As “cartas” da DCNS para a Euronaval 2010 PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Thursday, 07 October 2010 00:00

        

Para a indústria naval francesa a feira Euronaval, a ser realizada entre 25 e 29 de outubro, representa sua maior “vitrine” ao longo do ano, e é muito natural que um big player global como a DCNS use este palco para impressionar a imprensa e os clientes reunidos em Paris.

Tradicionalmente a DCNS usa a Euronaval para apresentar seu novo navio conceito inspirando na prática tradicional dos salões da indústria automotiva. Neste ano o projeto conceitual será o “Advansea”, uma revolucionária fragata de 4000 toneladas com linhas stealth, incluindo aí radares de varredura eletrônica nas laterais da superestrutura e um mastro integrado único. O projeto apresenta, ainda , um convôo adicional sobre o hangar duplo, para as operação de UAVs, uma canhão de proa de 127mm e um passadiço 360 graus. Gilles Langlois, engenheiro naval responsável pelo desenvolvimento dos navios de superfície, apresentou este navio como sendo uma idéia do que poderá ser produzido em algumas décadas.

O progresso da fragata Aquitaine

Neste ano a DCNS tem muitos programas de alta visibilidade para focar na Euronaval. Entre as escoltas, indubitavelmente a primeira unidade da fragata européia multimissão, a chamada FREMM será um dos pontos altos do evento. A fragata Aquitaine que foi lançada ao mar em abril deste ano, já se encontra em estágio avançado do “fitting-up” no estaleiro da DCNS em Lorient.

Entramos pelo convôo onde ocorria a instalação do sistema automatizado sobre trilho para a movimentação dos helicópteros NH-90.  Em seu interior centenas de trabalhadores se ocupam na instalação de equipamentos, divisórias, consoles do COC (ainda cobertos por placas de madeira) e sistemas de iluminação e de refrigeração, tudo aparentemente ao mesmo tempo. Para permitir a vida destes engenheiros e técnicos em seu interior um emaranhado de fios e luminárias temporárias se esgueira por cavernas e corredores a dentro.  

 No dique seco, coberto de montagem está tomando forma o casco da segunda FREMM a Mohammed VI destinada à Marinha do Marrocos. Este dique de Lorient tem 90 anos de idade e mede 240 metros por 38 metros de largura.  No entanto, não sendo este dique muito profundo, os lançamentos dos navios dependem de que a maré esteja sempre no seu ponto máximo.

O navio marroquino será lançado ao mar no meio do ano que vem ainda não tendo recebido seus motores e máquinas auxiliares. No momento da nossa visita a montagem da proa se encontra mais adiantada do que a popa. Nos “hangares” de pré-montagem dos módulos das fragatas já se encontram várias destas grandes peças semi acabadas para serem usadas no navio marroquino e na segunda FREMM francesa, a Normandie.

  A construção desta classe é totalmente modular, cada um dos dezesseis anéis e semi-aneis podendo ser construído, sem qualquer problema, em paralelo em um estaleiro distinto. A proa do navio marroquino, composta de três destes módulos foi inteiramente construída no estaleiro da DCNS em Brest, sendo trazida, flutuando, até o local de sua montagem final em Lorient. A carga máxima de 300 toneladas da ponte rolante do dique de construção de Lorient determina o peso máximo dos módulos pré-montados que serão usados nas FREMM, assim isso é um parâmetro que sempre vai variar de estaleiro para estaleiro. As construções em módulos só é possível devido ao uso de sistemas digitais de desenho tridimensional, como o CADDS, usado pela DCNS desde a época do programa Sawari II (Lafayettes modificadas para a Arábia Saudita) no final da década de 90.

Langlois deixou claro que, em sua opinião, a FREMM francesa é superior à italiana por contar com a capacidade de ataque em profundidade (usando o míssil de cruzeiro SCALP Naval) e por ter o Setis, um novo sistema de combate totalmente unificado que já está preparado para o combate apoiado em redes de dados digitais.

O Setis é projetado para automatizar várias funções do COC, cortando seu complemento à metade se comparado com os sistemas de COC atuais. A experiência da DCNS no controle de ruídos, aprendida a duras penas na construção dos submarinos, foi usada para reduzir ainda mais a assinatura acústica das FREMM. O interior da FREMM francesa, por uma questão de segurança e de conforto, será cortadas por corredores largos com paredes lisas e totalmente desimpedidas de cabos, caixas e painéis diversos, como se verifica na maioria dos navios atuais. Como é de se esperar, o projeto já inclui a previsão de passagens para a movimentação de grandes componentes desde as praças de máquinas até o exterior do navio, simplificando, acelerando e reduzindo o custo do processo de manutenção.

A FREMM é o primeiro navio a usar o lançador vertical Sylver A70 (com 7m de comprimento) capaz de transportar e lançar o míssil de cruzeiro SCALP Naval que tem um alcance máximo de 1000 km. Interessante é ver que, dentro do navio, todo o lançador Sylver é montado sobre molas para minimizar os efeitos danosos da vibração. O passadiço, por sua vez, ainda está bastante incompleto, até mesmo as suas paredes laterais falta instalar. Diferente de sua antecessora, a classe fragata Horizon, as FREMM voltaram a apresentar asas do passadiço como forma de simplificar o processo de atracação e para melhor defender o navio contra ameaças assimétricas, pois ali, agora, fica uma metralhadora .50” em cada bordo.

