que numa situação real de guerra naval, estaria dentro dos parâmetros ideais para o lançamento de seus torpedos. Se o Tikuna tivesse disparado, dificilmente, o Harry S. Truman e seus mais de 6.000 tripulantes teriam sobrevivido incólumes, a este encontro. O exercício C2X para o CSG do Harry S. Truman HST , desta vez, ocorreu numa área retangular de 50 por 70 milhas náuticas, localizada a cerca de 70 milhas náuticas da cidade de Jacksonville. É, justamente lá, na costa atlântica da Flórida, onde fica a Base Naval de Mayport. No dia 2 de julho o submarino partiu de San Juan e navegou à área do exercício e assumindo, ao chegar, seu papel de membro das forças de oposição “OpFor”. O C2X foi encerrado no dia 8 de julho e o Tikuna e vários dos participantes retornaram para Mayport para o debrifim e brifim do exercício a se realizar em seguida. No ar operaram aeronaves SH-60 SeaHawk, P- 3C Orion, F-18 Hornet e EA-6B Prowler da Marinha Americana.

Força Azul

Harry Truman CSG

 

 

 

 

Forças Navais

USS Harry S Truman

CVN75

 

USS Hue City

CG66

 

USS San Jacinto

CG56

 

USS Carney

DDG64

 

USS Oscar Austin

DDG79

 

USS Churchill

DDG 81

 

USS Montpelier

SSN765

 

HMS Manchester

D95

 

HMCS Charlottetown

FFG339

 

FS Lafayette

F710

 

FS Primaguet

D644

 

USNS Laramie

T-AO-203

Forças Aéreas

CVW7

 

 

CVW3

 

 

CPRW11

Lockheed P-3C

 

Força Laranja

OpFor

CFT 29.X ( CSFTLANT )

 

 

 

Forças Navais

USS R G Bradley

FFG49

 

USS Farragut

DDG99

 

USS Bulkeley

DDG84

 

USS Elrod

FFG55

 

USS Kauffman

FFG59

 

USS Mcinerney

FFG8

 

USS Monterey

CG61

 

USS Cole

DDG67

 

USS Laboon

DDG58

 

BAP Chipana

SS34

 

BNS Tikuna

S34

 

Uma visita a Mayport Naval Base


Além da experiência profissional inestimável para os tripulantes, uma viagem ao exterior pode ser a abertura de uma grande janela no foro pessoal. Cerca de dois terços da guarnição não conhecia os EUA, ainda que todos os Oficiais já tinham tido oportunidade de conhecer aquele país. Coordenando em Mayport os aspectos mais logísticos estava o Oficial de Ligação da Marinha Brasileira servindo junto ao US Naval Forces, Southern Command, Capitão-de-Fragata Marco Lúcio que foi incumbido da preparação e do apoio logístico propriamente dito, durante a permanência do TIKUNA atracado em Mayport.      

Já a parte operativa do planejamento desta missão coube ao Capitão-de-Fragata Leonardo Mattos, que é o oficial de Ligação junto ao Fleet Forces Command, em Norfolk, Virgínia. Naquela mesma cidade encontra-se a Força de Submarinos americana do Atlântico, daí a MB ter aproveitado a presença de seu oficial lá para proceder com os entendimentos.

Na fase de planejamento foi decidido que o Tikuna, quando nos EUA, atracaria em Mayport por este porto estar situado mais próximo às áreas previstas das operações.

A base forneceu o prático, o rebocador para auxiliar a atracação, defensas no cais, coleta de lixo e fornecimento de água. Além disso, o seu pessoal facilitou o contato com os provedores de linha telefônica, fornecedores de óleo combustível, locadora de carros e hotel para a tripulação. 

A Naval Station Mayport [GE: 30°23'31?N 081°25'25?W] foi criada em 1942 no ponto em que o rio St Johns chega ao mar, próximo à cidade de Jacksonville na Florida para apoiar o esforço de guerra. O “Basin”, área onde os navios atracam, foi dragado para uma profundidade de 8,80m para acomodar os navios militares. Ficavam baseados lá nesta época apenas navios patrulha, de resgate e transportes de veículos sobre rodas - “jeep-carriers”. Em 1943 foram construídos os sistemas de reabastecimento de submarinos e um aeródromo tornando-se assim uma Naval Sea Frontier Base. Descomissionada ao fim da 2ª Guerra Mundial, Mayport foi reaberta em 1948 e já em 1955 teve sua pista asfaltada e ampliada de maneira a ser capaz de receber jatos militares.

Diferentes classes da navios da  US Nav nesta foto CG USS Philippine SeaVela do Tikuna Tripulantes do Submarino Tikuna posam no convés com o USS R G Bradley ao fundo.

