Sarkozy e Hervé Morin prestigiam a apresentação oficial da primeira fragata FREMM PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Monday, 03 May 2010 18:19

 

 

Nesta quinta-feira, dia 4 de maio, ocorreu a festa de apresentação pública da primeira fragata de nova geração francesa, a cabeça de produção do programa FREMM – Fragata Européia Multi Missão. As primeiras fotos deste casco apareceram na Internet na quinta-feira passada (29 de abril) quando ele foi retirado de dentro do dique seco inundado, por um conjunto de rebocadores. 

O presidente da França Nicolas Sarkozy, o seu Ministro da Defesa Hervé Morin e uma constelação de autoridades civis e militares prestigiaram o evento ocorrido em Lorient. Esta pequena cidade, localizada na costa oeste da Bretanha, sedia o estaleiro da DCNS dedicado ao projeto e à fabricação de navios de combate de superfície. Foi daqui que saiu a maioria das fragatas da Classe Lafayette e também os dois destróieres antiaéreos Horizon, completados recentemente. Oitenta repórteres franceses, e mais de dez estrangeiros, cobriram este evento, a ALIDE foi a única representante da imprensa brasileira. 

O casco da nova fragata Aquitaine (D650) foi construído a partir da junção de grandes módulos montados completamente aqui em Lorient. O novo navio ainda não recebeu seus mastros com sensores nem sua chaminé, assim como a maioria de seu armamento exterior. O mastro da Aquitaine (pintado de cinza) e o da FREMM marroquina (em alumínio natural), inusitadamente, foram usados junto com as maquetes dos mais importantes produtos da DCNS, para decorar o ambiente do evento social. A montagem final da Aquitaine será realizada com o casco atracado aos cais do estaleiro da DCNS em Lorient. Enquanto isso, se inicia no dique seco coberto a montagem final dos diversos módulos do casco da segunda fragata desta classe. 

Bem do lado de fora do edifício onde ocorreu o cocktail já se podia ver ao menos quatro grandes módulos, prontos para serem usados na FREMM destinada ao Marrocos. Toda a proa deste navio foi fabricada no estaleiro da DCNS em Brest, tendo sido transportada por mar numa barcaça. Este navio especifico deve ser completado e entregue ao cliente em 2013. A construção dos primeiros módulos da terceira FREMM, por sua vez, já foi iniciada em outubro do ano passado. Cada novo navio da classe apresentará um nível maior de integração dos módulos, o que implica na contração do tempo de sua construção no dique seco. Naturalmente, isso reduzirá cada vez mais os custos de produção dos navios. A idéia é que, com a produção devidamente encaminhada, a DCNS estará entregando uma fragata FREMM à Marine Nationale a cada dez meses. 

O programa FREMM 

A Marinha da França encomendou um total de nove navios do modelo padrão, todos batizados com o nome de departamentos (estados) franceses. Depois da Aquitaine virão para a Marine Nationale francesa outras oito fragatas multifunção. Além da Aquitaine, as próximas seis se chamarão Normandie, Provence, Bretagne, Auvergne, Languedoc, Alsace et Lorraine, seguidas por dois navios do modelo antiaéreo chamado “FREDA” (ainda sem nomes definidos). Esta variante apresenta mísseis e radares de maior alcance, sendo um modelo especializado para a defesa antiaérea dos Grupos Tarefas franceses. Dois destes navios serão encomendados para substituir as duas unidades finais da classe Horizon, que acabaram sendo canceladas por seu custo excessivo. Os dez primeiros navios (incluindo-se aqui o marroquino) devem ser entregues até 2022. 

Ainda adicionalmente, outras nove opções já foram firmadas. A idéia inicial seria substituir apenas as antigas fragatas das classes F67 e as F70 mas, atualmente, já se contempla para as FREMM a tarefa de substituição dos “avisos” A69, e, em seguida, dos cinco navios da classe Lafayette. A Aquitaine deve ser entregue completa e operacional à Marinha Francesa até 2012. Se todas estas compras forem efetivamente executadas, a França acabaria com um total de 28 navios desta classe. 

