Fragata União na UNIFIL: a maior cartada geopolítica do Brasil nas últimas décadas Print
Written by Felipe Salles   
Thursday, 06 October 2011 00:14

Há poucos dias, o Congresso Nacional autorizou o envio de uma fragata da Marinha do Brasil para se incorporar à Missão de Paz da ONU no Líbano, a chamada UNIFIL. Com uma duração total de cerca de oito meses, esta será, muito provavelmente, a mais longa missão ao exterior da Marinha desde os tempos do Segundo Império.

 

No lado de boreste segue a velha baleeira.

 

Mais um degrau na longa escada geopolítica do Brasil

A mais de duas décadas o Governo Brasileiro abertamente ambiciona uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, e, nesta direção, resolveu começar a engajar suas forças armadas para poder se tornar um dos membros-chave do programa de Missões de Paz da organização internacional. Depois de várias atuações menores nas décadas de 50 a 80, na MINUSTAH do Haiti,  desde 2004 e pela primeira vez, coube ao Brasil comandar, com muito sucesso, toda a missão militar multinacional da ONU naquele país caribenho.

Mais recentemente, a ONU convidou para assumirmos o comando da Maritime Task Force (MTF) unidade naval permanente que faz parte da missão UNIFIL no Líbano. Esta Missão de Paz existe para auxiliar o governo libanês na tarefa de estancar o fornecimento de armas vindas do exterior para o grupo islâmico Hezbolah, organização que fustiga o território israelense desde suas bases no sul do Líbano. A MTF atualmente é composta de um grupo de navios heterogêneo vindos da Alemanha, da Turquia, da Grécia, de Bangladesh e da Indonésia. Em fevereiro de 2011 o Almirante brasileiro Luiz Henrique Caroli assumiu a posição de MTF Commander.

Para compreender como isso se deu, e como a Marinha se preparou para executar uma missão tão longa, ALIDE entrevistou o CF Ricardo Gomes, comandante da Fragata União, poucos dias antesd de sua partida para conhecer todos os detalhes desta histórica aventura.

 

O emissor do LRAD O emissor do LRAD O painel trazeiro do LRAD

 

O passo a passo de um grande salto

"Desde que se decidiu que o Almirante Caroli iria comandar a MTF no Líbano a Marinha do Brasil está trabalhando para viabilizar o envio de um navio," contou o Cte Ricardo Gomes. "A Fragata Independência era inicialmente o navio cotado para ser enviado ao Líbano, mas como o processo de autorização política se alongou um pouco mais do que o imaginado, acabou dando tempo para que a Fragata União, que em 33 de maio de 2011 saiu de uma Período de Manutenção Geral (PMG) de quatro anos, concluir todas as etapas do seu programa de CIASA.

Com todos seus componentes críticos, principalmente as turbinas e motores, recém revisados e consequentemente com um alto nível de disponibilidade, foi decidido pelo envio da União no lugar da Independência. O CIASA da União coincidiu com um período de pausa nas operações de treinamento da Esquadra o que lhe garantiu todo o apoio dos outros meios para sua certificação. Fragatas, Navio-Tanque, Submarinos e aeronaves puderam ser disponibilizados prontamente, o que permitiu um programa super completo e sem atrasos.

"Soubemos da nossa escalação para esta missão lá pelo final do mês de julho, e imediatamente demos a partida na nossa preparação" contou o comandante da fragata. Ele continuou: "Nós 'herdamos' tudo o que a tripulação da Independência já tinha realizado até ali. As análises geográficas, logísticas e os checklists com os procedimentos a serem realizados antes da partida. O grande desafio não era apenas a longa duração da missão, mas principalmente o fato de ocorrer na região do Mediterrâneo Oriental, um ambiente completamente novo que para nossa Marinha. Tratamos de equipar os paióis do navio com material de manutenção e consumíveis para durar todo o período de oito meses da viagem, peças, filtros, etcetera", contou Ricardo Gomes. Tudo o que vier a ser necessário posteriormente, durante o decorrer a comissão, será gerenciado daqui do Brasil pelo Sistema de Abastecimento da Marinha.