Ao longo dos anos, Mayport foi bastante usada operacionalmente. Esta base foi ativa desde a Crise dos Mísseis Cubanos em 1962 até as missões realizadas recentemente, no Líbano, Granada e no Golfo Pérsico. Desde a década de 50 Mayport é base para porta aviões da US Navy, O USS Saratoga tendo sido baseado lá assim que foi aceito pela Esquadra até ser retirado de serviço ativo em 1994. O USS Forrestal também operou de Mayport, desde 1977 até 1992, deixando a base apenas para operar em Pensacola, como porta aviões de treinamento, para formar novos aviadores navais. Em 1990, o Congresso autorizou que fossem feitas as devidas melhorias para permitir que a base recebesse também porta-aviões nucleares da classe Nimitz, complementando nesta função a grande base de Norfolk localizada mais ao norte. Com a retirada de operação do USS Saratoga, o USS John F. Kennedy passou a chamar Mayport de lar, sua presença ali durando até o dia de 23 março de 2007, quando foi a vez do JFK de ser descomissionado. Agora, Mayport aguarda a chegada do seu próximo porta aviões residente. Contando todas as suas áreas, a Naval Station Mayport engloba, hoje em dia, cerca de 13,8 Km 2 , sendo, assim, a terceira maior base da US Navy, ficando atrás apenas de Norfolk e San Diego.

O aeródromo da base, conhecido como Adm David L. McDonald Field – IATA: NRB/ICAO: KNRB Diagrama FAA: tem uma pista de 2.440 metros , sendo capaz de receber qualquer aeronave militar americana atual. Em frente a esta pista ficam localizados os hangares de vários esquadrões de helicópteros anti-submarino da USN pertencentes à Frota do Atlântico. Atualmente Mayport abriga a terceira maior concentração de navios da US Navy no território dos Estados Unidos.

O “basin” na Estação Naval de Mayport conta com seis grandes piers com um total de mais de 3.200 metros de comprimento, de “A” a “F”. O “C”, mais externo é dedicado primariamente aos porta aviões nucleares e o “D” e “E” menores acomodam normalmente as fragatas da classe Oliver Hazard Perry. Os destróieres da classe Arleigh Burke e os cruzadores da classe Ticonderoga, que são bem mais compridos e largos, são acomodados preferencialmente nos piers “A”, “B” e “F”. Os piers comportam no máximo 34 navios mas o complemento normal é de cerca de 23 escoltas.

Lockheed testa Tikuna para compatibilidade com o torpedo Mk 48

Aproveitando a segunda passagem do Tikuna por Mayport Técnicos da Lockheed realizaram dois dias de avaliações para confirmar a compatibilidade do mesmo, com os torpedos Mk48 que estão sendo adquiridos pela Marinha do Brasil para seus submarinos. Esta avaliação buscava identificar com certeza se as dimensões livres e os sistemas de manuseio dentro do compartimento de torpedos, na proa do navio, tinham as dimensões necessárias para acomodar o novo modelo. Diferente dos submarinos da classe Oberon ingleses Humaitá, Tonelero e Riachuelo e que dispunham de uma comporta para entrada de torpedos os IKL-209 precisam receber os seus torpedos pra abertura dos dois tubos superiores de lançamento de torpedo. Para realizar isso com segurança o submarino é trimado de maneira a afundar a popa e elevar a proa onde é encaixado uma rampa para a inserção das armas. Uma das principais razões do interesse pelo Mk 48 é fruto dos vários problemas encontrados durante o desenvolvimento do Torpedo 2000, sueco, que a MB escolheu antes mesmo de que ele estivesse comprovado operacionalmente. O programa Torpedo 2000 foi encerrado e o adiantamento feito pela MB foi ressarcido pela Saab. Desta forma as vantagens de se comprar uma arma no “estado da arte” podem ser minimizadas por problemas sérios no desenvolvimento do produto.

CF Oliveira Jr na sala de máquinas do TikunaPavilhão Nacional com o DDG USS The Sullivans ao fundo.Vela do Tikuna com o DDG USS Carney ao fundo.Submarino Tikuna entre 2 FFG's FFG 28 e FFG 41

Dimensionalmente, os tubos de torpedo desta família de submarinos alemães já estão configurados para quase todos os torpedos pesados ocidentais, mas o espaço interno pode variar de acordo com as características e necessidades de cada marinha operadora. O torpedo Mk 48 Mod6 AT tem um diâmetro padrão de 21 polegadas - 533 mm , idêntico ao do britânico Tigerfish Mk 24, usado atualmente. Também foram verificadas, in loco, a presença de interfaces mecânicas e eletrônicas compatíveis e outros detalhes como, as características de “swimout” e do “T”, componente que alinha e prende o torpedo dentro do tubo. O disparo por “swimout” permite que o torpedo deixe o tubo silenciosamente dispensando a tradicional explosão de ar comprimido, que, por seu ruído, expunha desnecessariamente a posição do navio aos sensores das escoltas.

