Um irlandês no Atlântico Sul PDF Print E-mail
Written by Rodrigo Bendoraytes   
Wednesday, 12 November 2008 15:35

 

 L.É. Eithne no Rio de Janeiro

Assim que nós nos aproximávamos da costa do Brasil pela primeira vez nos deparamos com uma das mais incríveis paisagens, com grandes montanhas surgindo na linha do horizonte entre as ilhas da região. O mais espetacular era ver o Pão de Açúcar e ver sua semelhança com uma bola de rugby. Ao entrarmos na Baía de Guanabara pudemos ver o Porta-aviões São Paulo, um dos braços da forte Marinha do Brasil”. Comandante Mark A. Mellett

No dia 15 de março chegou ao Porto do Rio de Janeiro o Navio-Patrulha L.É. Eithne da Irish Naval Service. Essa não era apenas mais uma passagem de um navio militar e sim um momento histórico, era a primeira vez que uma embarcação militar da Irlanda passava pelo Brasil. O L.É. Eithne ficou atracado logo atrás do B.E. Cuauhtemoc, um navio-escola da Armada de México que também estava de passagem pela cidade.

Dois dias após a chegada ocorreu mais um momento marcante, era a comemoração do dia de Saint Patrick, uma das mais importantes datas da Irlanda. Os tripulantes fizeram um belo desfile militar no porto que contou com a presença do Embaixador, irlandeses e seus descendentes que moram no Brasil, além de oficiais da Marinha do Brasil e o Comandante do B.E. Cuauhtemoc. Como essa foi a primeira comemoração do dia de Saint Patrick no hemisfério sul, a mais importante emissora da Irlanda fez a cobertura do evento. Após a cerimônia, alunos de uma escola de crianças carentes apoiada pela Embaixada da Irlanda, fizeram uma breve visita ao navio.

Na noite do dia 17 o L.É. Eithne deixou a Baía de Guanabara rumo a cidade de Fortaleza, última parada antes de seguir para casa.

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.
P-31 Eithne já na Baía de Guanabara A Nau-Capitânia da Irlanda na costa do Rio de JaneiroDurante o caminho para o Rio de Janeiro a embarcação obteve contato através do radar com os navios da Marinha do Brasil que estavam participando da ADEREXPrimeira visita de um navio da Irish Naval Service ao Brasil

 149 anos da morte do Almirante Brown

Apesar da passagem pelo Brasil, o verdadeiro destino do L.É. Eithne era a Argentina. A Irish Naval Service aceitou participar das comemorações em homenagem aos 149 anos da morte do fundador da Armada Argentina, o irlandês Almirante William Brown.Vale ressaltar que o Almirante comandou as forças navais da Argentina contra o Brasil durante a Guerra da Cisplatina.

No dia 6 de fevereiro a Nau-Capitânia da Irish Naval Service, comandada pelo Comandante Mark A. Mellett, partiu da Base Naval Haulbowline rumo ao Atlântico Sul. Após quatro dias de mar o L.É. Eithne chegou a sua primeira parada, a Ilha de Tenerife (Ilhas Canárias). Durante os dias de mar foram realizados exercícios de combate a incêndio e simulação de colisão de um torpedo lançado por um submarino inimigo. A parada não demorou muito e a embarcação já estava de volta ao mar aberto no dia seguinte.

Ao contrário de seu vizinho Reino Unido, a Irlanda optou em ter uma marinha voltada apenas para a patrulha marítimaNavegando na costa cariocaApesar de ser chamado de Navio-Patrulha, o L.É. Eithne é quase do tamanho das Corvetas da Classe Inhaúma da Marinha do BrasilA tripulação estava muito empolgada com essa jornada

A noite do dia 15 de fevereiro foi marcada por um encontro inusitado. Tiros de canhão eram ouvidos por todos e não eram do L.É. Eithne. Navegando nas proximidades da costa da Libéria uma outra embarcação irlandesa foi encontrada, era o L.É. Niamh que estava testando seus canhões antes de atracar na capital Monrovia e desembarcar uma equipe de reconhecimento da Army Corps que teria como função analisar a situação do país e iniciar os preparativos para a chegada de um batalhão que integrará a missão da ONU no país.

Após uma longa jornada, no dia 24 de fevereiro, o L.É. Eithne foi interceptado pela Corveta Guerrico assim que entrou em águas argentinas.

