SU-30 - A Venezuela joga pesado PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles, Rodrigo Bendoraytes e Ailton José de Oliveira Júnior   
Wednesday, 12 November 2008 16:24

 

A origem do Su-30

   A União Soviética durante toda a Guerra Fria tinha em paralelo duas forças aéreas. A IA-PVO, o Comando de Defesa Aérea, operava os caças interceptadores tripulados contra a ameaça representada pelos bombardeiros nucleares americanos. As demais atividades de ataque ao solo e caça ficavam sob a atenção da VVS, a “Força Aérea Tática”.  Como o programa industrial que gerou o Su-27 Flanker original nasceu sob encomenda da VVS ele acabou sendo monoplace. As necessidades da IA-PVO para a substituição dos seus MiG-25 e Tu-128 mais antigos aparentemente poderiam ser bem atendidas por um avião derivado do Flanker, mas era necessário incluir algumas adaptações chaves. A capacidade de reabastecimento em vôo e um sistema de navegação de maior precisão eram duas características indispensáveis para as missões de longa duração sobre o hostil ambiente do Ártico.

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.
Os dois Su-30MK em uma escala técnica em Malta antes de continuar sua viagem rumo à VenezuelaSu-30MK - 501 pousando em MaltaO Il-76 que acompanhou os dois caças levando peças e pessoal para a manutençãoO Il-76 pousando em Malta

   Outra grande mudança estava na necessidade de um segundo tripulante para melhor dividir as tarefas a bordo. Dificilmente, um único tripulante conseguiria realizar sozinho, e com êxito, a extenuante missão de interceptação. O Su-27UB, a versão biplace do Flanker, já tinha sido encomendado pela VVS para o treinamento dos seus pilotos. Foi deste modelo que a IA-PVO partiu para criar o seu Su-27PU, o sufixo “P” adicionado no indicativo do novo modelo significando “Perekvatchik” ou, em português, “Interceptador”.

O Su-30MK - 502 pousado em MaltaO grande Il-76 decolando de Malta rumo a Casablanca no MarrocosO Flanker deixando a ilha de Malta com toda a sua potência!A enorme deriva com a marcante estrela vermelha

   Três empresas distintas na Rússia hoje produzem o Su-27 ou seus derivados, a KnAAPO, a IAPO e a NAPO. A KnAAPO, foi a primeira fábrica a produzir estas aeronaves. Fabricante dos modelos monoplaces, localizada no extremo oriente russo em Komsomolsk-na-Amur. Desde 1986 toda produção dos treinadores em tandem da família Flanker foi concentrada na fábrica Irkutsk Aircraft Production Organization da cidade de Irkutsk, na Sibéria. Por sua vez a NAPO é incumbida dos biplaces lado-a-lado, que são produzidos em Novosibirsk. Com o fim da URSS estas três partiram para oferecer seus produtos para outras forças aéreas que poderiam ter interesse por um Super Flanker, um derivado do Su-27 que agregasse novos armamentos, motores, sensores e aviônicos digitais. A KnAAPO fiel aos seus modelos monoplaces criou o Su-35, e devido à sua ligação com os chineses na produção sob licença do Su-27SK naquele país, ao identificar um interesse por um caça modernizado com piloto e operador de sistemas de armas tomou a dianteira para criar o Su-30MKK que integrou uma série de sistemas originalmente concebidos para o Su-35.

Sukhoi Su-35 Super Flanker. Esse modelo foi oferecido para a Força Aérea Brasileira durante o Projeto F-X.Su-35 em vôo de testes. Algumas células já estão em operação na Força Aérea RussaSukhoi Su-27SKM, versão modernizada do Su-27SKSu-33, a versão embarcada do Su-27
Dois Su-30 em vôoLinda imagem de um Su-35UB, versão biplace do Su-35Su-35 em demonstraçãoO Su-35 em incrível manobra

   Em paralelo a Irkut conseguiu um contrato Indiano para desenvolver, integrar e fabricar um modelo especial para os duros requisitos daquela força aérea. Canards, semelhantes aos usados no Flanker de porta aviões, Su-33, turbinas AL-31FP com empuxo vetorado, painel de origem francesa e sistemas de autodefesa israelenses foram adicionados a uma série de aviônicos criados na Índia para produzir o mais espetacular membro da família Flanker. Este acordo com os indianos gerou pedidos da fábrica russa para 40 unidades, e um contrato adicional para manufatura pela HAL Hindustan Aircraft Limited de 140 unidades adicionais.

