Corpo de Fuzileiros Navais no Haiti PDF Print E-mail
Written by Carlos Filipe Operti   
Thursday, 15 May 2008 19:46

 

 Desde junho de 2004 o Brasil está presente no Haiti como parte integrante das forças de estabilização e manutenção da paz da Organização das Nações Unidas naquele país. Nossas tropas são compostas por efetivos do Exército Brasileiro e da Marinha do Brasil, na figura do Corpo de Fuzileiros Navais, que formam junto com tropas outros 18 países o braço militar da MINUSTAH (sigla em francês para Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti), organismo coordenador dos esforços para soerguimento do país caribenho.

 Acompanharemos nessa reportagem um pouco de como funciona a estrutura dos Fuzileiros Navais brasileiros nessa missão, o seu dia-a-dia e com o que eles se deparam na árdua tarefa como “peacekeepers” das Nações Unidas.

 Os Fuzileiros Navais

O V contingente do Corpo de Fuzileiros Navais desembarcou em Porto Príncipe no dia 31 de maio de 2006, após 13 dias de viagem a bordo do Navio de Desembarque de Carros de Combate Mattoso Maia (veja reportagem aqui). O contingente, composto por 19 oficiais e 196 praças, forma o Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais Haiti (GptOpFuzNav-Haiti). Além destes há seis oficiais e quatro praças compondo o Estado-Maior combinado do BRABAT.

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.
Desembarque das viaturas no portoDesembarque das viaturas no portoDesembarque das viaturas no portoFuzileiros se preparam para irem para a Base
Desembarque das viaturas no portoDesembarque das viaturas no portoCaminhões no depósito da ONUViaturas da base chilenas

Na Marinha do Brasil o Corpo de Fuzileiros Navais é dividido em um setor operativo e um setor de apoio, visando facilitar a administração do efetivo. Quando se acerca a necessidade de projetar a tropa num teatro de operações, passa a ser adotado então o conceito organizacional de Grupamento Operativo, que é uma unidade nucleada por uma tropa de Fuzileiros Navais que agrupa seus elementos de acordo com a natureza das atividades de cada um. O conceito organizacional de GptOpFuzNav deve ser considerado complementarmente aos procedimentos previstos pelo Processo de Planejamento Militar, não resultando em perda de flexibilidade de escolha da melhor estrutura para o cumprimento das tarefas recebidas. Os GptOpFuzNav são empregados em qualquer operação ou ação da qual participe uma tropa de Fuzileiros Navais, sendo válido em qualquer ambiente ou nível de violência do conflito

 O conceito de GptOpFuzNav permite aliviar o seu comandante da sobrecarga resultante da complexidade das atividades de comando e controle, de manobra terrestre, de apoio logístico e daquelas relacionadas com o espaço aéreo de sua responsabilidade, além da coordenação própria no nível mais amplo de Força. Possibilita maior eficiência na medida em que, para cada área geral de atuação - comando e controle, manobra terrestre, espaço aéreo e logística – existirá um comandante designado para planejá-las, coordená-las e controlá-las, atendendo ao estabelecido pelo planejamento integrado.

 O Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais Haiti está organizado da seguinte maneira:

- Componente de Comando (CteC)
    - Secretaria do Comando
    - Chefe do Estado-Maior, Operações, Inteligência e Comunicações
    - Logísitca, Pessoal e Relações Públicas

- Componente de Combate Terrestre (CCT)
    - Seção de Comando
    - Pelotões de Fuzileiros Navais (PelFuzNav)
        - Grupos de Combate (GC)
    - Pelotão de Apoio (PelAp)
        - Equipe de Comandos Anfíbios (ECAnf)

- Componente de Apoio de Serviço ao Combate (CASC)
    - Destacamento de Comando e Serviços
    - Destacamento de Abastecimento
    - Destacamento de Transporte
    - Destacamento de Engenharia
    - Destacamento de Rancho
    - Destacamento de Saúde
    - Destacamento de Manutenção

 Cada Pelotão, incluindo o Pelotão de Apoio, segue a divisão clássica com três Grupos de Combate, totalizando 31 homens (10 soldados por GC mais o oficial comandante do pelotão). Todos realizam as mesmas funções e se revezam no cumprimento das missões. A ECAnf é empregada quando é necessário o emprego de ações táticas de Operações Especiais, atuando exclusivamente para esse fim. No CASC, os militares executam tarefas de caráter logístico, de acordo com o destacamento a que pertencem. Algumas dessas funções são exercidas em conjunto com o CCT nas tarefas operacionais, tais como o destacamento de Saúde, prestando apoio com enfermeiros e o de Transporte, com motoristas.

