Alide participa da Cruzex! PDF Print E-mail
Written by Rodrigo Bendoraytes - Luiz Padilha - Felipe Salles   
Wednesday, 26 March 2008 20:57

 

 

Em meados dos anos 90, a Força Aérea Brasileira iniciou um processo de amadurecimento muito importante não só para a Força, mas também para o Brasil. A idéia de treinar para um possível confronto com a Argentina era deixada de lado. A FAB estava abrindo os olhos para o mundo. Desde os tempos da segunda grande guerra, o nordeste brasileiro não via tantos caças de diferentes forças aéreas rasgando seus céus em exercícios de ataque, escolta e defesa aérea.

Passe o mouse sobre as fotos e veja as legendas.

 A Base Aérea de Natal na sua época de ouro foi conhecida como o “Trampolim para a Vitória”, milhares de aeronaves aliadas passaram por lá a caminho dos esquadrões operacionais na Europa e no Norte da África, neste final de ano esta tradição de liderança foi devidamente lembrada. 

Entre os dias 7 e 20 de novembro último foi realizada a segunda edição do exercício CRUZEX, o maior exercício de guerra realizado na América do Sul coordenado pela Força Aérea Brasileira e com a participação direta da Argentina, França e Venezuela além da África do Sul, Peru e Uruguai como observadores.   Pós-queimadores abertos!

Nas primeiras horas da manhã do dia 15 de novembro, o silêncio na Base Aérea de Natal era quebrado pelo ronco dos motores de nada menos que dezoito aeronaves. O “pacote”, como era chamado o conjunto de aeronaves de ataque, tinha como objetivo a interdição do aeródromo de Mossoró, ocupado pelas forças inimigas. A Força de ataque era composta por aeronaves A-4AR Fightinghawk argentinos, Mirage 50DV/EV e F-16 A/B Fighting Falcon venezuelanos, Mirage 2000N e 2000C  franceses, além dos F-5E Tiger II, A-1 e Mirage IIIEBR da Força Aérea Brasileira.

As aeronaves seguiram em baixa altitude, porém nunca abaixo dos 500 pés, altitude mínima estipulada pelos coordenadores do exercício, com exceção dos Mirage 2000C que proporcionavam a escolta e voaram na casa dos 20.000 pés, sempre apoiados por uma aeronave R-99A de alerta aéreo antecipado pertencente ao 2°/6°GAv “Guardião” de Anápolis. Por três vezes os “bandidos”, representados por caças F-5E, tentaram interceptar o pacote de ataque, porém, não obtiveram êxito e foram abatidos pelos mísseis Matra Super 530D “lançados” pelos Mirage 2000C. Ao se aproximarem do aeródromo de Mossoró as aeronaves F-16 lançaram suas bombas GBU-10 nos radares enquanto os Mirage 50 interditavam a pista com as bombas BLU-107 Durandal, as demais aeronaves destruíram as instalações com bombas de queda livre, com exceção dos Mirage 2000N que além destas também atacaram com bombas guiadas por laser. O ataque foi um sucesso total. Já na perna de volta algumas aeronaves efetuaram reabastecimento em vôo (REVO) antes de pousarem em Natal. Segundo o Major Bastos, piloto do “Poker”, minutos antes do pouso os franceses pediram para os A-1 pousarem primeiro, pois eles achavam que estas aeronaves já estavam com os tanques vazios, porém a resposta foi imediata alertando que ainda havia combustível suficiente para atacar Fortaleza. Terminava assim a primeira missão da CRUZEX 2004.

