Mirage III - A despedida de um Guerreiro PDF Print E-mail
Wednesday, 09 November 2005 17:10

 

 
Introdução 

A data de 31 de dezembro de 2005 não representou apenas o fim de mais um ano, foi a conclusão da era do Mirage III na Força Aérea Brasileira. Para marcar esse momento, no dia 14 de dezembro, foi realizada na Base Aérea de Anápolis, próximo de Goiânia, a cerimônia de encerramento da atividade operacional do Mirage III no Brasil. Num evento tão significativo como este, a ALIDE não poderia deixar de comparecer.

O evento na Base Aérea de Anápolis

O Início do evento estava marcado para 9h e nós, meia hora antes, já nos encontrávamos estacionados na frente do portão da Base, no final de uma bela alameda de eucaliptos com mais de 2 Km de comprimento. Construída no início da década de 70 especialmente para receber os novos Mirage III, a Base Aérea de Anápolis fica num platô mais alto que o resto da cidade, que nos últimos 35 anos cresceu junto com ela. Este não foi um simples Portões Abertos, foi um evento fechado, quase íntimo, de família. Uma oportunidade para os “Jaguares” de hoje homenagearem todas as pessoas e unidades da FAB, que no passado contribuíram, de forma efetiva para que a operação dos Mirage III ocorresse de forma eficaz e segura durante todos estes anos.
 
Maquete do Mirage IIIMaquete do Mirage IIIMaquete do Mirage IIIMural na BAAN
 
A imprensa local veio em bom número. Especialmente as afiliadas das grandes redes de televisão nacional. Todos sabem que um Mirage III manobrando em vôo produz as mais belas imagens. No circuito de imprensa especializada além de duas ou três revistas tradicionais, cada vez mais se percebe a presença de novos meios, especialmente aqueles vindos da Internet como a Base Militar Web Magazine e diversos outros sites e “Blogs”.

A Linha de Vôo

O CECOMSAER forneceu para imprensa um briefing inicial sobre o evento e fomos levados para o pátio dos hangaretes, onde um palanque foi montado para abrigar as autoridades. Oito Mirages ocupavam os hangaretes à esquerda deixando os dois da direita livres para acomodar os convidados. Uma ausência inesperada neste dia foi a do Comandante da Aeronáutica, Brigadeiro Bueno, que devido a uma convocação de última hora para discursar, numa comissão do Congresso, não pode estar presente.
 
HangaretesMirage III no HangareteMirage III no HangareteMirages no Hangarete
Mirage III no HangareteMirage III no HangareteClose do Mirage III no HangareteMirage biplace pronto para o vôo
A pintura está bastante desgastada no fim da sua vida operacionalTanque sub-alar em exibiçãoTubeira da turbina ATAR 9CFlightline dos Jaguares

 

Convidados de todo o Brasil

Os aviões presentes no pátio indicavam a origem dos muitos convidados: dois AT-26 do 1°/4° GAv de Natal, dois AMX de Santa Maria, um C-95 do PAMA-SP, parque responsável pela manutenção dos Mirages desde sua introdução em serviço. Um dos protótipos do Embraer Brasília, o YC-97, trouxe os convidados do PAMA-AF no Rio e um C-99A do 1°/2° GAv da BAGL trouxe os convidados VIP do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os convidados da Capital Federal vieram em um C-97 do 6° ETA de Brasília. Também estava presente um XT-27 do CTA ostentando na cauda, orgulhosamente, o “X” da frota de aviões de ensaios.
 
Um grupo heterogêneoOs futuros Xavante de NatalOutro Xavante de Natal
C-95B do PAMA-SPXT-27 do CTAVários visitantes, e a chuva quase caindoUm A-1A do Centauro da Base Aérea de Santa Maria
YC-97 um dos protótipos do Brasília operado pelo PAMA-AFC-99A do 1°/2°GTO lado pontudo do A-1B dos PokerOutra bela vista do AMX do Poker

 

A Cerimônia e os Dijon Boys

A maioria dos presentes era composta de oficiais e praças reformados, cada um com seu pedacinho da história dos Mirage no coração. Os convidados mais ilustres daquela tarde foram os “Dijon Boys”. Um grupo de oito oficiais de caça da FAB que foram enviados à França para receber o primeiro treinamento nos, então novíssimos, aviões supersônicos.