   O Su-30MK é a estrela das exportações aeronáuticas da Rússia tendo sido vendido ainda para outros cinco países: Vietnã, Malásia, Indonésia, Argélia e agora a Venezuela.

Um protótipo do MKISu-30 lançando míssil ar-superfície Kh-29TESu-30 armado com mísseis R-73, R-77 e Kh-31Su-30 armado com mísseis R-73, R-77 e Kh-31
Su-35UB decolandoSu-27SKM, os Su-27 da Rússia estão sendo elevados a esse padrãoMesmo tendo a designação Piloto e Oficial de Sistemas de Armas

   A Indonésia recebeu dois Su-30MK nos meses de agosto e setembro de 2003 em conjunto com dois Su-27SK monoplaces e é esperado que venha a fazer um novo pedido dessas aeronaves. O Vietnã se tornou o quarto operador dessa versão quando, em novembro de 2004, recebeu quatro aeronaves derivadas da versão Su-30MK2 originalmente desenvolvidas para a China e que foram batizadas de Su-30MK2V. Em agosto de 2003, a Malásia assinou um contrato para a aquisição de 18 Su-30MKM, muito similares aos Su-30MKI indianos, porém com alguns componentes da África do Sul, com as primeiras entregas previstas para o início de 2007. Em fevereiro de 2006, foi noticiado que a Argélia adquiriria 28 Su-30MK dentro de um grande pacote avaliado em US$ 4 bilhões e que envolveria além dos Flankers, 36 MiG-29SMT, baterias de mísseis S-300PMU2 e tanques T-90.

 O Su-30MK Super Flanker e suas principais variantes

   Apesar de ter suas origens na década de 70, o Su-30MK é uma aeronave única e dificilmente capaz de ser igualada. Já tendo sido testado em operações com duração de até 10 horas e possuindo diversas capacidades únicas, um dos mais notáveis frutos da herança tecnológica soviética, o Su-30MK acabou se convertendo rapidamente na aeronave de combate russa mais temida na atualidade, e certamente apresenta diversas características que justificam tal fama. Sendo capaz de realizar uma ampla variedade de missões que vão desde a interceptação de alvos aéreos até a atuação como posto de controle avançado, o Su-30MK é a mais capaz e versátil aeronave russa já construída até a presente data.

Radar N-011MSu-30 decolando para vôo de testesProtótipo do Su-30MKK lançando míssil Kh-29Su-30MK2 armado com míssil de médio alcance Kh-59

 O Su-30MKI - O Rei dos céus indianos

   A Força Aérea da Índia (IAF) assinou um contrato de $1.8 bilhões com a Sukhoi em 30 de novembro de 1996 para a entrega de 40 aviões Su-30MKI (Modernizado, Comercial, Índia) da fábrica Irkutsk entre os anos de 1997 e 2000. Em setembro de 1998, a IAF comprou um segundo lote composto por dez aeronaves que seriam destinadas a Indonésia, aumentando assim a força de Flankers para 50 unidades.

   Na India os distintos lotes acabaram sendo informalmente apelidados de Mk (Mark) I, Mk II e Mk III. O primeiro lote, composto por oito aviões Su-30MK-I (designação dada ao Su-27PU/Su-30 padrão na Índia) foi entregue em 1997 e usado primeiramente para treinamento, já que seu desempenho em combate era claramente inferior aos “MKI” definitivos que seriam entregues alguns anos mais tarde.

