Portsmouth, a "casa" de Nelson PDF Print E-mail
Monday, 17 November 2008 11:34

Meu amigo, se você, tendo em vista o imenso leque de opções disponíveis na Internet, se propôs a ler este site, e, em especial, este artigo, é bastante seguro assumir que você seja mais um de tantos aficionados da aviação e/ou dos temas de defesa. Pois, então, prepare-se para uma revelação transcendental: O paraíso existe! E aqui mesmo na terra, na Grã-Bretanha!

Se por um lado estes temas, aqui no Brasil, ainda não são um foco de interesse amplamente difundido, no Reino Unido a coisa é totalmente diferente. A Europa tem uma longa e ininterrupta história de conflitos entre ducados, baronatos, principados, reinos e impérios. A Alta concentração populacional do continente (quando comparado com a s Américas, por exemplo) fez ser inevitável que os conflitos políticos entres estes núcleos de poder se sucedessem até a modernização e o aumento da escala e da letalidade verificada no século 20.

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Portsmouth a "casa de Nelson"

Voltando às Ilhas Britânicas, a criação da Royal Navy no reinado de Henrique VIII foi a mola mestra para que, através dos mares, a coroa britânica encontrasse uma maneira de se expandir para além de suas costas e de projetar seu poder por todo o Globo. A decadência auto-imposta pelos impérios português e espanhol abriu o caminho para o enriquecimento britânico, colocando-os em posição privilegiada para aproveitar a oportunidade dada pela Revolução Industrial no Século XVIII e XIX.  

O local chave neste processo de “conquista dos mares” foi certamente a cidade de Portsmouth, posicionada bem ao sul da Inglaterra de frente para o Canal da Mancha, no estuário do rio Solent. A maior parte de Portsmouth fica dentro da Ilha de Portsea, que hoje em dia é plenamente integrada ao continente. A Cidade hoje existe ao redor da imensa HMNB (Her Majesty’s Naval Base) Portsmouth, ou HMS Nelson, como também é conhecida, é uma das três únicas bases navais britânicas ainda em operação. É aqui onde estão baseados dois terços da frota de superfície da Royal Navy. A Base engloba uma série de atividades civis como construção e reparo naval, logística, acomodação e rancho, além de apoio hospitalar, dental e de programas sociais de apoio aos tripulantes e suas famílias.

A parte mais antiga da base foi separada da área estritamente militar, e aí foi criada uma impressionante atração turística que conta a história da região e da Royal Navy, o Historical Dockyards.

O passeio de barco pela baía

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A primeira coisa que não se pode perder por aqui é o passeio de barco, por meros XX libras o visitante terá a oportunidade de chegar perto dos navios ativos da Royal Navy que se encontram atracados na HMS Nelson. A subida a bordo se dá em um pequeno píer de frente para o grande navio museu HMS Warrior. Após se soltar das amarras o barco segue para o norte, costeando a base naval. A despeito de um dia meio escuro, sem sol, foi possível documentar a presença de diversos navios: a fragata T.23 HMS Westminster, que parecia pequenina, localizada a frente do navio logístico de desembarque Largs Bay (L3006) da Royal Fleet Auxiliary (RFA). Coincidentemente, naquele momento, no convôo do Largs Bay, ocorria o “Queens Colours Ceremony”, a visita oficial do Príncipe Edward, Conde de Wessex, evento claramente identificado pelo estandarte real flamulando no mastro.

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Em seguida, havia o HMS Southampton, um dos três destróieres Type 42 que se encontram em estado de “Extended Readiness” (em português: “Prontidão Extendida”, sem tripulação fixa). Alem destes, outros cinco navios desta classe ainda seguem em serviço, como, o HMS Manchester (D95) atracado mais ao norte. A|s fragatas T.23 HMS Richmond e a HMS Lancaster (T.23) estavam também ali por perto. Ao fundo, atrás dos guindastes e das edificações, podia ser visto o navio tanque RFA Oakleaf – A81. Também parcialmente obscurecido pelos navios mais externos estavam, já após dar baixa, os dois patrulheiros da classe Castle, Dumbarton Castle (P265) e o Leeds Castle (P258), que, por muito tempo, foram os principais responsáveis pelas defesa dos mares ao redor das Falklands, no pós- guerra. O porta aviões para aeronaves de decolagem vertical (STOVL), veterano da Guerra das Malvinas, HMS Invincible se encontra mantido em reserva (“mothballed” em inglês -“naftalinado”) tem seu lar aqui na base, sendo visível de longe, devido ao seu grande porte. Nesta ocasião outro porta aviões desta classe também estava passando por reparos aqui.