Dijon Boy 1 - Coronel Aviador Antônio Henrique Alvez dos Santos
Dijon Boy 2 - Tenente Coronel Aviador Jorge Frederico Bins
Dijon Boy 3 - Tenente Coronel Aviador Ivan Moacyr da Frota
Dijon Boy 4 - Major Aviador Ronald Eduardo Jaeckel
Dijon Boy 5 - Major Aviador Ivan Von Trompowski Douat Taulois
Dijon Boy 6 - Major Aviador Lúcio Starling de Carvalho (falecido)
Dijon Boy 7 - Major Aviador Thomas Anthony Blower
Dijon Boy 8 - Capitão Aviador José Isaías Villaça

Destes, os Dijon Boys Villaça,Trompowski e Blower foram selecionados para sobrevoar Brasília com os Jaguares atuais, anunciando o fim de uma era.
 
Cel Antônio Henrique o A CerimôniaDijon Boys e o Comandante IsaíasCel Antônio Henrique o
Os últimos Jaguares a voar o Mirage IIITrompowski, Blower e Vilaça ao lado dos seus instrutores franceses de DijonUm Trompowski, Blower e Villaça

  

 Inspeção visual pré-vôo no Mirage III
Cap Fábio Leite prestes a entrar no seu F-103Começando o cheque pré-vôootrabalhando junto com o pessoal de terraobservando todos ospontos críticos para segurança da aeronave
O Piloto checa e o Sub re-checa cada pontoSentado na CabineAfivelando-se no assento ejetorPronto para decolar
 
 
Decolam os Aviões

Concluídas as etapas formais iniciais do evento, o Tenente-Coronel Isaías, o Jaguar 167, pediu ao Brigadeiro William, Comandante do Comando Geral de Operações Aéreas (COMGAR), a autorização para decolar. Os três felizes veteranos e seus jovens pilotos se dirigiram para as carlingas dos Mirage IIIDBR. O número de aviões que voariam estava determinado em função das condições atmosféricas do dia. Se o teto estivesse maior do que 800 pés, as oito aeronaves estacionadas nos hangaretes voariam. Se estivesse entre 400 e 800 pés, apenas quatro fariam o vôo, e se estivesse abaixo de 400 pés, apenas uma voaria.
 
O leão vermelho do Poker não compromete a camuflagemImagens feitas a partir do video feito pelo Capitão-Tenente Batista SantosQuase na cabeceiraAlinhado para decolagem
O Mirage do Cel Isaias é o primeiro a sair dos hangaretes90 graus a esquerda na taxiwayA caminho da cabeceirao monoplace é o segundo a sair
Três  Mirages na fila indianaUma dupla na cabeceiraO último mirage chega na formação de decolagemA la chasse!
 
Um após o outro, os Mirages taxiaram lentamente pra fora da sombra protetora dos hangaretes. Primeiro o “09” seguido pelo “04”, o “24” e finalmente o “06”. Eles viraram à esquerda numa fila indiana até a cabeceira da pista 06. Um monoplace e três biplaces, configurados com dois tanques subalares e um ventral, se alinharam na beira da pista sob o céu carregado de nuvens escuras. Os deltas decolaram, um após o outro, levando seu próprio tempo para rotacionar e tirar suas rodas do solo.
 
