EQFCOS - Forjando Comandantes de Submarinos na Marinha do Brasil PDF Print E-mail
Written by Pierre Vincent, Felipe Salles e Luiz Padilha   
Thursday, 15 May 2008 08:14

 

 

 Formando comandantes de submarinos na MB

A frota de submarinos no Brasil representa provavelmente nossa maior arma de dissuasão. A despeito de termos apenas cinco submarinos, um número marcadamente pequeno, tendo em vista a imensidão das águas brasileiras do Oceano Atlântico e os mais de 8.500Km de costas que limitam a nossa chamada “Amazõnia Azul”, país a escolha dos homens que irão comandar estas “balas de prata” é extremamente exigente e dura. A ALIDE visitou o CIAMA – Centro de Instrução e Adestramento Almirante Áttila Monteiro Aché, para entender como é o desenrolar do Estágio de Qualificação dos Futuros Comandantes de Submarinos da Marinha do Brasil (EQFCOS).

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.
Módulos dos equipamentos do simuladorMódulos dos equipamentos do simuladorMódulos dos equipamentos do simuladorMódulos dos equipamentos do simulador

 

 O Estágio

O EQFCOS tem uma duração de nove semanas, e tem vaga para apenas seis oficiais a cada ano. Uma destas vagas, no entanto, é reservada para oficiais de Marinhas de países amigos. Neste ano, o curso contou com a presença do Capitán de Navio (CN) (Capitão-de-Fragata) Marcelo Urbina, da Armada do Chile. O CN Urbina já é comandante de Submarino em seu país e veio aqui para conhecer os rigorosos procedimentos de treinamento de emprego de submarinos da Marinha do Brasil, já que seu país também usa submarinos da classe IKL 209. Normalmente o estagio é facultado unicamente aos Capitães-de-Corveta mais antigos e aos Capitães-de-Fragata mais novos, que serão relacionados para comandar. Os Oficiais-alunos estão ali por serem bastante experientes em submarinos e por serem extremamente bem preparados ao longo de mais de 15 anos a bordo desses “cavalos de aço negros”. Mas assim mesmo poucos irão passar neste teste. A cultura atual de operação de submarinos da Marinha do Brasil é fruto da interação muito próxima com a Royal Navy para onde nossos candidatos a comandantes eram enviados, ao longo das décadas de 80 e 90, para, depois, aprimorarmos nosso próprio sistema de avaliação. Na Inglaterra, existe um curso chamado, não sem razão, de “Perisher”. O termo “Perish” em inglês quer dizer “Perecer”, denotando o grau de dificuldade do curso. Justamente por isso é que a maioria de seus candidatos, não chegará com êxito até o fim. Foi baseado na experiência deste curso e experiência acumulada na operação dos antigos submarinos da classe Oberon, também de origem britânica, que a Marinha do Brasil montou o EQFCOS.

Console do SonarConsole do SonarConsole do SonarConsole do Sonar e KAFS
Console do KAFSConsole do KAFSCaneta usada no KAFS

A primeira etapa do curso engloba o lado teórico/simulado, lá mesmo no prédio do CIAMA. Esta fase se subdivide em duas partes: um módulo de “Segurança” e outro de “Tática”. Na primeira, o objetivo do comandante é evitar colisões e/ou situações operacionais limite que possam colocar em risco a segurança da tripulação e do navio em si.

Na etapa seguinte o propósito é empregar da melhor forma possível o submarino como arma contra inimigos virtuais criados dentro dos computadores do ¨Treinador de Ataque” (T-A). Para concluir o seu treinamento, todos os Oficiais-alunos terão a oportunidade de embarcar em um submarino de verdade para colocar suas habilidades à prova, em “corridas” reais contra algumas fragatas da MB e tendo que cumprir uma missão.

Os alunos são constantemente observados e avaliados por uma banca examinadora composta por três dos mais experientes Oficiais superiores da Força de Submarinos. Nada escapa a este atento olhar: a postura, o controle emocional, a técnica de emprego de periscópio e sensores, e a capacidade de decisão.

