Alide vista o famoso "museu voador" francês PDF Print E-mail
Wednesday, 26 March 2008 18:30

 

Aonde quer que usemos a palavra “coleção”, ela sempre há de abrigar dentro de si outras palavras igualmente fortes como "amor", "devoção" e "paciência".

Colecionadores, por definição, amam suas coleções e vão, cuidadosamente, ao longo dos anos desencavando novas e raras peças para garantir não somente a manutenção quanto sua expansão contínua. Geralmente ao redor de colecionadores se agrupam e se associam outras pessoas que compartilham deste amor, seja ele por selos, latas de cerveja, revistas antigas, carros clássicos, etc. Este artigo é sobre um apaixonado que em 1937 resolveu investir seus recursos em juntar, reformar aviões antigos preservando-os para a posteridade. Tendo em vista que estes "brinquedos" possivelmente se incluem entre os mais caros que existem, e que eles exigem uma atenção técnica muito especializada, esta é uma categoria de colecionadores se destaca significativamente de qualquer outra.

Na França, no região ao sul da fervilhante Paris,  um discreto aerodromo no alto de uma colina esconde uma coleção fascinante de aviões clássicos à hélice. Como todas grandes coleções, esta surgiu do amor de um homem pela aviação. A vida de Jean Baptiste Salis se confunde com a própria aurora da aviação européia.

O Colecionador

Salis fez seu primeiro vôo em 1912, aos 16 anos, num avião Hanriot montado por ele mesmo. Após servir como "Moniteur"    durante a primeira guerra mundial,  se dedicou a promover encontros aéreos e participou ativamente na criação de vários aerodromos na região alpina da França. Eventualmente, Jean Baptiste acabou criando uma escola que preparasse com segurança toda uma nova geração de pilotos. Ao estourar a primeira guerra sua escola foi encampadada pelo Ministério da Guerra para a formação dos milhares de novos pilotos militares então necessários. Ao fim das hostilidades, Salis retomou suas atividades de treinamento civil e se estabeleceu no alto de uma ampla colina no bairro de La Ferté Alais criando lá seu aeródromo particular. Desde a morte de Jean Batiste em 1967, cabe a Jean Salis a tarefa de seguir adiante com o sonho de seu pai.

Os Veteranos

Sem dúvida, o maior trunfo da coleção está entre os aviões anteriores a 1918. Além dos conhecidos SPAD XIII e Fokker DR.1 triplano, outras raridades chamam a atenção: os Blériot XI, o Morane type H, o planador SG38 e o bimotor Caudron GIII. Sem que fosse essa sua intenção, a Amicale acabou por acumular um notável número de aviões produzidos pela fábrica francesa Morane- Saulnier. Esta importante indústria francesa foi especialmente ativa desde a aurora da aviação até o fim da ocupação alemã da França em 1944. Em La Ferté estão alguns Morane Ai, o Morane 138, o Morane 185 Avionnette, o Morane 315 e o 502, este último uma versão sob licença do avião de observação e ligação alemão Fieseler Storch. Representando a indústria americana os Boeing Stearman PT-13 e PT-17 e os Piper Cub. O avião soviético da coleção é o Polikarpov Po-2 do qual foram produzidas mais de 25000 unidades entre 1928 e 1950, sem dúvida um número estrondoso.

No período do entre-guerra a Europa esta coalhada de restos e sobras das aeronaves militares de aliados e inimigos que por rapidamente terem ficado tecnologicamente ultrapassadas acabaram por perder seu valor militar. Muitas destas aeronaves acabaram nas mão de pessoas físicas que os operavam desportivamente até não haver mais condição de vôo. Este momento de ouro foi aproveitada e um a um os raros biplanos foram sendo adquiridos e reformados sob a batuta de Mseur. Salis. Persistentemente, as estruturas em madeira eram reparadas, motores recuperados e o entelamento danificado, substituído por novo. Diferente da maioria dos museus atuais, esta coleção foi acumulada desde o inicio do século XX, assim, pessoas que tinha convivido com as aeronaves, estavam disponíveis para auxiliar na sua recuperação fiel. Outra diferença está na visão de que lugar de avião é no céu, e não estático num hangar.

Em 1971 a AJBS sofreu um baque: foi passada na França uma legislação que impediria que a maioria das aeronaves da coleção pudesse voar legalmente, porém graças à intervenção e iniciativa dos membros da Amicale, apenas sete anos depois, foi criada uma nova categoria de "Certificado de Navegabilidade Restrita de Aeronave de Coleção". A restrição se dá especialmente em relação às regiões onde o vôo é liberado e o alcance máximo ao redor do aerodromo. Atualmente além dos 68 aviões antigos da Coleção outros 160 aeronaves veteranas voam na França sob este novo certificado.