Não mais na atividade o solitário cruzador antiaéreo T.82 HMS Bristol aguarda seu rumo atracado num píer ao norte da base naval.  Do outro lado da baía, longe da base naval,  existe um local onde ficam fundeados os navios que já não são mais ativos e que aguardam um destino após seu período de serviço na Royal Navy. Aqui estão três destróieres Type 42, Cardiff (D108), Newcastle (D87) e Glasgow (D88) e o último navio de desembarque da classe Fearless ainda inteiro, o HMS Intrepid (L11). Em setembro de 2008, o navio partiu rebocado para Liverpool onde será totalmente desmanchado.

O HMS Mary Rose

O Mary Rose foi um dos primeiros navios britânicos a ser construído, desde o início, para ser um navio de guerra, nesta função ele levava 78 canhões nas suas laterais. Deslocando 500 toneladas no lançamento e 700 toneladas quando ele passou por uma grande modernização e ampliação em 1536, momento em que foram montados 13 canhões adicionais. Afundando após uma manobra abrupta durante conflito com forças francesas no Rio Solent em 19 de julho 1545. Segundo testemunhas o navio disparou uma saraivada por um dos bordos e fez uma curva forte que, suspeita-se hoje, agravado pelo efeito do vento naquele exato momento, inclinou o navio o suficiente para permitir a entrada de água pelas portinholas da fileira inferior de canhões. O navio afundou imediatamente.

O Mary Rose passou 437 anos enterrado sob a lama, no leito do estuário do rio Solent. No navio foi descoberto no fim do século XIX apenas para ser perdido novamente por décadas Ao ser erguido em 1982 um grande projeto foi colocado em curso para evitar que ao secar as suas madeiras encolhessem, o que destruiria o navio por completo. Para evitar este processo foi construído um “hangar” protegido dos elementos sobre um dique seco existente ao lado do HMS Victory. Ali, ao abrigo do sol, e das variações térmicas e de umidade, uma sistema de esguichos asperge 24 horas por dia uma solução de cera liquida em água que lentamente irá penetrar na madeira preservando o tamanho e a geometria das formas históricas de seu casco. Exatamente esta mesma técnica foi usada na recuperação navio sueco Vasa, anos atrás. Quando o processo de conservação chegar ao fiinal uma nova estrutura definitiva será construída para abrigar o navio.

O HMS Warrior

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Lançado em 1860, este navio representa muito bem a combinação de diversas novas tecnologias que surgiram neste período, como: construção metálica propulsão a vapor canhões carregados pela culatra e hélice para propulsão. Primeiro navio a somar isso tudo com um de casco de ferro e com blindagem, ele teve a honra de ser o primeiro navio “ironclad” daquela marinha, uma resposta direta ao lançamento do navio francês “La Gloire” lançado no ano anterior. Ao ser laçado em 1861 este era o maior mais rápido e mais bem armado navio do planeta. Curiosamente o Warrior nunca entrou em combate e ele e seu “irmão” o HMS Black Prince foram relegados à reserva e posteriormente aposentados do serviço em apenas dez anos devido à velocidade com que a tecnologia naval progrediu naquele período. Devido ao baixo custo do metal sucata na época de sua retirada de serviço o Warrior (com outros nomes) acabou sobrevivendo até hoje como navio hospedagem para marinheiros e como navio tanque de óleo. Finalmente em 1968 foi iniciada a campanha para garantir a preservação deste navio e o Maritime Trust finalmente obteve o controle do navio em agosto de 1979. Sua reconstrução durou até o ano de 1987, quando ele finalmente foi atracado no seu destino final, em Portsmouth.