Os exercícios conjuntos da FAB

Há quase duas décadas a FAB está abrindo os olhos para o mundo. A cada nova experiência o escopo e o número de participantes tende a se expandir. A Operação Tigre II de1995 foi realizada em Natal (RN) em conjunto com a Força Aérea Americana. Em duas ocasiões, 1997 e 1999, foram realizadas as Operações Mistral I e Mistral II exercício bilateral com a Armée de l'Air francesa. Já em 2000 a FAB deu o maior passo para essa mudança, com a sua primeira e única participação no Red Flag realizada na Base Aérea de Nellis nos Estados Unidos. Sem dúvida, este foi um exercício onde os A-1 do 1o/16o tiveram a chance de enfrentar desafios condizentes com as ameaças mais perigosas do mundo atual operando todo o tempo sob os padrões da OTAN. Dois anos mais tarde a FAB colocou em prática tudo o que aprendeu e absorveu nos exercícios anteriores, era criada a CRUZEX. O primeiro exercício aconteceu no sul do Brasil e contou com a participação da Argentina, Chile e França, que agregou toda a experiência conquistada em suas participações nos conflitos do Iraque, Bósnia e Kosovo.

Esse foi o primeiro exercício internacional realizado no Brasil, totalmente coordenado pela FAB, utilizando os procedimentos e técnicas padrão OTAN. Exercícios conjuntos são contatos muito próximos com outras forças aéreas que, além de apontarem deficiências nas próprias forças. Muitas vezes as soluções para estas limitações são vislumbradas dentro das outras organizações. Num plano mais pessoal, também servem para reduzir as desconfianças entre os países, valorizando as semelhanças e minimizando as diferenças entre as tropas e oficiais participantes.

Nos céus do nordeste

O sucesso da CRUZEX 2002 acarretou uma segunda edição, ainda mais complexa e realista. Desta vez o conflito se deu de baixo do calor nordestino.

O exercício teve como objetivos o treinamento da defesa antiaérea contra ataque de saturação à baixa e média altitude, treinamento de operações C-SAR e resgate de não-combatentes, adestramento dos esquadrões em táticas avançadas através de intercâmbio, treinamento de cadeias de Inteligência de acordo com doutrinas atuais, aperfeiçoamento de procedimentos de análises de objetivos e alvos e a utilização da Comunicação Social como elemento de Guerra Psicológica. Tudo sempre nos padrões vigentes na OTAN.

O Teatro de Operações era compreendido pelos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, que foram divididos em três países fictícios, o Azul, o Amarelo e o Vermelho.

O cenário do “conflito” O planejamento do exercício criou uma situação hipotética, onde o país Vermelho, mergulhado na maior recessão de sua história, resolve retomar parte de seu território perdido após a Segunda Guerra Mundial, hoje o país Amarelo. Após ser invadido, o Amarelo emitiu um pedido de intervenção ao Conselho de Segurança da ONU, sendo assim formada uma Força de Coalizão composta pelo país Azul (Argentina, Brasil, França e Venezuela). O objetivo da Coalizão era expulsar as Forças Vermelhas do país Amarelo. A Base Aérea de Natal (BANT) se transformou na sede da Força de Coalizão, que ainda contava com bases em Recife e Campina Grande. Já as forças inimigas eram baseadas no aeródromo de Mossoró e na Base Aérea de Fortaleza (BAFZ).

Representando as Força Vermelhas, e com a difícil tarefa de confrontar as forças da coalizão, estavam os F-5E do 1°GAvCa, os A-1 do 3°/10°GAv, os AT-26 do 1°/4°GAv, os P-95A do 3°/7°GAv, KC-130 do 1°/1°GT além de alguns C-95 Bandeirante e helicópteros UH-50 Esquilo e UH-1H Huey.

Por sua vez, as Forças da Coalizão contaram com grande parte das aeronaves da FAB, entre elas os F-103E do 1°GDA, os F-5E do 1°/14°GAv, KC-137 do 2°/2°GT, K/C-130 do 1°/1°GT, R-99 A/B do 2°/6°GAv, R-35 A do 1°/6°GAv, CH-34 do 3°/8°GAv, A-1 do 1°/10°GAv e 1°/16°GAv, além das aeronaves T-27 Tucano, C-95 Bandeirante e helicópteros UH-1H, apelidados carinhosamente de “Sapão” e UH-50 Esquilo.

