Nossos avestruzes nos céus chilenos PDF Print E-mail
Wednesday, 26 March 2008 20:14

 

 

  Nossos "avestruzes" nos céus chilenos

Entre os dias 26 de setembro e 10 de outubro, a Força Aérea Componente FAC 103 da Força Aérea Brasileira estará na Base Aérea de Iquique participando do exercício Salitre 2004, no deserto de Atacama ao norte do Chile, quase na fronteira com o Peru e com a Bolívia. A Força Aérea Argentina, com seus Mirage III e IAI Dagger e os americanos do Air National Guard do Novo México voando F-16C-40/30, também participarão do exercício. O Salitre 2004 visa provar a capacitação das forças convidadas em operar num cenário de Composite Air Operations (COMAO) sob a égide das Nações Unidas. Este modelo de operaçõas foi criado pela OTAN como conjunto de regras e procedimentos padrão que garantissem a operacionalidade de uma força militar composta por elementos oriundos dos mais diversos países, falando idiomas diferentes. Estas práticas regulam tudo, desde papéis específicos no teatro de operações, fraseologia padrão, e aquilo que talvez seja o mais seu elemento mais importante: uma estrutura compartilhada de comando e controle. Tal ambiente é o padrão em qualquer missão militar internacional de coalizão, um cenário cada vez mais provável de ocorrer num futuro próximo. Como o Brasil tem sido cada vez mais explícito em suas ambições de integrar Conselho de Segurança das Nações Unidas como membro permanente, é de se esperar um aumento consistente da nossa participação em missões de paz internacionais no futuro próximo.

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O cenário da SALITRE 2004

Buscando aumentar o realismo para os tripulantes envolvidos, a organização do evento montou um cenário que explica a importância da participação das unidades dos diversos países. Uma crise entre dois países hipotéticos vizinhos se agrava com a invasão do “País Azul” por tropas do “País Vermelho”. Por solicitação do País Azul, as Nações Unidas convocam meios de combate aéreo de seus países membros para comporem um força de defesa aérea internacional operando dentro do País Azul. Brasil, Estados Unidos Argentina e algumas unidades da Força Aérea Chilena comporão esta “Força Aérea Internacional”. O papel de Força Aérea Oponente (os “vermelhos”) caberá ao resto da Força Aérea Chilena. Durante duas semanas os atritos entre as duas forças vão se agravando paulatinamente até o conflito pegar fogo. Para minimizar o risco de acidentes, existe uma série de limitações embutidas nas regras do jogo de guerra garantindo, no entanto, que os objetivos de treinamento sejam plenamente alcançados para todos os participantes.

 O processo de preparação

Esta é a terceira ocorrência da operação Salitre, porém, a primeira com a participação de argentinos e brasileiros. A Salitre começou como um exercício bi-anual entre a FACh e a USAF/ANG. Dentro de um cenário de aproximação crescente entre as diversas forças armadas da região está previsto para as próximas edições até mesmo a participação do Peru e de outras nações do continente. O planejamento de um exercício como este com mais de 80 aeronaves de combate é um processo longo e complexo. Foram realizadas três importantes reuniões preparativas entre os membros das forças aéreas envolvidas.

 Realizada quase que um ano inteiro antes do evento, foi na Initial Planning Conference, que o Chile apresentou uma proposta de cenário e de escala do exercício. Neste evento cada país se comprometeu a enviar um determinado numero de forças e a cumprir determinado papel no exercício. Este processo é sempre muito interativo e se espera uma grande participação dos países participantes especialmente em termos de que resultados cada um espera extrair do exercício. Também neste momento a FACh coloca à disposição dos visitantes alguns recursos como as bases aéreas, meios logísticos, espaço aéreo alocado para as missões e  hospedagem e alimentação para suas tripulações no Chile.

 Na Main Planning Conference, realizada alguns meses depois, cada país participante teve de se comprometer de forma clara e final em relação a com quantas e quais aeronaves irá participar, assim como o número de  tripulantes e pessoal técnico e de comando que será enviado. A partir desta reunião todas as variáveis de grande escala ficam definidas. Já se sabe qual esquadrões específicos tomarão parte e que recursos eles levarão para o Chile. Também nesta fase se define a forma de pontuar o resultado das missões e que não usariam armamentos reais. A definição do resultado dos confrontos é calculada através de prova fotográfica e de acompanhamento em tempo real via radar. Parâmetros reais como distância, velocidade e atitude, são usados para determinar o resultado dos confrontos. Nesta fase também se determina que “armamentos virtuais” estarão à disposição de cada aeronave. A FAB preferiu não dispor neste exercício da capacidade de operar “mísseis virtuais” de longa distância (BVR), mesmo que no seu modelo atual de F-5 ainda não tenha este recurso.

 A dois meses do início do exercício ocorre o Final Planning Conference para a confirmação final de que tudo o que havia sido acordado nas reuniões anteriores de fato está pronto conforme o previsto, assim como a eventual correção de discrepâncias menores. Nesta reunião é preparado e publicado o documento final sobre o exercício.

