O catamarã de desembarque anfíbio francês L-CAT PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Thursday, 07 October 2010 00:00

    

 

A indústria naval francesa tem se destacado na última década, perante seus pares no mundo, por sua disposição em quebrar paradigmas arraigados do mundo militar. Os franceses aceitaram ousar, propondo formas inovadoras de projetar e construir navios militares. Eles optaram por absorver o melhor que outros segmentos como a indústria civil naval, a de energia, a de comunicação, a de informática e a de software puderem agregar para o atingimento dos seus objetivos principais. A maioria dos livros escritos sobre o tema defesa na França, inevitavelmente, lembra que sua indústria, desde pelo menos o início do século XX, sabe que não é possível replicar pontualmente cada movimento e estratégia da indústria de defesa americana, especialmente pelo fato do orçamento de defesa da França ser algumas ordens de grandeza menor que o orçamento militar dos EUA. Os produtos desenvolvidos na França, assim, têm que ser o melhor possível, a despeito da verba disponível para seu desenvolvimento será sempre muito menor. A única forma de se atingir estes objetivos contraditórios é através do emprego da imaginação e da disposição de correr riscos.

A empresa de engenharia CNIM, através de sua divisão de Sistemas Avançados desenvolveu com fundos próprios um protótipo deste um sistema de desembarque anfíbio que pretende ser uma opção barata e flexível aos LCACs, os grandes e complexos hovercrafts de desembarque criados pelos americanos para uso pela sua Marinha. 

O desembarque além do horizonte

O desembarque anfíbio de homens e veículos, como estratégia militar, viu sua época de ouro ocorrer na segunda metade da Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Coréia alguns anos depois. Ataques  de imensa escala entraram imediatamente para a história. São muitas batalhas marcantes como o Dia D na Normandia, o desembarque aliado na Sicília, no Teatro Europeu e Guadalcanal, Okinawa e Iwo Jima no teatro do Pacífico, em meados da década de 40. Anos depois, sob o comando do Geenral americano  Douglas MacArthur, o desembarque aliado na praia coreana de Inchon uma vez mais mostrou que um único ataque anfíbio, bem orquestrado, poderia mudar dramaticamente o rumo de uma guerra, desestabilizando fatalmente os exércitos defensivos.

Os grandes problemas destes desembarques sempre foram igualmente óbvios, centenas de navios e tinham que ficar fundeados próximo à praia para que as lanchas de desembarque fizessem repetidas pernadas levando tropas, blindados, armas e suprimentos para se montar a unidade aliada na nova “Cabeça de Praia”.  A intensa cobertura aérea de apoio ao desembarque, por exemplo, era um fator indispensável para anular as tropas inimigas nas posições defensivas, deixando-as o máximo possível sem ação.  Infelizmente nem sempre isso era possível de se obter, mesmo com a possibilidade de se dispor do apoio de aeronaves baseadas em Navios Aeródromos.

Os números de baixas elevados, característico deste modelo clássico de desembarque anfíbio, eram relativamente “aceitáveis” para a opinião pública americana durante as décadas de 40 e 50, mas hoje em dia isto de se tornou totalmente inaceitável. Para mover os navios para longe das armas em terra e minimizar o tempo de organização das tropas invasoras na cabeça de Praia nasceu o conceito do “desembarque além do horizonte”. Neste cenário as lanchas tradicionais de desembarque (E$DCGs e EDVPs na terminologia da MB) e os navios de Desembarque de Carros de Combate (NDCCs - navios abicáveis munidos de rampas para desembarque de veículos direto na praia) seriam substituídos pelos Landing Craft Air Cushion (LCAC) grandes hovercrafts cargueiros que ligavam, em alta velocidade, as docas dos navios invasores com pontos de desembarque muito além das praias inimigas. Nos céus enxames de grandes helicópteros (Boeing Vertol CH-46 Sea Knight e Sikorsky CH-53 Sea Stallion, por exemplo) transportavam tropas especiais,  pallets de carga, peças de artilharia e até veículos leves dos navios porta-helicópteros até seu destino final, onde quer que fosse ele. Este cenário novo era fascinante mas também era caro de mais para a maioria das marinhas, sendo esse o único impedimento para sua adoção mais ampla. O LCAC foi descrito pelo próprio pessoal que o opera como mais próximo de um helicóptero do que das tradicionais LDCGs. O novo sistema, a despeito de todas suas vantagens operacionais era inegavelmente muito mais complexo de manter e muito mais caro de operar do que o anterior.