As Estrelas da Coleção

Da coleção posterior a este período, sem dúvida a jóia da coroa é o Vought F4U Corsair. Impecável com sua pintura azul escuro brilhante, ele serve como símbolo do ápice da tecnologia do caça com motor a pistões. Sua característica asa de gaivota foi uma engenhosa solução para manter o disco das enormes hélices Hamilton Standard bem longe do solo.

Um De Havilland  Dragon Rapide, que por aqui foi usado pela Vasp e pela Varig, ilustra bem a época aventureira dos primórdios da aviação civil. Uma das mas recentes aquisições foi o Douglas Skyraider que esta exibido com as cores vivas (“hi viz”) da US Navy características do início da década de 60. Esta célula, junto com outras três, foram alienadas pela Força Aérea do Congo após a chegada de seus primeiros jatos na década de 70. Identificados por um associado da AJBS, imediatamente montou-se um programa com outros colecionadores para a compra, traslado e reforma completa pelos técnicos da Amicale de todos os quatro aviões, desta maneira a célula em exibição saiu praticamente de graça.

Recentemente a AJBS contou com o apoio da EADS, gigante europeu do setor aeroespacial, e da BP (ex-British Petroleum), para poder recuperar completamente um fabuloso transporte trimotor Junkers 52. Duas aeronaves desta coleção ficam baseadas no aeroporto de Orly, um P-51 Mustang e um imenso bombardeiro Boeing B-17, aqui este clássico é chamado de a “Fortaleza Sempre Voadora”.

As Estrelas do Cinema e da TV

Outra aeronave que tem uma historia interessante é o treinador Yak-11 que foram abandonados enterrados numa base aérea no Cairo. Estas aeronaves foram entregues pela então União Soviética, mas em virtude da guerra dos seis dias contra Israel, onde os caças a jato foram preponderantes estas células nem chegaram a ser postas em operação. O tempo que estes aviões ficaram abandonados fez com que das mais de 40 unidades apenas poucos pudessem ser resgatados. O Yak da coleção está pintado nas cores usadas pelos Yak-3 do esquadrão Normandy Niemens na frente oriental durante a Segunda Guerra Mundial. Neste caso temos uma “licença poética”, pois, o Yak-11 era um treinador avançado e não um caça interceptador como o Yak-3. Existem outros casos de semelhante “poesia” na coleção como  o T-6 que apresenta as famosas “listras de invasão” usadas no desembarque da Normandia em 1944. Mas não resta dúvida que um prosaico T-6, assim paramentado, enche tanto os olhos do publico leigo, quanto um P-51, mais caro, complexo e raro.

Muitos dos aviões da coleção devem sua existencia ao cinema ou a televisão. Os dois SE 5A foram recriados em 1980 com motores modernos para estrelar no filme "O Ás dos Ases". Um dos Triplanos Fokker DR-1 foi feito pela Salis Aviation exclusivamente para a série televisiva "Le Faucheurs des Marguerites" de 1973. Este é um avião mundialmente famoso por ter sido usado pelo piloto Manfred von Richtoffen, o notório "Barão Vermelho".  Dois dos T-6s do acervo apresentam a cabine e fuselagem posterior dramaticamente modificadas, virando réplicas quase perfeitas do pouco conhecido caça americano NA-68. Estes aviões foram modificados originalmente para as filmagens do filme francês "Dien Bien Phu", exuberantemente pintados com as cores dos Grumman Hellcat da Aeronavale, a aviação naval francesa.

Cada um dos aviões da coleção está plenamente apto a decolar, manobrar e pousar com segurança, realizando um espetáculo de história e beleza sobre a cabeça dos mais de 45mil aficionadas que se reúnem anualmente na “Fete”, o grande evento da Amicale realizado em junho aqui mesmo no aeródromo de La Ferté. Atualmente perto de 30% do orçamento da Amicale vem deste evento, além das contribuições mensais dos associados, os 30% restantes são fruto do uso das aeronaves para eventos, filmes e comerciais.

A notável coleção da Amicale Jean Baptiste Salis em sua maioria exibidos no Aerodromo de La Ferté Alais, pode se orgulhar de ser  ao mesmo tempo muito extensa e variada. Embora a maioria das aeronaves sejam originais, algumas estão presentes sob forma de cópias ou réplicas. Mais do que ser um museu no sentido clássico, a AJBS fez opção de exibir sua coleção em vôo, razão pela qual em alguns casos eles se permitem algumas "liberdades poéticas" em relação à configuração e padronagens de pintura de suas aeronaves. Mais do que um museu  La Fertés Alais é um show capaz de caturar a imaginação de jovens e velhos, desenvolvendo novas vocações para uma vida ligada à aeronáutica!

 

Last Updated on Wednesday, 26 March 2008 19:15
 

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