O HMS Victory

Este navio preto e amarelo é uma pérola, sendo a nau-capitânea do Almirante Nelson em Trafalgar, mais de 200 anos atrás, está impecável e é a verdadeira estrela do Historic Dockyards, tendo uma aparência, provavelmente, melhor hoje do tinha então. Este navio histórico, ainda por cima, consta como ativo na Royal Navy. Ele foi colocado dentro de um dique seco para evitar que a água salgada seguisse danificando o seu casco de madeira e que as ondas e variação da maré continuassem batendo do navio incansavelmente contra o píer muito mais duro. Existe dentro dele um roteiro que leva o visitante a conhecer desde o convés principal até os porões, cruzando todos os conveses do navio. Construído entre 1759 e 1765 o navio ficou incompleto por três anos aguardando um momento em que ele fosse militarmente necessário. A entrada francesa na guerra revolucionária americana acabou sendo a razão por trás da retomada desta construção. Sob o comando do Almirante Keppel o Victory suspendeu pela primeira vez para uma carreira de muitas campanhas e combates navais contra os franceses e contra os espanhóis.  

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Em 1798, já não mais capaz de seguir como navio de guerra, o Victory foi relegado à função de navio hospital, porém após a perda do HMS Impregnable, no ano seguinte, foi tomada a decisão de se recuperar o HMS Victory para atuar como navio de linha. O programa de modernização se encerrou em maio de 1803 quando o navio partiu de Portsmouth sob o comando de seu novo comandante, o Almirante Nelson. A batalha de Trafalgar é crucial para a memória militar britânica pois foi aqui onde se consolidou o poder naval britânico sobre as armadas de seus rivais espanhóis e franceses. Nelson morreu abordo do Vcictory, algumas horas após receber um tiro de mosquete inimigo no ombro.

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Após o comando de Nelson, muitos outros almirantes assumiram o Victory, até que em 1899, ao invés de ser desmontado, o navio foi finalmente designado como sede da Escola Naval de Telegrafia função na qual ele persistiu até 1904. A partir de 1921 uma campanha surgiu para a recuperação do HMS Victory e para sua preservação, e em janeiro de 1922, já num estado de grande deterioração, o navio foi colocado no dique seco mais antigo do mundo em Portsmouth. Em 1928 o rei George V participou de cerimônia onde se dava por completada a recuperação deste navio histórico sob a batuta especializada da Society for Nautical Research. Recentemente, visando as comemorações do bicentenário da batalha de Trafalgar o navio passou por outra grande restauração que culminou com a criação de réplicas de dezenas de peças para transmitir aos visitantes uma imagem clara de como era a vida no interior do navio nos tempos de Nelson.

O Museu Naval de Portsmouth

O Almirante Nelson, naturalmente, é o tema central deste museu, sua vida e conquistas são examinadas sob todos os ângulos de uma forma muito lúdica. Aqui existe também uma espetacular coleção de figuras de proa resgatadas dos desmanches dos navios à vela da Royal Navy no início do século XX. No centro do salão do primeiro andar do Museu existe uma maquete em grande escala do HMS Vanguard, navio a vela lançado em 1835. Com esta maquete os visitantes tomam contato com as diversas áreas e sistemas de combate existentes a bordo de um veleiro deste período, especialmente, as numerosas velas de formatos, nomes e funções diferentes. Neste mesmo andar uma série de experiências práticas  interativas demonstram como que a física simples, como alavancas e polias, era usada para viabilizar a operação e direção dos grandes veleiros pelos marinheiros.  

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Chegando lá

De Londres até Portsmouth a forma mais prática é ir de carro ou de ônibus partindo da rodoviária de Victoria Coach Station, que fica a meros 300 metros de distância da estação de metrô Victoria, muita atenção, as duas estações ficam em edifícios distintos, apesar de terem nomes semelhantes. Até Portsmouth, o trajeto é rápido e bonito, não demandando mais do que duas horas e quinze minutos em cada pernada. As tarifas de ônibus são muito mais atraentes que por qualquer outra forma de transporte interurbano, mais informações podem ser obtidas aqui [http://www.nationalexpress.com/coach/index.cfm/].

Portsmouth é um destino imperdível para qualquer amante da história militar. Se o leitor, por acaso, passar pela capital britânica, nós recomendamos que, pelo um dia, seja devotado a esta curta e fantástica viagem até a costa.

 

Last Updated on Sunday, 07 December 2008 15:32
 

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