A última viagem do Jeanne d`Arc PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Thursday, 14 January 2010 14:55
 

 

Nos primeiros dias do ano novo, o “Grupo Escola de Aplicação de Oficiais da Marinha”- GEAOM- da marinha Francesa chegou ao Rio de janeiro naquela que seria a última viagem de instrução do veterano porta helicópteros francês Jeanne d`Arc (R97). Desta vez, o cruzeiro de formatura dos cadetes franceses foi realizado pelo Jeanne d`Arc na companhia da “fragata leve furtiva” Courbet (F712), um navio da bela classe Lafayette de escoltas. Normalmente, as fragatas desta classe são incumbidas de missões no Oceano Índico, vindo raramente para o Atlântico Sul.

A parada na Cidade Maravilhosa serve para dar aos tripulantes e oficiais-alunos embarcados nos dois navios uma chance de descansar um pouco após a longa travessia do Atlântico Sul. Uma novidade desta viagem é a presença a bordo de um oficial da Marinha do Brasil, o Tenente Vinicius Sampaio. Como nono colocado de sua turma na Escola Naval, Sampaio pode escolher esta comissão, para o qual teve que se preparar, fazendo um curso intensivo de francês ainda no Brasil. Ele embarcou no porto de Brest, no noroeste francês, no dia 2 de novembro de 2009, e deve ficar cerca de seis meses alternando-se entre os dois navios, até o final da missão em maio de 2010.

Um ícone na Marinha Francesa

Com 51 anos de operação, o Jeanne d`Arc é, atualmente, o navio mais antigo em uso na Marinha da França. Este deve ser ainda o último navio dedicado à função de “navio escola” na França, e, ao contrário do que se imaginava até pouco tempo atrás, não será dado este histórico nome a um dos novos Navios de Múltiplos Empregos (chamados de “BPC” na França) da classe Mistral (L9013) em construção ou planejados. A partir do ano que vem, o papel do  Jeanne d`Arc passará a ser realizado pelos vários navios da classe Mistral, em regime de rotação.O primeiro será o Tonnerre, e a cada ano um navio diferente desta classe assumirá esta missão. Para acomodar as demais necessidades operacionais que a Marinha demanda dos Navios de Múltiplos Empregos, foi necessária uma outra alteração no programa educacional, a redução da viagem de formatura do GEAOM dos atuais seis para apenas quatro meses. O terceiro navio da Classe Mistral recebeu o nome de Dixmude, e nesta semana os primeiros módulos começam a ser instalados no fundo do dique seco do estaleiro da STX em Saint Nazaire. O quarto navio desta classe ainda não tem data para ter iniciada sua construção.

Uma fragata “stealth” francesa

Desta vez, a Fragata Courbet está substituindo a Fragata Georges Leygues (F70) que tradicionalmente acompanha o porta-helicópteros francês em suas viagens ao redor do mundo. Isso decorre da Georges Leygues estar passando por um pesado processo de manutenção que a preparará para seguir na sua missão, agora, ao lado do Tonerre (L9014). Uma vantagem adicional desta troca está no fato da Courbet ter sistemas de combate muito avançados, pelo menos uma geração à frente dos da Georges Leygues. Por isso ela é muito mais representativa do tipo de navio em que os novos oficiais irão servir ao concluírem seu curso de formação. Segundo os franceses, trabalha-se muito melhor com dois navios neste tipo de missão porque cada um deles pode fazer o papel de alvo para o outro. A Marinha do Brasil, ao contrário deles, usa exclusivamente o NE Brasil para esta função.