"Eu sou você amanhã" - Chegam os F-5E
 
Até a chegada dos novos caças, a defesa aérea do Planalto Central, será realizada por um par de Northrop F-5E pertencentes ao 1° GAvCa de Santa Cruz e ao 1°/14° GAv de Canoas. Estes aviões e pilotos serão mantidos em Anápolis num rodízio que levará em conta as disponibilidades e seus cronogramas de manutenção de célula. Quase que como lembrando este fato, às 11h10, dois F-5E de Santa Cruz pousaram juntos pela cabeceira 24. Eles rolaram até o fim dos 3.300 metros da pista, retornaram pela taxiway lentamente até estacionarem entre os AMX e os Xavantes.
F-5E do 1ºGAvCa chegam enquanto os Mirage estão voandoClose do F-5EO novo inquilino da BAANClose do F-5E
O seguindo F-5E a caminho do pátioClose da cabine do Tiger IIO segunto Tiger vem para o pátioEstacionando
 
 
As passagens dos Mirage e o pouso
 

Cerca de uma hora após a sua decolagem, pousou o primeiro Mirage, o 4906, o que levava o Major Aviador Blower.
Os três Mirages ainda em vôo, realizaram três passagens em baixa altitude sobre a pista ao voltarem de Brasília. Vieram em formação. O “09” era o líder e o “24” ocupava a ala esquerda. O líder se separou para a esquerda ganhando altitude e os demais fizeram o “pilofe” à direita para pousar, neste momento ouviu-se o forte estrondo, parecia que havia ocorrido uma tragédia, mas era apenas o 4904 rompendo a barreira do som. Em alguns minutos reapareceu o último Mirage, voando de volta para a região do aeródromo, para o pouso.
O Mirage IIIDBR “04” com o Major Aviador Trompowski e o monoplace 4924 pousaram um após o outro. O último avião a retornar foi o “09” com o Comandante do 1°GDA, o Ten-Cel Isaías Carvalho e o Cap Villaça.
Passagem em formação sobre a pistaTen-Cel Isaías e o Cel Villaça deixam o Mirage III DBROs Dijon boys, Sra Lucia Starling no lugar do seu maridoBrigadeiro William saudando os Dijon Boys

 

A Cerimônia de "empacotamento" do Mirage
 
A segunda fase do evento transcorreu dentro do hangar do 1°GDA, justo no momento em que a chuva que se insinuava por toda a manhã resolveu despencar sobre a base. No interior outros cinco Mirages III e três motores SNECMA ATAR 9C estavam em exibição entre as mesas. Os Dijon Boys e seus instrutores franceses foram premiados por sua relevante contribuição para o desenvolvimento da FAB. Os órgãos responsáveis pela operacionalidade do Mirage foram relembrados e seus representantes receberam placas alusivas à data.
O Ten-Cel Isaías, Comandante do 1°GDA, no seu discurso, lembrou aos conviadados que:
 
"... nós pilotos e mecânicos do Mirage III sabemos, de fato, qual o sentimento que aperta os nossos corações e nos faz chorar na despedida deste grande avião, que se tornou mestre, amigo e irmão. Não importa a máquina que venhamos a operar no futuro, o F-103 sempre será a aeronave mais marcante de nossas carreiras.”
 
O último detalhe desta cerimônia foi a “embalagem” final do 4910, o primeiro Mirage monoplace entregue. Uma capa de vinil cinza foi abaixada de um guindaste no topo do hangar e em poucos minutos encobriu o veterano avião. O zíper deste invólucro foi fechado finalmente pelo Jaguar 01, Coronel Antonio Henrique, e pelo Tenente-Brigadeiro-do-Ar William de Oliveira Barros .

Foram 32 anos, 225 pilotos de Mirage formados na FAB e 66.836:55 horas de vôo desde 27 de março de 1973, quando o FAB 4910 fez seu primeiro vôo no Brasil. O Mirage não foi apenas o primeiro supersônico, foi também o pioneiro no uso de mísseis ar-ar e radar de bordo. Ser um Jaguar, é estar entre os “poucos que tiveram a oportunidade de ultrapassar 48.000 pés de altitude, subindo com Mach 1.6 ou realizar uma aproximação de precisão real, com 190 nós, na final”, disse o Ten-Cel Isaías.
A própria unidade que iria operar os Mirage III se constituiu num laboratório organizacional único dentro da FAB. Pela primeira vez, a administração da Base Aérea e a da unidade aérea eram combinadas numa única estrutura, a “Ala”. Assim, foi criado a 1ª ALADA, a Primeira Ala de Defesa Aérea. Em 1979, esse exercício embora exitoso foi revertido, sendo criado um comando da Base Aérea de Anápolis e outro do 1°GDA, o Primeiro Grupo de Defesa Aérea.
Entrega das placas comemorativas aos Dijon BoysFAB 4910 o primeiro Mirage brasileiro em sua pintura originalFAB 4910 o primeiro Mirage brasileiro em sua pintura originalDesce o pano
Um trabalho cuidadosoA capa plastica cobre o Mirage Quase coberto!Quase coberto!
Caça escondido com o focinho de foraquase fechado...quase fechadoolhos nos olhos
Antonio Henrique sela a embalagemAntonio Henrique sela a embalagem
O 4910 embalado à frente dos convidadosCel Isaías e Cel Antonio HenriqueTodos olhando para o primeiro MirageC'est Fini!
 