O projeto da FREMM tem tudo para se tornar um grande sucesso de exportação, com a Marinha da Grécia declaradamente interessada em seis unidades a serem fabricadas pela própria indústria naval grega. O intuito deles é de substituir as dez unidades em operação da classe Elli (uma subclasse do projeto Kortenauer holandês). A característica que mais atraiu a Marinha da Grécia nas FREMM é a possibilidade do emprego de mísseis de cruzeiro SCALP Naval da MBDA nestes navios. Este sistema será usado contra alvos em terra, constituindo-se num equivalente europeu ao míssil Tomahawk americano. O SCALP Naval tem um alcance de mil quilômetros, com navegação de altíssima precisão e com no máximo um metro de margem de erro ao final do seu voo. A despeito da grande crise financeira que acomete aquele país mediterrâneo, o interesse por esta compra ainda não foi desmentido, ou mesmo adiado. 

Por seu lado os italianos, sócios dos franceses no programa FREMM, tem um compromisso de construir dez unidades no total, de sua própria versão unicamente para a Marina Militare Italiana. O pedido firme para seis destes navios já foi recebido pelo estaleiro Fincantieri, ficando os quatro restantes para depois. Comenta-se na internet que a Argélia estaria interessada em adquirir em breve seis unidades desta classe para serem fabricadas localmente pela sua indústria naval. Segundo Patrick Boissier, presidente da DCNS, tanto o Canadá quanto a Arábia Saudita são ainda outros possíveis candidatos para adquirir navios desta classe, mas ainda não se sabe em que quantidades. O evento atraiu segundo a empresa, mais de 1000 pessoas entre funcionários da DCNS, de empresas parceiras, representantes da imprensa, autoridades do governo francês e da administração local. 

No Brasil, as fragatas FREMM estariam muito bem cotadas para ganhar a futura concorrência de seis fragatas de 6.000 toneladas que deve ser aberta em breve pela Marinha. Seu maior concorrente neste negócio, no entanto, ironicamente está se configurando ser a mesma FREMM, porém ofertada pela indústria italiana. Correndo por fora, aparecem um pouco mais atrás a F100 espanhola, a Meko alemã, as KDX II coreanas e um novo modelo da Northrop Grumman derivado de um grande navio patrulha da Guarda Costeira americana. 

A cerimônia 

A fragata Aquitaine foi exibida completamente envolvida em um imenso tecido vermelho, branco e azul, formando uma gigantesca bandeira francesa flutuante. O Presidente da DCNS Patrick Boissier deu as boas vindas a todos e expressou sua satisfação com os resultados recentes da empresa, explicando que a partir do programa FREMM sua empresa passava à rara e invejável condição de ter um backlog de pedidos firmes que a levaria, com toda a segurança, até pelo menos uma década no futuro. Com isso em mente, Boissier informou que a DCNS estava se preparando para dobrar suas receitas operacionais nesta década. Ele falou também que a empresa decidiu alavancar seu know how específico em novas áreas civis, atividades de grande potencial de crescimento como a geração elétrica a partir das correntes e das marés, além de desenvolver novos produtos para atender à demanda das fazendas eólicas que vêm sendo montadas em estruturas offshore por toda a Europa. A partir de sua experiência com a propulsão de submarinos nucleares e com o NAe Charles de Gaulle, os engenheiros da empresa deverão também começar a trabalhar com programas de geração elétrica termonuclear para o mercado civil. 

Sob um céu parcialmente coberto mas com rápidos lampejos de céu azul, com uma temperatura de cerca de 6 graus centígrados e ao som de uma música digna de um filme de James Bond, começou a “revelação do novo navio”. Primeiro as partes vermelhas e azuis foram soltas das extremidades, caindo ao redor do casco, no mar. Em seguida, um grupo de funcionários da empresa, ao som de tambores, foi lentamente retirando o tecido branco, primeiro da ré, depois da frente do navio, para mostrar a sua pintura padrão militar cinza.