Usando o Treinador de Ataque

Para a realização do EQFCOS, o CIAMA se apóia na infra-estrutura do “Treinador de Ataque” (T-A). O “T-A” é, na verdade, um simulador de submarino dividido em duas salas, uma para as atividades de operação dos tubos de torpedo e outra que conta com todos os sistemas de combate de um submarino da classe Tupi, apresentando inclusive um periscópio com imagem gerada digitalmente. As aulas são puramente táticas e aplicadas em forma de “corridas”, cada uma correspondendo a um ataque do submarino contra alvos selecionados pelo instrutor. Anexo à sala de comando desse simulador existe uma saleta com os computadores que gerenciam o treinamento, que pode variar a cada nova corrida. Simplesmente, não há dois cenários iguais.

Oficiais-alunos durante exercício no simuladorOficial-aluno atento as informações do consoleOficial-aluno, no papel de comandante do submarino, fazendo varredura  de horizonte com o periscópio Visão geral do simulador durante exercício

Para criar as imagens do periscópio em tempo real, uma workstation (computador) Silicon Graphics modelo IRIS 4D/70GT que renderiza as imagens dos alvos como se estivessem visíveis através do periscópio de um submarino. Com a futura modernização do “T-A” todo este sistema gráfico terá que ser substituído uma vez que não existem mais peças e técnicos treinados para dar manutenção aos veteranos Silicon Graphics no mercado. Mesmo assim, as condições são tão reais, que uma pessoa menos avisada, teria certeza que estaria a bordo de um submarino. Até os ruídos produzidos no “T-A” são idênticos aos reais.

O CMG Moniz de Aragão, atento as decisões que o Oficial-aluno está prestes a tomarCMG Moniz de Aragão observa o andamento do exercício bem de pertoNada escapa ao olhar do instrutor. O CMG Moniz de Aragão está atento a todas as decisões tomadas pelo Oficial-aluno que está no comando do submarinoOficial-aluno no comando do submarino acompanhando as informações do sonar

Por sua vez, um PC administra todos os parâmetros de engajamento, verificando o resultado dos disparos de torpedos que possuem comportamento realístico. As informações exibidas no KAFS (terminal de combate de guerra submarina) e no sonar do simulador são fornecidos por este PC. Ele também registra todos os movimentos do submarino e controla o movimento dos diversos navios virtuais. O operador deste PC interage na simulação como se ele mesmo fosse o operador dos motores e do leme, recebendo ordens do Oficial-aluno que estiver atuando como Comandante e informando normalmente as mudanças de velocidade, de rumo e de profundidade ao comandante.

Visão geral do simuladorInicio de mais uma corrida no T-ATodos prontos em seus postosOficial-aluno comandando o submarino, realiza varredura de horizonte com o periscópio

O EQFCOS é mais do que uma prova técnica, é uma avaliação da capacidade do aluno de seguir o procedimento padrão a despeito do nível de stress sob o qual ele se encontra submetido na simulação. É uma prova de fogo para poucos, na qual os Oficiais-alunos são forçados a irem além do que pensam ser seus limites. No mar, um comandante de submarino não pode se dar ao luxo de hesitar. Ele tem que estar sempre pronto a tomar as decisões em frações de minutos, ou mesmo, poucos segundos. Na mão do comandante a ferramenta mais importante é um cronômetro que determina os limites seguros para manobras e os tempos das emissões eletromagnéticas e acústicas dos inimigos. É o cronômetro que determina também se o periscópio ficou tempo demais exposto no meio de um combate. A qualidade do curso deve muito à qualidade do seu instrutor. Neste ano esta tarefa ficou aos cuidados do Capitão-de-Mar-e-Guerra Moniz de Aragão. Ele que era, até recentemente, o comandante do submarino S-32 Timbira. Todas as ações dos Oficiais-alunos são observadas e avaliadas pelo instrutor, que cobra com rigor a conduta de cada um deles. Isto, com muita elegância e cavalheirismo, que são características dos oficiais da Marinha do Brasil.