A localização da área de atuação desta Missão de Paz, praticamente espremida entre os arqui-rivais Israel e Síria, obrigou à Marinha a enviar a União com a chamada "dotação de guerra", todos os sistemas de mísseis do navio, Aspide, Exocet e SeaSkua irão em sua quantidade máxima. Embora a missão da ONU não demande em si o uso de armas deste porte, a sua segurança e de seus tripulantes é um item inquestionável. E como o ataque israelense ao navio americano USS Liberty em 1967, e o ataque iraquiano ao USS Stark, vinte anos depois, não cansam de lembrar: basta uma rápida confusão de identidade para se perder um navio militar naquela região do mundo.

Faina de carregamento do Aspide Faina de carregamento do Aspide Faina de carregamento do Aspide Faina de carregamento do Aspide

Um navio "quente"

Na manhã terça-feira, dia 4 de outubro, o dia de nossa visita, na Fragata União tinha todos os seus sistemas de mísseis em faina de carregamento. O armamento foi transportado desde o Centro de Mísseis e Armas Submarinas da Marinha num pequeno navio do porte de um rebocador que, atracado na ponta do pier onde a fragata se encontrava, descarregou os contêineres de transporte dos mísseis diretamente para a sua "popinha" e para o convôo. Como procedimento padrão de segurança, todos as outras fragatas que normalmente ficam atracadas naquela área, foram reposicionadas em outros píeres da Base Naval do Rio de Janeiro. Perguntado sobre os efeitos negativos do ambiente marítimo sobre a vida operacional destes mísseis carregados para esta missão, o Cte Ricardo Gomes lembrou que: "esta não era uma das maiores preocupações desta vez, uma vez que a nossa viagem coincidirá com o inverno setentrional, com uma temperatura ambiente local oscilando, no máximo, entre 5°C e 15°C. Estes valores, felizmente, são bem abaixo dos 21°C a partir das quais as temperaturas são realmente danosas para os componentes dos mísseis". No caso dos Aspide haverá ainda uma rotação regular dos estoques do paiol para garantir que nenhum dos mísseis passe o tempo todo da viagem exposto ao tempo dentro do lançador Albatros.

Faina de carregamento do Aspide Faina de carregamento do Aspide Trilho de transporte do Aspide do paiol ao lançador SeaSkuas nos conteineres de transporte.

 

Gente!

Cada uma das fragatas da classe Niterói apresenta pequenas variações no número de militares que ela pode transportar. Alguns dos compartimentos em um dos navio tem camas individuais, enquanto em outros o mesmo compartimento têm beliche ou "triliche". No caso da União ela está configurada para um máximo de 260 militares, sem contar as duas camas existentes na enfermaria. A tripulação nesta viagem está complementada por 15 membros do Destacamento Aéreo Embarcado do esquadrão HA-1, de nove membros do GruMec e de 15 Fuzileiros Navais que terão como missão compor o "Grupo de Reação contra Ameaça Assimétrica", além de velar pela segurança do navio e compor eventuais Grupos de Vistoria e Inspeção (GVI). Além disso, o navio reservou ainda 12 vagas para receber a bordo o Estado Maior do Almirante Caroli quando a União estiver na área de atuação da UNIFIL.

 

SeaSkuas nos conteineres de transporte. Míssil SeaSkua de manejo (treinamento) Barbeta do novo RHIB

A operação na Maritime Task Force da UNIFIL

As zonas de patrulha da MTF se localizam sempre fora das 12 milhas marítimas do mar territorial libanês, dentro do qual, atua exclusivamente a marinha daquele país. A expectativa, neste momento, é para cada dez dias de patrulha o navio brasileiro passe três dias de descanso e reparos no porto de Beirute. Estes prazos, no entanto, podem ser alterados caso algum dos outros navios tenha um impedimento mecânico que o impeça de ir ao mar. Adicionalmente, por suas capacidade e conforto, os navios maiores como a União, naturalmente, realizam patrulhas mais longas do que os navios menores da MTF. A despeito da União suspender do Brasil com plena capacidade de realizar o tipo de inspeção característica da missão de "Maritime Interdiction Operation" (MIO) na UNIFIL, até hoje, apenas navios da Marinha Libanesa é que realizaram estas abordagens e inspeções. De qualquer maneira, haverá um oficial de ligação da Marinha Libanesa a bordo sempre que o navio estiver em patrulha.