 O Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais – Haiti ocupa em Porto Príncipe uma grande área contígua ao Aeroporto Internacional Tussaint Luverture (MTPP/PAP), batizada como Base de Fuzileiros Navais no Haiti Acadêmica Rachel de Queiroz. A Base é vizinha de um depósito logístico da ONU, do escritório de operações aéreas da MINUSTAH, das unidades aéreas chilena e argentina, da unidade de engenharia equatoriana e do hospital da Força Aérea Argentina. Uma parte das estruturas da Base foi aproveitada das construções de alvenaria já existentes e melhoradas ao longo da permanência dos contingentes de Fuzileiros desde o início da missão. Nelas estão os alojamentos, os refeitórios e um pequeno auditório. As sessões administrativas, a sala de operações e a enfermaria são montadas em containeres e pequenos habitáculos pré-fabricados.

Interior da Base Rachel de QueirozInterior da Base Rachel de QueirozInterior da Base Rachel de QueirozCerimônia de hasteamento da bandeira do Brasil durante a alvorada

Os Fuzileiros Navais atuam dentro do âmbito da MINUSTAH na obtenção e manutenção de um ambiente estável e seguro e na garantia dos direitos humanos da população. Por ser uma tropa pequena, eles possuem uma área específica de atuação da qual são plenamente responsáveis. Essa área de responsabilidade tática compreende o complexo industrial de Sonapi e as localidades de Drouillard e Bois Neuf, que pertencem ao conjunto da favela de Citté Soleil, a maior da capital. Dentro dessa área o Grupamento tem a incumbência de guarnecer check-points e postos de segurança estáticos, além de realizar missões eventuais de acordo com as necessidades do comando da MINUSTAH, como patrulhas e escolta de autoridades. Para cumprir todas as suas incumbências os Fuzileiros contam com 15 viaturas UNIMOG de 2,5 ton e 15 viaturas Toyota de meia tonelada, sendo cinco de comunicações e 10 de transporte não especializado. Além disso, o Exército ainda dá o apoio de um Pelotão de Cavalaria Mecanizada, composto por quatro blindados Urutu, para as situações onde se faz necessário um veículo armado e protegido, conferindo a mobilidade e blindagem necessárias para o cumprimento das tarefas.

Interior da Base Rachel de QueirozInterior da Base Rachel de QueirozInterior da Base Rachel de QueirozCerimônia de hasteamento da bandeira do Brasil durante a alvorada
Deslocamento pela cidadeDentro do UrutuTroca de turno no PSE/CP 21Deslocamento de Urutu

Quando da chegada do V contingente ao Haiti, as primeiras atribuições da tropa eram reconhecer a nova área de responsabilidade, melhorar as instalações do Posto de Segurança Estática (PSE) 21, localizado no entroncamento da rua Lisius com a rua Soleil 9, ao norte de Drouillard, com o objetivo de proporcionar melhor segurança aos militares que o guarnecem, ativar o check-point (CP) 2, no posto de gasolina da rue National nº1, e identificar as principais lideranças nas áreas de Drouillard e Bois Neuf. Além disso eles ainda assumiram o check-point 3, localizado na boulevard des Industries, em frente ao complexo industrial de Sonapi, próximo à cabeceira Oeste da pista do Aeroporto Internacional. Excetuando-se o PSE 21, que é guarnecido ininterruptamente, os check-points são ocupados apenas durante alguns períodos específicos do dia. A função desses bloqueios nas vias, como uma "blitz" é, principalmente, inibir o transporte de armamento ilegal para os grupos rebeldes e proceder com a vistoria de veículos suspeitos de serem usados em seqüestros ou no tráfico de drogas. A preocupação com o contrabando de armas é mais forte no CP 21, pois o mesmo fica na principal via de entrada de armas vindas do norte do país. Em conjunto com essas ações os militares do Gpto eventualmente participam de patrulhas marítimas com a guarda costeira haitiana para inibir o contrabando de armas através do porto de Porto Príncipe. Atualmente o Grupamento guarnece apenas o PSE 21 e o CP 21, tendo passado os outros pontos de checagem para uma unidade de polícia chinesa (CP 03) e para uma unidade mista do Uruguai com o Chile (CP 02). Por ser um local próximo de Citté Solleil, favela perigosa e ainda não completamente dominada pelas forças da ONU, o deslocamento para “o 21” é obrigatoriamente feito em viaturas blindadas Urutu. Uma viatura fica sempre postada naquela posição, dando proteção ao posto, sendo substituída por outra a cada troca de turno da guarnição. Operações do tipo “busca e apreensão” atualmente são realizadas pela polícia da ONU (UNPOL) e/ou pela polícia haitiana (PNH), e mesmo quando os Fuzileiros eventualmente realizam alguma detenção ou apreensão, as pessoas e/ou o material são conduzidos para uma delegacia da UNPOL.