 A Corrida no Simulador

Uma “corrida” é algo que ocorre em tempo real. Os navios inimigos emitem sinais idênticos ao que seria observado no mundo real e as características da água e da atmosfera afetam o comportamento de sensores, tornando ainda mais complexa e realista a experiência. Como sempre, existe um cenário para que o aluno possa entender até onde ele pode ir no cumprimento de sua missão simulada. Neste caso, o país do submarino está sob pressão política do pais rival “branco”, uma invasão da disputada “Ilha da Discórdia” inicia a crise e uma frota inimiga constituída por um Navio Aeródromo da classe Colossus (igual ao nosso antigo Minas Gerais) escoltado por três fragatas da classe Niterói inicia o seu movimento. A missão do comandante do submarino é de afundar o Alvo de Maior Valor, o porta-aviões. As fragatas devem ser evitadas para não colocar o submarino em risco. O mar simulado encontra-se na categoria 3, com ondas de até dois metros. Lá fora, a chuva é torrencial.

Após o término de mais uma corrida no T-A, o CMG Moniz de Aragão se reune com os Oficias-alunos paramostrar os erros e acertos do exercícioCMG Moniz de Aragão semre dando orientações e incentivando seus Oficiais-alunos para atingir resutados no mais alto nível Mapa do exercícioMapa do exercício

A partida ocorre precisamente às 15h15, esta sendo a segunda corrida daquele dia. A cada corrida um Oficial-aluno assume o comando do submarino e dois outros fazem o papel de Imediato e Oficial de Armamento (tático). Uns cinco praças experientes estão nos consoles para operar os sistemas de combate. O submarino parte em patrulha na sua zona especificada, navegando a uma velocidade de 6 nós. Esperando pelo primeiro contato com o GT inimigo, o comandante ordena a preparação dos tubos 3 e 4, determinando inclusive o alagamento deles. Em seguida começam a primeira de muitas varreduras de horizonte com o periscópio. Na profundidade de periscópio, cerca de 15m, o comandante observou em poucos segundos a superfície em busca dos inimigos. Após o uso do periscópio o submarino mergulha para uma profundidade mais segura e prossegue na busca do inimigo.

Tela do monitor do simulador que coordena todos os detalhes do cenário criado para o exercícioEquipe que manuseia todas as informações do simuladorTela do controle do simulador, onde se tem o quadro tático do exercício em andamentoTela do controle do simulador, onde se tem o quadro tático do exercício em andamento

Os minutos se passam e uma vez após a outra o submarino sobe para perto da superfície e usa seus periscópios e antenas para observar visualmente tanto o horizonte como a região por sobre o submarino, à procura dos helicópteros Sikorsky SH-3 Sea king, que sem duvida são um dos perigos maiores para o submarino. Para isso ele usa o periscópio realizando uma “varredura de Zenith”( capacidade do periscópio de observar o céu acima do submarino) . Várias vezes a resposta dos especialistas é apenas um frustrante “Nega contato”. Nada foi identificado. O submarino não fica nunca na mesma profundidade, encerrada a visualização externa ele sempre volta a mergulhar para as profundezas do mar. Outra ferramenta muito importante para o comandante do submarino é a “varredura MAGE” (Medidas de Apoio à Guerra Eletrônica ou ESM - Electronic Support Measures, em inglês). Um dos mastros do classe Tupi carrega as antenas que reconhecem as diversas emissões de ondas eletromagnéticas (freqüências radar) que serão então usadas para identificar os navios na área assim, como suas posições relativas ao submarino.

É esta a forma pela qual a força tarefa inimiga (GT) primeiro se denuncia. Já o display do terminal do sonar apresenta um circulo ao redor do submarino e a origem do som produzido pelo ruído dos navios de superfície inimigo e seu sonar de busca ativo apresenta um “afundamento” ou “mossa” neste circulo perfeito. Quanto maior a deformação mais forte o sinal naquela

Comando para içar e arriar o periscópioHelicóptero SH-3 visto pelo pericópio do submarino. Um Classe Pará visto do periscópioUma Fragata Classe Niterói vista do periscópio

direção. O sistema usa um banco de dados de informações armazenadas para identificar que tipo de navio é aquele. Em alguns casos, é até possível distinguir entre diversos navios de uma mesma classe.