A solução francesa

No início do novo século a família de navios de propósitos múltiplos francesa da classe Mistral se tornou o primeiro navio europeu projetado desde o seu início para poder receber na sua doca os LCACs americanos, operando numa hipotética operação conjunta. A Marinha Francesa, a despeito de especificar esta capacidade no novo navio, nunca externou planos para adquirir seis próprios LCACs.

A solução surgiu em 2009 num projeto desenvolvido pela empresa de alta tecnologia CNIM francesa, o LCat (a sigla de “Landing Catamaran”). A empresa ousou casar um robusto navio de dois cascos ( catamarã), com um convés de transporte de carga com capacidade de se hidraulicamente erguer livremente entre duas posições. A baixa que permite a saída de veículos sobre rodas ou tanques de até 80 toneladas direto na areia e uma alta que permite aos seus quatro waterjets Wärtsilä instalados no interior do casco duplo impulsionar o L-Cat até a velocidade de 18 nós quando carregado ou de 25 nós quando vazio. O L-Cat apresenta um comprimento de 30 metros com uma largura de 12 metros. Este tamanho externo permite que seja usado tanto nos BCP quanto nos dois TCD (Foudre e Siroco). Diferente dos LCACs que usam turbinas a querosene como propulsor, o LCat usa simples motores a diesel do tipo MTU Friedrichshafen 12V2000 M92.  Isso tem o claro benefício de dispensar com os complicados e caros sistemas de exaustão com ventoinhas gigantescas no interior das docas dos navios anfíbios. Estas ventoinhas são usadas para expelir os gases da combustão dos motores do LCACs, que sem controle poderiam intoxicar os operadores no interior da doca.

Para sua auto-defesa o L-Cat pode ser equipado com duas metralhadoras 12,7mm e com duas metralhadoras de 7,62mm. Similarmente ao LCAC o L-Cat é uma plataforma Roll-On/Roll-Off, permitindo a entrada de veículos pela proa e pela popa. A rampa dianteira é dividida em dois painéis independentes, direita e esquerda, que, por isso podem ser abaixados de forma separada ou conjunta. A cabine de comando, instalada bem na proa do casco de boreste, é totalmente digitalizada contando com grandes telas de LCD que exibem as informações de manobra, da propulsão e de navegação do LCat.

Em 2009, após testar exaustivamente o protótipo, o mesmo LCat em que andamos pela baía de Toulon, a Marinha francesa colocou um pedido inicial para quatro unidades que serão usados nos dois classe Mistral existentes e no terceiro, o Dixmude, que se encontra em construção neste momento. Se esta classe se mostrar um sucesso de exportação da indústria naval francesa como se está delineando, isso pode servir de uma poderosa alavanca para exportação também do inovador L-Cat da CNIM. Na Marinha Francesa o L-Cat é chamado de EDA-R ou, por extenso: “Engins de Débarquement Amphibie - Rapides” ( “Veículos de Desembarque Anfíbio – Rápido”).

No seu modo “catamarã”, o L-Cat navega significativamente melhor que as antigas lanchas de fundo chato do tipo EDCG ou EDVP, propiciando um padrão de conforto muito superior para a tropa sendo desembarcada na praia. Para além desta pioneira lancha de desembarque anfíbio a CNIM pretende ainda interessar a Marinha da França em um derivado que, além desta função, possa cumprir a função de navio patrulha costeiro. Segundo a CNIM existem também diversas outras oportunidades para seu L-Cat no mundo civil, incluindo aí, por exemplo, a tarefa de combate a vazamentos de óleo no mar.

A Marinha do Brasil que declarou no seu PEAMB (Plano de Articulação e Equipamento) precisar de novos meios rápidos de desembarque nos seus futuros Navios de Multiplo Propósito, deve, sem dúvida, examinar o L-Cat para determinar se ele poderá, de forma econômica, atender as suas necessidades operacionais. 

 

ALIDE visitou Lorient a convite da GICAS, a associação da indústria de armamento e naval da França

Last Updated on Friday, 08 October 2010 02:45
 

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