Urutu na Base dos FuzileirosFuzileiros se preparando para irem pro PSE/CP 21Deslocamento no UrutuUrutu posicionado a frente do PSE 21
Gerador de força do PSE 21Lateral do PSE 21PSE 21PSE 21

 A relação da tropa brasileira com a população de Porto Príncipe é um aspecto extremamente positivo da missão. Os haitianos entendem que a participação da ONU tem um caráter de grande ajuda ao país e procuram colaborar com as tropas. Com os brasileiros há ainda uma relação especial, já que os haitianos são grandes admiradores de nossa cultura, principalmente do futebol. Além do mais, o tratamento cordial que os soldados brasileiros dispensam à população transmite a eles confiança, o que pode ser conferido na constância com que as pessoas se aproximam dos Fuzileiros nos check-points em busca de auxílio médico, emprego, comida, ou até mesmo para fazer denúncias de roubos e seqüestros. Uma parte do sucesso dessa relação se deve às inúmeras missões humanitárias que o CFN realiza na capital haitiana. Essas missões tem caráter de uma Operação do GptOpFuzNav, e passam por todas as fases do processo de planejamento militar. O caráter logístico dessas missões faz com que, nesses casos, o esforço maior fique sob a responsabilidade dos homens do CASC, cabendo ao pessoal do CCT apenas a segurança dos locais onde são realizadas essas atividades. Nelas os Fuzileiros distribuem medicamentos, roupas, alimentos, brinquedos, material escolar, etc, para hospitais, escolas e orfanatos da capital, principalmente naqueles dentro da área de atuação do Grupamento, de acordo com a disponibilidade desses itens na Base. Atualmente são realizadas em média uma missão dessas por semana, de acordo com o reconhecimento feito pelos médicos da unidade, que se encarregam de fazer o levantamento das necessidades de cada local. Isso estreita os laços com as autoridades locais e também ganha a simpatia dos populares em favor das ações da tropa. Além de representar uma satisfação pessoal muito grande para quem participa dessas operações.

Urutu junto ao PSE/CP 21oMetralhadora .50 do UrutuCheckpoint 21Urutu junto ao PSE/CP 21

Preparando-se para mais uma missãoPreparando-se para mais uma missãoDeslocamento no UrutuDeslocamento no Urutu

Pela situação em que se encontra o país e também devido às regras determinadas pelas Nações Unidas, os soldados não podem conviver socialmente com a população, além do estritamente profissional. A vida então se resume às operações e à Base Rachel de Queiroz. Dentro da Base existem algumas facilidades para amenizar a falta de lazer, como internet e TV com canais brasileiros transmitidos via satélite, apesar do ritmo operacional ser puxado e não dar muita margem para outro tipo de distração que não o descanso. Além disso, existe uma linha de telefone direta da Base para uma central da Marinha no Rio de Janeiro, que permite ligações para toda a cidade do Rio sem ônus para os soldados. Outro fator importante é a comida. A ONU fornece os itens para alimentação, com produtos de boa qualidade e variedade, o que faz uma grande diferença na manutenção do bem estar da tropa. Além disso, os soldados da força de paz contam ainda com três oportunidades para um descanso mais completo durante os seis meses em que ficam no Haiti. São dois pequenos "feriados", chamados de arejamentos, onde os militares, em sistema de rodízio, passam quatro dias em hotéis na República Dominicana, pago pela ONU. A terceira oportunidade é o "leaving", em que cada militar têm autorização para passar 20 dias fora, onde normalmente a escolha é passar esse período com a família no Brasil.