Um Nae Classe Colossus visto do periscópioDetalhe do zoom do periscópioDebriefing  de todas as corridas no fim de mais um dia de intenso e estressante treinamento para os Oficias-alunosCMG Moniz de Aragão ouve atento a expalanação de um Oficial-aluno

A primeira fragata se denuncia eletronicamente antes mesmo do ruído de seus motores e hélice serem detectados pelo sonar do submarino. Para dificultar a tarefa do Oficial-aluno, o instrutor determina ao operador do simulador que ele adicione chuva e ondas de um metro de altura à simulação. Quando o submarino está mergulhado, quanto pior o estado do mar, melhor para ele, pois o ruído dificulta bastante a tarefa dos navios de superfície de o identificarem. No entanto, estas mesmas condições, também atrapalham a identificação positiva dos alvos pelo periscópio.

Identificada a posição dos navios escolta adversários, o comandante ordena “Leme a boreste, governar em 035!” O submarino está em rota direta de interceptação do Grupo Tarefa e para dar realismo o comandante recebe ordem do comando de operações navais do seu País para que ele não deixe de obter uma fotografia periscópica ou, “perifoto” do alvo principal afundando. O comando Supremo deseja colocar esta imagem nos jornais do dia seguinte, para o máximo resultado de propaganda de Guerra.

Segundo o operador do sonar, a força inimiga está navegando para sudoeste e um após outro, os escoltas começam a se destacar, eles estão numa formatura em cunha e o NAe vem logo atrás delas. Neste ponto o ruído dos hélices é claro e todos os navios são identificados positivamente. Uma das fragatas classe Niterói, repentinamente lança um torpedo na direção do submarino. O comandante não tem como saber se ele foi identificado ou se os escoltas estão tentando fazer com que ele se exponha ao buscar escapar do torpedo. “Todo leme a boreste! Lançar despistador de bolhas!” Logo depois, “cota ...metros! Parar máquina!”. O submarino flanqueou o GT e se prepara para disparar contra o porta aviões, agora que os escoltas passaram direto sem o identificar. A ordem é seca, mas emocionante “Dispare!”...”Fogo Um!”...“ Manobras evasivas!”

No mundo escuro dos submarinistas é assim: um tiro, um alvo afundado. Confirmado o destino cruel do porta-aviões, e tirada a perifoto, o exercício se encerra. O Instrutor procede imediatamente ao debriefing da missão e efetua uma avaliação pormenorizada da corrida daquele comandante. Cada procedimento chave é identificado e tanto as decisões quanto a postura do Oficial-aluno durante seu comando recebem notas. Sua capacidade de manter o foco, comunicar suas decisões aos subordinados e obviamente, seu controle emocional no meio da situação estressante serão responsáveis por uma boa parte de sua nota final.

 A Corrida Real

Após a parte teórica e a avaliação no simulador, os Oficiais-alunos do EQFCOS são submetidos a dois testes tão reais quanto possíveis. Um é o teste de segurança, com navios em rota de colisão com o submarino, que deve mergulhar ou desviar conforme a situação. Outro é a corrida de ataque, com um cenário montado e uma missão fictícia, mas obstáculos bem reais. Ambos foram realizados em ocasiões distintas e à bordo do S-34 Tikuna, o mais moderno submarino da Marinha do Brasil.

