A ALIDE voa com os Corsários! PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Sunday, 09 November 2008 22:01

 

Logística na época da Mobilidade

Mobilidade é a principal causa de vitória em caso de conflito armado. Em questão de horas as “inexpugnáveis“ posições defensivas francesas da Linha Maginot foram ultrapassadas e dominadas pela Blitzkrieg alemã, com seus pára-quedistas e colunas blindadas se movendo em alta velocidade. Também na Segunda Guerra Mundial pela primeira vez um país teve de lutar um conflito com Teatros de Operações que circundavam o Globo, dos Urais ao norte da África, ao Atlântico Sul até as Ilhas Alêutas, perto do Círculo Polar Ártico. Foi neste cenário que a Logística moderna tomou sua forma definitiva. Não somente aeronaves e veículos, mas, tripulantes, alimentos, combustível e armamento, tinham de ser entregues a destinos longínquos que mudavam de posição a cada par de semanas. Nada mais era estático, tudo se movia ao mesmo tempo, em alta velocidade, para rumos imprevisíveis. Quem não tiver mobilidade, como os franceses descobriram dolorosamente em 1940, não durará mais do que algumas poucas semanas. O Brasil é um país de dimensões continentais, e as ameaças à sua independência podem vir de inúmeros lados, desde a profundidade da Amazônia até mesmo do meio do Oceano Atlântico.

As Forças Armadas Brasileiras devido a não existência de ambiente com provável e iminente conflagração, são dimensionadas para ser forças “de tempo de Paz” capazes de servir de núcleo de uma força muito maior caso os eventos geopolíticos do momento assim exijam. Se comparadas às forças militares das maiores potências atuais, as nossas Forças Armadas são significativamente menores em efetivos, armamento, e bases, sem falar obviamente em orçamento. EUA, Rússia, China e Índia, apenas para citar algumas destas, contam com frotas de aeronaves entre 200 e 20 vezes maiores em número. Para compensar esta restritiva realidade econômica o Brasil tem de se apoiar decisivamente na sua capacidade de mobilização e de desdobramento de suas unidades. Para isso freqüentemente os esquadrões da FAB trocam por até um mês ao ano suas operações de suas bases regulares por alguma outra localizada em algum outro ponto do país. Se existe um esquadrão que reflete este imperativo logístico sem dúvida ele é o 2o/2o GT, o Esquadrão Corsário da Base Aérea do Galeão.

Atualmente o Corsário representa, melhor do que qualquer outro Esquadrão, as “longas pernas“ da FAB e do Governo Brasileiro. Especialmente nestes tempos de globalização e de política presidencial jet-set.

O "Corsário"

Criado em 1960 a primeira aeronave a ser usada foi o então imponente Douglas C-118, versão militar dos DC-6, quadrimotores de motor radial de longo alcance, o Esquadrão se incumbiu das missões de carga e passageiros do Brasil para a Europa e América do Norte, indispensáveis para o suprimento logístico das novas aeronaves que estavam sendo recebidas naquela época pela FAB que se estruturava para se adequar às inúmeras mudanças introduzidas no  período pós-Segunda Guerra Mundial. Caças a jato, novos materiais, novas doutrinas, muita coisa passava a unir de forma indissolúvel o Brasil ao resto do mundo. Logística era indispensável, e o 2o/2o GT estava lá, justo para ocupar esta demanda. Os C-118 voaram até 1970, quando os altos custos e a relativa baixa disponibilidade associados principalmente aos seus motores a pistão, fez com que fossem substituídos pelos novos C-91A, modernos turbo-hélices ingleses de médio porte, os famosos “Avrões”. Diferente dos C-91 recebidos antes pela FAB, os modelos Alpha eram maiores e tinha uma grande porta de carga do lado esquerdo da fuselagem, o que permitia que fossem  realizadas missões de transporte de carga e de  passageiros.  Na década de 70, o 2o/2o GT foi o primeiro esquadrão a receber os Bandeirantes da Embraer, foi uma revolução e um imenso orgulho para o esquadrão,  a adoção de uma aeronave nacional tão importante como o C-95. Finalmente, em 1986 chega um legítimo herdeiro de “pernas longas” como o C-118, o KC-137, a versão militar de carga e reabastecimento em vôo do Boeing 707.