Su-30MKI da Índia decolandoSu-30MKI Super Flanker em exposição durante um evento na ÍndiaTubeira dos motores Lyulka Saturn AL-31FP de empuxo vetorado de um Su-30MKISu-30MKI da Índia fabricado pela Irkut

   A segunda versão do Flanker indiano, o Su-30MK-II, começou a ser entregue em 1998 e já possuía aviônicos da empresa Sextant da França e equipamentos de guerra eletrônica da IAI israelense. O terceiro lote composto por 12 células da terceira versão, o Su-30MK-III, foi entregue em 1999, sendo essa a primeira versão com “canard”.

   O Su-30MKI, a versão definitiva da Índia, começou a ser entregue em 2000 e tinha como grande diferença em relação à versão “MK-III”, o motor Lyulka Saturn AL-31FP de empuxo vetorado, garantindo uma manobrabilidade inigualável. No mesmo ano, um memorando de entendimento foi assinado entre a Rússia e a Índia, confirmando a produção sob licença de 140 células da versão MKI na Índia. A Irkut transferiu toda a tecnologia da aeronave para a empresa indiana HAL. Por sua vez a HAL dividiu a produção do Sukhoi em quatro principais centros, um responsável pela produção dos motores, dois pelos demais conjuntos e sistemas e a última pela montagem final e integração.

   A versão MKI possui dois motores AL-31FP, cada um com 27.550lbs de potência, radar N-011M com capacidade de localizar alvos a 300km e “traquear” a 200km e capaz de iluminar 20 alvos e engajar 8 ao mesmo tempo. O radar também pode iluminar alvos de grande porte no mar com um alcance aproximado de 400km. A Sextant Avionique fornece os seis displays coloridos para o piloto e o Oficial de Sistemas de Armas (WSO-Weapons System Officer), GPS, HUD entre muitos outros equipamentos. Sua autodefesa possui uma unidade integrada de ECM, que alerta a aeronave sobre sinais emitidos por mísseis inimigos, “jameia” e lança chaff e flares.

   Seu armamento é composto por um canhão GSh-301 de 30mm interno e nos 12 cabides pode carregar mísseis ar-ar R-60MK, R-73RDM2, R-27RE1, R-27TE1 e o mortífero R-77. Em missões de ataque a aeronave pode levar mísseis Kh-25MP, Kh-29L/T, Kh-31 A/P e Kh-59/59M além de bombas KAB-500KR, KAB-500OD e KAB-1500KR/L. Ao todo são mais de 70 modelos de armas convencionais e nucleares.

 O Sukhoi Su-30MKK - Defendendo a 4ª maior economia do mundo

   A relação dos chineses com os caças Flanker da Sukhoi começou em meados da década de 80 quando o modelo básico de exportação, o Su-27SK, foi encomendado em três lotes sucessivos totalizando 78 células. Na China, este avião foi chamado de J-11 e suas entregas começaram em 1982. Uma significativa porção destes aviões era composta de biplaces Su-27UBK fabricados pela IAPO embora os monoplaces tenham sido manufaturados pela KnAAPO. Em 1996 foi assinado um contrato de US$1.2Bi para a construção de 200 Su-27SK sob licença na China pela fábrica Shenyang Aircraft Corporation, a partir de kits fornecidos pela KnAAPO. Enquanto satisfeita com o modelo básico e sua especialização para interceptação e superioridade aérea, os chineses em 1997 decidiram que queriam uma aeronave com capacidade ar-terra avançada e que mantivesse a habilidade ar-ar dos Su-27SK.

Protótipo do Su-30MKK em vôo na RússiaSu-27SKM fazendo o Desenho do Su-30MK2Lista de armas utilizadas pelo Su-30MK2

   Dessa necessidade surgiu o Su-30MKK (Modernizirovannyi Kommercheskiy dlya Kitaya - Modernizado, Comercial, China). A KnAAPO disputou este novo contrato fortemente contra a IAPO e aproveitou-se dos esforços anteriores da criação do Su-35, adicionando uma série de sistemas modernos criados para este programa a uma nova fuselagem frontal com dois assentos. As características visuais mais marcantes dos MKK estão na sua empenagem vertical com pontas alongadas e quadradas e na asa maior capaz de acomodar quatro cabides de armamento de cada lado, totalizando 12 pontos em toda a aeronave. Ambas as melhorias também tinham sido desenvolvidas para o programa Su-35. A estrutura e o trem de pouso do MKK foram reforçados, permitindo um peso máximo de decolagem na casa de 38.000kg, bastante superior às 30,5 toneladas do Su-30 original e até mesmos às 33,5 toneladas do Su-30MKI indiano.

