UNITAS XLVII - 2005 PDF Print E-mail
Thursday, 27 March 2008 20:50

 

 

 

Introdução 

 Há várias décadas, a palavra UNITAS serve de sinônimo para o mais abrangente exercício militar regular da América Latina. Neste ano, em sua 47ª edição, o exercício contou com a presença de navios e aeronaves das Forças Armadas brasileiras, americanas, argentinas, espanholas e uruguaias. A Alide participou deste exercício durante dez dias na costa do Rio de Janeiro e de São Paulo. Vejam o que mudou nestes anos todos e em que tipo de cenário as nossas marinhas estão se preparando para enfrentar no futuro.

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.
Corveta Jaceguai indo para o ponto de encontro após a saída da BNRJFragata Independência indo para o ponto de encontro  após  suspender do cais do Arsenal do Rio de JaneiroSubmarino Tapajó logo após suspender rumo a UNITASFragata  Rademaker se dirigindo para o ponto de encontro com os outros navios da Unitas

 

A História da UNITAS 

O exercício UNITAS foi estabelecido tendo em vista a experiência das Forças Armadas americanas na Segunda Guerra. Estava bem claro que outros conflitos no futuro tinham uma alta possibilidade de exigir a operação conjunta de várias outras marinhas ao lado das forças americanas. Para isso era imprescindível que estas marinhas fossem preparadas para interoperar com segurança e sem dar margens a erros de comunicação que pudessem desguarnecer o flanco ou, pior, causar um caso de ataque fratricida, o tão temível, “blue-on –blue”.

Corveta ARA RobinsonNavio Tanque Marques de La EnsenadaDestructor ARA Almte BrownDestroyer USS Ross

Cada marinha monta as suas doutrinas e políticas de emprego em função da sua experiência e de elementos ensinados por outras forças navais. A maioria das marinhas sul-americanas foram criadas na primeira metade do século 19, montadas ao redor de almirantes e oficiais oriundos da principal marinha da época a Royal Navy. Um sinal claro desta origem está na onipresença do “nó de Nelson” nas platinas sobre os ombros dos nossos oficiais.

Fragata USS Samuel B. RobertsFragata Santa MariaDestroyer USS RossCorveta Jaceguai

Desta cultura única inicial cada uma das marinhas sul-americanas evoluiu de acordo com suas características ao longo dos anos. A US Navy assumiu o papel de grande referência no período posterior a 1940, especialmente devido sua vasta experiência em combate na segunda grande guerra e o imenso tamanho de sua frota. Naturalmente o Atlântico Sul sempre foi um dos oceanos mais relevantes nos planos de guerra americanos e, embora não pudesse ser considerado uma zona “quente”, era um canal vital para a o suprimento da costa leste americana. Durante a Segunda Guerra, o estrago causado no transporte marítimo pelos U-Booten nazistas obrigou a uma parceria próxima entre Brasil e EUA para patrulhar as nossas costas e manter o suprimento de matérias primas para a máquina de guerra aliada.

Corveta Jaceguai em alta velocidadeCorveta Jaceguai em alta velocidadeFragata Independência com a Fragata USS Samuel B. Roerts ao fundoClose da Fragata Independência com o Destroyer USS Ross ao fundo

 

Planejando a Unitas XLVII 

A coordenação de cada exercício UNITAS no Atlântico se alterna ciclicamente entre o Brasil a Argentina e o Uruguai. No ano passado foi a Armada Uruguaya que agiu como anfitriã e, no ano que vem, será a vez dos argentinos. Sendo um exercício de grande porte dentro das nossas realidades, o próprio processo de planejamento apresenta desafios semelhantes ao que seria de se esperar de uma situação de guerra real. A Fase Atlântica os americanos executam junto com as marinhas do Brasil Argentina, Uruguai e Venezuela. A Fase Pacifico é realizada com os colombianos, peruanos equatorianos e chilenos.

Fragata Independência em Manobras Táticas com o Destroyer USS Ross ao fundoFragata Independência e a Fragata espanhola Santa MariaFragata IndependênciaFragata USS Samuel B.Roberts se posicionando para lançar o Sea Hawk SH-60B

 Toda UNITAS partem de um documento único, o BI (“Basic Instruction”) 2050. Este manual de muitas páginas é um “esqueleto” com todas os capítulos já ordenados e campos em aberto para todas as informações imprescindíveis. O BI é o fruto de 46 exercícios anteriores e seu objetivo é evitar que mudanças impensadas acabem por excluir dados vitais para o sucesso do exercício. Em paralelo, uma série de convites são enviados para os países da região e para outros convidados de acordo com o gosto do país anfitrião. Neste caso, além dois quatro países básicos, Brasil, Argentina, Uruguai e Estados Unidos (a Venezuela preferiu não participar desta edição), a Espanha, a Grã-Bretanha, a França, Portugal e a África do Sul foram convidados, mas apenas o primeiro país aceitou.

ARA Robinson e ARA Almte Brown juntosClose da popa da Fragata  IndependênciaFragata IndependênciaFragata Independência

  Cada país indicou com quantos e com quais classes de navios iria participar e, em função disso, a equipe do Estado Maior da Div-2 partiu para atacar a maior tarefa do esforço pré-exercício: a criação de um cronograma mestre de eventos, o “Basic Schedule of Events“ que atendesse às necessidades e expectativas das varias marinhas para aquela UNITAS. Como sempre, houve duas grandes reuniões para que todos os envolvidos contribuíssem e finalmente concordassem com o exercício da forma proposta pela Marinha do Brasil. Ambas realizaram-se aqui no Rio de Janeiro, a Initial Planning Conference em junho de 2005 e a Final Planning Conference que ocorreu em agosto deste ano.

Visão da movimentação do GTVisão da movimentação do GTNT Marques de La Ensenada junto a Fragata USS Samuel B. RobertsDestructor ARA Almte Brown e a Fragata Independência

 Todos os aspectos logísticos foram de responsabilidade da MB e ocorreram sem problemas. Na UNITAS os navios saem para o mar como o TF138 ou Task Force 138 que é o número padrão para o exercício. O Commander Task Force (CTF) 138 foi o Commodore Dave Costa, da US Navy. Cada conjunto de navios de um país era identificado com um dígito após o ponto decimal. Os navios americanos compõem sempre o Task Group (TG) 138.0, os demais paises seguem a regra delineada no quadro abaixo:

138.1 Argentina
138.2 Brasil
138.3 Chile
138.4 Colômbia
138.5 Equador
138.6 Peru
138.7 Uruguai
138.8 Venezuela
138.9 Paraguai
138.10 Multinational Task Group Commander / Comandante do país anfitrião
138.11 República Dominicana
138.12 Panamá
138.13 Bolívia

Os países convidados, como a Espanha nesta edição, usam números de TG superiores a estes acima. Cada um dos TG nacionais tem seu próprio TG Commander com Estado Maior a bordo de um dos seus navios.