PSE 21Urutus no PSE 21Urutus no PSE 21PSE 21
PSE/CP 21CP 21PSE 21PSE 21
PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT

 

Haiti - A História  

O nascimento do Haiti remonta a gênese das Américas. Foi no ano de 1492 que o navegador Cristóvão Colombo, pouco tempo depois de ter avistado as primeiras ilhas do novo continente (onde hoje são as Bahamas), desembarcou nas terras do que atualmente é o Haiti, mais precisamente no dia cinco de dezembro. A ilha, então batizada de Hispaniola, passou a fazer parte da coroa espanhola. Logo em seguida se iniciou a colonização, com a escravização da população nativa para trabalharem na busca de ouro pela ilha. Doenças e o tratamento desumano dado a esses nativos acabaram por reduzir drasticamente os números desses, obrigando os colonizadores a introduzirem o uso de trabalhadores escravos negros trazidos da África. Com a descoberta de grandes jazidas de ouro no México e na América do Sul, a Espanha relegou Hispaniola a segundo plano. No início do século XV, em 1609, o rei de Espanha ordenou que os colonizadores se movessem para as cercanias da capital, Santo Domingo, temendo a ação de piratas. Esse abandono da ilha, principalmente das costas norte e oeste, acabou resultando na larga atuação de piratas naquela região, com franceses, britânicos e holandeses estabelecendo bases naquelas áreas negligenciadas pelos espanhóis. Em 1625 os franceses começaram a colonizar a porção oeste da ilha e, em 1664, a França reivindicou formalmente a posse da região, o que só foi conseguido oficialmente em 1697, com a assinatura do tratado de Ryswick, pelo qual a Espanha cedeu a parte oeste da ilha para os franceses, que batizaram a nova colônia de Saint-Domingue (a outra parte da ilha que ficou com os espanhóis é atualmente a República Dominicana).

 A partir do início do domínio francês Saint-Domingue prosperou com o cultivo de cana-de-açúcar e café, exportando os dois produtos para o mundo inteiro e se tornou a colônia mais rica do ocidente. Apesar da prosperidade, a segmentação da sociedade na colônia, dominada pelos brancos europeus, acabou por gerar em fins do século XVI uma série de convulsões inspiradas nos ideais de liberdade e igualdade da Revolução Francesa, capitaneada pelos negros livres. Mesmo com a intervenção de Napoleão, que mandou tropas para tentar acabar com a revolução, os revoltosos obtiveram sucesso e em 1804 Saint-Domingue declarou sua independência, finalmente tendo seu nome modifica para o atual, Haiti. Essa vitória deu ao país os títulos de segunda nação independente do “Novo Mundo” (a primeira foram os Estados Unidos) e de único país no mundo a ter se tornado independente através de uma revolução comandada por escravos. O novo governo então passou a apoiar as causas abolicionistas onde quer fosse possível, tendo dado substancial apoio aos ideais de Simon Bolívar. Essa postura fez com que as outras nações ainda escravocratas promovessem um bloqueio ao jovem país que virtualmente isolou o Haiti do resto do mundo. A própria França não reconhecia a independência do país, e só o fez em 1833 após o pagamento de uma substanciosa quantia em dinheiro, a título de indenização pelas perdas que os fazendeiros franceses sofreram com a revolução. Após a independência o país passou por uma série de situações políticas e econômicas que o tiraram do caminho da prosperidade. Até que em 1915, preocupados com a gradativa influência estrangeira que se fazia mostrar naquela região, os Estados Unidos decidiram invadir o Haiti. A ocupação durou até 1934, e teve sérias conseqüências para o país. Em 1957 teve início a era Duvalier, com a eleição de François Duvalier para presidente. Também conhecido como Papa Doc, seu governo foi caracterizado pela violência e corrupção, comandando o país com mão de ferro até sua morte em 1971, quando seu filho de 19 anos, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, assumiu o poder e continuou com a era de opressão do pai. Seu governo foi deposto em 1986 e após se seguiram anos de mais instabilidade política.

