A História dos Cardeais PDF Print E-mail
Written by Rodrigo Bendoraytes e Carlos Filipe Operti   
Tuesday, 11 November 2008 15:42

 

A História dos Cardeais

 

No dia 12 de dezembro de 1956, a Marinha do Brasil adquiriu o Navio-Aeródromo britânico HMS Vengeance, logo rebatizado como Minas Gerais. A FAB, em cumprimento à legislação e doutrina em vigor, providenciou a criação da unidade aérea que forneceria os meios aéreos para guarnecer o novo porta-aviões. Assim, em 6 de fevereiro de 1957, foi criado o 1° Grupo de Aviação Embarcada (1° GAE). Inicialmente o 1° GAE foi organizado com dois esquadrões, sendo um de caça e outro de patrulha marítima. Esses planos, porém, foram modificados quando a Marinha do Brasil definiu que o A-11 Minas Gerais seria um porta-aviões anti-submarino. Sendo assim, o esquadrão de caça passou a ser um esquadrão de helicópteros anti-submarino.

Em outubro de 1958, a Base Aérea de Santa Cruz foi escolhida como a sede do 1° GAE e, no mesmo ano, a unidade começou a receber seu equipamento inicial, sendo eles seis North-American B-25 e dois helicópteros Bell H-13J. 

 

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.
Insígnia do 1° GAEInsígnia do 1°/1°GAEInsígnia do 2°/1°GAE, na época em que utilizavam o helicóptero H-34Quatro P-16E em passagem baixa sobre a Base Aérea de Santa Cruz

No início do ano seguinte, a unidade recebeu cinco aviões T-6D para serem utilizados no treinamento simulado de pouso embarcado. Em fevereiro essas aeronaves efetuaram o primeiro treinamento no Minas Gerais que acabou conhecido como "Catrapo".

No dia 26 de junho de 1961 as primeiras aeronaves Grumman S2F-1 Tracker, designadas P-16 na FAB, tocaram o solo brasileiro após o translado dos EUA até Belém. O 1° Esquadrão do 1° GAE finalmente recebia seu equipamento definitivo. Na véspera da chegada ao Rio de Janeiro, os integrantes desta primeira esquadrilha reuniram-se para um jantar em Vitória (ES). Um dos pilotos das aeronaves que estavam dando apoio ao translado dos Trackers chamou os pilotos dos P-16 de “Cardeais”, em virtude da semelhança do pássaro com o gorro vermelho utilizado pelos Oficiais Aviadores do 1°GAE. Naquela ocasião ficou marcado que no dia 28 de junho dos anos seguintes, os “Cardeais” se reencontrariam, criando assim o que é conhecida hoje como “Ceia dos Cardeais”.

 

Em 1962, foi a vez dos Cardeais receberem seis helicópteros Sikorski SH-34J, designados H-34 na FAB, em substituição aos Bell H-13J que operavam no 2° Esquadrão do 1°GAE. Os novos helicópteros dariam a unidade uma grande capacidade de combate anti-submarino.
Mesmo com os seus treze P-16 e seis H-34 recebidos e operacionais, o 1° GAE estava impedido de operar no Porta-Aviões Minas Gerais devido às divergências doutrinárias e políticas entre a FAB e a Marinha do Brasil. A situação só foi resolvida quando o então Presidente Castelo Branco assinou um decreto em 1965 permitindo a reativação da Aviação Naval, com autorização apenas para operar helicópteros. Finalmente, com o impasse resolvido, os P-16 estavam liberados para iniciar sua vida embarcada. Os helicópteros H-34, por sua vez, tiveram que ser transferidos para a Marinha do Brasil conforme o acordo presidencial, dando fim ao 2°/1°GAE.

 

Durante o período de desentendimento entre as Forças ocorreu um fato importante no país. Barcos pesqueiros franceses realizavam a captura ilegal de lagosta na plataforma continental brasileira. Como alguns barcos insistiam em desrespeitar essa determinação, navios de guerra brasileiros foram deslocados para a região de Natal (RN) com finalidade de expulsar as embarcações do território nacional. A França por sua vez enviou o Destróier Tartu para proteção dos barcos pesqueiros. Essa situação abalou as relações diplomáticas entre as duas nações.

O 1° GAE foi deslocado para Natal em 24 de fevereiro de 1963 com o objetivo de manter o contato com os barcos pesqueiros de dia e de noite, de modo a conhecer sua posição e informar aos navios da Marinha do Brasil. O Destróier Tartu também foi sobrevoado por diversas vezes. Essa missão ficou conhecida como “Operação Lagosta”. O sucesso da missão foi fator importante para que o Brasil obtivesse dos outros países o reconhecimento do direito de exercer sua soberania sobre as águas compreendidas entre o litoral e as 200 milhas marítimas.

Após esse longo período conturbado, finalmente no dia 22 de junho de 1965, o P-16 matrícula 7021 pousou pela primeira vez no A-11 Minas Gerais. Uma data que sem dúvida ficou marcada na história da aviação militar brasileira.