 Um dois aspectos mais importantes desta fase foi a determinação das regras de engajamento, em inglês “Rules of Engagement”. Um comandante de Força Tarefa, de Grupo Tarefa ou de navio, não pode se dar ao luxo de agir de forma independente e inconseqüente. Hoje em dia, nesta época de comunicação e emprego militar globalizados, suas ações são sempre monitoradas de perto, pelos mais altos níveis políticos de cada nação. Cabe aos níveis políticos determinar os limites de ação da força naval e ir alterando-o de acordo com a evolução dos eventos locais. Cada marinha tem a obrigação de implementar somente aqueles tipos de ações que seus lideres políticos aceitem exercer.
O Grupo tarefa americano na Unitas este ano estava sob a direção do US Naval Forces Southern Command e sob o comando do Commodore Dave Costa, Comandante do Sexto Esquadrão de Destróieres. Durante a fase do Pacífico, iniciada no dia 8 de julho de 2005, incluía a o cruzador da classe Ticonderoga USS Thomas S. Gates (CG 51), a fragata classe OHP USS Samuel B. Roberts (FFG 58) e seus destacamentos aéreos oriundos dos esquadrões de helicópteros HSL-42 and HSL-48, adicionalmente o navio da Guarda Costeira Americana Forward (WMEC 911) completava o GT americano.
Devido à devastadora passagem do furacão Katrina na região do golfo do México, a US Navy tomou a decisão de retornar antecipadamente o Thomas S.Gates para sua base na naval Station Pascagoula localizada na costa do estado americano do Mississipi para que sua tripulação pudesse apoiar os seus familiares naquela área tão duramente afetada. Em seu lugar veio o destróier da moderna Classe Arleigh Burke, o USS Ross (DDG-71).
Os navios argentinos chegaram antes à Baía da Guanabara para a realização do Exercício Fraterno XXIV realizada a partir de 10 de outubro em conjunto com a MB. Os demais já se encontravam estavam no porto do Rio em 17 de outubro, data oficial do início da Unitas XLVII/05.
Visão da movimentação do GTVisão da movimentação do GTFragata Rademaker acelerando para 30 nósCorveta ARA Robinson em Manobras Táticas

 

Os novos desafios mundiais refletidos na UNITAS 

A guerra é um evento muito delicado para as nações, pois quase sempre as suas conseqüências na política internacional podem ser ainda maiores do que no lado militar propriamente. Por isso, hoje em dia, mais do que já foi no passado, a decisão de declarar o início das hostilidades é provavelmente uma das mais delicadas para qualquer Presidente ou Primeiro Ministro. A forma de dar este passo deve ser calculada nos mínimos detalhes para garantir o apoio da ONU e da comunidade internacional nesta tacada do jogo geopolítico. O oponente, sabendo destas limitações dos Estados democráticos, sem dúvida, irá procurar criar uma provocação que induza o outro lado ao erro e a atos improvisados que politicamente lhes convenham. Isso é o que se viu na antiga Iugoslávia e no Iraque nos passos que antecederam ao estouro definitivo das hostilidades.A maior lição desta UNITAS é como executar esse ato de malabarismo, alcançando os objetivos políticos estabelecidos sem ameaçar a segurança das tripulações e de seus navios.

Outra característica importante aqui é a administração das diferentes Rules of Engagement de cada país dentro de uma força de coalizão. O comandante do Task Force terá sempre de levar em conta o que os níveis políticos permitem ou não permitem que suasforças façam dentro da “Força de Paz”. Como cada país tem limites diferentes, alguns não podem atirar nunca, outros apenas ao serem alvejados outros ainda apenas se radares de tiro forem travados ou ainda se radares de tiro forem acionados. Ou seja, numa situação real o acionamento de um navio localizado mais longe da região do alvo pode ser indispensável para a força tarefa poder reagir adequadamente à ameaça.

 A partida da Base Naval do RJ

Embora a semana anterior tivesse sido de chuvas e tempo encoberto, na sexta feira dia 21 o dia nasceu espetacular, chegamos na Base Naval às 7:30, duas horas antes da hora prevista para nossa partida, tempo mais do que adequado para nos orientarmos e ocuparmos nossos camarotes. Fomos apresentados ao Capitão da Rademarker, CF Newton de Almeida Costa Neto. As últimas caixas de mantimentos estava sendo carregadas completando os estoques para esta missão de dez dias. O movimento era intenso, praças vestidos de coletes salva-vidas coloridos e capacetes se posicionavam para dar inicio à desatracação da Rademaker. Atrás de nós estava o ARA Santa Cruz, negro, discreto e pequeno ao lado da Rademaker. No píer mais externo da BNRJ, os navios argentinos e os americanos, acompanhados pela Corveta Jaceguai. Na partida, a separação entre cada navio foi de cerca de trinta minutos e a ordem de partida para esta comissão foi: Corveta Jaceguai primeiro, seguida pela Fragata Rademaker, a Fragata MEKO 140 argentina ARA Robinson, o Destructor ARA Almirante Brown, a OHP americana USS Samuel B. Roberts, a Fragata Independência saindo do Arsenal de Marinha e, finalmente, o destróier USS Ross. Do outro lado da Baía da Guanabara, do cais do

Caju, partiram a Fragata espanhola Santa Maria, o navio tanque Marques de la Ensenada e o recém incorporado navio logístico uruguaio, General ROU Artigas. Ao cruzarmos a saída da barra entramos no Oceano Atlântico e, neste ponto, um pouco além da Fortaleza de Santa Cruz, a Fragata Rademaker e a Corveta Jaceguai diminuíram o ritmo para aguardar a saída dos demais navios para que todos os navios que estavam espalhados se encontrassem, era o “Rendevous”, processo que durou por cerca de uma hora a partir das 14:30.