O KC-137 é uma ave fabulosa, mesmo com essa discreta pintura de cinza claro (superioridade aérea), as belas e clássicas linhas da fuselagem e especialmente da imponente empenagem vertical com a inconfundível antena de radio HF, característica que se tornou a “assinatura” da família Boeing 707. Embora todos tenham voado pela primeira vez entre 1968 e 69, estas aeronaves chegaram até aqui excepcionalmente bem mantidas e com poucas horas de vôo. Diferente do verificado na indústria de transporte aéreo onde aeronaves alcançam com relativa freqüência taxas de utilização de 10.000 horas por ano são verificadas, enquanto os KC-137 da FAB voam não mais do que 600 horas no mesmo período. Em termos de desgaste, as quatro células atualmente em uso estão com cerca de 19.000 ciclos cada aproximadamente. A FAB espera que, mantida a taxa de uso atual, e, usando os mesmos JT-3D, estes aviões ainda devam servir com segurança e por pelo menos mais dez anos.

Por sua idade os KC-137, e especialmente o FAB- 2401, tem sido repetidamente criticado na imprensa, e, durante o processo de aquisição do Airbus ACJ, o nível destes ataques só aumentou. Em termos de disponibilidade o KC-137, hoje, é tão confiável e seguro quanto qualquer aeronave mais moderna na FAB. Poucos aviões dispõem de tanta atenção e tempo para manutenção como os do Esquadrão Corsário. Em termos de peças não existe nenhuma falta, além do farto estoque comprado da Varig em 1986, e de peças novas ofertadas por terceiros, existe um imenso mercado de componentes recuperados retirados de aeronaves aposentadas. Cada componente individual tem um serial number específico que o identifica durante toda sua vida útil, e permite saber a cada etapa da sua vida útil e quantos anos ou ciclos ainda lhe restam. Desde a colocação dos Boeing em uso, a FAB já comprou dois outros 707 (sem incorporá-los), para enriquecer e complementar o estoque de peças da frota. Sem dúvida é melhor comprar todo um avião em fim de carreira do que comprar as mesmas peças de maneira avulsa.  Em 1986 a FAB acertou com a Varig que entre as aeronaves a serem repassadas estaria o PP-VJK, porém esta aeronave sofreu um acidente fatal ao decolar de Abidjan na Costa do Marfim em 03 de janeiro de 1997. Este acidente obrigou a substituição da célula perdida pelo ex-PP-VLK.

Serial FAB

Modelo

MSN

Line No.

Motor

Data Entrega

IDs anterior

Células

adquiridas da Varig em

1986

 

 

 

 

FAB2401

B707-345C(KC-137E)

19840

679

JT3D-3B

08/20/68

N7321S, PP-VJY

FAB2402

B707-345C(KC-137E)

19842

712

JT3D-3B

08/06/68

N7323S, PP-VJX

FAB2403

B707-320C(KC-137E)

20008

739

JT3D-3B

07/14/69

N707N, PP-VJH

FAB2404

B707-324C(KC-137E)

19870

702

JT3D-3B

04/24/68

N47332, PP-VLK

Célula

selecionada mas não

entregue

 

 

 

 

N/A

B707-379C

19822

726

JT3D-3B

Não Entregue. Destruído em Abdijan

N763U PP-VJK

Células

adquiridas para uso

de peças

 

 

 

 

N/A

B707-387B

19239

542

JT3D-3B (HK)

12/16/66

CX-BNU LV-ISB

N/A

B707-336C

18925

452

JT3D-3B (HK)

12/19/65

PP-BRB G-ASZG, LX-FCV, XT-ABX, EL-AKI

Dados: Abril/05

FAB-2401

FAB-2402

FAB-2403

FAB-2404

Fabricação

27-Fev-68

08-Jun-68

14-Jul-69

24-Abr-68

Data FAB

18-Ago-86

26-Dez-86

23-Abr-86

21-Abr-87

Horas Iniciais

57.865:00

57.359:00

52.978:00

57.067:00

Horas Atuais

65.021:20

63.979:35

63.007:00

63.645:35

Ciclos Iniciais

15.497

15.094

13.526

17.258

Ciclos Atuais

19.276

18.076

16.735

20.257

A Missão Tanker: Os KC-137 operando fora de sua base.