Oficias-alunos e Oficias da banca se dirigindo ao submarino TikunaAmanhecer em Arrail do Cabo com a Fragata Grrenhalgh ao fundoFragata GreenhalghSubmarino Tikuna nos aguardando

Na costa de Arraial do Cabo, o Tikuna foi empregado pelo CIAMA no EQFCOS oferecendo os recursos necessários para a completa avaliação dos candidatos a comandante de submarino. Na verdade o submarino “Tikuna” se parece mais com uma nave espacial de filme de ficção do que com um navio. Duas missões diárias com o apoio das fragatas F-46 Greenhalgh, F-49 Rademaker e F-41 Defensora, além de um helicóptero SH-3 do Esquadrão HS-1 garantiram aos oficiais alunos a oportunidade de colocar em prática e sob avaliação toda sua experiência e conhecimento.

S-34 Tikuna, orgulho da MBMastro do Snorkel içadoEntrada da escotilha de vanteCMG Glauco Castilho Dall`Antonia, comandante do CIAMA, CMG Roberto Fiúza ,Chefe do Estado Maior da Força de Submarinos e o CMG Moniz de Aragão, instrutor do EQFCOS de 2007

A tripulação que compõe o Tikuna não sofre alterações para este tipo de missão, mas o submarino recebe um número considerável de tripulantes extras. São dois oficiais-alunos que serão avaliados durante o dia, o Instrutordo curso e os membros da banca examinadora, entre outros, que fazem com que a lotação do Tikuna aumente em mais de 20%.

Segundo o CMG Moniz de Aragão: “ O mais importante neste exercício, não é o resultado da missão que foi dada ao aluno, e sim, o seu comportamento psicológico diante de situações que serão criadas, levando o mesmo a ter que decidir, com precisão, a melhor forma de empregar o submarino, independente do nível de stress” .

CMG Moniz de Aragão observando o desempenho dos Oficiais-alunos dentro do submarino TikunaCompartimento de manobra do submarino TikunaOficias e praças se preparam para o inicio do exercícioOficias e praças se preparam para o inicio do exercício

Logo com as primeiras luzes do dia a equipe se dirige ao cais de Arraial do Cabo, de onde já é possível observar a F-46 Greenhalgh que, junto da F-49 Rademaker e elementos do HS-1, o esquadrão de helicópteros anti-submarinos da Marinha, farão o papel de força inimiga ao Tikuna. Ultrapassado o quebra mar, 5 minutos depois de deixar o cais, chegamos ao S-34 que encontra-se ali fundeado. O embarque é tranqüilo pois a porção do submarino que fica acima da superfície do mar, (enquanto ele está fundeado (ancourado), é pequena, de modo que cerca de quatro a seis degraus são o suficiente para nos conduzir da lancha ao Tikuna. Somos recebidos pelo Capitão-de-Fragata Francisco Antonio de Oliveira Junior, orgulhoso por ser o comandante da mais moderna máquina de guerra da MB, o Tikuna. Pela escotilha de proa chegamos à sala de torpedos, que também funciona como área de reunião e rancho. Todo o espaço no submarino deve ser aproveitado ao máximo.

Oficias e praças se preparam para o inicio do exercícioOficias e praças se preparam para o inicio do exercícioMapa da area do exercícioCF Oliveira Júnior, comandante do submarino Tikuna proferindo palavras de incentivo ao Oficial-aluno

Alguns metros por um pequeno corredor, de onde é possível observar o acesso aos beliches e, um pouco mais à frente, a cozinha, e passamos pela pequena, mas aconchegante “Praça d'Armas”, apenas um sofá em "U" com uma mesa central e algum equipamento audiovisual, e chegamos ao compartimento de combate, de onde o comandante tem acesso a todas as informações necessárias para a tomada de decisões. Uma estação com 4 assentos de um lado, com os consoles de operação do sonar e uma estação de navegação de outro lado, com a área delimitada para os dois periscópios no centro, o de ataque e o de navegação. Logo após a área de combate está localizada o compartimento de manobra, com uma estação para duas pessoas que literalmente "pilotam" a embarcação que, diferente dos navios de superfície, movimenta-se em três eixos, como as aeronaves.