Os convidados estrangeiros

A Força Aérea Venezuelana (FAV), comandada pelo General-de-Brigada Bravo Acurero, começou a desembarcar em Natal seus 200 militares logo no dia 4 de novembro, nos dias seguintes chegaram os dois Mirage 50DV e um Mirage 50EV do Grupo Aéreo de Caza 11 e cinco F-16 A e um F-16B do Grupo Aéreo de Caza 16 , que partiram da Base Aérea El Libertador, localizada na cidade de Maracay, 120 quilômetros da capital Caracas. Um AS-532 Cougar também participou do exercício efetuando missões C-SAR.

Os argentinos vieram para Natal com seis A-4AR Fightinghawk, pertencentes ao Grupo 5 de Caza da  V Brigada Aérea, baseado em Villa Reynolds, Província de San Luis e um KC-130 pertencente a I Brigada Aérea baseado em El Palomar, Província de Buenos Aires. A FAA utilizou também um Boeing 707 e um C-130 Hercules para o transporte de pessoal e de equipamentos para o exercício.

Os A-4AR e KC-130 partiram em direção a Base Aérea de Natal (BANT) na manhã do dia 7 de novembro e com apenas um reabastecimento em vôo, nas proximidades de Belo Horizonte, chegaram a seu destino às 17:00 voando por volta de 7.000km, demonstrando assim a grande capacidade dessas aeronaves. As forças argentinas estavam sob o comando do Comodoro Sanchez, um valente caçador veterano da Guerra das Malvinas, piloto de Douglas A-4B Skyhawk.

A Armée de L´Air (Força Aérea Francesa), por sua vez chegou em Natal no dia 6 de novembro trazendo quatro Mirage 2000C e um Mirage 2000B pertencentes ao Escadron de Chasse 2/12 “Picardie”, três Mirage 2000N do Escadron de Chasse 2/4 “La Fayette”  e ainda um E-3F de alerta aéreo antecipado (AWACS) , um C-160R Transall de transporte e dois C-135FR de transporte e reabastecimento em vôo. Um Douglas DC-8 trouxe parte dos 160 militares franceses. Os Mirage 2000 partiram da cidade de Luxeuil e efetuaram dois reabastecimentos em vôo até a cidade de Dakar, no Senegal, onde efetuaram uma escala. No trecho Dakar-Natal os Mirage 2000 efetuaram novamente dois reabastecimentos.

Devido aos problemas ocorridos na Costa do Marfim, um C-135FR deixou a CRUZEX durante a realização do exercício para dar apoio às tropas francesas naquele país.

O exercício

Na primeira semana do exercício foram feitos combates simulados a curta distância, os famosos dogfight, onde os brasileiros deixaram de lado a inferioridade tecnológica de suas aeronaves e por diversas vezes “abateram” aeronaves mais novas como os Mirage 2000 e F-16A.

Aproveitando a semana de paz na CRUZEX, o General-de-Brigada Bravo Acurero, comandante das forças venezuelanas no exercício, voou o Embraer A-29B Super Tucano. Após o vôo o oficial afirmou que o A-29 faz parte dos planos de modernização da FAV.

Na segunda semana deram-se início aos combates “reais” onde as forças da coalizão realizavam ataques em forma de “pacotes” contra os objetivos militares e de importância estratégica. Todos os dias eram lançados dois pacotes de ataque, um pela manhã, outro pela tarde, porém, as PACs (Patrulha Aérea de Combate) eram constantes e contavam sempre com pelo menos uma aeronave AEW em vôo. Segundo o Brigadeiro Burnier, 60% da defesa aérea inimiga foi destruída assim como 80% dos meios de comunicação, comando e controle. Porém nem tudo foi perfeito para as Forças Azuis que por algumas vezes tiveram a Base Aérea de Natal atacada por aeronaves A-1 e AT-26.

A Importância do Combat SAR

Entre os dias 16 e 18 também foram realizadas, em paralelo, operações de C-SAR. Como o próprio nome indica, Combat SAR, envolve o envio de uma unidade de resgate heli-transportada para extrair, no menor tempo possível, tripulantes abatidos sobre território inimigo. Esta força deve estar pronta para enfrentar ameaças terrestres e aéreas de dia e de noite em qualquer condição de tempo. Um tripulante perdido é sempre um risco de vazamento inteligência e uma ameaça à moral dos demais membros do grupamento aéreo. Uma missão C-SAR é uma atividade crítica, pois, se for mal conduzida pode rapidamente se transformar num fiasco total, multiplicando o número de tripulantes capturados.