 A primeira intervenção direta da ONU no Haiti se deu em 1993, com o início do mandato da United Nations Mission in Haiti (UNIMIH), com o principal objetivo de estabilizar a situação do país, profissionalizar as forças armadas, criar uma polícia separada e estabelecer um ambiente para eleições livres e corretas. A UNIMIH atuou até 1996, quando foi encerrada. Após esta teve início a United Nations Support Mission in Haiti (UNISMIH), em seguimento a UNIMIH, para promover a reconstrução das instituições nacionais e da economia, além de prosseguir com uma tentativa de reconciliação nacional. Essa missão foi encerrada em julho de 1997, quando teve início a United Nations Transition Mission in Haitii (UNTMIH), responsável por treinar os efetivos da polícia haitiana a fim de que esta pudesse assumir suas atribuições, tendo durado até novembro de 1997. Seguida a ela houve a United Nations Civilian Police Mission in Haiti (MIPONUH), com o mesmo objetivo da anterior, mas vislumbrando atividades mais amplas. Essa missão se encerrou no ano de 2000.

 No ano de 2000 o país promoveu eleições para presidente, tendo vencido Jean-Bertrand Aristide, tornando-se presidente pela segunda vez. Ele assumiu em 2001 em meio à agitação causada pelo boicote das eleições por parte de grupos políticos rivais e por acusações de fraude.

 A MINUSTAH

No início de 2004 uma série de violentas disputas entre grupos políticos divergentes, iniciada na cidade de Gonaives, se espalhou pelo país abalando as já combalidas estruturas haitianas. O caos culminou com a renúncia do então presidente Jean-Bertran Aristide no dia 29 de fevereiro. Em meio à incapacidade do governo de controlar a situação interna, o novo presidente, Boniface Alexandre, até então presidente da Suprema Corte e que assumira poucas horas após a retirada de Aristide (que havia deixado o país), enviou através do representante do país na ONU um pedido de auxílio externo, com autorização para o uso de tropas militares se necessário. O pedido foi submetido ao Conselho de Segurança no mesmo dia e então, sob a chancela do Chapter VII da Carta das Nações Unidas, os países membros concordaram que havia uma grave ameaça à paz e séria deterioração das condições humanitárias e de segurança. Houve então o consenso para a realização de uma ação de intervenção internacional no país, tornada oficial pela resolução 1529, do mesmo dia 29 de fevereiro de 2004, que autorizava o deslocamento imediato de uma força multinacional interina para o Haiti. A MIF (Multinational Interim Force) foi prontamente mobilizada e desembarcou no Caribe com a responsabilidade de estabilizar e devolver a segurança, na medida do possível, à capital Porto Príncipe e ao restante do país; facilitar a chegada de ajuda humanitária para o povo haitiano; garantir condições para o estabelecimento de organismos regionais e internacionais de assistência para o a população, entre outras. A missão tinha validade de três meses a partir de seu início, e compreendia também a preparação do terreno para a implantação de uma missão de estabilização. Durante esse período foram efetivadas diversas ações junto ao governo haitiano com o objetivo de restaurar a normalidade política no país, inclusive com a formação de um governo de transição. Em 30 de abril de 2004, aceitando as recomendações do então Secretário-Geral da ONU, Koffi Annan, o Conselho de Segurança decidiu pela criação da missão que coordenaria a reestruturação do Haiti, através da resolução 1542. Ela incitava o imediato requerimento de colaboração aos países membros das Nações Unidas para o início do novo organismo, e também previa a substituição da MIF pelo novo organismo, a MINUSTAH (Missão para a Estabilização do Haiti, na sigla em francês), no dia 1º de junho de 2004. O mandato inicial da nova missão compreendia um período de seis meses, podendo ser prorrogado de acordo com as necessidades e os resultados alcançados.