Oficial-aluno iniciando a varredura de horizonteTodos atentos as marcações sob o lhar atento do CF Oliveira JúniorVarredura de Zenith  em busca de helicópterosCF Oliveira Júnior, CMG Roberto Fiúza e o Comandante do CIAMA, CMG Glauco Castilho Dall`Antonia

Poucos minutos após o embarque, completamos a manobra de suspender (içar a âncora do fundo do mar), sendo possível ouvir o maquinário puxando o ferro. O submarino é uma embarcação de pequeno porte, mesmo se comparado com algumas fragatas, com cerca da metade do deslocamento de uma classe Niterói, por exemplo. Meio desajeitado na superfície, o rolamento é bem pronunciado, mas a sensação de movimento cessa quase por completo quando ultrapassamos a cota dos quinze, vinte metros. O submarino está, então, em seu elemento natural, o fundo do mar, completamente à vontade.

Durante o trânsito para o ponto inicial do exercício, já submersos, por ser o nosso primeiro mergulho, somos convidados para o compartimento de torpedos aonde se dará o nosso batismo. O batismo é um ritual comum em submarinos e tem como finalidade nos tornar “filhos do Rei Netuno”. Junto á nós, um oficial da MB que também será batizado e são escolhidos pela tripulação três nomes de peixes, que a partir daquela data, serão nossos codinomes. Após provarmos o sal do mar, tomarmos uma “jacuba” batizada e nos lambuzarmos de graxa, nos tornamos XERELETE e CANGULO! Estavamos prontos para navegar nas profundezas!

O exercício, pela sua própria característica, ocorreu à pouca distância do litoral de Arraial do Cabo, tendo o trânsito até a área de início sido realizado entre 4 e 6 nós de velocidade, na cota de periscópio. Já no trânsito era possível ouvir por meio de um repetidor no compartimento de combate o repetitivo silvo dos sonares das fragatas que participavam do exercício. Dependendo do modo em que o sonar ativo das fragatas estiver operando é possível notar padrões diferentes nos sons. Diferente da idéia hollywoodiana dos "pings", o que ouvimos lembra sons de baleias. Assobios crescentes, decrescentes ou com pouca variação tonal.

Todos atentos para os sinais vindos da superfícieCN Urbina da Marinha do ChileOficial-aluno realizando varredura de horizonte sob o olhar atento do Cf Olivera JúniorRoupa para escape do submarino

A missão designada para os dois oficiais-alunos é uma corrida de minagem de um porto fictício, com oposição de forças de superfície e aérea. Cada postulante ao comando de submarino prepara então sua rota de aproximação para a área previamente definida. A rota deve obedecer alguns parâmetros para manter a embarcação afastada de áreas com tráfego civil e áreas demasiadamente rasas.

CMG Moniz de Aragão observa o desempenho do Oficial-alunoFim do exercício, retornamos a Arraial do CaboPrôa do Tikuna apontada para Arraial do CaboTripulação do submarino Tikuna formada no convés durante nossa despedida de mais um dia de intenso trabalho

O fato do trânsito do Tikuna e das fragatas ter sido realizado em conjunto determinou que a primeira corrida de ataque seria marcada pela pressão dos navios escoltas "adversários". O Oficial-aluno da primeira corrida de ataque, já sob tensão em decorrência da importância que este teste tem em sua carreira, ficou visivelmente sob tensão, o que era de se esperar . O instrutor do curso explicou que o cumprimento da missão designada não é fundamental para a aprovação no EQFCOS. O Oficial-aluno deveria observar, em ordem decrescente de importância, os seguintes objetivos: segurança do submarino e da sua tripulação, discrição do submarino, para não ser detectado e a minagem do porto. Ainda que estes objetivos não sejam atingidos, se o Oficial-aluno conduziu o submarino e gerenciou a situação com competência e profissionalismo, sua aprovação é possível, pois há situações em que o exercício é montado de modo que seja praticamente impossível o cumprimento da missão determinada.