Da Antártida ao Ártico, do Mar do Norte ao Pacífico

A viagem dos dois navios começou em bases distintas. O Jeanne partiu da grande base francesa no Atlântico, em Brest, enquanto a fragata Courbet saiu de sua base no mediterrâneo, Toulon. Os dois navios se encontraram ao largo da costa portuguesa para, juntos, circunavegarem a América do Sul e em seguida, visitarem a costa leste da América do Norte. A primeira parada no exterior foi em Casablanca no Marrocos, país que, há algum tempo, se tornou o primeiro cliente de exportação da nova fragata européia FREMM. Esta unidade para o Marrocos já se encontra em construção no estaleiro da DCNS em Lorient. Em seguida, foi a vez de uma parada em Dakar no Senegal, ex-colônia francesa na África e, até hoje, um dos principais parceiros da França naquele continente. Eles cruzaram o Atlântico e chegaram ao Rio onde na saída realizaram uma Passex com a Corveta Barroso. Mais ao sul os dois navios franceses se separarão, com a Jeanne indo para Buenos Aires, na Argentina, e a Courbet para Montevidéu, no Uruguai. Posteriormente os navios pararão em Ushuaya, ainda na Argentina, antes de cruzar para o Pacífico em direção à sede da Esquadra Chilena, Valparaíso. Contornando a costa oeste do nosso continente, outra parada ocorrerá em Callao, no Perú, seguida por uma visita a Balboa, no Panamá. Passarão pelo Canal do Panamá indo direto para uma vista à Marinha da Colômbia em sua base Cartagena na costa do Caribe. Os territórios de além mar franceses não podem ficar de fora desta viagem, a Jeanne d`Arc parando em Fort de France e a Courbet ficando em Point a Pitre. Para o norte ficam as duas últimas escalas nas Américas, New York, Quebec, no Canada e finalmente a colônia quase ártica francesa de Saint Pierre e Miquelon, na costa canadense.  De volta à Europa os dois navios passarão por Hamburgo, Zeebrugen e Rouen antes de terminar a viagem em Brest.

Uma história brilhante

Ao longo de seu meio século de vida operacional o Jeanne d`Arc formou mais de 6400 alunos, percorrendo mais de 1,8 milões de milhas náuticas (cerca de 9 vezes a distancia da terra à lua!). Em sua missão o navio executa três distintas missões, é escola para 103 oficiais-alunos, entre os quais 13 mulheres, é também uma “embaixada flutuante” que representa a França e a Marine Nationale por onde passa e é um navio militar operacional capaz de entrar em ação imediatamente de acordo com as necessidades militares e/ou humanitárias que por ventura surgirem. Entre os alunos existem vários estrangeiros. De países da OTAN vieram um espanhol, um belga e um holandês. Da África, embarcaram dois camaroneses e um togolês, enquanto desde a Ásia participam desta viagem: dois kuweitianos, um malásio e um indonésio. Ainda dentro deste espírito amplo de intercâmbio, o Jeanne leva dois instrutores alemães e um piloto de helicóptero do Marrocos.  

Atendendo a um pedido da Marinha do Brasil, foi decidido que um grupo de oito oficiais, especializados em máquinas embarcariam no Rio de Janeiro e acompanhariam o velho navio Francês ao redor da América do Sul até o porto de Cartagena. A Jeanne d`Arc é movida por uma planta a vapor e a MB precisava de uma oportunidade para expor seus novos oficiais maquinistas por um período de dois meses em um navio com esta tecnologia, cada vez mais rara entre os modernos navios brasileiros.

Após seu retorno à França, o porta-helicópteros Jeanne d`Arc passará por um programa para retirar todos os seus componentes que ainda possam ter utilidade nos demais navios da esquadra, sendo posteriormente desarmado e suas 12000 toneladas de aço vendidas em leilão para empresas de desmanche. Seu maquinário da propulsão, no entanto, será removido para exibição num museu em Brest enquanto todo o seu passadiço será cortado e retirado para ser preservado na cidade de Rouen.

As lições da presença francesa ao redor do globo

Perguntado se a pirataria da costa oeste da África já se configurava como uma ameaça importante, o CMG Patric Augier, comandante do Jeanne d`Arc respondeu que: “na costa oeste existe pirataria, mas ela ainda é muito mais amadora do que o que existe na costa da Somália. No Chifre da África os piratas já atacaram navios que navegavam até mesmo a 200 milhas náuticas de distância da costa. Na Somália a pirataria atrapalha o tráfego em um dois mais importantes canais transporte do óleo entre o Golfo Pérsico e a Europa. A importância global do Golfo da Guiné tende a crescer, especialmente porque os americanos já compram 25% de seu petróleo estrangeiro daquela região do mundo. A França tem uma presença constante naquela região, a Operação Corymbe, em apoio aos países da África Ocidental. Ali os franceses combatem o tráfego de drogas, de pessoas e de contrabando, mas nossos navios operam sempre em águas internacionais.”

Perguntado como o governo francês procedia do ponto de vista legal com os piratas capturados ele explicou que : “todos os piratas que atacaram navios franceses no mar foram levado à França para serem julgados pelo Judiciário francês.”

Na próxima edição da Base Militar Web Magazine mostraremos a história das fragatas da classe Lafayette e, especialmente, a da fragata Courbet, Aguardem!

 
Last Updated on Thursday, 14 January 2010 19:34
 

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