Todo ano o 2o/2o GT exercita a operação fora da Base do Galeão. Este exercício é chamado de “Operação Tanker” e para não colocar um stress desnecessário sobre a rotina das famílias dos tripulantes ela é dividida em três períodos de cerca de dez dias de duração distribuídos durante o primeiro trimestre do ano. A Tanker Fase 1, realizada em Fortaleza entre os dias 29/03 e 08/04 foi a nossa oportunidade de viajar junto com os Corsários e entrar em contato com o seu dia-a-dia. A Tanker Fase 2 foi realizada em Florianópolis, final do mês de abril, e em Junho será a vez da Tanker Fase 3 em Natal, fechando o conjunto deste exercício.  Nós nos apresentamos à Base Aérea do Galeão na manhã de terça-feira, dia 29 de Março. Duas aeronaves do Esquadrão iriam tomar parte deste exercício ficando a terceira disponível no Galeão para decolagem imediata caso houvesse uma necessidade emergencial de “pagar missão” durante o deslocamento. A Tanker também embute um ciclo de treinamento das tripulações especialmente por serem realizadas em localidades com muito menor trafego aéreo do que aquele verificado na região da BAGL.

Dentro do seu conjunto de tarefas básicas, um esquadrão da FAB deve dedicar um número de horas de vôo para o adestramento contínuo de suas tripulações. Pilotos alunos devem realizar exercícios para poderem passar à condição de Piloto Operacional, e estes por sua vez seguem adiante para se tornarem Instrutores naquela aeronave. Na Tanker, além do treinamento de navegação para REVO, muitas missões serão exclusivamente focadas em toques e arremetidas, atividade que quando é realizada com um KC-137 se torna um show à parte.

A Base Aérea de Fortaleza (BAFZ) atualmente é o ninho da Aviação de Transporte, Reconhecimento e de Patrulha da FAB. É aqui que se dá a conversão de pilotos saídos da Academia da Força Aérea para aeronaves  multi-motor . Dentro da carreira normal dos pilotos de transporte muitos vão passar por aqui para serem instrutores nos C-95 Bandeirante “Cadeirinha” do Esquadrão Rumba, o 1o/5oGAv. Desta maneira para muitos dos integrantes do Corsário, Fortaleza é essencialmente uma “casa fora de casa” onde velhos amigos aguardam em cada esquina da Base prontos para botar as histórias em dia.

O FAB-2401, ainda ostentando sua pintura e interior “presidencial”, partiu na véspera levando o primeiro grupo do esquadrão responsável por começar a organizar a estadia do mesmo em Fortaleza. O 2403 estava em Check D e coube ao 2402 a tarefa de ficar de reserva no Rio enquanto durasse esta missão. Durante os exercícios Tanker aproximadamente 60% do quadro do 2o/2oGT é levado para a nova base, o pessoal restante fazendo companhia ao “02”. Na Tanker seguinte, por meio de rodízio, o time que ficou para trás foi o que esteve em Fortaleza. Isso garante que todo o pessoal tenha a chance de vivenciar esta oportunidade de aprendizado operacional.

Nós partimos no FAB-2404 disposto em uma configuração “Combi”, a metade posterior da aeronave com assentos (3+3) e a região dianteira, próximo da porta de carga da aeronave, acomodando dois pallets, um com lubrificantes e peças de reposição para os motores JT-3D e o outro, bem em frente à primeira fileira de cadeiras,  com uma vistosa e azul VW Kombi da BAGL que seria levada para apoiar as necessidades do pessoal durante o deslocamento no Ceará.