Rumo ao sul: os exercícios básicos 

Logo em seguida foi a chegada dos helicópteros brasileiros vindos em vôo da Base Aero-Naval de São Pedro d’Aldeia, no oeste do estado do Rio de Janeiro. Eram dois Super Lynx do HA-1, o 4001 para a Fragata Rademaker e o 4004 para a Fragata Independência e um Esquilo do HU-1 (7087) para a Corveta Jaceguai. Os helicópteros estrangeiros participantes eram: um Sikorsky Seahawk SH-60B americano, um Bell 212ASW (HA18) espanhol, um Eurocopter EC-555 Fennec e um Aerospatiale AS-219B Alouette III. Durante a parada dos navios no Rio, eles permaneceram o tempo todo hangarados nos seus respectivos navios. Sempre que os nossos helicópteros chegam nos navios, imediatamente começa o processo de requalificação dos pilotos para pouso a bordo. Esta é uma etapa indispensável para que os tripulantes possam em seguida operar as missões que serão exigidas deles ao longo do exercício.

Corveta ARA Robinson com o Destructor ARA Almte brown a réCorveta ARA Robinson com o Destructor ARA Almte brown a réFragata Independência em Manobras TáticasVisão a ré dos navios argentinos

Em cada UNITAS, os exercícios começam simples e vão ficando progressivamente mais exigentes a medida que os dias se passam. Esta etapa inicial visa refrescar os conceitos básicos de navegação e de comunicações entre os navios, processos que se não bem dominados podem resultar acidentes graves até mesmo com perda de vida.

“CCC-9-SF”. Por trás deste nome crítico estava o primeiro exercício de navegação em formatura da UNITAS XLVII. Por duas horas e meia os navios alternaram suas posições relativas e rumo sob instruções do controle do exercício, desta vez embarcado na Fragata Independência. Começamos com uma formação simples, uma coluna guiada pelo NT Marques de la Ensenada. O “guia” é o navio de referência para todos os demais. As distâncias e a posição relativa devem ser sempre calculadas em relação a ele. O guia pode ser qualquer um dos navios, independentemente do seu tipo ou de sua posição na formatura. Durante este exercício, várias vezes havia troca de guia, quando todas as distâncias e orientação eram recalculadas em função do novo guia. Após a coluna, guinamos para boreste e formamos uma “linha de marcação”, todos os navios se deslocando em paralelo, mas cada um ligeiramente mais adiantado que seu vizinho. Depois de alguns minutos nesta formatura, recebemos nova ordem para formarmos em uma coluna. O guia apenas guina para o novo rumo, os demais fazem o possível para se posicionar adequadamente em relação a ele. Quanto mais longe um navio estiver do guia, maior o deslocamento necessário para ele entrar na sua posição final. Ainda em coluna foram dadas ordens de “pós Juliet”. Isso faz com que um par específico de navios trocasse de posição na formatura. O que estiver mais adiante guina para bombordo e o mais atrás acelera por boreste, paralelamente à coluna até ocuparem o lugar um do outro. Desta vez, primeiroo ARA Almirante Brown trocou com o ARA Robinson e, depois, a Fragata Rademaker trocou de lugar com a Fragata espanhola Santa Maria.
Todos estes procedimentos executados na UNITAS estão especificados em uma documentação chamada “MTP” ou “Multinational Tactical Procedures”. O MTP é uma simplificação das regras ATP ou “Allied Tactical Procedures”, usado entre os países da OTAN. Estes documentos são leitura obrigatória para todos os participantes e garantem quer todos sigam o mesmo conjunto de regras de navegação, de comunicação e de emprego de armas e sensores.

A formatura seguinte foi a “Delta”, os navios navegando em três colunas (3-4-3), uma formatura bastante mais complexa que as anteriores. O guia agora era a USS Ross que estava na cabeça da coluna central e a Rademaker ficou posicionada no final da terceira coluna. Pouco tempo depois de estarmos formados em Delta soou a ordem “Alfa” que é uma formatura em coluna, porém montada em alta velocidade. Na formatura “Alfa” o comando indica a ordem dos navios na nova coluna e, como essa ordem era diferente da coluna anterior, isso poderia gerar algum tipo de conflito caso algum dos navios não tivesse entendido isso claramente. Nós fomos para a oitava posição da coluna, onde antes estava a Santa Maria.

 

Corveta Jaceguai em alta velocidadeNT Marques de La Ensenada entre o USS Ross e a Corveta ARA RobinsonUSS Ross com a Corveta Jaceguai ao fundoUma imagem interessante: As duas Fragatas OHP da UNITAS juntas.

Para dar a partida do próximo exercício importante, a Corveta Jaceguai se destacou do GT e saiu do alcance radar para assumir seu papel de “vilão” do exercício “Transit under surface threat” (navegação sob ameaça de superfície) daquela noite. Antes disso, tivemos o exercício “Gunnex”, com tiro de canhão contra granadas iluminativas (GIL). Nos posicionamos em coluna com a Fragata Independência, encarregada de lançar as granadas no centro da formatura. Adiante da coluna estava o USS Ross puxando a fila, depois a Fragata Rademaker com o ARA Almirante Brown seguindo logo atrás. Os demais escoltas estavam alinhadas atrás da Fragata Independência. Tanto os nossos reparos de 40mm quanto as metralhadoras .50 seriam usados no exercício, primeiro as de boreste, depois as de bombordo. A área ao redor das asas do passadiço estava apinhada, dezenas de oficiais e praças deixaram seus camarotes, ninguém a bordo queria perder este show.

Lançada a GIL, os projéteis traçantes de 40mm imediatamente começaram a espocar. Num ritmo de aparentemente uma ou duas por segundo, os riscos vermelhos se dirigiram exatamente para o alvo, tiros perfeitos. Após o silenciar dos reparos pesados, iniciaram os tiros da metralhadora, igualmente precisa, acertando o alvo em cheio. Ao fundo pudemos ver e ouvir os tiros dos canhões do ARA Almirante Brown disparando contra a mesma GIL. Em seguida, os observadores vão para o costado de bombordo para o lançamento de uma nova granada. Mais tiros e mais acertos no alvo, a tripulação da Fragata Rademaker está claramente apta e preparada para atacar alvos aéreos com seus canhões. A satisfação é geral com os bons resultados alcançados, talvez por isso não faltem sorrisos e apertos de mão para todos os envolvidos. O primeiro dia se encerra com a certeza de que muito mais virá pela frente.