“Navio da Marinha Irlandesa L.É. Eithne, este é o navio da Marinha Argentina, Guerrico. Em nome do Comandante da Área Naval do Atlântico, Capitão De Vaio Roque Andres De Vicenzo, do Comandante da Divisão de Patrulha da Marinha, Capitão De Navio Eduardo Castro Rivas, e do Comandante do Elemento-Tarefa, os oficiais e a tripulação desse navio desejam as boas-vindas às águas argentinas. Para nós, é um grande privilégio e honra receber e navegar com um navio de guerra da heróica Marinha Irlandesa, a qual carrega as tradições e o sangue do nosso mais importante herói da Marinha, seu companheiro conterrâneo, Almirante William Brown. Nós verdadeiramente acreditamos que essa visita servirá para reforçar ainda mais os laços históricos que nos unem. Nós os desejamos o maior sucesso em vossa tarefa e esperamos que aproveitem seu tempo ao máximo no nosso país”.

Em seguida, o L.É. Eithne enviou a resposta:

“Navio da Marinha Argentina Guerrico, esse é o Navio de Bandeira Irlandesa Eithne em nome do Comodoro Frank Lynch, oficial comandante do Serviço Naval Irlandês, do Capitão James Robinson, oficial comandante do Comando de Operações Navais, de todo Serviço Naval Irlandês e do povo da Irlanda, o Comandante Mark Mellet, companheiro conterrâneo de seu grande herói, Almirante William Brown, e a tripulação do L.É. Eithne deseja um muito obrigado pela sua recepção e nos honrando com sua presença nesse clima difícil. Nós realizamos um longo percurso cheio de excitação e com grandes expectativas e esperamos visitar o seu grande país. Com Espírito e Coragem nós enfrentamos o desconhecido, o mesmo espírito e coragem que seu grande herói e nosso conterrâneo, Almirante William Brown, compartilhava com o seu povo”.

Navegando na costa carioca P-31 Eithne já na Baía de Guanabra se preparando para atracar no porto do Rio de JaneiroP-31 Eithne já na Baía de Guanabra se preparando para atracar no porto do Rio de JaneiroP-31 Eithne já na Baía de Guanabra se preparando para atracar no porto do Rio de Janeiro
P-31 Eithne atracado no porto do Rio de JaneiroP-31 Eithne atracado no porto do Rio de JaneiroP-31 Eithne atracado no porto do Rio de JaneiroP-31 Eithne atracado no porto do Rio de Janeiro

Os dois navios seguiram navegando juntos até a manhã do dia seguinte, quando chegaram a Base Naval de Mar Del Plata.

Durante o período em Mar Del Plata ocorreram as cerimônias em homenagem ao Almirante Brown. O navio recebeu a visita de muitas autoridades argentinas entre elas o prefeito da cidade de Mar Del Plata, o governador da província de Buenos Aires e o Comandante da Base Naval. O P-31 Eithne também recebeu uma grande visitação durante o dia em que ficou aberto para o público. Contudo a grande cerimônia ocorreu no dia 27 de fevereiro em frente à estátua do Almirante William Brown. Novamente estavam presentes autoridades do Governo argentino e da Armada Argentina além de centenas de pessoas. Durante a chegada da tripulação irlandesa ao local a população saudou com muita vibração, o que emocionou a todos os presentes. Acabada a cerimônia a tripulação do L.É Eithne seguiu para o navio da Marinha da Espanha A-33 Hesperides que atracou em Mar Del Plata voltando de uma missão na Antártica.

Canhão Bofors 57mm/70 Mk.1 com alcance máximo de 17km e uma cadência de 200 tiros por minuto
Controle para abaixar um dos dois botes

Chegava ao fim a visita e o L.É Eithne suspendeu rumo a Buenos Aires com escolta da Corveta Robinson (MEKO 140) e de seu helicóptero Allouette III. Um fato interessante é que o nome da corveta foi dado em homenagem a mais um irlandês que prestou ótimos serviços na Armada Argentina. Já quando ambos os navios estavam navegando chegou a informação de que aeronaves MB-326 estariam em treinamento na região. Imediatamente o Comandante Mark A. Mellett ordenou que toda tripulação ficasse em postos de combate. Seria uma oportunidade perfeita para o treinamento antiaéreo. Assim que o radar DA-05 foi acionado duas aeronaves surgiram nas telas. Recebendo as informações do radar os operadores dos canhões Rheinmetall sabiam exatamente a posição dos MB-326 conseqüentemente obtiveram uma grande quantidade de “kills”.