Sarkozy prestigia a indústria naval francesa 

Após concluir uma visita ao estaleiro da DCNS, o Presidente francês Sarkozy veio até o pódio e agradeceu aos funcionários da DCNS por sua confiança nela, especialmente após a radical mudança societária que mudou o tipo da empresa. A DCNS foi em poucos anos, de tradicionais estaleiros estatais para se reinventar como uma das mais ágeis, inovadoras e comercialmente agressivas corporações européias. Sarkozy deu as boas vindas a todos e, dispensando um discurso de quatro páginas cuidadosamente escrito, ele optou por falar completamente de improviso. Nicolas Sarkozy contou a visão do governo francês de que a saúde e a pujança de todo o segmento industrial da nação não é apenas algo “interessante” mas, na realidade, um elemento crucial e inevitável para o bem estar da economia francesa. Ao lado do segmento automotivo e do aeroespacial, a indústria naval, especialmente, deveria continuar sendo cada dia mais forte e competitiva no futuro próximo, caso a França deseje manter-se como potência global. Segundo ele, qualquer país que abra mão da sua indústria estará se condenando, imediatamente, à decadência econômica. 

Confirmando sua determinação em apoiar a indústria de construção naval, o presidente francês citou o caso do adiantamento da compra do terceiro navio da classe Mistral, como forma de auxilio ao estaleiro STX, de Saint Nazaire. A interrupção dos pedidos de grandes navios de turismo chegou a ameaçar os trabalhadores desta cidade com a demissão em massa durante o auge da crise global, fato esse evitado pela rápida movimentação do governo. Sarkozy afirmou ainda que será inevitável algum grau de consolidação da indústria naval européia citando o sucesso de projetos desta natureza que geraram a EADS e a MBDA: “Cooperação deve surgir no lugar da agressiva competição intra-européia existente hoje”.

A visão das oportunidades futuras segundo o presidente da DCNS 

Em sua coletiva de imprensa Patrick Boissier contou que a empresa decidiu-se pela construção, com fundos próprios, mesmo que isso se faça sem qualquer documento oficial de especificações técnicas/requerimentos militares pela Marine Nationale. O novo navio será de uma unidade pequena da nova família de navios patrulha da família GoWind, e servirá para responder às criticas de seus clientes internacionais de que seu produto não era “suficientemente operacional” ainda. A construção do “patroullier hauturier (navio patrulha oceânico) Hermes”, de cerca de 1100 toneladas, deve durar 18 meses. Ao final deste período, o navio deverá ser “emprestado”, sem ônus, à Marine Nationale, para que ela possa explorar a fundo suas novas características. Esta clara inversão do processo tradicional de logística militar é uma grande novidade aqui na França, uma vez que este tipo de navio nem se encontra nas necessidades declaradas da Marinha da França. O Hermes será testado e operado em uma das unidades que hoje operam os patrulheiros de 400 toneladas, do tipo deu origem aos NPas 500 da Marinha do Brasil. 

Para o presidente da DCNS, o programa Hermes deve inaugurar uma nova organização industrial com a inserção de muitas novas tecnologias. Um outro executivo deste programa disse à ALIDE que o Hermes ficará pronto entre o final de 2011 e o início do ano seguinte, e que esta linha de navios variará de 1000 até 1800 toneladas. Segundo ele, existem muitas marinhas interessadas nele na África, Ásia e América do Sul, e que até mesmo empresas de produção de petróleo já se demonstraram interessadas em avaliar este modelo para sua segurança (privada) de suas plataformas offshore. 

Boissier, respondendo a uma pergunta da imprensa sobre se havia seriedade na expectativa de uma cara e importante venda de FREMM para a Grécia, uma vez que, para todos os efeitos, hoje este é um país completamente falido. Segundo ele, a questão da defesa na Grécia é muito “peculiar” fato esse que os impediria de abandonar por completo, de uma hora para outra, seus importantes investimentos militares. Ele lembrou ainda que um programa deste tipo leva muitos anos para ser negociado, o que daria aos gregos bastante tempo para resolver sua situação econômica, antes que houvesse a necessidade de fazer qualquer desembolso. Por isso, as partes seguem nas tratativas. 