Durante a madrugada os navios assumem uma formatura por setores com o General ROU Artigas ocupando a posição central. Nosso setor fica a boreste mais a ré da formatura, interessantemente alguns navios, como a Fragata Santa Maria e o USS Ross, receberam setores bem maiores do que os demais navios do Grupo Tarefa.

Comandante da Fragata Rademaker Capitão-de-Fragata Newton de Almeida Costa Neto acompanhando os navios e se preparando para a faina de TOM com o Marques de La EnsenadaComandante da Fragata Rademaker Capitão-de-Fragata Newton de Almeida Costa Neto acompanhando os navios e se preparando para a faina de TOM com o Marques de La EnsenadaComandante da Fragata Rademaker Capitão-de-Fragata Newton de Almeida Costa Neto acompanhando os navios e se preparando para a faina de TOM com o Marques de La EnsenadaHelicóptero Bell 212 no convôo do NT Marques de La Ensenada
NT se aproximando para a fainaIniciando a faina de TOMProbe sendo transferido para a Fragata RademakerProbe sendo transferido para a Fragata Rademaker
Probe sendo transferido para a Fragata RademakerConectadoClose do Probe com os adesivos de outras marinhas  recebedorasTripulante do NT usando as placas para comunicação visual com o navio recebedor
Tripulante do NT usando as placas para comunicação visual com o navio recebedorVisão da movimentação  da tripulação do NT durante a fainaA tripulação do NT atenta a todos os movimentosTripulação do NT de olho no cabo para manter a distância correta entre os navios

Logo no começo do exercício começaram os primeiros UNREP (“Underway Replenishment” ou, em português, TOM - Transferência de Óleo no Mar), um reabastecimento de óleo combustível pelo navio tanque Marques de la Enseñada com os navios em movimento. O NT espanhol era o único navio tanque do grupo e por isso teve muitas oportunidades de treinar seu pessoal. O TOM começa com a bandeira “Bravo” sendo topetada no mastro do navio tanque. Isto significa “navio pronto para faina de reabastecimento”. Neste momento o navio a receber o combustível se dirige ao costado do NT, mantendo menos de 100 metros de distância um do outro. Nós tivemos de esperar a Fragata Santa Maria acabar sua faina para tomar a posição dela à boreste do NT. Os navios são conectados entre si por cabos de aço cada vez mais grossos e estes cabos são usados para deslizar os mangotes de combustível até o pesado “plug” se conectar no receptáculo padrão da Fragata brasileira. O próximo passo é começar o bombeamento de óleo. Durante todo este processo, o passadiço fica em contato com a área de máquinas para monitorar a quantidade de óleo que foi recebido. O plug do navio espanhol estava todo “decorado” com adesivos dos navios estrangeiros que eles atenderam, e a Fragata Rademaker não se fez de rogada e também deixou sua marca. Paradas as bombas, ar comprimido é injetado no mangote para limpá-lo, evitando, não somente poluir o oceano, como também deixar uma mancha de óleo na superfície que informe aos inimigos da presença de um navio tanque adiante. Durante esta faina é normal que se aproveite pra trocar documentos em papel e meio magnético, além de pequenos objetos entre os dois navios. Para comemorar o sucesso do procedimento e saudar a outra tripulação, a F-49 ergueu sua bandeira negra com o machado de guerra e acelerou adiante guinando em velocidade para longe do NT.

Oficiais do NT acompanhando toda a movimentação da fainaBandeira do Brasil hasteada no mastro principal do NTNT Marques de La Ensenada num fim de tardeNT e a Fragata Santa Maria
NT abastecendo a Fragata USS Samuel B. Roberts com o Destroyer USS Ross aguardando tendo a Fragata Santa Maria de guarda durante a faina de TOMNT abastecendo simultaneamente a Fragata Rademaker e a Corveta JaceguaiFim do dia e a Corveta ARA Robinson acompanha de perto o Destroyer USS RossCorveta ARA Robinson em alta velocidade
Ao invés de utilizarem as bandeiras para se comunicarem, os navios fizeram uso de mensagens em código Morse usando os telégrafos luminosos localizados nas asas do passadiço. Por mais simples que possa aparentar ser para o observador leigo, um TOM é um procedimento muito perigoso. Aqui qualquer falha pode causar um acidente grave, desde vazamento de óleo sob pressão, a uma colisão entre os navios ou até uma ruptura dos cabos de aço que unem os dois navios. Segundo comentou o Capitão Newton: “Esse navio-tanque, como o nosso Marajó, rabeia muito, e pra compensar isso, a escolta que é mais leve e ágil, tem de aplicar guinadas de até quatro graus no rumo para acompanhá-lo.”

Se o primeiro exercício de Qualificação de Pouso a Bordo foi feito de dia, a segunda vez foi realizada a noite, quando todos os quatro pilotos executam uma série de pousos e decolagens desde o convôo iluminado pelos holofotes localizados sobre o hangar. É um processo repetitivo; decolar, fazer curva, “entrar no gate”, “fazer a rampa” e, finalmente, pousar. À noite estas operações são sempre mais críticas, especialmente quando os navios estão em formatura cerrada, a cerca de 1000 jardas (aproximadamente 1.000m) de distância uns do outros. Muitos estão fazendo suas próprias operações aéreas, não sendo raro ter as aeronaves se cruzando durante seus procedimentos. Pra piorar a situação, os radares navais não têm muita precisão tão perto do navio, funcionando muito melhor a partir de certa distância devido à menor interferência das ondas. Para tentar amenizar este tipo de problema, a sensibilidade dos radares pode ser regulada para evitar que o “clutter” das ondas venha acidentalmente obscurecer um contato de navio inimigo. Nessa noite recebemos más notícias. A previsão meteorológica para o dia seguinte indicava possibilidades de ondas entre 3,5m e 4m. Estávamos chegando perto do nosso limite meridional, ao largo de Itajaí, no estado de Santa Catarina.