   A PLAAF (Força Aérea do Exército de Libertação do Povo) fez duas encomendas de Su-30MKK. A primeira assinada em 1999 para 38 células, por US$1,85 Bi e a segunda em 2001 para outros 38 unidades por US$1,5Bi. As primeiras dez unidades produzidas pela KnAAPO chegaram à Base Aérea de Wuhu em dezembro de 2000. Após a chegada do Super Flanker a PLAAF passou a dispor em seu arsenal de uma verdadeira aeronave multifuncional, superando em muito o Sukhoi Su-27/J-11. O Su-30MKK possui capacidade de voar e combater em qualquer tempo levando o que existe de mais moderno em termo de armas e sistemas de autodefesa. Com alguns reabastecimentos em vôo o Super Flanker chinês poderia alcançar alvos em Guam, Austrália e outros objetivos no Oceano Índico e Pacífico.

   Em janeiro de 2003 a China assinou o contrato com a companhia Rosoboronexport para a compra do terceiro lote de caças Su-30MK. O contrato foi fechado com a compra de 24 unidades da variante MKK2(versão chinesa do MK2), versão especializada para a PLANAF(Força Aeronaval da Marinha Chinesa) e possui como especialidade o combate anti-navio e todas as unidades foram recebidos até agosto de 2004. A primeira modificação foi o uso da última versão do radar disponível no modelo MKK, o N001VEP, plenamente capaz de comunicar-se e transferir as coordenadas dos alvos no mar para os mísseis Kh-31A (versão anti-navio do míssil Kh-31P) e também para o novo Raduga Kh-59MK (NATO: AS-18 Kazoo) com um alcance superior a 200 km. Adicionalmente a suite de ECM/ECCM/ESM do MKK2 é muito melhorada o que permite que este modelo seja usado efetivamente como aeronave espiã, além de suas funções básicas de caça-bombardeiro. Este modelo também é capaz de transportar o casulo de reconhecimento M-400, com radar de varredura lateral, desenvolvido pela empresa Kupol. Uma versão adicional do MKK, chamada provisoriamente de Su-30MKK3, com novo radar principal e capacidade de emprego do Kh-59MK, aparentemente foi abortada uma vez que este míssil era passível de integração com o radar VEP do MKK2. Algumas fontes indicam que o MKK3 estaria sendo oferecido com a capacidade de lançar o poderoso míssil anti-navio Moskit.

   O recente anúncio da paralisação da produção local dos Su-27SK na China indica que em breve a linha da fábrica Shenyang deverá produzir unidades do Su-30MKK/MK2 no lugar daquele caça básico, fato que pode indicar que a frota chinesa poderia alcançar entre 200-250 unidade Su-30 modernizados.

 A venda para a Venezuela

   No dia 17 de julho de 2006 foi assinado pelo Presidente Venezuelano Hugo Chaves, na Rússia, um contrato para a aquisição de 24 unidades do caça russo Sukhoi Su-30MK2 para a Fuerza Aérea Venezolana. Este acordo encerra quase quatro anos de notícias desencontradas e bravatas públicas que cercaram a crescente indisposição do governo americano de autorizar a modernização e a manutenção dos F-16 da Força Aérea Venezuelana em sua plena capacidade operacional.