S-34 Tikuna em Arail do CaboS-34 Tikuna em Arail do CaboS-34 Tikuna em Arail do CaboS-34 Tikuna em Arail do Cabo

Esse foi exatamente o caso da primeira corrida de ataque.A pressão exercida pelas fragatas impediu completamente a aproximação do submarino à área de minagem. Tão logo mergulhamos no início do exercício recebemos pelo telefone submarino o aviso "Oscar,Oscar,Oscar", que significa que um dos escoltas está realizando um ataque contra o submarino, seguido das coordenadas que a tripulação do navio de superfície julga ser a nossa posição atual. Se estiver muito distante, o comandante do submarino simplesmente ignora o aviso de ataque. Do contrário, se a posição informada for próxima da real, são necessárias manobras evasivas para tentar despistar o torpedo ficticiamente lançado.

S-34 Tikuna em Arail do CaboS-34 Tikuna em Arail do CaboS-34 Tikuna em Arail do CaboS-34 Tikuna em Arail do Cabo

No primeiro momento as coordenadas não estavam próximas da posição do Tikuna, de modo que o Oficial-aluno simplesmente continuou com a corrida de ataque, desconsiderando o aviso de ataque de um dos navios-escolta. O submarino vem da cota de 50 metros à cota periscópica, faz uma varredura de MAGE e uma bem rápida varredura com o periscópio de ataque. Os mastros não ficam expostos mais que poucos segundos, diminuindo a chance de uma detecção por radar ou mesmo visualmente.

As mudanças de profundidade são constantes. A sensação é que se sente em uma aeronave após a decolagem, enquanto sobe para a altitude de cruzeiro, e a descida também é bem acentuada. No entanto, não se sente qualquer outro movimento. Enquanto isso impera na área de combate a tensão e a concentração. Só se fala o necessário, o silêncio e a disciplina são imperativos. O Oficial-aluno passa as ordens, que são sempre confirmadas. Os operadores dos sonares o mantém informado da situação tática, reportando mudanças na situação dos contatos, aumento da intensidade do sinal dos sonares ativos inimigos que, se passar de um valor previamente conhecido, significa que o submarino provavelmente foi detectado.

S-34 Tikuna em Arail do CaboS-34 Tikuna em Arail do CaboS-34 Tikuna em Arail do CaboS-34 Tikuna em Arail do Cabo

Com as linhas de barragem bem próximas do "porto" e com a pequena profundidade local, não demora muito para que os ataques fiquem precisos o suficiente para serem levados em consideração, obrigando o Oficial-aluno a guinar o submarino e lançar despistadores de bolhas. A tensão que já era alta sobe ainda mais. O nível de concentração entre os membros da tripulação e, principalmente, do Oficial-aluno, é impressionante. O clima é provavelmente o que veríamos em uma situação de crise real.

Durante todo o exercício os membros da banca examinadora, o instrutor e seus auxiliares acompanham cada movimento, cada decisão e cada ordem do Oficial-aluno. Algumas questões colocadas durante o desenrolar do exercício fazem até com que o Oficial-aluno avalie melhor suas ações e busque retomar o domínio da situação, que é, fundamentalmente, o item mais importante.

Após cerca duas, três horas de muita adrenalina o exercício foi interrompido. A banca examinadora acredita ter elementos suficientes para a completa avaliação do Oficial-aluno. Hora de reposicionar o submarino para a corrida de ataque vespertina, com o segundo Oficial-aluno. Momento também de aproveitar a pausa entre um exercício e outro para almoçar e comprovar que o rancho nos submarinos é excelente.

 A Segunda Corrida

No reposicionamento, o valente comandante do Tikuna iniciou um movimento para sudeste, aproveitando que sua posição era conhecida pela força opositora. Em certo momento deste trânsito o submarino mergulhou para a cota de 50 metros e desviou seu rumo em velocidade silenciosa, de modo que no início da janela da segunda corrida de ataque as chances do contato ter sido quebrado seriam bem maiores.