Lançando um Sea Wolf - DRONEX 

Um dos pontos altos da vida de um oficial da Esquadra brasileira sem duvida é poder participar de um lançamento de míssil, seja anti-aéreo ou anti- navio. Nesta UNITAS, coube este privilégio à tripulação da Fragata Rademaker. Para que esse evento possa ocorrer como previsto, o míssil, o lançador, os radares de detecção e de controle de tiro, os sistemas do COC e, principalmente, os tripulantes devem todos estar devidamente preparados e capacitados. Isso em si já seria uma grande tarefa se a Fragata Rademaker não tivesse passado pelo grave incidente em 30 de novembro de 2004, quando um canhão de 40mm do Destróier ARA Sarandí acidentalmente disparou contra seu passadiço e o mastro, destruindo o radar de tiro frontal e um dos casulos do lançador dianteiro do Sea Wolf. Havia na época uma expectativa de que fosse necessário pelo menos dezoito meses para que a F-49 pudesse re-estabelecer sua capacidade de lançar mísseis anti-aéreos. No entanto, devido à disponibilidade dos componentes necessários na recém-desativada Fragata Dodsworth (F-47) e com um grande empenho da tripulação da Fragata Rademaker e do pessoal do Arsenal de Marinha, menos de um ano transcorreu até a data deste lançamento.

SH-60B Sea Hawk em vôo de patrulhaEsquilo do HU-1 pousando no  convôo da Fragata RademakrContra-Almirante Carlos Augusto de Souza comandante da DIV-2 chegando a bordo da Fragata Rademaker para ver de perto o exercício de lançamento do missel SeaWolfImagem dos pilotos do HU-1 pousados no convôo da fragata Rademaker

Para este exercício específico, a Fragata Rademaker recebeu a visita do Almirante Carlos Augusto de Sousa comandante da 2ª Divisão da Esquadra, unidade da Marinha responsável pelo exercício Unitas deste ano. Ele chegou logo cedo num helicóptero Esquilo do HU-1 acompanhado pelo seu Chefe do Estado Maior, Capitão-de-Fragata Carlos Frederico C. Primo. Os navios foram dispostos em coluna na seguinte ordem: Ross (Guia), Rademaker, Almirante Brown, Independência, Santa Maria, ARA Robinson, Jaceguai e Samuel B Roberts. Por segurança, foi estipulado que os navios deveriam manter uma distância de 1.000 jardas entre cada um deles.

O exercício Dronex foi dividido em duas fases. Na primeira, todas as escoltas, menos a Fragata Rademaker, se alternariam, dois a dois, atirando no alvo com seus canhões e, somente no final, um tiro do SeaWolf destruiria o alvo teleguiado Northrop BQM-74E Chukar lançado pela Fragata americana Samuel B. Roberts.

Cada navio estava autorizado a disparar um número de projéteis contra o alvo.

ROSS 5 pol. 20 tiros
RADEMAKER SEAWOLF 1
ALMIRANTE BROWN 40 MM 60 tiros
INDEPENDENCIA 4.5 pol. 10 tiros
SANTA MARIA 76 MM 12 tiros
ARA ROBINSON 40 MM 60 tiros
JACEGUAI 4.5 pol. 10 tiros
SAMUEL B ROBERTS 76 MM 20 tiros

Nos COCs os operadores ouviram a ordem clara de atirar contra o alvo. “Drone fechando… make target number xxx hostile, kill target number xxx with guns”
Para este exercício, a pontaria os canhões foi desalinhada propositadamente em alguns graus para evitar que os tiros disparados viessem a destruir o alvo antes de chegar a vez do SeaWolf.
 
O alvo BQM-74E “Chukar” 
 
Não se pode negar que o pessoal da Northrop tem bom humor, pois a palavra “Chukar” dá nome a um tipo codorna selvagem da América do Norte, um belo nome para um pequeno avião não tripulado que provavelmente terminará sua vida operacional sendo abatido. O modelo “E” já é a terceira versão deste sistema que iniciou seu serviço com a US Navy em 1968 e, desde então, já foram produzidos mais de cinco mil unidades de todas as variantes. A agora rebatizada Northrop-Grumman está desenvolvendo um novo Chukar, a versão “F”, de asas enflexadas com a qual pretende continuar com o sucesso desta família de alvos aéreos. A versão “E” lançada no Dronex soma um piloto automático pré-programável com a capacidade de controle remoto por rádio, elementos que, juntos, agregam segurança e dificuldade ao exercício.
Características de operação do Alvo
• IFF: mode 3 code 5000
• Propulsão: Turbina
• Velocidade: 230-465 nós
• Altitude: 1.000 to 30.000 pés
• Duração máxima: 62 min
Condições meteorológicas mínimas:
•Teto: 1000 pés
• Visibilidade: 3 nm
• Chuva não significante
• Sem tempestades ou relâmpagos
• Vento relativo < 35 nós
• Estado do mar menor que 3
• Balanço < 15º

Para o Dronex, uma série de procedimentos de segurança foram acertados antecipadamente pela tripulação da F-49 para não haver surpresas caso por algum defeito o alvo viesse a colidir com qualquer parte do navio. Para tanto, o time de controle de avarias teria de estar a postos para reagir imediatamente neste caso.

Fragata USS Samuel B. Roberts com os drones no convôoEquipe de armamentos da Fragata Rademaker nos últimos preparativos para o lançamento do missel SeawolfClose do trabalho da equipe de armamentosLançador conteirando em busca do alvo

Para capturar adequadamente este evento, uma equipe de vídeo do NAe São Paulo estava a bordo com seu equipamento profissional de vídeo. Nosso fotógrafo ficou bem na proa do navio, num local privilegiado para fotografar o lançamento. Em paralelo, um dos oficiais do navio filmava o evento desde a asa do passadiço, área que foi determinada com o perigosa demais para nós os civis, mas: “em Roma fazemos com os romanos”. De lá pudemos observar a equipe de armamentos conectando os contatos, fazendo o check pré-lançamento e ativando o míssil Sea Wolf. Para este exercício, três mísseis estavam montados nos lançadores, dois no de vante e um no lançador de ré. Como o sistema de lançamento é automático, se o alvo se aproximasse pelo arco traseiro ele seria engajado pelo míssil de trás. Se fosse pela frente, como programado, haveria um segundo míssil de back up caso o primeiro apresentasse qualquer problema.

No entanto, o que deveria ser um exercício rápido acabou demorando quase quatro horas devido à falta de combustível no primeiro drone. Ao fim dos exercícios de tiro de canhão, este BQM-74E caiu no mar como previsto, porém o processo de recuperação da aeronave pela “Samuel” e seu reposicionamento no final da coluna demoram bem mais de uma hora além do previsto. Um segundo drone foi lançado pela fragata americana, realizando duas passagens de teste antes de ser autorizado o início da “corrida de fogo”. Neste momento, parecia que o tempo tinha se acelerado... O ODE (Oficial Diretor do Exercício) divulgou a distância clara (green range); A Rademaker “trecou” o drone correspondente ao designado pelo controlador de Guerra Aérea (AW); O ODE disseminou no canal de rádio a autorização para disparar o míssil “make tn xxxx hostile / kill tn xxxx with birds”.