OSP coordenando o pouso de um P-16E no Porta-Aviões Minas GeraisTrês P-16E à bordo do NAeL Minas GeraisDois P-16E em vôoP-16E do 1°/1°GAE se preparando para decolar do NAeL Minas Gerais

Durante a UNITAS XII, em 1971, o 1° GAE operou pela primeira vez em condições diurnas e noturnas, com qualquer tempo, baseado no Porta-Aviões Minas Gerais. A qualificação noturna obtida nesse ano possibilitou aos Cardeais voarem continuamente 36 horas com rendição no ar e realizando missões anti-submarino.

Uma nova fase estava para chegar. Em 1974 foram adquiridos oito Grumman S-2E Tracker oriundos dos estoques da US Navy, sendo que as primeiras aeronaves, batizadas de P-16E, chegaram em dezembro de 1975. A aquisição dos P-16E constituiu, sem dúvida, um grande passo dado pela FAB, no sentido de evoluir na direção dos sofisticados equipamentos e táticas usados na moderna guerra anti-submarino.

Com a chegada das novas aeronaves, algumas mudanças foram feitas. O 2°/1° GAE foi reativado absorvendo todos os P-16 originais do primeiro lote, que foram rebatizados como P-16A, enquanto os novos P-16E foram para o 1°/1°GAE. A função de combate anti-submarino passou a ser exclusividade dos “Echos”. O 2°/1° GAE por sua vez ficou responsável pelo treinamento e transporte. Para essa última tarefa foram convertidas oito células para o padrão UP-16 com capacidade para transportar até cinco passageiros, porém com a perda de todo equipamento ASW.

Três tipos diferentes de sonobóias utilizadas pelos P-16
Sonobóias e uma bomba de queda livre utilizadas pelos P-16
Parede com assinaturas de todos os Cardeais
P-95A com as cores do 1°GAE sobre a cidade do Rio de Janeiro

Em janeiro de 1974, os Cardeais perderam temporariamente sua base no mar, quando o NAeL Minas Gerais parou para manutenção e só voltou aos mares em 1980. Foram feitas reformas e reparos que o capacitaram para mais alguns longos anos de atividade. No dia 14 de abril de 1980, os P-16 voltaram a pousar no porta-aviões. Foram feitas qualificações e requalificações de pilotos e OSP (Oficiais Sinalizadores de Pouso), permitindo o retorno à sua plena operacionalidade em curto espaço de tempo.

Durante o início da década de 80, os P-16A e UP-16 já estavam sentindo o peso de seus mais de vinte anos de operação. Em 1984 todos foram retirados de serviço, deixando o 2°/1° GAE mais uma vez sem aeronaves. Enquanto isso, a FAB já estudava uma possível modernização da versão “Echo”, ainda em operação. Em 1988 foi dado início ao processo de modernização das aeronaves para o padrão S-2T Turbo Tracker. Uma das principais alterações foi nos motores, com a troca dos velhos Wright R-1820-82C pelos turbo-hélices Pratt & Whitney PT6A-67CF. A aeronave 7036 foi enviada para as instalações da IMP, empresa vencedora da licitação, no Canadá. O novo Turbo Tracker da FAB voou pela primeira vez em 1990 e no mesmo ano seguiu para a Base Aérea de Santa Cruz para dar prosseguimento aos testes. No ano seguinte, já ostentando a nomenclatura P-16H, a aeronave fez seus primeiros pousos e decolagens do Porta-Aviões Minas Gerais.

Com a iminência da modernização dos demais P-16E, o 2°/1°GAE recebeu em 1992 duas aeronaves P-95A (7056 e 7057) para que os pilotos se adaptassem ao vôo com motor turbo-hélice. No entanto, nada estava bem com o programa de modernização dos Trackers. A falta de recursos em conjunto com a inexperiência da empresa responsável fez com que o programa fosse cancelado em 1996, selando definitivamente o futuro do Grumman S-2 Tracker na FAB. Como já era esperado, os P-16 foram aposentados no mesmo ano, o que causou um grande choque no Grupo. O 1° Grupo de Aviação Embarcada, de tantas glórias, perdera o motivo de sua existência. Porém continuou voando com os dois P-95A recebidos em 1992 e um terceiro (7060) recebido em 1994, até que em 1999 o Grupo foi definitivamente desativado.

Nasce o 4° Esquadrão do 7° Grupo de Aviação

A transição do 1º GAE para 4°/7° GAv não foi um processo fácil. Não por dificuldades técnicas ou de ordem operacional. A missão que o esquadrão passaria a fazer com o P-95A, o esclarecimento marítimo visual e eletrônico, já era feita desde os primórdios da unidade, ou seja, ela tinha mais de 30 anos de experiência nessa atividade. E com relação a aeronave, a grande maioria dos pilotos já voava o Bandeirulha desde que ele chegou a Santa Cruz. O âmago da questão era mais moral do que operacional. O fim da era P-16 trouxe ao esquadrão o encerramento das atividades embarcadas, o encerramento das missões de guerra anti-submarina. Acabou com toda uma vida operacional iniciada quase 40 anos antes. Apesar do P-16 ser um avião antigo, sujeito a muitas panes, ele cumpria a missão para qual o esquadrão tinha sido criado. A gama de atividades que ele efetuava – lançamento de vários tipos de armamentos, sonobóias, detecção de submarinos e embarcações de superfície – era um motivo de orgulho de sua tropa.