Os chilenos, anos atrás testaram os Mk 48 para uso nos seus submarinos IKL-209 e Scorpene, e acabaram optando pelo novo modelo franco italiano BlackShark.

Cozinha do TikunaCompartimento inferior na cozinha para acondicionar provisõesPlaca indicativaEste tubo está pronto para disparar.

Os torpedos Tigerfish da Marinha do Brasil, nos últimos anos, sofreram sérios problemas de descontinuidade logística, uma vez que toda o estoque de 600 Tigerfish Mod 1 da Royal Navy foi atualizado para o padrão Mod- 2.  Com isso a produção de componentes para sua revalidação periódica, como as baterias, dos Mod- 1 foi encerrada.

HST (Harry S. Truman) JTFX

O Joint Task Force Exercise (JTFEX) se segue rotineiramente ao C2X no programa de preparação para deployment dos CVNs americanos. Realizado mais ao norte da área de exercícios anterior, bem em frente às costas do estado americano da Carolina do Sul, este é um grande jogo de guerra, em modo “freeplay” onde os navios são divididos em duas forças antagônicas, a Azul que é a Carrier Strike Group em treinamento, neste caso, a do porta-aviões USS Harry S Truman que seria fustigada pela força laranja, a OpFor, ou Força Oponente. Os dois comandantes das duas Forças Tarefas tinham que usar da forma mais capaz possível, os variados meios sob seu controle.  Desta vez o JSTEX contou com três Task Groups, um ao redor do USS Harry Truman e outros dois nucleados nos outros dois porta-aviões, o americano USS Eisenhower e o britânico HMS Illustrious. Nesta ocasião, o Illustrious recebeu, pela primeira vez na história das duas marinhas, um “Tailored Air Group” - Grupo Aéreo “Sob Medida” dos US Marines, com 14 caças VTOL AV-8B Harrier II e 200 militares. 

Este exercício ocorreu entre os dias 23 de julho e 1° de agosto. No seu início, durante a navegação entre o porto de Mayport e a área do exercício, ocorreu o exercício “Precursor” em que as escoltas tentavam localizar e atacar os submarinos em seu traslado. Aqui também o Tikuna ficou completamente invisível aos seus oponentes.

O “Free Play” do JTFEX começou no dia 26 de julho. A missão do “Blue Force” seria a de transitar a área de exercício protegendo os alvos de maior valor, neste caso os porta aviões e o USNS Laramie. Para manter a segurança debaixo d'água, evitando o risco de colisões, os submarinos da força laranja operavam separados lateralmente, em áreas segregadas e se separavam dos submarinos azuis por operar em profundidades diferentes. As operações aéreas desta vez se limitaram às patrulhas ASW e AsuW, aqui executadas unicamente pelos SH-60 SeaHawk e P- 3C Orion da US Navy. O CF Oliveira Júnior comentou que a despeito das aeronaves presentes, “O maior inimigo de um submarino é um outro submarino, seja nuclear ou convencional. Os escoltas (navios de superfície), geralmente protegem a unidade de maior valor (HVU). Para tal, tentam detectar os submarinos e, estes, se ocultam para não serem detectados pelos escoltas.”

CF Oliveira Jr em frente ao Submarino TikunaUSS Harry Truman3 Porta Aviões participantes : HMS Illustrious, USS Dwight D. Eisenhower e USS Harry Truman3 Porta Aviões participantes : HMS Illustrious, USS Dwight D. Eisenhower e USS Harry Truman

O comandante laranja, Contra Almirante O'Hanlon, armou uma armadilha fatal para as forças azuis, ao deixar, propositadamente, seu submarino nuclear de ataque, o USS Annapolis, ser identificado num dos lados do eixo de propagação do Task Force Azul. Seguindo sua doutrina operacional ao pé da letra, o comandante azul imediatamente reagiu da forma previsível, destacando uma UBA – Unidade de Busca e Ataque, na direção do contato. Ele também dirigiu o restante dos seus navios para o lado oposto, praticamente garantindo que eles passassem por sobre as áreas de patrulha ocupados pelos submarinos diesel-elétricos sul-americanos, o Tikuna e o Chipana. Novamente o Tikuna teve um grande sucesso ao conseguir ficar em condição ideal de tiro contra os três porta aviões “inimigos”, o Eisenhower, o Truman e o Illustrious. Nesta ocasião, vários navios de ultima geração, como os cruzadores da classe Ticonderoga e os destróieres da classe Arleigh Burke, operando em conjunto, tiveram dificuldades na sua missão de proteger os Alvos de Maior Valor. Também participaram desta etapa, os navios caça-minas costeiros Kingfisher, MHC-56 e Cormoran, MHC-57.