Iniciando o lançamentoImagens feitas a partir do video feito pelo Capitão-Tenente Batista SantosImagens feitas a partir do video feito pelo Capitão-Tenente Batista SantosImagens feitas a partir do video feito pelo Capitão-Tenente Batista Santos
Imagens feitas a partir do video feito pelo Capitão-Tenente Batista SantosImagens feitas a partir do video feito pelo Capitão-Tenente Batista SantosImagens feitas a partir do video feito pelo Capitão-Tenente Batista SantosDesenho feito pelo 3º  SGT AM Henrique logo após a destruição do Drone

O BQM-74E veio de boreste mas, ao invés de vir numa rota transversal simples, ele deu uma quebrada para a esquerda e fez uma curva longa à direita intersectando a direção da Rademaker meio inclinado. Esta alteração fez com que os sistemas automáticos do COC deixassem de considerar o drone uma ameaça primária passando ela para o fim de uma lista de outros alvos potenciais. Ao perceber isso os controladores do COC re-inseriram aquele track manualmente como sendo o prioritário, ganhando segundos valiosos para o abatimento do alvo. Na distância máxima, os radares localizaram o alvo e imediatamente sob controle dos radares de tiro, os lançadores começaram a “conteirar”, girando e erguendo-se na direção identificada do alvo silenciosamente e com grande agilidade. Conforme me tinha sido avisado, o sinal do lançamento iminente seria o abrir das conchas que tampam os dois lados do compartimento do míssil. Isso ocorreu pouco mais de um segundo antes do lançamento do SAM. Para minha surpresa, o Sea Wolf não dispara com um “Sushhhh!”, como se ouve na televisão. O barulho é um alto e sonoro BUM!, parece muito mais um tiro do que qualquer outra coisa. O drone, para ajudar na sua observação, vinha em direção a nós deixando um rastro de fumaça preta atrás de si. O SeaWolf, por sua vez, riscou o claramente céu com sua fumaça branca e em alguns segundos explodiu em um cogumelo branco. O alvo já não existia mais. O helicóptero foi imediatamente enviado ao local para tentar localizar restos dele para serem presenteados à tripulação da Fragata Rademaker em comemoração a este feito. O CF Newton apareceu no passadiço vindo do COC com as chaves de disparo nas mãos e com cara de quem tinha sido pai pela primeira vez.... Poucas palavras e muitos sorrisos e abraços.

A Rademaker e sua tripulação tinham se provado serem “letais”, sem dúvida o maior elogio para um navio de guerra, independente da marinha a qual ele opere. No briefing final da UNITAS na Base Naval do Rio de Janeiro, em Mocanguê, a tripulação americana produziu a unidade de guiagem do drone que havia sido pescado do mar presenteando-a à Rademaker na pessoas de seu Chefe de Operações, o CF Flammarion.

Uma missão importante para este exercício foi realizada pelo AS-555 Fennec da Armada Argentina. Ele foi incumbido de garantir que nenhum navio mercante ou pesqueiro penetrasse na área de tiros, onde poderiam se expor ao perigo. O Fennec permaneceu em alerta 15 durante todo o evento.

 A Guerra anti-submarina: Casex A-2, A-3, A-4

A maior experiência de guerra da Marinha do Brasil ocorreu na Segunda Guerra Mundial, quando muitos mercantes de bandeira brasileira foram afundados por submarinos alemães. Este cenário está cada vez mais real especialmente tendo em vista a crescente participação do país na comercialização de insumos básicos, desde o minério de ferro até petróleo, carne e grãos. Desde o fim da Segunda Grande Guerra, muita energia tem sido gasta para manter esta capacidade sempre atualizada na nossa marinha. Os exercícios incluiram o “Transit under sub threat”, ou navegação sob ameaça de submarino onde o Grupo Tarefa se dispunha ao redor dos navios mais lentos e desarmados, no caso o Marques de la Enseñada e o Gal Artigas, e dividiam a área em setores de cobertura de sonar. Normalmente estes exercícios ocorriam durante a madrugada para adicionar um elemento extra de dificuldade e realismo. Uma das principais armas dos navios contra os submarinos é o “Towed Array”, um sonar que é arrastado vários metros atrás do navio. Mas o TA não é perfeito ele determina muito bem a direção de onde emana o ruído, mas, a posição exata do sub só é oferecida pelas sonobóias lançadas pelos helicópteros de bordo. Outra característica do uso dos TA é a necessidade de manter-se longe dos demais navios para que por acidente um deles não atropele o sonar no mar destruindo um hardware tão caro.

Submarino Tapajó ainda no ínicio das operações, quando podia ser visto.O submarino Tapajó manteve um alto nivel de discrição durante os exercícios, fazendo com que seus oponentes tivessem muito trabalho para O submarino Tapajó manteve um alto nivel de discrição durante os exercícios, fazendo com que seus oponentes tivessem muito trabalho para O submarino Tapajó manteve um alto nivel de discrição durante os exercícios, fazendo com que seus oponentes tivessem muito trabalho para
Nesta UNITAS os exercícios anti-submarino estão divididos em três blocos, cada um mais difícil que o anterior. Em cada um o submarino tem mais liberdade de ação, exigindo cada vez mais dos seus “caçadores”.
Mesmo contra oponentes tão tecnicamente avançados, os tripulantes do Tapajó mais de uma vez conseguiram que eles perdessem o contato. A força de submarinos da Marinha do Brasil, mesmo enxuta, com muito menos unidades do que o ideal, tem a capacidade de criar um sem número de dificuldades para forças navais estrangeiras operando na nossa costa.
 