Por mais que estejamos acostumados com vôos de passageiro nada jamais se aproximou da imagem de uma Kombi estacionada dentro do avião, justo na área normalmente dedicada aos assentos da “primeira classe”.

Antes da decolagem a tripulação entrou em formatura para que as últimas instruções fossem passadas e os passageiros devidamente identificados. Como de praxe alguns assentos que não seriam ocupados pela missão foram cedidos ao Posto do CAN – Correio Aéreo Nacional – para acomodação de seus passageiros.

No primeiro dia houve apenas o vôo de traslado para Fortaleza e o desembarque dos pallets de carga, seguido de um briefing inicial para todo o Esquadrão. A Operação Tanker Fase 1 começaria mesmo era no dia seguinte. Na Base Aérea existe uma edificação que serve especificamente ao “Esquadrão Visitante”. Um prédio de um andar, localizado atrás do novo hangar do “Rumba”. O pessoal técnico ficou no pátio antigo da Base Aérea, no lado oposto da pista. Devido ao grande tamanho do 707 as duas aeronaves ocupariam completamente o pátio novo do Rumba, o que resultou na utilização do pátio velho para o estacionamento de uma das aeronaves.

O Operações do Esquadrão, Major Mozart, ao fim do primeiro dia já tinha afixado o cronograma de vôos para os próximos dois dias, de maneira que cada tripulante pudesse saber quando ele deveria estar voando. Uma das áreas mais criticas de qualquer Esquadrão militar é a Seção de Operações. É aqui onde a disponibilidade das aeronaves definida pela Seção de Materiais conflita com as missões requisitadas pela V FAe. Esta é uma tarefa de equilibrista que exige muita negociação e criatividade. Ao começar cada ano existe um planejamento que contempla todas as missões de treinamento do esquadrão, o PIMO - Plano de Instrução e de Manutenção Operacional. Além destes vôos “previsíveis” existem missões extras que podem ser acionadas com até duas horas de antecipação. Outros casos como os exercícios de REVO com os caças funcionam como um lote autorizado anual de horas que vão sendo “debitadas” à conveniência dos caçadores ao longo do ano. Como visto acima, uma função fundamental da Seção de Operações é gerenciar as diversas escalas de vôos existentes para balancear as missões de distintas durações entre os tripulantes.

Durante todo o tempo em que durou a Tanker Fase 1 o esquadrão esteve plenamente operacional. Na terça-feira da nossa chegada em Fortaleza no exato momento em que chegamos no quarto do hotel o telefone tocou convocando o esquadrão para uma reunião onde seria decidida a tripulação que levaria o 2404 para Recife ainda naquela noite pare transportar um grupo de presidiários para Belém no dia seguinte. Basta os aviões estarem na região que um grande número de missões inesperadas começam a aparecer.

Na quarta foi o inicio formal da Tanker Fase 1 com três vôos, os dois primeiros de qualificação de instrutor e o terceiro de exercício de REVO. Desta vez apenas os KC vieram se exercitar não havendo nenhuma unidade de caça para praticar o reabastecimento em vôo. Por isso os treinamentos se limitariam a planejar as missões e à realização cuidadosa do que foi planejado. Desta vez não haveria transferência de combustível real.

A caminho de Belém, o 2402 passou algum tempo pousado em Fortaleza. Lamentavelmente, durante toda sua permanência o 04 esteve fora, e perdemos assim a oportunidade de ver toda a “família” reunida no Nordeste. Devido a toda essa movimentação coube ao 2401 voar todas as missões de treinamento daquele dia.

Esse foi também o dia onde a imprensa local apareceu para conhecer de perto “O maior avião da FAB”. Dois repórteres do jornal O Diário do Nordeste passearam perto do 04 estacionado e produziram um artigo sobre o Esquadrão, a Tanker Fase 1 e o imponente KC-137 com direito a chamada de capa e duas fotos coloridas. Nada mal para um “Senhor Avião”.

Last Updated on Wednesday, 26 March 2014 17:23
 

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