Na chegada a Buenos Aires o Navio-Patrulha passou a apenas 7 milhas náuticas do  Encouraçado de bolso alemão Graf Spee da Marinha da Alemanha (Kriegsmarine) que afundou no Rio da Prata durante a Segunda Guerra Mundial.

Refeitório, não é a Praça D´ArmasMunição do canhão Bofors 57mm/70 Mk.1 Parte interna do canhão Bofors 57mm/70 Mk.1 Mastro principal
PassadiçoCanhão Rheinmetall 20mm/20 com 6km de alcance e cadência de 1.000 tiros por minutoPassadiço

Durante a estadia na capital argentina ocorreu mais uma cerimônia em homenagem aos 149 anos da morte do Almirante Brown, dessa vez no Comando da Armada, onde uma estátua de bronze foi entregue a tripulação irlandesa. Em retribuição o Comodoro Lynch, Comandante da Irish Naval Service, presenteou a Armada Argentina com uma réplica da espada utilizada pelo Almirante Brown. A cerimônia teve fim com a banda naval tocando o hino de ambos os países. A tripulação do P-31 Eithne também teve a oportunidade de visitar o túmulo  de seu conterrâneo homenageado. No último dia de visita o Comodoro Lynch teve honra de receber a Medalha da Orden de Mayo al Mérito Naval que foi enviada pelo Presidente Nestor Kirchner.

Chegava ao fim a visita a Argentina, porém em 2007 ocorrerá um novo encontro, mas dessa vez nas gelidas águas do Atlântico Norte. O Navio ARA Libertad será enviado para a Irlanda com o intuito de participar da grande comemoração dos 150 anos da morte do Almirante William Brown.

Após uma rápida passagem por Montevidéu o L.É. Eithne seguiu rumo ao Rio de Janeiro e Fortaleza antes de voltar para o Atlântico Norte. Uma longa jornada de dois meses que ficará marcada na memória dos 76 tripulantes.

COC do L.É. EithneCOC do L.É. EithneSala de ComunicaçõesCozinha

 O L.É. Eithne e a Irish Naval Service

Construído no estaleiro Verolme e comissionado em 1984, a Nau-Capitânia ainda possui uma longa vida pela frente na Irish Naval Service. Seu armamento consiste em apenas um canhão Bofors 57mm/70 Mk.1 com alcance máximo de 17km e uma cadência de 200 tiros por minuto, dois canhões Rheinmetall 20mm/20 com 6km de alcance e cadência de 1.000 tiros por minuto além de duas metralhadoras calibre 7.62mm. Possui um radar de busca aérea e de superfície Signaal DA-05/4 e um sonar de casco PMS-26L. Sua velocidade máxima não passa dos 20kts.

A Nau-Capitânia da Irlanda atracado no porto do Rio de JaneiroComandante Mark A. MellettPassadiçoCOC do L.É. Eithne

Em uma breve conversa com o Comandante Mark A. Mellett fomos informados de que as operações aéreas no L.É. Eithne foram suspensas, a frota de helicópteros Aerospatiale SA.365F Dauphin II deverá ser retirada de serviço devido ao alto custo de manutenção e não existe previsão para compra a curto prazo de um novo helicóptero para o navio. Segundo o Comandante, a Irlanda possui interesse em um helicóptero de grande porte da classe do Merlin e NH-90. Perguntado sobre o futuro da Irish Naval Service, o Comandante respondeu que além da previsão de novos navios de patrulha existe um estudo para a aquisição de um navio de grande porte que seria utilizado para transportar tropas da Irish Defence Force que participam das missões da ONU ao redor do mundo. Questionado sobre a convivência entre homens e mulheres no navio, o Comandante disse que as oito mulheres dormem em dois quartos separados, porém não existem ambientes separados dos homens, a intenção é deixar a tripulação viver assim como se estivesse em terra. Essa é uma forma de evitar com que os marinheiros se arrisquem em cada porto. Não é uma mentalidade usual nas marinhas do resto do mundo, porém algumas forças da Europa já adotam.

A Irish Naval Service conta atualmente com seis navios de patrulha oceânica (Eithne, Emer, Aoife, Aisling, Rosin e Niamh) e dois navios de patrulha costeira (Orla e Ciara). Todos os navios possuem nomes de mulheres da mitologia em Gaélico. 
 
 
 

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