Sub versus Sub 
 
Submarinos são as armas mais devastadoras no oceano, especialmente com o Atlântico tão amplo, profundo e cheio de lugares ideais para se esconder. Nesta UNITAS o planejamento não os deixou de fora. Além dos exercícios de luta anti-submarino, em duas ocasiões os submarinos participantes, do Brasil e da Argentina, tiveram oportunidade de se enfrentar um contra o outro. Nos dois casos estes exercícios foram realizados longe do grupo principal de navios para estes não interferissem inadvertidamente na experiência. Desta vez, o Santa Cruz e o Tapajó se enfrentaram, sempre operando em profundidades distintas para evitar o risco de uma colisão. Os submarinos navegam sempre em silêncio uma vez que qualquer ruído ou sinal emitido pode dar ao oponente uma janela de primeiro tiro. Os submarinos convencionais (SSK) são muito silenciosos, dando uma maior dificuldade ao exercício.
 
Ataque aéreo! O ataque dos AMX 
 
A manhã do dia 22 foi gasta inteira sob a perspectiva iminente de um ataque aéreo. Estávamos rumando para sul em duas colunas. A da esquerda era encabeçada pelo USS Ross e seguida pelo ROU Gal Artigas, NT Marques de la Enseñada, a Fragata Santa Maria e, finalmente, o ARA Almirante Brown. Nós estávamos na coluna da direita, seguido pelas outras escoltas. Às 9:34 os primeiros ruídos de um P-95 Bandeirulha, orbitando à 16 milhas de distância, foram detectados. Às 15:00 um sinal espúrio (“bogus”) foi alertado por um dos outros navios, mas não pode ser confirmado pela Fragata Rademaker. Finalmente, às 15:30, quase no fim da janela permitida para o ataque, dois AMX da FAB, vetorados por um longínquo P-95, atacaram o ROU Gal Artigas com suas “bombas burras”. Estávamos a cerca de 70 milhas de Santos e o atacante veio no rumo 140 e cruzou por cima de todos os navios principais da coluna da esquerda virou para a direita e sobrevôou a F-49 a baixa altitude.
Caça A-1 da FAB durante ataque aérea fazendo um rasante sobre a Fragata RademakerFragata USS Samuel B. Roberts durante ecercício RDVU em que é utilizado  um Jet Ski simulando um ataque aos navios do GT. O nome do Jet Ski é Close do Imagem interessante do Subamarino Tapajó

É difícil imaginar que, numa crise real, uma força aérea moderna expusesse seus principais meios de bombardeio desta forma a uma Força Tarefa tão bem defendida por mísseis SAM como a nossa. Os mísseis anti-navio e as munições “stand-off” de longo alcance, são ferramentas imprescindíveis para o emprego efetivo de aeronaves contra alvos no mar. As bombas burras nos dias de hoje, apenas condenariam seus pilotos a morte, causando nenhum ou pouco dano à frota inimiga. Esperamos que estas lições destes exercícios estejam claras para a FAB tanto quanto estão para a Marinha do Brasil. Em 1982, nas Malvinas os argentinos fizeram ataques exatamente assim com sus A-4, mas eles não tiveram condições para se preparar adequadamente, e sem duvida pagaram um preço alto por isso. Alguns dias depois outro ataque foi realizado contra o Task Force por outros dois AMX com resultados semelhantes.

 O Invader Jack e a guerra eletrônica

Uma das grandes novidades desta UNITAS foi um Learjet 35, mas engana-se quem imagina que era um jatinho executivo comum e corrente. Este foi o ano da estréia na UNITAS do “Invader Jack” um avião executivo convertido para simular, tanto em perfil de vôo quanto de emissões, um ataque de míssil anti-navio. O programa é operado pela firma civil americana Flight International, contratada pela US Navy. Sob as asas deste Learjet existem duas antenas em formato de míssil que emitem toda sorte de sinal eletrônico para desafiar a competência dos oficiais de guerra eletrônica dos navios alvo. Porém, ao mesmo tempo em que esta aeronave cumpre seu papel de simular um atacante, ela também está permanentemente gravando os sinais emitidos pelos radares e outras fontes de energia eletromagnética dos navios do exercício, sendo assim, literalmente, uma faca de dois gumes. Todas as aproximações desta aeronave são feitas a baixa altitude, seguindo o perfil que se espera de um míssil SSM ou ASM. Os resultados finais destes exercícios têm de ser compilados em terra juntando um grande número de fontes num programa de computador capaz de dizer com mais precisão que navio afundou, que aeronave foi abatida.

Piloto do Lear Jet faz um break  em cima do USS RoosImagem do ventre da aeronave podendo se ver os Pods de guerra eletrônica que levava
Para nosso benefício, o piloto do Invader Jack passou baixo e lento para que pudéssemos flagrá-lo adequadamente.
 
O Final Battle Problem – Um teste naval sem solução tradicional 
 
Os dois últimos dias da UNITAS foram ocupados pelo Final Battle Problem, um cenário de “role playing” em que os navios são divididos em times e são obrigados a interagir como se fosse numa situação normal. Neste caso, o estado do Rio de Janeiro representava um país independente, rico produtor e exportador de petróleo. Ao norte existe um grande país com problemas econômicos severos e, ao sul, um outro que não deseja ver uma guerra começar na sua vizinhança. O país do norte busca criar uma situação política que justifique uma intervenção sua no Rio de Janeiro. O FBP começa com autorização da ONU de se enviar para a região uma força naval que possa proteger o pais “XXX” das ameaças “externas”. A missão especifica envolve patrulhar a região em frente aos principais portos do país de maneira que armas ou produtos proibidos não sejam levados ilegalmente para forças rebeldes que buscam derrubar o governo local. As organizações de inteligência receberam noticias que o cargueiro X pode estar levando estes itens proibidos. O Marques de La Enseñada fez o papel deste cargueiro suspeito e a corveta Jaceguai fez o papel de um navio militar do país laranja. O Artigas e os submarinos não participaram deste exercício. Assim, as outras escoltas foram posicionados, três a três em áreas de patrulha semicirculares nos dois lados da boca da Baía da Guanabara.
Fragata Independência com o Destroyer USS Ross a réCorveta Jaceguai em alta velocidadeNT Marques de La Ensenada enviando o Probe de reabastecimento para a Fragata Santa MariaApós receber o combustivel, a Fragata Santa Maria se afasta em alta velocidade
Nas primeiras 18 horas, nada ocorreu, pois a corveta ficou em patrulha bem mais a oeste dos dois setores de patrulha aliados. A fragata Liberal fez o papel de outros navios mercante de bandeira neutra, que deveriam ser interrogados e inspecionados de acordo com as ordens passadas para a esquadra aliada. No meio do dia seguinte, o Marques apareceu e se recusou a aceitar as ordens de parar e ser inspecionado. Todas as escoltas foram então autorizadas a deixar suas zonas de patrulha e partir para interceptá-lo. Com a perspectiva de ser tomado, a corveta laranja foi acionada e se dirigiu para leste para evitar que o Enseñada fosse capturado. Quando a corveta chegou perto, uma equipe da Brown já havia entrado no navio e descoberto as cargas ilegais, imediatamente confiscando o navio e estando prestes a enviá-lo para o porto da cidade de Castelhanotown. Ao ver o cargueiro em posse das forças da ONU e cercado pela Rademaker por bombordo e para Brown por boreste, o capitão da Jaceguai tentou cortar a proa da Rademaker para se interpor entre o cargueiro e a fragata brasileira mas, prevendo esse movimento, o Capitão Newton ordenou motores adiante para fechar esta porta para a corveta. A reação da corveta foi a esperada, cortaram o motor e deixaram a Type 22 passar batida adiante para, em seguida, guinar fortemente para boreste e passar pela popa da F-49. A agilidade superior do navio menor fez com que a Rademaker com sua inércia muito maior não pudesse fazer nada além de ir se aproximando do Marques para não dar espaço para a Jaceguai se meter no espaço entre os dois navios. Do outro lado do cargueiro, a Brown também se aproximava dele para evitar que ele pudesse mudar o seu curso. Nessa hora o radar de tiro da corveta foi acionado, manobra repetida pela imediatamente Rademaker. Os navios estavam próximos demais para usarem mísseis, só lhes restando os canhões e as metralhadoras .50. A Ross e a Samuel que observavam todo o movimento dos navios, lá de trás, mais afastadas, começaram a se aproximar fechando a corveta laranja por trás. Neste momento o exercício foi dado como encerrado e os navios receberam ordens de se afastar uns dos outros.
 