Motores D-SOKP do Il-76TD que acompanhou a jornada dos FlankersSu-30MK taxiando em RecifeSu-30MK taxiando em RecifeOs dois Su-30MK taxiando em Recife
Os dois Sukhoi após o pouso em RecifeOs dois Sukhoi após o pouso em RecifeOs dois Sukhoi após o pouso em RecifeFlankers 501 e 502 seguindo rumo ao pátio do Aeroporto de Recife

   Os primeiros rumores envolvendo a compra de aeronaves de combate russas pela Venezuela surgiram poucos anos após a chegada de Hugo Chávez ao poder no país em 1998. No final de 2001, tais rumores se intensificaram com a visita de um MiG-29M2 e de um MiG-29UB ao país. As aeronaves chegaram à Venezuela a bordo de um Antonov An-124-200 Condor e foram submetidas a diversos ensaios de vôo para avaliação da aeronave pelo pessoal da Fuerza Aérea Venezolana.  

   Apesar de não deixarem de existir completamente, as notícias relativas ao tal negócio (que contemplavam números de 18 à 50 aeronaves a serem adquiridas) perderam força ao longo dos anos seguintes tanto devido a constantes afirmações por parte de oficiais de alta patente da FAV negando um real interesse na aquisição desses aviões, quanto pelas negociações que essa força conduzia com Israel para a modernização de seus caças F-16.

Segundos antes de cortar os motores

   Em fevereiro de 2005, os rumores envolvendo a aquisição do Fulcrum pelo governo de Caracas voltaram a ganhar destaque na mídia após declarações feitas pelo presidente do país em que acusava os Estados Unidos de atrasar a entrega de peças de reposição para a frota de Fighting Falcons. Em maio do mesmo ano, foram publicadas notícias que davam conta que a Fuerza Aérea Venezolana começava a demonstrar interesse na aquisição de aeronaves da família Flanker assim como na aquisição de aviões de ataque Su-25.

   Em outubro do mesmo ano, a situação da modernização da capacidade combativa enfrentou uma nova reviravolta quando foi anunciado que Israel havia cancelado um contrato para a modernização dos F-16 da FAV devido a pressões norte-americanas que não viam com bons olhos a substituição de diversos equipamentos norte-americanos utilizados nessas aeronaves por outros de origem israelense.

Devido as suas grandes dimensões uma escada utilizada por aeronaves Boeing 737 teve que ser utilizada para a saída do pilotoPilotos dos Flankers e o Andrei Garin da Rosoboronexport
Il-76TD pousando em RecifeIl-76TD taxiando em RecifeO cargueiro Il-76 pousando em Recife minutos após a chegada dos caçasIl-76 taxiando em Recife

   Um novo estopim na tumultuada relação entre Estados Unidos e Venezuela foi deflagrado em março de 2006 quando foram anunciadas novas tentativas por parte do governo de Washington em intervir em contratos envolvendo aeronaves militares, dessa vez de procedência espanhola e brasileira, foram denunciadas por autoridades do governo venezuelano.

   No início de junho, foi noticiada pela primeira vez a possibilidade de que caças Su-30 viessem a Venezuela para participar dos desfiles de 5 de julho (data nacional do país), o que acabou de fato ocorrendo sendo que as duas aeronaves enviadas para participar das comemorações pernoitaram em Recife entre os dias 01-02 de julho. Tal fato representou um importante acontecimento nas negociações que viriam a seguir ao sugerir o Su-30MK como potencial escolha para a FAV, pois, até tal momento, era vislumbrada apenas a venda de caças SU-27SK de geração anterior.

Il-76 taxiando no Aeroporto de RecifeIl-76 taxiando no Aeroporto de Recife

  Os rumores sobre a compra desses caças ganharam uma notoriedade muito maior recebendo um tratamento de maior seriedade por parte da imprensa a partir de 15 de junho quando, pela primeira vez, o presidente venezuelano falou abertamente na aquisição de um número de 24 células de Su-30MK e em um grande número de helicópteros militares a serem adquiridos.

  As conversações sobre o contrato de venda dos Flankers venezuelanos evoluíram rapidamente ao mesmo tempo em que aumentava o número de vozes dentro do governo de Hugo Chávez que confirmavam o negócio. Apesar de incessantes protestos do governo norte-americano contra a venda dos caças, no dia 21 desse mesmo mês, o Ministro da Defesa da Rússia, Sergei Ivanov, confirmou a venda de 24 Su-30MK2 para a FAV sendo o contrato ratificado durante a visita do presidente venezuelana à Rússia iniciada no dia 25 de julho.