 Detalhes das armas e sistemas dos Mirage III
 
Seus substitutos, os doze Mirage 2000C/B comprados da França em 2005, chegarão a Anápolis a partir de 2006. Eles virão de quatro em quatro, ao fim de cada ano. Durante este período de transição, um número ainda não especificado de Xavantes, vindos do 1°/4° GAv, será cedido aos Jaguares para a manutenção das habilidades de vôo dos seus pilotos. 

Os Canhões DEFA de 30mmModulo de canhoes DEFA 30mm do Mirage IIIMíssil Python III de manejoO Radar Cyrano IIB do Mirage
O radar Cyrano IIB do MirageO radar do Mirage IIIO assento ejetorO assento ejetor

  

Os Jaguares após os Mirage III
 
O futuro dos Jaguares, porém, é menos claro que o seu princípio. O programa F-X que deveria escolher o substituto do Mirage III, foi cancelado após muitos adiamentos e uma longa interrupção. Lobbies organizados, bem financiados e politicamente influentes disputaram tenaz e arduamente na mídia, no Congresso e junto ao Executivo, a seleção do novo caça. Os aviões russos Sukhoi Su-35 e Mig-29, o anglo-sueco Saab JAS-39 Gripen, o americano Lockheed F-16C/D e o francês Dassault Mirage 2000-5 Mk2 (chamado aqui de Mirage 2000BR) oferecido pela EMBRAER, se sucederam como favoritos ao longo do processo encerrado anti-climaticamente no final de 2004. Essa “não-escolha” acabou preparando o terreno para a contratação, diretamente do Governo Francês, de dez Mirage 2000C e dois Mirage 2000B de segunda mão. Estas aeronaves nem de longe se comparam aos cinco que disputaram o F-X. Dentro da FAB transparece uma ansiedade velada de que esta solução “temporária” acabe se transformando em “definitiva”. Por outro lado, o tradicional nome do Grupo de Defesa Aérea é um ponto questionável paro futuro. Isso porque uma vez que qualquer um dos cinco concorrentes do F-X , o Mirage 2000C, e até mesmo o Mirage III EBR nestes últimos anos, realizavam missões de ataque ao solo, em paralelo às suas funções tradicionais de defesa aérea.
Ainda no primeiro semestre de 2006, um restrito grupo de pilotos do 1°GDA será enviado para a Base Aérea de Orange, na França, para ser treinado no novo Mirage 2000. Estes “Orange Boys” tem tudo para serem lembrados no futuro com a mesma reverência que se dedica aos seus antecessores, os “Dijon Boys”. Quem for selecionado sabe que terá seu nome definitivamente gravado na história da Força Aérea Brasileira. Quem serão estes felizardos? Em poucos meses saberemos. Bon Voyage mes amis!
O "Dijon Boy" Ivan Von Trompowski Douat Tauloisi, sorridente e ainda com os cabelos brancos despenteados após seu vôo supersônico, foi quem melhor resumiu a relação destes homens com o Mirage III: “Não existe como não nos ligarmos afetivamente ao Mirage, pois ele é o único avião com alma”!

Mirage III EBR, o céu é seu!

Além da pintura utilizada pelo Mirage III essas poderão ser outras opções 
 
Last Updated on Sunday, 09 November 2008 17:28
 

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