A União usa motores de propulsão e de geração elétrica da marca alemã MTU. Através da MTU Brasil e da sua sede na Alemanha, já foram acertados as condições para a prestação de apoio técnico em Beirute, caso seja necessário, pela empresa local MTU Líbano. Os portos de Limassol, em Chipre, e de Mersin, na Turquia, serão os destinos primários da fragata brasileira caso alguma manutenção de maior porte venha a ser necessária.

Tudo nesta missão é novidade. Chegando em Beirute os tripulantes ficarão quase que 100% baseados no navio, pelo menos até que se verifique 'in loco' o nível de segurança que a cidade oferecerá aos militares brasileiros. Esta avaliação é que vai determinar que grau de liberdade de movimento os nossos marinheiros terão por lá. Por recomendação da ONU outra mudança notável já está acertada, em vez do uniforme cinza normal de serviço, quando oficiais e praças da fragata União tiverem que ir a terra à serviço eles usarão um uniforme camuflado. O macacão operativo cinza padrão será substituído por um novo modelo "OP-1" com cinto e de cor azul (mas sem as listras refletivas dos macacões franceses do São Paulo) confeccionado em material antichama similar àquele usado nos macacões de voo da aviação naval. A União se distinguirá por ser o primeiro navio da MB a adotar este novo macacão em toda sua tripulação.

 

A preparação para oito meses fora da base

Nos moldes do que ocorreu na participação dos Fuzileiros na MINUSTAH,  todos os militares que participam desta comissão são necessariamente voluntários. Com o apoio do Núcleo de Assistência Social da Esquadra identificou-se que apenas 10 dos 190 praças do navio apresentavam problemas de cunho pessoal (parentes doentes, etc.) que os impediram de voluntariar. Para substituí-los, os demais navios da mesma classe recomendaram militares com as exatas mesmas capacitações profissionais que eram voluntários para tomar o lugar deles. A troca dos praças, no entanto, será definitiva. Aqueles que embarcam agora, passam a fazer parte da tripulação da União, e os que ficarem no Brasil passam definitivamente a pertencer aos navios que cederam seu pessoal. A União partirá com uma área médica reforçada, com um médico cirurgião e um anestesista. Como é de se esperar, houve uma grande preparação no campo da saúde por conta do Centro de Medicina Operativa da Marinha. Através de um "censo médico-odontológico", o estado de cada um dos tripulantes foi aferido antes de se confirmar sua aptidão física para sair na longa missão.

Para preparar à tripulação para uma missão completamente nova, setenta tripulantes do navio participaram de um estágio para Operações de Paz no CIASC - Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo no complexo dos Fuzileiros Navais na Ilha do Governador. Estes oficiais e praças atuarão como "multiplicadores" das informações para todos aqueles que ficaram para trás no navio. Um dos instrutores, o CF Alexandre Peres está atualmente no Líbano atuando no Staff do Almirante Caroli e deu sua palestra durante sua visita ao Rio para férias.

Novo suporte para o RHIB O novo RHIB A peça amarela é do novo guincho elétrico. O novo RHIB visto de cima

 

Uma fragata da classe Niteroi ainda melhor

Em cada um dos exercícios internacionais que ela participa, a Marinha do Brasil é sempre exposta a novos desafios, a novos requerimentos operacionais que ainda podem não ser comuns na nossa área do Atlântico Sul, mas que já o são no Golfo de Áden, Golfo Pérsico, Mar Meridional da China, os "pontos quentes" globais. O combate a ameaças assimétricas, como lanchas explosivas suicidas, por exemplo, e as abordagens de inspeção e de presa são apenas algumas destas novidades. Os relatórios de conclusão de missão escritos anteriormente tem apontado que muitos dos equipamentos padrão das fragatas brasileiras, como as velhas baleeiras, não estão adequadas para essas novas demandas. A União já esta saindo do Rio equipada com várias novidades para sanar estas limitações. A mais evidente é uma nova lancha inflável grande de casco rígido (RHIB) que substituiu a baleeira de bombordo. Para permitir a sua utilização no velho turco (guindaste) original foi colocado uma ampla barra longitudinal equipada com um novo guindaste elétrico para poder baixar a lancha, mesmo com o navio em movimento. Essa é uma solução temporária que no futuro será substituída pelo mesmo tipo de guindaste já usado na fragata Bosísio. O motor Volvo Penta com rabeta da nova lancha, tem potência de sobra para levar Grupos de Visita e Inspeção (GVI) maiores a toda velocidade até seus alvos e depois trazê-los de volta em segurança.