Nesta conferência de imprensa foi falado também que as negociações com a Rússia para a construção dos Mistral seguem adiante mas que este negócio deve ser direcionado para o Estaleiro STX em Saint Nazaire mais do que para a DCNS, devido ao seu perfil industrial ser mais adequado àquela empresa. 

Comentando sobre o potencial conflito filosófico da visão “nacionalista” de Sarkozy para a indústria naval francesa, com a proposta colocada por ele mesmo logo em seguida, de que a indústria naval européia deveria se preparar para a uma forte cooperação, Boissier disse que “está mais do que clara a necessidade desta cooperação ampliada, isso é inevitável. Apenas, neste momento nos encontramos muito longe ainda de poder dizer com que cara ficará a indústria européia, ao final do processo”. 

Boisser confirmou que não existe nenhum problema em se chamar o submarino sendo desenvolvido para o Brasil de “Scorpène”, uma vez que a DCNS é o general designer do modelo, tendo sido apenas uma parte, a ré, desenhada pelo estaleiro espanhol Navantia. Segundo ele, a disputa arbitral entre as duas empresas continua sem solução até o momento. 

Novas pistas sobre o “S-BR”, o novo submarino convencional Brasileiro 

A ALIDE apurou durante o evento de apresentação da nova Fragata FREMM em Lorient, na França, nesta terça-feira, precisamente o que será o modelo de submarino que a empresa francesa fabricará no Brasil nos próximos anos. 

A despeito das graves desavenças públicas entre a DCNS e a Navantia espanhola, sua ex-sócia no programa Scorpène, o modelo de submarino oferecido para atender às necessidades declaradas do Brasil é realmente uma versão alongada e modernizada deste mesmo design. 

Para aumentar o raio de alcance do novo modelo, o submarino passará a medir perto de 70 metros de comprimento, entre quatro a cinco metros mais comprido do que o Scorpène padrão vendido para o Chile e para a Malásia. Essas seções adicionais do casco permitirão a expandir em 20 toneladas a capacidade de óleo diesel combustível transportado pelo Scorpène brasileiro. Para fazer a autonomia do modelo brasileiro alcançar os 60 dias desejados pela MB , no mesmo esforço será aumentada a câmara frigorífica e o espaço de armazenamento de víveres secos. Outra modificação resultante será o aumento de 31 para um total de 35 camas nos camarotes, aumentando assim, potencialmente, o tamanho da tripulação ou número de militares de forças especiais transportados no submarino. 

O sistema de combate dos submarinos brasileiros, como os indianos, será bastante modernizado em relação àquele instalado nos Scorpènes chilenos e malásios. Na parte de motorização, haverá outra grande alteração: ao invés de usar apenas dois grandes motores diesel , como nos demais submarinos Scorpène, a MB solicitou à DCNS que se empregasse, alternativamente, no S-BR, quatro motores de menor porte no seu lugar. Segundo a fonte, este requerimento seria fruto da experiência satisfatória brasileira com os U209 alemães, que usam quatro motores diesel. 

O S-BR terá dois periscópios, sendo apenas um deles tradicional (ótico), do tipo penetrante no casco. O outro se compõe de um câmera de vídeo digital na ponta do mastro capaz de transmitir a imagem capturada para uma ou mais telas no interior do submarino sem que, para isso, seja preciso abrir um outro orifício no casco de pressão. O S-BR terá seis consoles multi-função digitais que podem se substituir mutuamente, sem restrições, caso um deles apresente uma pane. 

Toda a parte frontal do primeiro submarino S-BR, da proa até depois do compartimento de comando/combate, será construída na França, com a participação direta dos engenheiros civis e militares brasileiros alocados a este projeto. Daí em diante, 100% dos demais submarinos passará a ser construído no novo estaleiro de Sepetiba, no Brasil. Em alguns dias, chegarão a Cherbourg e a Lorient os primeiros brasileiros que trabalharão no processo de absorção da tecnologia transferida pelos franceses dentro deste programa. No final do mês de maio ocorrerá a cerimônia de início da construção do primeiro submarino no estaleiro de Cherbourg. 

 

Last Updated on Sunday, 09 May 2010 08:48
 

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