Dito e feito. Iniciada a segunda corrida era possível ainda ouvir os sonares das fragatas em modo de busca ativa, mas bastante distantes. Algumas subidas à cota periscópica foram realizadas tanto para varredura MAGE e de periscópio, como para marcação da posição (marcação 3M), já que para fins do exercício não estava autorizado o uso de navegação inercial e/ou GPS.

A marcação 3M da posição do submarino com o periscópio é realizada mediante a observação de 3 pontos de referência em terra que encontram-se devidamente descritos na carta de navegação. Para a observação de cada uma das marcações, o comandante iça o periscópio já apontado para a posição onde se espera que esteja o ponto de referência. Em uma fração de segundos o comandante relata ao encarregado da navegação a marcação relativa daquele determinado ponto e em seguida ordena que o periscópio seja alagado, o que significa que o mastro ficará abaixo da superfície do mar mas não será completamente recolhido, arriado. O comandante então escolhe um segundo ponto na carta, ordena o içamento do periscópio, já apontando para a direção apropriada e o procedimento se repete até que a marcação relativa dos 3 pontos estejam devidamente anotados e marcados na carta. Pouco tempo depois o processo é repetido para que, comparando a velocidade, o tempo decorrido e os dois pontos estabelecidos, seja possível determinar com precisão a corrente marítima na área.

A segunda corrida teve um início muito menos frenético que a primeira, justamente pelo fato do início da segunda janela ter se dado sem que as fragatas estivessem muito próximas ao submarino. O Oficial-aluno chegou a atingir o ponto determinado para a colocação da primeira mina, mas o comandante do Tikuna acrescentou um grau de dificuldade no momento em que um dos elementos do HS-1, um "Guerreiro", acionou seu sonar de mergulho, este sim bem próximo do esteriotipado "ping" cinematográfico. Com o HS-3 com a "bola n'água" emitindo, foi declarado "torpedo n'água", obrigando o Oficial-aluno a abortar sua corrida de minagem, guinar o submarino, lançar despistadores de bolhas e se manter na defensiva por um tempo considerável.

É assim que os Oficiais-alunos do EQFCOS são avaliados, sob pressão. Quanto maior o grau de dificuldade e maior o stress, melhor a avaliação. A responsabilidade de conduzir uma embarcação que representa o maior poder que a Marinha do Brasil tem para enfrentar inimigos de superfície e outros submarinos, a necessidade de comandar um navio onde normalmente não é possível contar com referências visuais e o fato de ser provalvemente o passo mais importante de suas carreiras, faz com que os oficiais-alunos sejam levados além de seus limites. Apenas os mais bem preparados e com o perfil adequado serão selecionados para comandar os submarinos da Marinha brasileira, um tipo de embarcação que constitui um poder de ameaça respeitado por qualquer outra Marinha, principalmente pelo grau de profissionalismo dos homens que têm a missão de as conduzir.

O Futuro

O contrato da aquisição do U-214 e da modernização dos cinco U-209 inclui a atualização do “T-A”, para que o simulador reflita as mudanças dos equipamentos dentro dos submarinos. No entanto é inegável que esta configuração atual, com os sonares Krupp Atlas Elektronik CSU83-1/014 tranqüilamente serviria para treinar oficiais das demais Marinhas da região que usam os U-209: Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Chile e Argentina. Isto poderia, sem duvida, se mostrar uma bela fonte de renda extra para a Força de Submarinos, minimizado sua exposição às intempéries orçamentárias. Talvez , o ideal seja a construção de um novo “T-A” de tecnologia avançada sem que seja necessário desmontar o atual.

 Agradecimentos

A ALIDE gostaria de agradecer ao Comandante da Força de Submarinos, Contra-Almirante ARNALDO DE MESQUITA BITTENCOURT FILHO, ao Comandante do CIAMA, Capitão-de-Mar-e-Guerra Glauco Castilho Dall`Antonia e ao Capitão-de-Mar-e-Guerra Moniz de Aragão, pela oportunidade única e muito emocionante, de estar a bordo e vivenciar mais uma vez o altissímo grau de profissionalismo da Marinha do Brasil!

 

 

 

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