Perguntando sobre a possibilidade de aumento da velocidade máxima da FREMM sem o uso da turbina, Gilles comentou que o requerimento da Marine Nationale especificava uma velocidade sem a turbina de 16 nós, mas que, seria relativamente simples, com o uso de um novo motor elétrico mais potente, elevar este número para a marca de 18 nós. Para velocidades acima deste patamar, seria necessário aumentar a capacidade dos geradores diesel MTU que, hoje, oferecem um máximo de 2,1 MWatts.

Sobre o questionamento do impacto na operacionalidade do navio de sua tripulação muito compacta, Gilles Langlois disse que há cinco anos atrás a DCNS criou uma série de simuladores analíticos para testar e avaliar os riscos e oportunidade para a redução de tripulantes. Em função disto a Marinha francesa decidiu rever vários procedimentos e práticas como criar um estabelecimento em terra para treinar os novos tripulantes das FREMM antes mesmos deles embarcarem, uma vez que não haverá gente disponível para conduzir este treinamento a bordo. Outra forma de se reduzir o número de militares no convôo foi à instalação de canhões de espuma e de água para combate a incêndio, controlados remotamente, desde a torre de comando de operações aéreas. A administração do navio e o suprimento de peças e de componentes, será toda baseada em sistemas digitais, o que reduzirá ainda mais a demanda de pessoal empregado nesta função.

O sonar rebocado de profundidade variável (VDS) foi feito para ser operado por apenas um militar ao contrário dos muitos necessários nas gerações anteriores do sistema VDS. A DCNS usou sua sala de realidade virtual para determinar a melhor disposição para os dezesseis consoles multifuncionais do COC, visando sempre seu uso pela tripulação reduzida.

Hermes, finalmente a primeira GoWind

Nesta visita também foi mostrado o galpão onde está sendo construído o mais novo navio patrulha francês, o Hermes. Primeira unidade da revolucionária família GoWind, a construção do Hermes foi completamente pago pela DCNS para ser posteriormente operado pela Marine Nationale a partir do final de 2011.

Com esta primeira unidade de 90m de comprimento e deslocando 1000 toneladas em operação regular, a empresa francesa espera poder atrair novos clientes por esta linha nos próximos anos. O passadiço deste novo navio tem uma visão (e uma varanda exterior) panorâmica de 360 graus (como a do navio conceitual ”Advansea”) Uma das características modernas da Hermes é justamente as duas entradas independentes existentes na popa para a operação de barcos de casco inflável rígido normalmente usados na abordagem, interceptação e investigação de navios suspeitos no mar. Estas rampas permitem que as lanchas possam ser lançadas ou recolhidas em no máximo cinco minutos.

O Hermes é equipado com um único mastro integrado com radar de observação, sistema de guerra eletrônica e antena para controle de um UAV (aeronave não tripulada). Ele usará uma versão simplificada do sistema de combate Setis, chamada Polaris, que, sem ter que se preocupar com operação de mísseis e torpedos é completamente focada na sua missão de polícia dos mares incluindo aí a operação de OPVs de asa rotativa. O Hermes terá uma autonomia de três semanas em missões de até  8000 milhas náuticas.

Em termos de armamento haverá um canhão de 30mm Oto Melara na proa e duas metralhadoras de 50“, uma em cada  bordo além da instalação de canhões de água como opção de “resposta não letal”. O novo navio apresenta, ainda, algumas inovações para navios do seu porte, como um segundo passadiço para treinamento, localizado logo abaixo do passadiço operacional. Ele inclui navegação inercial da firma SAGEM e um sistema de guerra eletrônica da Thales.

Uma vez completada esta fase inicial de montagem dentro do galpão, o casco do Hermes será levado num carrinho até um flutuador colocado num dique seco para ser, então, colocado na água. A previsão é que ele entre em operação no final de 2011. Este programa inclui vários parceiros de risco como a polonesa Miblomor (portas estanques), a dinamarquesa Terma (radar) e uma empresa indiana que fabricará o “starting cabinet” da propulsão do navio. A ênfase da DCNS é buscar parcerias em países que possam ter interesse em fabricar sob licença o Hermes em seus países.

Outras novidades da DCNS

Outra novidade apresentada  é o novo conceito de navio tanque/logístico multifuncional da DCNS, o chamado “Brave”. Este navio desloca 30.000 toneladas, quase igual ao NAe São Paulo, mas adiciona a estas funções básicas hangar com um grande convôo e dois spots para helicópteros pesados. Ele traz também acomodação para um grande grupo de comando e controle (C2) com sistemas de comunicação bastante reforçados.

Os modelos atualmente em estudo variam de um comprimento total de 160 até 195 metros, com uma boca de 28 metros. Este conceito visa atrair a Marine Nationale para usá-lo para substituir os navios da classe Durance. A sua propulsão deverá ser hibrida, diesel/elétrica, mas, ele usará eixos tradicionais com hélices, e não pods azimutais como os dos BPC Mistral, para atingir uma velocidade máxima de 20 nós.

A apresentação terminou com a exibição de um slide mostrando um BPC Mistral 2/3 menor, medindo 169 metros de comprimento e contando com apenas cinco spots para helicópteros e 14000 toneladas de deslocamento. Para Gilles Langlois este novo modelo, ainda mais barato deve atrair um número ainda maior de marinhas que buscam as capacidades operacionais características desta família de navios anfíbios.

A Euronaval 2010 da DCNS promete ser cheia de novidades para seus clientes e parceiros, mantendo sempre o alto nível de criatividade e espírito de inovação que tem caracterizado a indústria naval francesa na última década.

 

ALIDE visitou Lorient a convite da GICAS, a associação da indústria de armamento e naval da França

Last Updated on Friday, 08 October 2010 01:58
 

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