Dois P-95A do 4°/7°GAv em vôo sobre a costa da BahiaCardeal patrulhando o Atol das RocasCardeal patrulhando o Atol das RocasCardeal patrulhando o Atol das Rocas
Dois Cardeais voando em formaçãoP-95A voando em baixíssima altitude sobre a Base Aérea de Santa CruzP-95A decolando para mais uma missão de patrulha marítimaTrês P-95A do Cardeal. Hoje o 7061 não se encontra no esquadrão
Cardeal armado com quatro casulos de foguetes SBAT 70Os esquadrões de patrulha da FAB são de grande importância ao lado da Marinha do Brasil na manutenção da soberania dos nossos maresP-95A 7056 decolando de Santa Cruz no dia da passagem de comando do 1°GAvCa e 1°/1°GCC

Enquanto o P-95, apesar de mais moderno e com equipamentos – MAGE e radar – melhores, tinha uma atuação muito mais limitada dentro de um cenário operacional, em comparação com o Tracker. Essa perda do status operacional e a comparação com o P-16 fez com que a reação inicial ao Bandeirulha fosse de rejeição. Também chegou-se a cogitar a mudança do nome do 4º/7º para outro que não fosse “Cardeal”, porque esse remetia à era 1º GAE, medida essa que não chegou a ser efetivada. E durante algum tempo esse foi o panorama inicial dentro do esquadrão.

Vôo em formatura durante a passagem de comando do 4°/7°GAvVôo em formatura durante a passagem de comando do 4°/7°GAvP-95A voando sobre a costa do Rio de JaneiroHangar onde abriga asinstalações do 4°/7°GAv
Desenho comemorativo dos 25 anos de operação do P-95 na FABCardeal em vôo com a bela restinga da Marambaia ao fundo
Bandeirulha do Cardeal procurando navios mercantes cometendo atos ilícitosDesde a época em que o Cardeal voava o P-16 as missões de SIGINT/ELINT e PDATAR já eram efetuadas, o que facilitou na trasição para o P-95AMais um dia de trabalho para os patrulheirosP-95A após decolar da Base Aérea de Santa Cruz

Aos poucos, em meio a um grande trabalho conjunto de elevação moral da unidade, essa cena foi mudando. O foco de pensamento se voltou para a nova missão que o esquadrão desempenhava, o que resultou na descoberta de que o P-95 era sim um avião que cumpria bem a tarefa ao qual ele tinha sido incumbido. A rejeição foi gradualmente se tornando uma afeição pelo avião e pela sua missão, elevando novamente o moral da tropa e elevando junto a eficiência no cumprimento da missão. Além disso, o 4º/7º GAv ficou responsável por manter a doutrina de guerra anti-submarina da FAB. Mesmo não efetuando essa missão, todos os militares que passam pelo esquadrão são adestrados na teoria (baseada em toda a experiência adquirida com o P-16) para operações ASW.

Manobrando próximo a BASC com a Baía de Sepetiba ao fundo Voando sobre a Baía de SepetibaP-95A em vôoP-95A passando ao lado do gigante hangar da BASC
P-95A do Cardeal em primeiro plano com um P-95B ao fundoCardeal com a Restinga da Marambaia ao fundoP-95A em vôo em formatura durante a passagem de comando da Base Aérea de Santa Cruz em janeiro de 2006P-95A em vôo em formatura durante a passagem de comando da Base Aérea de Santa Cruz em janeiro de 2006
O defensor dos mares do sudeste brasileiroP-95A passando ao lado do hangar do ZeppelinFim de mais um dia de trabalho para o CardealO Cardeal também faz operações noturnas

E o esquadrão também é o mantenedor das tradições do 1º GAE, tendo inclusive sido o responsável por espalhar o uso do boné vermelho (tradição da “Embarcada”) pelas demais unidades de patrulha da FAB. Hoje o 4º/7° GAv efetua com louvor as missões de patrulha anti-superfície da FAB, além de ter no P-95 uma excelente plataforma de SIGINT/ELINT, que eles usam com extrema sabedoria, e sem nenhum preconceito mais.

Audazes Cardeais não recuam jamais !! MAD MAN !!

 

Atuais aeronaves do 4°/7° GAv:

Matrícula na FAB
Data de recebimento no esquadrão
Unidade de origem
7050
02/08/1999
PAMA-BE
7056
26/06/1992
PAMA-AF
7057
15/06/1992
2°/7° GAv
7060
22/04/1994
PAMA-AF


Last Updated on Tuesday, 11 November 2008 16:03
 

Translate

Browse this website in:

Busca Rápida
Serial
(FAB, MB ou EB)


Copyright © 2018 Base Militar Web Magazine. All Rights Reserved. Joomla! is Free Software released under the GNU/GPL License.