A participação brasileira na Salitre 2004

 Nesta primeira oportunidade, coube aos caçadores do 1º Grupo de Aviação de Caça da Base de Santa Cruz, localizada próxima à cidade do Rio de Janeiro, a tarefa de representar o Brasil. A Força Aérea Componente (FAC-103) da FAB incluirá seis caças F-5E de emprego ar-ar e ar-terra. As células 4820, 4823, 4828, 4836, 4841 e 4845 foram completamente revisadas para tomar parte nesta missão, e a 4850 ficou como aeronave reserva caso alguma das aeronaves principais apresentasse alguma restrição técnica na última hora. Um total de 66 oficiais e praças irão para Iquique a bordo de um único avião cargueiro/reabastecedor KC-137 (Boeing B-707) do 2º/2º Grupo de Transporte. Nesta aeronave também irão os 5 pallets com peças de reposição, geradores e ferramental. Além da carga e do combustível a ser transferido para os caças durante a viagem, a bagagem do pessoal também irá no KC-137, demonstrando a imensa flexibilidade operacional oferecida por esta aeronave.  

 No total 12 pilotos do 1ºGAvCa irão para o Chile junto com 30 especialistas de manutenção e oficiais de outras entidades da FAB como a III FAE, responsável pelo emprego dos meios de combate aéreo da FAB. A operação fora de sua base principal em Santa Cruz não é nenhuma novidade para o pessoal do 1ºGAvCa, isto sendo praticado regularmente ao longo do ano em exercícios operacionais realizados à partir das mais variadas bases de desdobramento na Amazônia. Os dois reabastecimentos em vôo previstos na viagem de cerca de quatro horas e 1430 nm ( 2747 km) entre Santa Cruz e Iquique deverão ocorrer ainda dentro do território brasileiro.

 Estes exercícios internacionais são uma oportunidade inestimável para promover o intercâmbio entre os efetivos militares dos países envolvidos. Muito aprendizado individual e coletivo nasce em eventos destas naturezas, por isso a participação é disputada arduamente por todos os pilotos. Naturalmente recai sobre os mais antigos e aqueles que se destacam por suas habilidades individuais a preferência na hora de ser selecionado para participar. Alguns dos oficiais da FAB que irão participar estrão incumbidos de preparar o documento de conclusão do evento apontando todos os prós e contras experimentados pela FAB e pelas demais forças envolvidas no exercício. As conclusões apontadas neste relatório, podem vir até a promover a reforma ou refinamento de alguns procedimentos operacionais, de planejamento e de treinamento da FAB. Na Cruzex 2002, realizada no Rio Grande do Sul, ficou dolorosamente evidente a superioridade das aeronaves que dispunham de radares modernos de longo alcance e de armamento BVR, sobre os caças da geração anterior. Esta conclusão serviu para lastrear a decisão de repotencialização dos F-5E dentro do programa F-5BR.

 Além deste tipo de exercício, cada vez mais, ocorre o intercâmbio de oficiais entre as forças aéreas da região. Esta é uma outra maneira de preparar as nossas Forças Armadas para os novos desafios estratégicos, táticos, culturais, organizacionais e tecnológicos que se encontram adiante de nós neste novo século. Além é claro de desmanchar suspeitas e desconfortos inter-regionais de longa data que não mais fazem qualquer sentido nesta era de cooperação crescente entre as nações do nosso continente.

A gestão do exercício

O processo de administração conjunta de operações é um dos maiores desafios das missões combinadas. A administração do exercício será combinada num esforço coletivo de chilenos, americanos argentinos e brasileiros. As seguintes estruturas padrão da OTAN compõem a rede de comando e controle do exercício Salitre 2004:

 DIREX (Direção do Exercício): General Trevigno (FACH) e seu staff - Sendo neutros no exercício, são os únicos a ter a visão completa do desenrolar do exercícios. Podem intervir caso haja algum risco à segurança dos tripulantes.

 CO-DIREX: Representantes dos países convidados junto ao DIREX.

 DICONSTAFF (Directing and Control Staff): Órgão conjunto responsável por atingir os objetivos educacionais do exercício. A Força Aérea Vermelha é funcionalmente subordinada ao DICONSTAFF

 JFACC (Joint Forces Air Component Commander - Comandante dos Componentes Aéreos das Forças Conjuntas): Responsável por todas as operações aéreas da Força Aérea Azul, incluindo as funções de planejamento e execução das missões aéreas.

 DCAOC (Deployable Combined Air Operations Center – Centro Transportável Combinado de Operações Aéreas): Planeja, programa e dirige as operações aéreas.

 COS: Chief of Staff Subordinado ao JFACC

 JFAC HQ (Joint Forces Air Component Headquarters –Quartel General do Componente Aéreo das Forças Conjuntas): Representantes de cada um dos países contribuintes de forças.

O próximo "capítulo"

Dando continuidade a este processo contínuo de capacitação da Força Aérea Brasileira, no mês de novembro deste ano ocorrerá a Cruzex 2004. Será um exercício similar ao Salitre 2004, porém numa escala muito maior. A operação ocorrerá no nordeste brasileiro numa área total de cerca de 355.000 Km2, um cenário imenso praticamente do mesmo tamanho da Alemanha. As forças participantes ficarão nas Bases Aéreas de Natal, Fortaleza e Recife, além de poderem desdobrar-se para os aeroportos civis de Campina Grande, Mossoró e João Pessoa. Participarão deste evento destacamentos e aeronaves de caça da Argentina, França, Venezuela e Brasil. Nesta edição as forças aéreas de Peru, África do Sul e Uruguai serão observadores. Desta vez, porém, haverá uma grande diferença, os pilotos do 1ºGAvCa serão os “vilões”... pobres dos “mocinhos”!

Baixe aqui uma apresentação (Power Point) da USAF sobre treinamento em ambiente virtual de larga escala

                        

Last Updated on Wednesday, 26 March 2008 20:57
 

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