Quando finalmente, no último dia do JTFEX, foi dada a autorização para atacar os navios azuis, estes já se encontravam bem longe da área coberta pelo Tikuna.

Nesta ocasião, além do Tikuna e do submarino peruano, estavam operando, na mesma área, três submarinos americanos da classe Los Angeles, o USS Annapolis - SSN-760 -, o USS Montpelier – SSN-765 - e o USS Boise – SSN-764 - que substituiu o francês Amethyste no JTFEX.

Curiosamente o comandante do TG azul fez com que um F-18 lançasse bombas contra o local do mar onde se acreditava que os submarinos inimigos pudessem estar, neste exato momento o Comandante do Tikuna estava observando essa movimentação pelo seu periscópio e filmou o Hornet passando por ele.

O Exercício que não houve

O último exercício previsto para este deployment, a ser realizado entre a partida de Mayport e a chegada a San Juan, deveria ter sido um confronto “sub contra sub” entre o Tikuna e o USS Annapolis. Chamado de TAC DEV, ou Tactical Development. Esta classe de exercícios é usado pela US Navy para determinar novas formas de enfrentar novas ameaças, neste caso os SSK modernos, como o Tikuna. No entanto durante os briefings pré-partida, ainda em Mayport, o CF Oliveira Jr percebeu que nas condições do mar, com suas correntes fortes no local desejado pelos americanos para o TACDEV, o retorno do Tikuna ao Brasil ficaria atrapalhado. A MB fez uma proposta para alterar o exercício de forma que fosse possível contornar seus problemas, porém consultados Washington e Norfolk, os americanos não consideraram prudente realizar as alterações propostas. Após nova consulta ao Comando da Força de Submarinos, na BACS, foi decidido por ambas as partes, que este exercício “no momento não era oportuno”, tendo essa oportunidade sido adiada para outra ocasião a ser definida no futuro. 

Conclusão

A Força de Submarinos da Marinha do Brasil ao longo dos anos já enviou seus navios para vários exercícios no exterior. Recentemente foram três oportunidades marcantes, em 1997 no exercício “Linked Seas”, o Submarino Tamoio enfrentou uma força da OTAN, e dois anos depois, foi a vez do Timbira confrontar os europeus da EuroMarFor no exercício “Swordfish” . A última oportunidade foi, neste mesmo ano, o “Endurance/Keyport” contra a US Navy, nos EUA.

Antes mesmo do retorno do Tikuna, a Marinha do Brasil recebeu uma carta da US Navy, elogiando a tripulação do Tikuna e a infraestrutura de suporte montada para este apoiar exercício. Para nossos almirantes, o resultado, como um todo, não poderia ser melhor. Com os resultados práticos demonstramos claramente que no Brasil não apenas temos uma frota moderna de submarinos, que são fabricados no país, e mais ainda que temos uma doutrina operacional eficaz, que nos permite extrair o máximo desta arma. Agora é torcer para que no futuro os demais submarinos da ForSub possam repetir as incríveis façanhas do Tikuna em 2007. E que, no futuro, a Marinha possa conquistar consenso político necessário dentro do governo para, além dos ambicionados submarinos nucleares, ter também uma frota de pelo menos 15 SSK diesel-elétricos, número que nos permitiria ter sempre cinco unidades em patrulha simultaneamente.  Esse sim seria finalmente um número condizente com os quase 7.500 Km de costas do Brasil.

Tikuna e USS Carney
Aqui o CF Oliveira Jr oferece uma lembrança da visita de nosso enviado à Mayport Sr Carlos Lima, para a cobertura desta missão.

Agradecimentos:

A ALIDE gostaria de agradecer o total apoio recebido do comandante da FORSUB, Vice-Almirante ARNALDO DE MESQUITA BITTENCOURT FILHO e a todo seu Estado Maior, para a realização desta matéria na Base Naval americana de Mayport - EUA.

A US NAVY, na pessoa do LCDR Jon D Spiers, COMUSNAVSO que tanto nos auxiliou nesta empreitada, designando um sub-oficia,l Petty Officer Holly Boynton para acompanhar o Sr. Carlos Lima dentro da Base Naval.

 

 

 

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