 Na criação da MINUSTAH o Brasil foi um dos países que se dispôs a colaborar com efetivos militares. A oferta brasileira soma atualmente aproximadamente 1200 homens, entre tropas do Exército e dos Fuzileiros Navais, compondo em conjunto o Batalhão Haiti. Ele é formado pelas unidades de combate e por uma companhia de engenharia do Exército, e pelo Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais. Dentro da organização da MINUSTAH o Batalhão Haiti é conhecido como Brazilian Battalion, ou simplesmente BRABAT, que é comandado por um oficial do Exército. Além da participação das tropas o Brasil também se comprometeu a assumir o comando do efetivo militar multinacional da Missão. Desde então a figura do Force Commander é preenchida por um oficial general do Exército Brasileiro. Atualmente o posto é ocupado pelo General José Elito Carvalho Siqueira.

Em Porto Príncipe

Após pouco mais de dois anos da presença da ONU no Haiti, andar pelas ruas de Porto Príncipe ainda é uma aventura e uma experiência impactante. A cidade tem um colorido especial, é verdade, mas é o retrato de uma sociedade depredada por séculos de domínio autoritário e predatório.

PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT

A miséria é endêmica, claramente visível em toda a cidade. Na saída do porto, onde você é obrigado a passar ao largo de um conjunto de favelas, a imagem é estarrecedora. Montanhas imensas de lixo ao longo das ruas, casebres montados com qualquer tipo de material que seja encontrado, crianças andando por esse cenário completamente desprotegidas, brincando na água contaminada com os resíduos do lixo. A ausência de quaisquer condições de vida chega a doer, é algo caótico mesmo se comparado aos locais mais problemáticos do Brasil. Mais de 80% da população do país vive abaixo da linha de pobreza, segundo dados de 2003. Nas áreas mais centrais da cidade a situação é menos perturbadora, pois Porto Príncipe é uma cidade de grande porte, com aproximadamente dois milhões de habitantes. A cidade tem uma estrutura urbana bem formada, mas extremamente deteriorada. É possível distinguir alguns bairros com construções típicas da nossa classe média, além de localidades mais simples que não chegam a ser favelas. O que é praticamente onipresente é o lixo nas ruas, em maior ou menor quantidade, mas sempre lá. Num contraste com o luxo de alguns locais, como na parte alta da cidade, com grandes casas e terrenos imensos perfeitamente bem cuidados, e vigiados.

PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT

Outro detalhe que chama a atenção é a luz elétrica. Uma boa parte da cidade não conta com abastecimento regular de eletricidade. Andar a noite pelas ruas nessas áreas é talvez retornar ao século XIX, onde o que você vê é o breu total na via e as luzes mortiças das velas e candeeiros no interior das casas. Quem tem condições banca sistemas de geradores de energia, o que não é o usual em meio a tanta pobreza. A principal iluminação nas ruas acaba sendo os faróis dos carros.

PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT

PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT

O trânsito na cidade é um caso a parte, digno em alguns momentos de uma grande metrópole desenvolvida ou em desenvolvimento. Engarrafamentos são eventos corriqueiros e trafegar pela cidade em certos horários requer muita paciência e atenção. São poucos os sinais de trânsito e a organização do fluxo depende da boa vontade de cada motorista. A aglomeração de carros é impressionante, e parece que eles surgem de todos os lugares. A idade da frota haitiana é antiga, e boa parte desses engarrafamentos é causada por veículos que enguiçam no meio da rua, atravancando o fluxo. E nem sempre eles se posicionam de maneira a atrapalhar menos o andamento do tráfego... Principalmente se for um MACK, como eles chamam os imensos caminhões que rodam pela cidade (MACK é a marca da maioria dos caminhões usados no Haiti). Aí realmente a situação se torna um caos. Outra onipresente visão nas ruas de Porto Príncipe são os tap-taps. Principal meio de transporte da cidade, os tap-taps são caminhonetes e pequenos caminhões adaptados para transporte de passageiros. Entram também na categoria vans e pequenos ônibus. Parece haver entre eles uma disputa por quem é o mais chamativo, pois praticamente todos são pintados com cores vivas e desenhos variados, além de ostentarem todo tipo de mensagem nas latarias. O impressionante é que lá você se dá conta de que parece não haver limites para o número de pessoas transportadas por eles. Estão sempre abarrotados de gente, e a impressão é de que a qualquer momento eles podem tombar, levando todos os ocupantes junto. Outro detalhe do trânsito é que não há muita benevolência por parte dos motoristas. Manobras imprudentes e fechadas são uma constante. Mesmo os carros menores da ONU não gozam de total respeito. Rodando com um jipe branco dos Fuzileiros, com quatro soldados a bordo, era raro algum motorista permitir a passagem com mais rapidez, e por algumas vezes se fez necessário um dos soldados sair do jipe para dar uma rápida controlada no trânsito para que fosse possível prosseguir com mais agilidade, sem ficar completamente preso no tráfego pesado. E também no trânsito é possível notar os contrastes: velhos carros caindo aos pedaços ao lado de modelos novíssimos estalando de novos.

PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT

PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT

PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT

 Apesar da experiência com o trânsito, é possível perceber que a população de Porto Príncipe é bem receptiva. E que existe uma admiração muito grande pelo povo brasileiro. Transitando pela cidade, diversas vezes éramos saudados com acenos de mão e gritos de “Bom bagay!”, que em creole (língua oficial do país, junto com o francês) significa algo como "gente boa", pelas pessoas na rua. E a resposta positiva dos soldados resultava na expressão de alegria de quem acenou. Outro fenômeno interessante é a proliferação de bandeiras do Brasil presas nos carros. Impressiona ver a quantidade dessas bandeiras pelas ruas de Porto Príncipe, e ver que a admiração pelo Brasil é algo forte e, segundo informações locais, não apenas em época de copa do mundo. Fenômeno parecido acontece com a Argentina. E, por incrível que pareça, por lá também existe a velha rivalidade entre os dois países no futebol. Famílias dividem-se entre Brasil e Argentina, e em alguns casos a exaltação dos ânimos faz com que os torcedores cheguem às vias de fato. Pessoas que não são nem brasileiras, nem argentinas.

PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT

 O comércio em Porto Príncipe é variado, e é forte a presença dos comerciantes informais. Vende-se de tudo na rua, de comida preparada ao ar livre sem nenhum cuidado higiênico, incluindo frutas e verduras, até artesanato local, roupas, sapatos, brinquedos e o que mais se possa imaginar. Também são inúmeros os pequenos restaurantes e bares, onde as pessoas se reúnem para beber e escutar música. Aí também é possível ver os contrastes, ao se passar por uma concessionária de carros de luxo, pela imensa loja da operadora de telefonia celular local e pelo prédio de um banco. E também é possível salientar o movimento regular do aeroporto internacional Tussaint Luverture, com operação regular de widebodies e aeronaves menores de diversas companhias, principalmente do Caribe e dos EUA.

PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT
PSE 21Preparação pra uma saídaCerimônia militar no BRABAT

 

A Experiência

O resultado final da participação dos Fuzileiros Navais pode ser sintetizado nas palavras do comando do Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais – Haiti:
“A preocupação do GptOpFuzNav Haiti tem sido no sentido de sedimentar a aplicação do conceito de Grupamento Operativo, em qualquer tipo de cenário, inclusive em Operações de Paz, especialmente no ambiente urbano. Como a missão no Haiti tem o desafio de acabar com a instabilidade causada pelas gangues armadas, as regras da missão são bem definidas, porém limitadoras. O emprego das tropas próximo dos contingentes policiais traz uma dificuldade peculiar à missão, que tem sido minimizada pelo aperfeiçoamento e profissionalização observado na PNH. A avaliação geral é que a missão traz, no âmbito da ONU, melhor conhecimento de como é o funcionamento da Organização, estando mais bem preparados para defender os interesses do Brasil. No âmbito interno, a missão tem sido uma oportunidade única de integração das forças armadas e de aprimoramento de nossa doutrina de operações combinadas. A convivência prolongada e as situações vividas têm contribuído para o melhor conhecimento mútuo entre as Forças. As experiências adquiridas neste ambiente altamente complexo e real que envolve a missão, certamente não serão esquecidas por nenhum dos Fuzileiros Navais que tiveram a oportunidade de participar, direta ou indiretamente, na preparação, na execução ou no apoio à missão. Nossos Fuzileiros Navais têm cumprido sua missão com afinco. Ao final da participação brasileira, certamente, o CFN sairá ainda mais maduro e melhor preparado para continuar atuando na defesa dos interesses nacionais”.

 AD SUMUS!

 

Last Updated on Thursday, 15 May 2008 20:05
 

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