Para que a União cumpra bem seu papel de nau capitânia ela foi equipada com dois novos sistemas de comunicação de dados, um operando na Banda X e outro na Banda Ku. Ela recebeu, também, dois sistemas de comunicação, um FBB (Fleet Broad Band) 500 e outro FBB 250, que são "uma versão atualizada do velho serviço de voz via satélite  Inmarsat", segundo o Cte Ricardo Gomes. Para entretenimento a bordo está praticamente fechado a contratação de um pacote de televisão via satélite espanhol que incluirá o canal Globo Internacional e cujo serviço atinge até a costa leste do Mediterrâneo. É fato que os canais libaneses, sejam eles falados em árabe, ou mesmo em francês, teriam pouquíssima serventia para a tripulação brasileira.

Nas asas do passadiço foi instalado, em cada bordo, um tripé fixo para sustentar um sistema LRAD (Long Range Acoustic Device - Aparelho Acustico de Longo Alcance). Esta é uma arma não-letal constituída de autofalante direcional de grande potência da empresa americana LRAD Corporation. O sistema pode ser usado de duas maneiras distintas, para mandar mensagens audíveis em qualquer língua para pessoas localizadas até 3000 metros de distância do navio e que, por alguma razão, não respondam aos contatos por rádio. Alternativamente, em distâncias menores, o ruído emitido pelo LRAD deve causar grande desconforto aos tripulantes de uma lancha ou barco não identificado que se aproxime sem autorização da fragata. Embora popular nos navios da US Navy e da marinha mercante internacional, a fragata União é o primeiro navio da MB a adotar este sistema. A opção de se adquirir um sistema "laser dazzler" para o LRAD, por ainda ser bastante controverso, acabou não sendo tomada pela Marinha.

Ainda na questão da defesa orgânica do navio, quatro novos reparos para metralhadora .50 foram instalados, dois ficam na proa, logo adiante da superestrutura e as outras duas estão no convés do chaff, a ré. Finalmente, foi implementado, para esta missão, um reforço no material de equipagem individual de armamento, aumentando o número de pistolas, capacetes e coletes a prova de bala embarcados no navio. na vespera de nossa visita a União saiu para o mar justamente para colocar a prova as metralhadoras contra alvos de superfície. As balsas salvavidas da fragata ainda tinham muitos meses de validade, porém, devido à longa duração da missão elas tiveram que ser revalidadas antes de terminar de "vencer". Por esta razão, nesta última saída de mar, a União foi obrigada a pegar as balsas da Defensora emprestadas por um dia.

Espera-se que com todas estas mudanças o navio possa ter como dispor de uma gradação mais ampla de meios de resposta a quaisquer ameaças que surjam, variando das não-letais até as letais.

Detalhe da nova viga de suporte adicionada ao turco do RHIB Navio transportador de mísseis Navio transportador de mísseis

A partida

A Marinha está aproveitando o  exercício Tropicalex para preparar ainda mais a tripulação da União para sua missão no Mediterrâneo. Na manhã desta quinta-feira dia 6 de outubro partirão da Base Naval do Rio de Janeiro as fragatas Independência e Greenhalgh, seguidas pela corveta Barroso. Por fim virão as fragatas Niterói e Bosísio, o Navio Tanque Gastão Motta e a fragata União. O GT irá realizando exercícios até chegar ao porto de Recife no dia 13 de outubro. Lá a União se destacará da Tropicalex, partindo no dia 17, "escoteiro", com destino a sua próxima parada: Las Palmas, nas Ilhas Canárias. Deixando a costa africana, haverá ainda mais uma parada em Nápoli, na Itália, antes de finalmente aportarem na capital libanesa e se integrarem à MTF da UNIFIL.

As balsas revalidadas da União sendo entregues As balsas revalidadas da União sendo entregues

Last Updated on Thursday, 06 October 2011 02:37