Jantarex 
 
O último jantar da comissão é uma cerimônia muito importante a bordo. Nesta ocasião tivemos a entrega do pin da Ordem do Martelo de Batalha ao CMG Randolfo Eimar Cordeiro Bezerra que nos acompanhou nesta comissão. O momento foi muito solene e inspirador com o Capitão enfatizando a importância dos resultados alcançados pelo navio nestes últimos dias, especialmente em relação ao exitoso lançamento do SeaWolf. O navio é uma família e como famílias ele não é estático no tempo. Vários oficiais estavam prestes a deixar o navio, alguns para assumir seus próprios comandos e outros para novos desafios em postos de terra. Um outro Oficial entrava para o ser o novo CheOp do navio e se preparava para passar a fazer parte da tripulação da Rademaker. Novo ano, nova vida. Finalmente, nós, que entramos por apenas 10 dias, saímos com a certeza que parte dos nossos sonho e aspirações para um Brasil melhor e mais importante nos cenários geopolíticos regional e global passa pela seriedade, profissionalismo e patriotismo daquela família de gente madura e ponderada, com gente jovem e cheia de garra e energia.
A Fragata Rademaker mostrando seu alto desempenho no marToda tripulação formada no convôo da Fragata Rademaker para o Cerimonial à bandeiraComandante da Fragata Rademaker Capitão-de-Fragata Newton de Almeida Costa Neto falando para sua tripulação após o Cerimonial à bandeiraDurante o JANTAREX o CF Newton oferece uma lembrança para os visitantes. Aqui o CT Durant da US Navy
CF Newton oferece uma lembrança para o CF Matesa da Armada ArgentinaCF Newton oferece uma lembraça para o piloto da Aviação Naval do Uruguai CT Daniel Wilson CF Newton oferece uma lembrança para o fotografo da ALIDE Luiz PadilhaCF Newton oferece uma lembraça para o repórter da ALIDE Felipe Salles
CF Newton oferece  uma lembrança ao CC Trindade do Esq. HA-1 .CMG Randolfo oferece uma lembrança para a Tenente Talita a meteorologista a bordo Nesta foto o momento em que o CF Newton condecora o CMG Randolfo com o emblema da Ordem do Machado de Batalha, uma distanção para poucosCMG Randolfo profere emocionadas palavras aos oficiais em agradecimento pela condecoração

Photex

A caminho do Rio de Janeiro, foi realizada a última das duas missões “Photex”. Dois helicópteros, o Super Lynx da Rademaker e o Esquilo do HU-1 da Corveta Jaceguai, decolaram para fotografar os navios da UNITAS navegando juntos. Nosso fotógrafo estava por lá e tirou algumas imagens inesquecíveis, pena que o céu azul não apareceu para coroar este evento. A Fragata Rademaker ficou no centro da Formatura a ré da formação. Nas duas alas externas a Corveta ARA Robinson e a Corveta Jaceguai, na frente o Marques de la Enseñada cercado pelos dois navios americanos.

USS Samuel B. RobertsFragata Santa MariaFragata RademakerFragata Independência
Esquilo do HU-1Corveta JaceguaiCorveta JaceguaiFragata Rademaker em alta velocidade
Fragata Rademaker em alta velocidade para se juntar aos outros navios do GTFragata RademakerUSS RossARA Robinson
USS Ross se aproximando do NT Marques de La EnsenadaUSS Ross a boreste do NT enquanto a Fragata Uss Samuel B. Roberts se aproxima para a faina de TOMInício da faina de TOM entre os navios americanos e o NT espanholA Fragata Independência acelera para formar se juntar ao GT
Os navios vão se aproximando para a formaçãoFaina de TOM em andamentoEsquilo do HU-1 sobrevoa os navios para a PhotexImagem do GT formado
GT da Unitas formado para a PhotexPhotexFim da Photex e a Fragata USS Samuel B. Roberts se afasta em alta velocidadeO Destroyer USS Ross se afasta em alta velocidade guinando a boreste
Entramos lentamente na barra da Baía por volta das 14:00 do domingo, a cidade estava coberta por uma extensa nuvem escura que pouco condizia com a imagem mental que as pessoas fazem do ensolarado Rio de Janeiro. A ordem de entrada dos navios foi a exatamente oposta à de saída, por isso nós fomos os penúltimos a atracar. Os submarinos chegaram no dia anterior e o Santa Cruz já estava na sua posição, atrás de nós. O USS Ross ficou fundeada fora da BNRJ por algum tempo e depois partiu rumo às suas missões prementes.
 
Last Updated on Monday, 16 March 2009 23:15
 

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