   A confirmação da assinatura do contrato de venda dos poderosos Su-30MK2 à Fuerza Aérea Venezolana é um importante, porém não derradeiro, ponto final na longa história envolvendo a modernização dos meios da aviação militar venezuelana que certamente experimentará um notável avanço em suas capacidades com a introdução dessas aeronaves em serviço.

 Impactos políticos da compra dos Flankers

   Como era de se esperar, imediatamente após o anúncio da venda dos Su-30 à Venezuela, o governo americano instou o governo russo a reconsiderar a venda, citando que esta compra “ia muito além da demanda real do país sul-americano e que ela não contribuia para a estabilidade regional”.

   O Vice-Primeiro Ministro russo Sergei Ivanov, nesta quarta dia 26 de julho, se recusou a descartar a venda, alegando que: “abrir mão deste contrato está totalmente fora de questão. Na minha opinião os 24 aviões, assim como o número de helicópteros presentes no contrato, não são excessivos, mesmo para a defesa de um país pequeno como a Venezuela.”

Escada pronta para que os tripulantes entrem em suas aeronaves

   Paradoxalmente ao mesmo momento em que se rearma, Chávez faz movimentos conciliatórios ao intensificar as relações comerciais mantidas com seus vizinhos no continente. Um projeto de gasoduto passando pela Colômbia, principal rival regional da Venezuela, e terminando no Panamá começou a ser construído. Em direção ao sul, Chávez espera conseguir a adesão de Brasil e Argentina em um mega-projeto energético, um outro gasoduto de mais de 8.000 km, cruzando o Brasil de norte a sul e terminando na Argentina. Esta dificilmente é a atitude de um país que perceba seus vizinhos imediatos como ameaças militares. No entanto a pressão política americana pode contribuir para deflagrar um processo regional de atualização das diversas forças de caça.  

   A Colômbia aparentemente já demonstrou interesse em adquirir F-16 dos americanos, ainda não está claro se seriam aeronaves novas ou usadas. O Brasil que adiou a compra do seu programa de caça futuro, alegando como razão a necessidade de executar gastos de cunho social, pode ter de elevar os patamares de performance esperados para o novo modelo. Se da primeira vez os caças monomotores dominavam (Mirage 2000, Gripen e F-16C/D) agora pode ser a vez dos bimotores. O russo Su-35, o EF-2000 Typhoon e o francês Dassault Rafale despontam como concorrentes principais da nova avaliação, mesmo que ela ainda não tenha uma data certa para o seu início.

  
Flanker 502 fazendo check antes de taxiar rumo a pistaSu-30MK 502 iniciando o taxiProntos para seguir rumo a Belém e Paramaribo antes de chegar ao destino final, Maracay na Venezuela
  

   O Chile foi o país que iniciou o processo no continente com uma compra de 10 F-16C/D-50s e uma compra em paralelo de vários F-16A/B modernizados da Holanda e da Bélgica. O Peru e Equador, sem contar com a fartura que as imensas reservas de petróleo venezuelano garantem ao governo Chávez, podem ter de tomar decisões importantes antes do que gostariam e por sua vez a Argentina assume o papel de maior incógnita. Pelas intimas ligações políticas com o governo do Chavez, o presidente Kirchner pode ficar tentado a comprar Flankers também, ou, seguindo o exemplo brasileiro, substituir os seus Mirage antigos inicialmente por Mirages 2000C de segunda mão e depois seguir o rumo do Rafale.

  
  

   Mas no médio prazo os planos da Venezuela aparentam ir bem além dos 24 Su-30MK2, elas passam por mais uns 60 Flankers (alguns monoplaces como o Su-35) e aviões de ataque Su-25 assim como modernos treinadores Yak130. Se todas estas compras se materializarem, a Venezuela terá facilmente a força aérea mais capaz e moderna do continente por muito tempo.