Neste exercício, um piloto das Forças de Coalizão foi enviado para uma área entre as cidades de Campina Grande e Mossoró juntamente com um PARA-SAR para ajudá-lo a sobreviver várias horas nas condições climáticas extremas. Um alerta foi enviado para ambos os lados iniciando uma corrida contra o tempo à procura ao piloto abatido.

Segundo o Brigadeiro Dantas, as Forças da Coalizão contaram com um CH-34 brasileiro, um Cougar venezuelano e possuíam uma escolta compreendida por dois UH-50 Esquilo além de dois T-27 Tucano que também partiam para dar apoio ao grupo, já as Forças Vermelhas usaram apenas dois UH-50 Esquilo.

O Exército Brasileiro também participou do exercício de guerra, 48 militares partiram de Campina Grande em sete C-95 Bandeirante, apoiados por dois T-27, na direção de Serra Talhada. O objetivo era a conquista do aeródromo daquela cidade, que se situava no território amarelo. Tudo ocorreu conforme o planejado e o objetivo foi conquistado.

 

Uma nova Força Aérea para o século XXI

Refletindo as imensas mudanças geopolíticas do período pós-Guerra Fria, a Força Aérea Brasileira e suas pares nos países vizinhos tiveram de re-ordenar seu processo de treinamento para melhor cumprir os novos papeis e desafios que agora se espera delas.

A partir do início da aviação militar no continente nas primeiras décadas do século passado, a meta primordial das nossas forças aéreas reside em ser capaz de frear e em seguida retaliar um possível ataque aéreo oriundo dos vizinhos imediatos. Em função desta realidade, as bases aéreas inevitavelmente foram posicionadas entre as fronteiras e a localização dos prováveis alvos de valor nas áreas mais urbanizadas e centrais. Por esta razão é que entre tantos outros exemplos semelhantes, as Bases Aéreas de Canoas e Santa Maria existem bem na fronteira com a Argentina e que Villa Reynolds fica praticamente no meio do caminho entre Buenos Aires e Santiago.

Toda esta rivalidade histórica, atiçada aos limites da insanidade por governos populistas e ditaduras em todos os lados, perdeu por completo o sentido nos dias atuais.  A recente integração política e econômica na nossa região aponta, com bastante confiança, para um futuro onde o risco de um conflito militar entre os países da América do Sul será praticamente nulo. Outros riscos existem, mas invariavelmente contrapõem todas as nações, operando em concerto, contra forças transnacionais criminosas, como o terrorismo e o tráfico de drogas. No entanto, no plano global a situação da segurança fica cada vez mais débil, fazendo das operações de paz, sob um mandato da ONU um cenário cada vez mais realista, sendo esta  a grande revolução doutrinária em andamento hoje em dia.

Historicamente, cada uma das forças aéreas em paralelo criou da melhor forma possível suas próprias táticas e estratégias para o uso dos meios aéreos. Desde aspectos organizacionais e logísticas, até uma estrutura de comando e controle próprios e independentes e muitas vezes ultra-confidenciais. Foi durante a Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria que ficou patente a importância de se contar com procedimentos reconhecidos e praticados por todas as forças aéreas em ação numa operação conjunta. Ao seguir estas diretrizes imediatamente conseguiu-se a redução significativa no risco de confusões e nos piores casos, de acidentes de “fogo amigo” no meio da calor  do conflito. Coube à OTAN a tarefa de consolidar todo este conhecimento histórico em uma série de políticas e estruturas que receberam o nome de COMAO, ou, Operações Aéreas Combinadas em sua sigla em inglês.

Agradecemos a Varig pelo seu apoio fundamental na viabilização desta cobertura

Nossa cobertura da Cruzex 2004 continua nas entrevistas que realizamos com os pilotos e oficiais das forças envolvidas. Entre no cockpit, aperte os cintos e decole com a gente!

 

Last Updated on Wednesday, 26 March 2008 22:03
 

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