Os dois caças deixando a cidade de RecifeLider e Ala decolam juntos

 Os aviões russos na América Latina

   A divisão do mundo por base em ideologias políticas fez com que praticamente todos os países da América do Sul acabassem se alinhando com os EUA e por conseqüência nos limitássemos à operação de aviões americanos ou na piore das hipóteses de procedência européia. As poucas exceções a esta regra incluem, obviamente, Cuba, que desde 1960 é um cliente fiel doa aviões russos tendo recebido e operado diversos modelos de caça soviéticos, entre eles os MiG-17, 21, 23 e 29.  O segundo cliente de vulto na região foi o Peru que começou a receber aeronaves soviéticas a partir de 1975 com a chegada do seu primeiro helicóptero Mi-8 (NATO:”Hip”). Mais tarde, o país adquiriu vários cargueiros Antonov, entre An-26 e An-32, e ainda alguns anos depois alguns An-72. O Peru também recebeu muitos caças da União Soviética. Foram 52 Su-22M-2 (“Fitter”) posteriormente complementados por MiG-29s e aviões de ataque Su-25 (“Frogfoot”).

   No México, os helicópteros Mil e os cargueiros Antonov formam a base da aviação naval. Notícias recentes dão como certa a seleção dos Su-27 SK como o vetor futuro de caça da Marinha Mexicana, mas esta compra ainda está em debate no congresso. A Colômbia, mesmo sendo a maior aliada dos EUA no continente e de operar dezenas de helicópteros ocidentais, também se somou à crescente lista de usuários de helicópteros russos com a expansão a partir de 1997 do componente aéreo do seu Exército.

Il-76 decolando de RecifeMinutos depois dos Flankers foi a vez do gigante Il-76 deixar RecifeIl-76TD decolando rumo a Belém

   A maioria destas vendas foi realizada durante a Guerra Fria e surpreendentemente tomaram ainda maior importância nos anos posteriores à queda do Muro de Berlim. Sedentos de moedas fortes as empresas russas se lançaram com afinco no mercado mundial e conseguiram seguir vendendo aeronaves novas e também algumas células de segunda mão das antigas e desmanteladas forças armadas das repúblicas ex-soviéticas.

   Venezuela, Brasil, Argentina e Chile donos das maiores forças aéreas do continente padeceram por graves dificuldades econômicas nos anos 80 que efetivamente adiaram a modernização de seus meios aéreos. No início do novo século, o Brasil finalmente lançou o programa FX com o intuito de buscar um substituto para sua frota de Mirage III, e o Chile o seu Caza-2000, visando substituir os seus Pantera e Elkan, versões atualizadas dos Mirages III e V. Desta vez os Russos entraram de cabeça, no Brasil ofereceram o Super Flanker monoplace da fábrica KnAAPO, o Su-35 (código de exportação do modelo Su-27M russo) uma aeronave muito mais avançada e poderosa do que os caças F-16 e Mirage2000, bons exemplos do patamar de capacidade bélica normalmente ambicionado pelas forças aéreas locais.

   Os Flankers venezuelanos nem bem chegaram e já produzem ondas nas forças aéreas dos países vizinhos, será que como foi na Ásia, os caças monoplaces serão considerados insuficientes para fazer frente aos Su-30? Será que veremos alguns esquadrões de Boeing F-15E Strike Eagle sendo adquiridos na América do Sul? Só o tempo, e o sucesso da política de integração energética dos venezuelanos nos dirá.

 

Veja o artigo sobre a passagem pelos Flankers pela Venezuela no site: http://www.fav-club.com

Confira os detalhes sobre a passagem dos Su-30MK pelo Brasil: http://www.alide.com.br/noticias/flankerbrasil/index.htm

 

  
 

Translate

Browse this website in:

Busca Rápida
Serial
(FAB, MB ou EB)


Copyright © 2018 Base Militar Web Magazine. All Rights Reserved. Joomla! is Free Software released under the GNU/GPL License.